O PAPADO OSCILANTE
Dom Donald J. Sanborn (1950–)
Fonte: https://mostholytrinityseminary.org/wp-content/uploads/2021/12/The-Pendulating-Papacy.pdf
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: O artigo propõe explicar como o Concílio Vaticano II teria sido possível a partir de um longo processo histórico de infiltração de idéias anticatólicas na Igreja. Sustenta que o Concílio não seria obra legítima da Igreja, mas resultado da ação de modernistas favorecidos por uma política papal de acomodação. Situa as raízes desse processo no século XVIII, marcado pelo iluminismo, jansenismo, galicanismo, regalismo e febronianismo, todos hostis ao papado. Descreve o conflito entre papas e cardeais acomodacionistas e anti-acomodacionistas, apresentando o papado como um pêndulo entre essas estratégias. Conclui que a vitória prolongada da acomodação no século XX teria permitido a ascensão do modernismo culminando na eleição de João XXIII e no Vaticano II.
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A TESE GERAL
Nesta série de artigos intitulada The Roots of Vatican II (“As Raízes do Vaticano II”), procuro explicar como um Vaticano II foi possível em uma instituição monoliticamente estável como a Igreja Católica. Como pôde ela, por meio de um único concílio, alterar radicalmente seus dogmas, liturgia, disciplinas e atitudes, de modo a aprovar tudo o que antes condenava e condenar tudo o que antes aprovava.
Nossa resposta ao problema é que o Vaticano II não é obra da Igreja, pois não é obra daqueles que verdadeiramente representam a Igreja Católica. É obra de modernistas, hereges ou fautores de heresia, que lentamente se infiltraram na Igreja até conseguirem ser nomeados para altos cargos e, de tal posição vantajosa, infundir seu veneno mortal nas veias da Igreja. O resultado é que a Igreja possui instituições envenenadas, começando pelo próprio Vaticano e estendendo-se às suas dioceses, às grandes ordens religiosas, aos seminários, às universidades, aos conventos, até chegar às menores e menos significativas entidades. O envenenamento, contudo, não foi feito por aqueles investidos da autoridade de Cristo, mas por estranhos (modernistas e modernizadores), aos quais, no entanto, foi permitido entrar no redil pela autoridade legítima.
A abertura da porta aos hereges pela autoridade legítima é o tema de nossa série. O processo de atravessar o portão, primeiro como seminaristas e padres, e daí prosseguir até receber a mitra e, por fim, a tiara papal, foi longo, lento e implacável.
Ele começou, em minha opinião, no século XVIII. Esse século foi caracterizado por duas forças anticatólicas muito poderosas: (1) o espírito de incredulidade, tipificado por Voltaire e pelos enciclopedistas; (2) o espírito do jansenismo, tipificado pelos monarcas supostamente católicos e suas cortes, notadamente as da Espanha, Portugal, França e Áustria, bem como as de muitos reinos menores. Essas duas forças estavam estreitamente aliadas, tendo como inimigo comum o Papa de Roma e o próprio papado. De fato, toda a Europa “católica” estava preenchida por um odor pungente de anti-catolicismo. Ironicamente, a Igreja encontrava, por vezes, mais paz nas terras governadas por protestantes e cismáticos.
Os papas do século XVIII enfrentaram um dilema difícil. Como a Igreja deve lidar com Estados católicos que, na prática, lhe são hostis? Como salvar os direitos da Igreja? Como preservar Esses estados de caírem no cisma, como seus líderes fariam alegremente e ameaçavam fazer?
