OPERAÇÃO CRUZADA LIBERAL
Padre Luan Guidoni

In illo tempore, estava César em Alexandria conduzindo Ptolemeu XIII com sua destra ao retorno de seus súditos. E o rei, venenosa serpente, chorou diante de César suplicando para que não o deixasse partir, porque a companhia de César era melhor do que todo o reino egípcio. Vendo as lágrimas caindo dos olhos do pueril rei, César, com a similitude de uma inocente columba, enxugou ternamente o rosto do choroso jovem e o consolou dizendo que tornaria a vê-lo. Liberto que foi do suave jugo cesáreo, Ptolemeu guerreou contra os romanos com a ferocidade de uma besta do Nilo. Os amigos de César indagavam-se confundidos, e os de menor inteligência satirizavam o ocorrido, pois não lhes parecia racional que o divino Júlio tivesse caído nas enganações lacrimosas de Ptolemeu. Quando a águia romana lida com gentem semperque alia cogitantem, alia simulantem bene cognitam habebat, essa estirpe que está mais próxima das víboras que da descendência de Adão, ela prefere a estratégia da columba e da coruja, e o piedoso pai de Augusto, providendo o que naturalmente sucederia, agiu daquele modo não por bondade, mas por prudência: Quasi vero id Caesar bonitate tantum adductus ac non prudentissimo consilio fecisset. A prudência de César, essa virtude esquecida, é a guia das ações discretas em tempos de guerra.
A guerra perpétua da Igreja sobre a terra justifica o uso da estratégia da discrição nos tempos de perseguição, e somente um infiltrado discordaria dessa afirmação. Ações desse tipo estão marcadas na história da Igreja, e é graças à humildade que ela não escreve suas discretas vitórias, afinal, isso seria uma grande imprudência. Quando essa tática defensiva desaparece dos círculos eclesiásticos, outras forças ocupam as cátedras e lentamente transubstanciam a doutrina da Igreja tratando de não tocar nos acidentes perceptíveis ao populacho. Lutar contra o inimigo interno e externo é o grande desafio enfrentado pela Igreja na modernidade, que transita em tempos de guerra e de uma planejada secularização durante os períodos de paz. O que é a paz? É a guerra incruenta. Como se luta uma guerra em tempos de paz? Com inteligência, muita inteligência. Aos mais inteligentes, recomendamos que estudem os seguintes casos históricos: A Ordem do Templo e demais ordens de cavalaria; a “Vehmgericht”; a Companhia de Jesus e a questão da “Monita Secreta”; a Congregação Mariana do Padre Jean Leunis; a “Compagnie du Saint-Sacrement” de Henri de Lévis; “La Congrégation” do Padre Jean-Baptiste Bordier-Delpuits; a Ordem de São Miguel da Ala; a “Orden de la Legitimidad Proscrita”; o “Sodalitium Pianum” de Mons. Umberto Benigni; a “Ordre de Jacques-Cartier” do Padre François-Xavier Barrette; a “Asociación Católica de la Juventud Mexicana”; os “Tecos”; e a Maçonaria de Maria do Padre Júlio Maria de Lombaerde.
Confesso que é desanimador escrever sobre essas coisas no Brasil. O sábio se alegra com a beleza racional do cosmo quando vê o Sol; o insensato olha para o Sol e se entristece por causa do calor; e o brasileiro se recorda da existência do Sol apenas quando vai à praia. O brasileiro não possuí raciocínio, nem juízo, mas apenas uma deficitária apreensão simples. Toda idéia que cai nesta terra será infalivelmente corrompida e transformada em seu inverso, e isso não mudará até que o Brasil deixe de ser brasileiro. Um homem piedoso vê uma imagem de Nossa Senhora e logo pensa no Céu; o insensato nem olha para as imagens sagradas; e o brasileiro observa uma imagem da Virgem e se pergunta quantos quilos de ouro ela consegue esconder. No país do santo do pau oco, o catolicismo também é oco: a fé é um negócio lucrativo. Ao estudar a história da carnavalesca e nada cavaleiresca militância católica brasileira por aquilo que ela é, e não por aquilo que ela aparenta ser, torna-se evidente que não há quantidade de água benta que resolva o problema espiritual do Brasil e que a única solução é um incêndio neroniano.
Tendo introduzido a questão em suas linhas gerais, revisaremos a história da contra-inteligência católica na segunda metade do século XX. No prelúdio da guerra fria, lá estava Pio XII e o seu apoio ao lado americano. Com a adesão do Vaticano ao mundo livre, foi uma questão de tempo para que os grupos católicos discretos, que até então se opunham ao liberalismo americano, passassem por um processo de americanização. No Brasil, três forças conduziram esse movimento: TFP, Permanência e os Liberais. Antes de prosseguir, deixo que claro que sou pró-TFP naquilo em que a TFP tem de verdadeiramente católico e não tenho a menor simpatia aos outros dois grupos. Analisaremos brevemente o decorrer histórico desses grupos e ao final daremos nossa opinião sobre os seus acertos e erros.
