O SERMÃO DA MONTANHA, CAP. 20 (EXCERTO)
Santo Agostinho (†430)
Fonte: O Sermão da Montanha, p. 84–86. Dois Irmãos: MBC, 2019.
Descrição: Neste excerto, Santo Agostinho ensina que tanto a dádiva gratuita quanto o empréstimo são obras meritórias diante de Deus, já que todo ato de generosidade feito em obediência ao mandamento divino recebe sua recompensa.
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NÃO FAZER O MAL É POUCO; DEVES TAMBÉM FAZER O BEM
67. Deixar de fazer o mal é pouco, se não fazes nenhum bem. Consequentemente, o Senhor continua, dizendo: “Dá a todo o que te pede, e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes” (Mt 5,41). Ele diz: “Dá a todo o que te pede”, e não: “Dá tudo ao que te pede”, pois deves dar o que podes, segundo o que é justo e bom. E se te pedir dinheiro que será usado para oprimir um inocente? E se te pedir uma relação ilícita? Sem mencionar os inumeráveis casos semelhantes, digo que deves dar o que não prejudicará nem a ti nem ao próximo, segundo o teu conhecimento certo ou opinião provável.[1] Quando negas de modo justo aquilo que alguém te pede, estás dando a própria justiça, e a pessoa não sai de mãos vazias. Assim darás a todo o que te pede, ainda que nem sempre dês o que te pede. Corrigir aquele que pede coisas injustas às vezes é o melhor que lhe podes dar.
DÁDIVA GRATUITA E EMPRÉSTIMO
68. As seguintes palavras: e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes dizem respeito à predisposição: Deus ama o que dá com alegria (II Cor 9,7). Todo o que recebe toma emprestado, ainda que não tenha intenção de devolver. Como Deus recompensa sobremaneira os misericordiosos, todos os que ajudam o próximo são investidores. Mas se quisermos entender a ideia de mutuário em sentido estrito, isto é, aquele que toma emprestado com intenção de devolver, então o Senhor está falando de dois tipos de empréstimo: ou doamos aquilo que damos, ou emprestamos esperando o pagamento. Muitas vezes os homens, sabendo que Deus premia os que dão gratuitamente, hesitam em emprestar, pois pensam que não receberão nada de Deus se o mutuário pagar a dívida. Portanto, a autoridade divina nos incentiva a que façamos esta sorte de boa obra: e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes, isto é, não te desvies do que te pede emprestado, pensando que teu dinheiro não renderá nada, e Deus não te retribuirá, só porque o homem pagará de volta. Quando emprestas porque Deus mandou, tua obra não pode ser infrutuosa.
[1] É de suma importância o aparte de S. Agostinho: “segundo o teu conhecimento certo ou opinião provável”. Na sociedade brasileira contemporânea, em que o julgamento fácil é rotineiro e os pedintes costumam ser rotulados todos como aproveitadores (ao ponto de certas prefeituras proibirem por lei a esmola nas ruas), a atitude comum, em nós arraigada desde a infância, é desconfiar do fim que o mendigo dará ao dinheiro que lhe damos. Mas isso é confundir uma impressão geral e difusa na cultura com um conhecimento certo sobre as inclinações de um indivíduo em particular, em um momento particular — precisamente o que S. Agostinho aconselha que não se faça. (N.E.)