Entre o colégio de cardeais, havia duas escolas de pensamento a esse respeito. Alguns afirmavam que os direitos da Igreja deveriam ser preservados a todo custo, e que o papa deveria assumir uma linha dura contra aqueles que os pisoteavam. Eles defendiam uma atitude prática intransigente contra as cortes reais “iluminadas” — incrédulas, maçônicas, jansenistas e liberais. Esse partido ficou conhecido como os zelanti, italiano para “zelosos”). Em oposição a eles estavam os cardeais mais acomodatícios, que compreendiam (1) aqueles que não estavam infectados com nenhuma das idéias modernas, mas que sentiam a necessidade de ceder na ordem prática a fim de preservar a posição da Igreja nesses Estados, e (2) aqueles que estavam realmente infectados, em maior ou menor grau, pelas idéias modernas, sem, contudo, qualquer diminuição da doutrina da fé.
É importante enfatizar que os “acomodacionistas”, como os chamaremos, não eram modernistas. Eles não eram a favor de diluir a doutrina da fé ou as práticas sagradas da Igreja para agradar à mentalidade então moderna. Eles favoreciam apenas um caminho de compromisso com os Estados hostis na esperança de encontrar com eles alguma solução que preservasse a Igreja de um mal pior; por exemplo, que a França, a Espanha, o Portugal ou a Áustria caíssem em cisma.
Mesmo que um desses Estados se tornasse cismático, as consequências para a Igreja teriam sido inestimáveis, ao considerar os imensos impérios que cada um desses países possuía, impérios nos quais os missionários católicos labutavam há centenas de anos para converter os nativos e estabelecer a Igreja. A Igreja, afinal, sempre venceu o jogo da espera. A Igreja como instituição sempre sobreviveu a seus perseguidores. Tempestades vinham e iam, mas a Igreja — e com ela o papado — sempre emergiam intactos, embora talvez um pouco sacudidos. Dos conveses secos da Barca de Pedro podia-se, com o passar do tempo, observar os navios inimigos afundarem.
Por outro lado, os zelanti, ou “anti-acomodacionistas”, como os chamaremos, afirmavam que a incredulidade do “Iluminismo” era diabólica, e que nenhum compromisso possível poderia ser feito com ela, mesmo aqueles de ordem prática que diziam respeito às relações da Igreja com os Estados.
O problema era espinhoso, sem dúvida. As nações do século XVIII preservavam, em suas instituições políticas e em suas relações Igreja-Estado, todo o sistema medieval. O monarca era considerado o protetor da fé em seu reino. Ele gozava de todos os privilégios e concessões dados a seus predecessores tendo em vista esse fim. Em praticamente todos os casos, por exemplo, era o monarca quem nomeava os bispos do seu reino, cabendo ao papa aprovar a nomeação e investir o eleito com jurisdição. Mesmo numa era de fé, tal sistema era perigoso e carregado de problemas. Na Idade Média, a Igreja era constantemente acossada pela interferência desses monarcas nos seus assuntos. A investidura leiga era uma praga que parecia impossível de erradicar. A nomeação de bispos moralmente indignos, cujo título para o ofício repousava no fato de serem amigos do rei, era outra infecção que levava a abusos e escândalos terríveis.
Por que a Igreja tolerava tais coisas? Porque havia um bem imenso a ser alcançado com isso, a saber, que o Estado seria um Estado Católico, que reconhecia legal e culturalmente o reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esse Estado Católico e essa cultura católica superariam imensamente os males dos reis interferentes. A cultura da fé produzia um ar fresco de adesão pública e jurídica à verdade e moralidade sobrenaturais. Nessa atmosfera benéfica, a Igreja podia prosseguir sua missão conferida por Deus: a salvação das almas, a formação de santos.
E ela fez santos. A verdade católica e a piedade no lar eram confirmadas pelo apoio público e pela aceitação das mesmas normas na sociedade. Embora nem todos vivessem de acordo com os mandamentos, certamente, o fato de todos considerarem os mandamentos como a verdadeira regra de vida prestava um apoio incalculável a qualquer pessoa que desejasse viver pelos mandamentos. A intromissão ocasional de monarcas nos assuntos da Igreja era, na era da fé, não mais irritante para a Igreja do que uma mosca seria para um grande escultor que estivesse profundamente absorvido na criação de uma magnífica obra de arte.