Se começarmos pela TFP, vemos que toda sua história já começa estranha. A gênese familiar de Plinio Corrêa de Oliveira nos parece extremamente suspeita, e ainda mais suspeita é a gênese da TFP. Naquela época nebulosa ao redor do Colégio São Luís e das Congregações Marianas do Padre Walter Mariaux, um personagem do clero que possuía todos os traços de um agente, o jovem Plinio herdou duas sociedades secretas daquela juventude mariana: os Guerreiros de Cristo Rei e os Amigos do Rei. Com o desenvolvimento da TFP, um dos seus membros, o Prof. Orlando Fedeli, saiu do movimento e fundou seu próprio grupo, a Associação Cultural Montfort, e da Montfort saiu outro grupo, a Flos Carmeli. Na morte de Plinio, João Scognamiglio Clá Dias dividiu a TFP, e dessa divisão nasceram os Arautos do Evangelho, comandados por João Clá, e o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, liderado pelos provectos dos velhos tempos que coordenaram o movimento monárquico brasileiro até os nossos dias. Enquanto isso, no Rio de Janeiro, Gustavo Corção, ex-membro do Centro Dom Vital, fundado por Jackson de Figueiredo, funda o grupo Permanência juntamente com Júlio Fleichman. Dom Geraldo de Proença Sigaud, Dom Antônio de Castro Mayer e Dom Marcel Lefebvre, filho do agente René Lefebvre, circulavam entre a TFP e o grupo Permanência naquela conturbada era pós-conciliar. O tradicionalismo em Campos morre com Dom Fernando Arêas Rifan e seus acordos com o modernismo, e mais tarde ocorre a separação entre Dom Lourenço Fleichman e Dom Tomás de Aquino. Enquanto os tradicionalistas católicos combatiam os teólogos da libertação, e até mesmo Nelson Rodrigues uniu-se a eles nessa luta, surgia ao mesmo tempo o Instituto Liberal. O liberalismo e suas liberdades criaram vários livres-pensadores anti-comunistas no Brasil. O mais famoso deles é Olavo de Carvalho, um grande amigo de Júlio Fleichman e do misterioso Antônio Donato Paulo Rosa. Após as teses do São Moita serem apresentadas na USP, uma onda neotomista surgiu no Brasil, e Carlos Nougué e Sidney Silveira destacaram-se nos ambientes conservadores. Muitas aulas foram ministradas pelo Prof. São Moita na Paróquia Nossa Senhora do Brasil, e até o Opus Dei entrou em campo. Um aluno de Olavo de Carvalho e de Antônio Donato, Paulo Ricardo de Azevedo Jr., o padre do neoconservadorismo brasileiro, legitima a nova direita liberal nas igrejas brasileiras. Depois de muita briga entre cada um dos personagens mencionados, surge o Centro Dom Bosco e uma forte movimentação de leigos por todo o Brasil. Por fim, a nova geração de católicos nascidos nos anos 2000 tomam o tradicionalismo de assalto e o radicalizam.
Essa pequena síntese do movimento anti-comunista brasileiro é apenas isto: uma síntese. Escrevi o mínimo necessário e creio que não é preciso dar maiores detalhes — e o que não faltam são detalhes em toda essa história. Três conquistas foram realizadas graças a esses agentes históricos: 1) a desmoralização da teologia da libertação; 2) a consolidação do regime militar brasileiro; 3) e a criação da nova direita liberal e do movimento bolsonarista. Nada disso seria possível sem a interferência de agências estrangeiras de inteligência.
Qual é a ideologia geral de toda essa movimentação? É a constante afirmação do liberalismo econômico, da democracia cristã, do Estado mínimo, do conservadorismo moral e da promoção dos ideais do Partido Republicano americano; também é a negação do comunismo, do islamismo, do progressismo e dos ideais do Partido Democrata americano. As diferenças entre os movimentos ocorrem por questões humanas ou meras disputas de cargos, e não por discordâncias ideológicas, e se ocorre alguma discordância ideológica, nunca é por um ponto da negação, mas por alguma questão de afirmação. É a operação cruzada liberal: uma operação psicológica com um discurso templário que só fará cruzada contra os inimigos da América.
O primeiro artigo da Revista Catolicismo é a forma mentis de todo o movimento católico tradicionalista brasileiro. Os discursos ideológicos do catolicismo político atual são uma verdadeira liturgia daquele artigo do Dr. Plinio. É claro que aquele tom religioso desagrada os liberais não católicos, porém isso não é um problema dentro do esquema de inteligência neoconservador que pode adaptar a mesma tese em uma nova roupagem, e foi assim que sucedeu que defensores de um Estado católico se aliaram com aqueles que propugnam o fim do Estado.
Pergunto: os liberais são inimigos da Igreja? Respondo: sim, e são piores que os comunistas. Ter desmascarado o comunismo foi o grande acerto deles, mas o pior dos erros que cometeram foi fazer o povo crer que o comunismo é o único inimigo da Igreja. Sabemos, entretanto, que internamente eles reconhecem o mal do liberalismo e possuem planos para destruí-lo. Ora, e por que a guerra contra o liberalismo até suas últimas consequências não é declarada em público tal como é em privado? Porque isso destruiria as boas relações internacionais, mas saibam que a nova geração que está no meio de vós não deseja ter boas relações com a velha política cinquentista. Os alunos dissidentes de Olavo de Carvalho ensinam um anti-olavismo dentro de grupos olavistas; a ala jovem da TFP defende coisas que jamais seriam toleradas pelos provectos; o Centro Dom Bosco já não é mais o mesmo e é perseguido por isso. A operação cruzada liberal será derrubada pela nova geração do tradicionalismo a partir de dentro da mesma operação.
Nós ainda desejaríamos escrever sobre as melhores estratégias para acelerar a destruição do neoconservadorismo infiltrado no movimento católico, mas isso seria uma grande indiscrição.
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Padre Luan Guidoni
13 de Fevereiro de 2026