Com o passar do tempo, porém, a fé do povo começou a enfraquecer, especialmente entre as classes altas. O protestantismo veio e deveu seu sucesso não à atratividade da doutrina luterana, mas à atratividade do lucro sujo, uma vez que Lutero fez do príncipe da região o chefe da igreja. A propriedade eclesiástica, naturalmente, passava para ele. É desnecessário dizer que isso teve um efeito maravilhoso sobre suas rendas. Além disso, o príncipe ficava livre da obrigação de obedecer a Roma e de temer a perda do seu poder por meio da excomunhão papal.
Com o passar das décadas, os monarcas católicos passaram a olhar com certo desejo para a situação dos reis e príncipes dos reinos e ducados protestantes, com seus cofres enriquecidos e sua liberdade em relação a Roma. Assim, eles também buscaram um sistema pelo qual pudessem lucrar com a Igreja. Um desses sistemas atraentes foi o jansenismo — o “protestantismo católico” — assim chamado porque preservava as aparências externas do catolicismo enquanto seu interior era inteiramente calvinista. No século XVIII, o jansenismo tinha não só um programa teológico de reforma da Igreja por dentro para torná-la protestante, mas também uma agenda política, antimonarquista e pró-revolucionária. As monarquias, na sua visão, tinham de ceder às exigências da mentalidade protestante, ou seja, tinham de se contentar em ser uma figura de proa que presidisse um regime democrático. Os monarcas pré-revolucionários desconfiavam deles, naturalmente, mas frequentemente aliavam-se a eles e escolhiam jansenistas para serem seus ministros, uma vez que estes sempre favoreciam o controle da Igreja pelo monarca, bons protestantes (interiormente) que eram. Assim, os monarcas do século XVIII banquetearam-se com o poder e a riqueza que seus ministros jansenistas lhes serviam, subtraindo essas mesmas coisas do depósito do poder do papado e da riqueza da Igreja nas suas terras. Mal sabiam os corpulentos monarcas que estavam sendo engordados para o abate.
Outro movimento forte nesse século foi o do febronianismo, um sistema que, para dizê-lo de forma simples, negava a autoridade papal e tornava o bispo independente de Roma e sujeito apenas ao rei ou príncipe local. Esse sistema tinha feito grandes incursões em muitas das cortes da Europa e, consequentemente, nas cabeças dos bispos que essas cortes nomeavam.
O século XVIII foi, além disso, a era da incredulidade, de uma negação direta e total do cristianismo, de uma apostasia nua e crua da fé. Estava na moda ser irreligioso e irreverente. A piada blasfema tornava alguém socialmente aceitável. Essa doença intelectual e moral era generalizada, devastando quase por completo a aristocracia e penetrando seriamente na classe média. As classes baixas ainda não haviam sido afetadas e conseguiam conservar e praticar sua fé com bastante fervor.
Os papas desse século, portanto, herdaram uma situação em que os monarcas católicos desfrutavam, por um lado, de todos os privilégios concedidos a eles em tempos melhores pela Igreja em relação ao governo dela em seus territórios, mas, por outro lado, estavam infectados por idéias e atitudes anticatólicas. Eles não apenas exerciam seus antigos privilégios, concedidos a seus piedosos ancestrais (por exemplo, a nomeação de bispos), como também exigiam cada vez mais concessões e cada vez maior independência em relação a Roma. Estava claro que desejavam eliminar completamente o papado, se pudessem, ou ao menos reduzi-lo a um cargo absolutamente insignificante.
Portanto, o problema enfrentado pelos papas desse século era como lidar com esses monarcas e, ao mesmo tempo, proteger os direitos da Igreja. Não era uma tarefa fácil; não é de admirar que houvesse dois partidos, duas escolas de pensamento opostas, sobre como fazê-lo. As raízes mais profundas do Vaticano II, em minha opinião, encontram-se no acomodacionismo dos papas do século XVIII.
UM PAPADO PENDULAR
Diante desse problema esmagador, portanto, diferentes papas propuseram diferentes soluções. Havia, como eu disse, dois partidos, cada um representando uma abordagem oposta. Os acomodacionistas favoreciam uma abordagem suave, na esperança de que o tempo curasse os problemas e que a Igreja sobrevivesse e superasse seus perseguidores. Os anti-acomodacionistas argumentavam que a abordagem dura era necessária, uma vez que as forças que estavam sendo conjuradas contra a Igreja não eram meramente opressivas, mas letais. Nenhum compromisso era possível, custasse o que custasse, mesmo o ameaçado cisma de vários Estados.
O Concílio Vaticano II prova, para além de qualquer dúvida, que os anti-acomodacionistas estavam certos. Eles leram com precisão a natureza do inimigo no século XVIII. A história demonstra claramente que o veneno do século XVIII gradualmente se transformou na Revolução Francesa, que por sua vez produziu o católico liberal do início e meados do século XIX. O católico liberal, ao final do século XIX, tornou-se um modernista, tramando a derrubada interior da Igreja com paciência e astúcia. O modernista encarna em uma só pessoa os movimentos tóxicos do século XVIII: (1) a incredulidade sob a forma de racionalismo, subjetivismo e ecumenismo; (2) o jansenismo sob a forma da transformação dos ritos sagrados e disciplinas da Igreja segundo normas protestantes; (3) o febronianismo, pela redução do papado a um mero cargo honorífico, por meio da doutrina da colegialidade dos bispos.
Se os acomodacionistas tivessem visto o futuro, certamente teriam abandonado seu programa de acomodação. Eles desejavam o bem da Igreja e queriam vê-la florescer. Eles não desejavam nenhuma transformação da Igreja como a que o Vaticano II e seus efeitos nos deram.
Se estudarmos as pessoas eleitas para o papado desde meados do século XVIII, bem como suas políticas, podemos ver uma tendência definida de oscilação entre acomodacionistas e anti-acomodacionistas. Vejamos:
- Bento XIV (1740-1758): acomodacionista
- Clemente XIII (1758-1769): anti-acomodacionista (muito)
- Clemente XIV (1769-1774): acomodacionista (muito)
- Pio VI (1775-1799): anti-acomodacionista
- Pio VII (1800-1822): acomodacionista (muito)
- Leão XII (1823-1829): anti-acomodacionista
- Pio VIII (1829-1830): acomodacionista
- Gregório XVI (1831-1846): anti-acomodacionista (muito)
- Pio IX (1846-1878): acomodacionista (muito); depois anti-acomodacionista (muito)
- Leão XIII (1878-1903): acomodacionista (muito)
- São Pio X (1903-1914): anti-acomodacionista (muito)
- Bento XV (1914-1922): acomodacionista (muito)
- Pio XI (1922-1939): acomodacionista
- Pio XII (1939-1958): acomodacionista (muito)
Ao observar a história dos papas desde 1740, vê-se uma clara tendência pendular, um vai-e-vem de política sobre como, na ordem prática, a Igreja deveria viver com um mundo cada vez mais hostil. Enfatizo novamente que estamos falando aqui da ordem prática, pois todos esses papas, fossem acomodacionistas ou anti-acomodacionistas, defenderam brilhantemente a fé em seus ensinamentos contra o liberalismo, o modernismo, o racionalismo e semelhantes efluentes do século XVIII em diante.
Por outro lado, deve-se observar que, de 1878 a 1958, o governo da Igreja foi acomodacionista, com exceção dos onze magníficos anos de São Pio X, o Grande, que, mais lucidamente do que qualquer um de seus antecessores ou sucessores, leu os sinais dos tempos e tomou os meios necessários e eficazes para evitar que um Vaticano II acontecesse. Deve-se notar também que o pêndulo deixa de balançar após 1914. De fato, no conclave de 1922, o partido anti-modernista, chefiado pelo Cardeal Merry del Val (1865–1930), secretário de Estado de São Pio X, não conseguiu reunir votos suficientes para produzir um candidato anti-acomodacionista. O pêndulo parou e ficou travado no lado da acomodação.
O efeito foi desastroso. Sob São Pio X, Angelo Roncalli (1881–1963) foi convocado a Roma para prestar contas de seu modernismo. O Cardeal Gaetano de Lai (1853–1928) escreveu em seu dossiê, apesar dos protestos de inocência de Roncalli, as palavras “suspeito de modernismo”. Em 1925, esse mesmo Roncalli, ainda carregado com suas ideias modernistas e ligado aos piores elementos da Igreja, seria consagrado bispo em Roma por mandato do Papa Pio XI. Em 1954, após um escandaloso tempo de serviço na França como núncio, o Papa Pio XII o nomearia Patriarca de Veneza. O próprio Santo Padre vestiria o lobo não apenas em pele de cordeiro, mas também na seda vermelha cardinalícia, posicionando-o perfeitamente para se tornar o próximo Vigário de Cristo. Em 1958, o pesadelo se tornaria realidade, e o dia de glória chegaria para todos os inimigos da Igreja: um modernista seria eleito para o papado.
JANSENISMO, GALICANISMO, REGALISMO, FEBRONIANISMO
Já mencionamos esses “ismos” do século XVIII. É necessário examiná-los mais de perto, pois devemos compreendê-los para entender as decisões tomadas pelos papas daquela época.
Comecemos pelo jansenismo. Trata-se de um movimento muito difícil de definir, mas que foi, ainda assim, forte e bem delimitado na Europa do século XVIII. Suas origens estão em um homem chamado bispo Cornélio Jansênio de Ypres, na Bélgica (1585-1638). Em seu livro intitulado Augustinus, ele deu uma interpretação à doutrina da graça de Santo Agostinho que não diferia essencialmente do calvinismo. O ponto essencial da doutrina jansenista sobre a graça é a negação da graça suficiente. Eles negam que exista uma graça dada a todo homem que seja suficiente para salvar sua alma. Para o jansenista, toda graça atual é graça eficaz, pela qual o destinatário perde sua liberdade e é levado a atos bons de maneira praticamente robótica. Aqueles que recebem essa graça eficaz, que são poucos, vão para o Céu; aqueles que não recebem essa graça eficaz, que são muitos, vão para o Inferno.
Desde logo, podemos perceber quais serão os efeitos sociais dessa terrível doutrina. Ela produzirá, de um lado, uma elite altiva, os puros, que se convenceram de que estão sob o feitiço robótico da graça eficaz. Tornam-se incapazes de pecar. Estão seguros de sua salvação. Tão seguros que, de fato, não têm necessidade da Igreja com sua hierarquia e sacramentos. De outro lado, produzirá nas pessoas mais humildes um desespero quanto à própria salvação eterna, convencidas como estão de que não são robôs sobrenaturais, mas cometem pecados de tempos em tempos. Elas não têm motivo para progredir espiritualmente, para aspirar à virtude da caridade e à beatitude eterna, uma vez que pertencem às massas dos réprobos.
Enquanto esses réprobos se entregavam à devassidão, os “puros” mantinham, ao menos exteriormente, vidas morais exemplares, mas por dentro eram tão orgulhosos quanto demônios. Esse orgulho se expressava na ordem eclesiástica e política sob a forma de rebelião. Luís XIV compreendeu essa característica deles. Diferentemente de seus sucessores frouxos, ele literalmente os arrancou pela raiz ao destruir o centro deles em Port-Royal, arrasando-o até o chão, exumando os corpos no cemitério e enterrando-os em outro lugar. Infelizmente, essa ação decisiva não foi suficiente para esmagar esse contágio herético. Os jansenistas multiplicaram-se não apenas na França, mas em toda a Europa, incluindo a própria Roma.
O jansenismo era algo parecido com o modernismo. Os jansenistas se consideravam católicos, embora suas doutrinas tivessem sido condenadas pelo papa — na verdade, por muitos papas. Eles repudiavam as condenações papais como documentos que não os compreendiam adequadamente, que não representavam fielmente suas doutrinas. Os modernistas disseram a mesma coisa que os jansenistas quando foram condenados por São Pio X. Além disso, os jansenistas não condenavam a Missa e os sacramentos, como fizeram Lutero e Calvino, nem rejeitavam a autoridade do papa, ao menos em teoria. Mas, assim como os modernistas, queriam transformar o catolicismo por dentro. Eles sabiam melhor do que a hierarquia como o catolicismo deveria ser. Como resultado, tinham todo um programa de reforma da Igreja, desde o papel do papa até quantas flores — se é que deveria haver alguma — deveriam estar no altar. Quando se leem as reformas que foram decretadas pelo Sínodo jansenista de Pistoia em 1786, por exemplo, soa como o Vaticano II e a Missa Nova. Eles chegaram até a inventar seu próprio breviário, despojado de tudo o que consideravam impróprio. O breviário imposto por João XXIII em 1962 é notavelmente semelhante ao breviário jansenista do século XVIII.
Do mesmo modo, queriam transformar a ordem política por dentro. Os jansenistas não eram tipicamente criadores de porcos, mas eram aristocratas ou pessoas da classe média alta que exerciam alguma influência. Note-se que eram essas mesmas classes que estavam gravemente infectadas pela incredulidade e impiedade do “Iluminismo”. Esses dois movimentos andaram de mãos dadas e tinham objetivos semelhantes. Os jansenistas dessas classes eram intensamente democráticos — uma consequência natural do protestantismo — e detestavam as monarquias de suas respectivas nações. Ironicamente, os jansenistas inseriram-se profundamente nos governos desses monarcas — Pombal em Portugal, Choiseul na França, Kaunitz na Áustria — e tornaram-se praticamente primeiros-ministros. Não é de surpreender que, durante o mandato desses jansenistas, que fingiam o tempo todo servir aos seus “amados” monarcas, o poder e o prestígio dessas monarquias estivessem sendo gradualmente corroídos, até que finalmente fossem varridos pelo vendaval da Revolução.
O galicanismo foi — e ainda é — uma atitude entre os franceses segundo a qual a Igreja da França é, de algum modo, independente da autoridade de Roma. Em si mesmo, o galicanismo não está infectado por heresia, mas cheira a cisma. Teoricamente, reconhece o primado do sucessor de São Pedro, mas sustenta que suas decisões devem contar com a aprovação da hierarquia francesa antes de poderem ser consideradas válidas e aplicáveis na França. A monarquia bourboniana do século XVIII era total e profundamente galicana, juntamente com a maioria dos bispos e do clero. Eles nunca foram excomungados pelos papas, por temor de que resultasse um mal maior, a saber, uma versão francesa de Henrique VIII. Assim, por muitas décadas, os papas fecharam os olhos e suportaram o que podiam para preservar esse grande país de seguir o caminho da Inglaterra.
O regalismo é simplesmente o galicanismo em outros países, já que o termo galicanismo não se aplicaria. Vem da palavra latina Gallia, que significa França. Mas, em essência, era o mesmo fenômeno, fosse na Espanha, Portugal, Áustria, no Reino de Nápoles, Rússia, Prússia ou nos muitos pequenos Estados da Alemanha.
O febronianismo está relacionado ao galicanismo, mas com sotaque alemão. Em 1763, surgiu em Bruxelas um livro intitulado Um Livro de Justino Febrônio sobre a Condição Atual da Igreja. Febrônio era o pseudônimo de um bispo, um dos auxiliares de Trier, um certo Johann Nikolaus von Hontheim (1701–1790). Ele afirmava que a Igreja era uma república e que o papa havia usurpado o papel autoritário e monárquico que exercia. Sua obra era a expressão de um sentimento difundido entre muitos do clero alemão de que a Igreja Católica se encontrava em estado de corrupção, tanto no que dizia respeito à doutrina quanto à disciplina. Eles queriam ver uma reforma completa do catolicismo. Queriam trazer a Igreja de volta aos dias do cristianismo primitivo, ao menos como o imaginavam. Soa familiar? Febrônio (Hontheim) apelou para uma reunião de todos os cristãos. Para atingir esse fim, queria restringir o poder do Romano Pontífice, convocar um concílio de todos os cristãos ao qual o papa estaria sujeito e reformar os “abusos” da Igreja Romana. Soa familiar? Ele queria que o papa tivesse um primado de direção, mas não de jurisdição. Soa familiar? O que Febrônio exigia, o Vaticano II e os falsos papas do Vaticano II entregaram.
Não é um quadro nada bonito. Quando os papas do século XVIII olhavam pela janela para o mundo, encontravam pouco consolo. Longe iam os dias das monarquias católicas da Idade Média que, embora rebeldes de vez em quando, acreditavam profundamente na fé católica e reconheciam os direitos e prerrogativas do Romano Pontífice, o Vigário de Cristo. Agora, um terço da cristandade medieval havia passado para a heresia, incluindo reinos inteiros como Inglaterra, Escócia, Holanda, Dinamarca, Prússia e muitos dos pequenos ducados da Alemanha, além da maioria dos cantões suíços. A Irlanda católica estava sob o jugo da Inglaterra arquiprotestante, onde a fé ainda era proibida. O bispo Richard Challoner (1691–1781), o famoso revisor da Bíblia Douay-Rheims, celebrava missa em tavernas inglesas, em constante temor da chegada da polícia.
Poderiam esses papas ser consolados por seus súditos católicos? Dificilmente. França, Espanha, Nápoles, Áustria, as partes católicas da Alemanha, Portugal, os Estados do norte da Itália, juntamente com os vastos impérios da França, Espanha e Portugal, estavam todos sob a influência de monarcas infectados pelo galicanismo, regalismo, jansenismo e/ou febronianismo. Adicione a esse guisado repugnante o ingrediente da chamada filosofia do século XVIII, que não passava de pura impiedade e ateísmo, “importados” do Inferno.
Esses cinco elementos — galicanismo, regalismo, jansenismo, febronianismo e incredulidade filosófica — diferiam entre si, às vezes até de forma acentuada. Mas todos tinham um único inimigo odiado: Roma. A destruição do poder papal era o ponto em que todos esses movimentos convergiam. Eles uniram forças e perseguiram esse objetivo com vigor demoníaco. Sua primeira vítima seria a Companhia de Jesus.
Os papas do século XVIII, portanto, tinham uma escolha a fazer diante dessa tempestade iminente de poder e influência hostis contra o poder do papado e, na verdade, contra o próprio catolicismo. Como a Igreja sobreviveria a tudo isso? Como a cristandade poderia ser preservada?
É a resposta a essa pergunta que dividiu os cardeais e, consequentemente, os papas, em dois partidos: (1) aqueles que favoreciam o compromisso com as forças devoradoras, a fim de apaziguá-las e satisfazer seu apetite (acomodacionistas); (2) aqueles que favoreciam uma linha dura, sem compromisso ou apaziguamento, mesmo ao risco de ofender os estados católicos (anti-acomodacionistas). Desde Bento XIV, o papado tem oscilado entre essas duas estratégias, até que finalmente, no século XX, o primeiro partido, o dos acomodacionistas, saiu vencedor com três pontificados sucessivos, de 1914 a 1958. Aproveitando-se desses quarenta anos de fraqueza, os inimigos implacáveis golpearam e arrombaram os portões da Igreja até que, em outubro de 1958, esses portões foram rompidos, e os inimigos despejaram-se no pátio interior sacrossanto da Igreja Católica Romana na pessoa do modernista João XXIII. Eles ainda estão lá.
