ORAÇÃO CONTRA OS USURÁRIOS
São Gregório de Nissa
Fonte: Patrologia graeca, vol. XLVI, p. 433–452. Paris, 1863.
Tradutor do texto latino: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: São Gregório de Nissa condena veementemente a usura, comparando-a a um veneno que destrói vidas, e exorta os cristãos a praticarem a doação generosa e o empréstimo sem juros, seguindo os preceitos divinos.
Em sentido retórico, oração é um discurso formal ou peça falada com finalidade de persuasão, homenagem ou instrução, geralmente solene.
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Os homens devotados ao cultivo das virtudes, que moldam seus costumes segundo os preceitos da razão, têm sua vida regida por boas leis e mandamentos, nos quais é possível discernir dois objetivos básicos do legislador: um, proibir os males; outro, estimular cada um às ações honrosas. Pois, de fato, não se pode viver em sociedade segundo as normas da retidão e da moderação senão evitando com todas as forças a perversidade e perseguindo a virtude com o máximo empenho. Assim, reunidos hoje também para prestar atenção aos mandamentos divinos, ouvimos como o profeta extirpa os germes nocivos da usura, isto é, das práticas de empréstimo a juros, arrancando do meio dos homens, de uma vez por todas, a concessão de dinheiro que traz lucro impuro. Cabe a nós obedecer aos conselhos do profeta, para que não nos tornemos aquela pedra sobre a qual a semente, ao cair, secou e não produziu fruto algum (cf. Lc 8,13), e para que não ouçamos o que outrora foi dito aos israelitas obstinados e intratáveis: “Obceca o coração deste povo, ensurdece-lhe os ouvidos e fecha-lhe os olhos, para que não suceda que veja com seus olhos, ouça com seus ouvidos, entenda com seu coração, e se converta e de novo seja curado.” (Is 6,10).
Rogo, porém, a todos os que me ouvem que não me julguem audacioso ou insensato, pois, embora um homem eloquente, de grande renome nas questões da filosofia divina, extremamente versado em todos os gêneros de oratória e que tratou brilhantemente deste mesmo tema, tenha deixado uma oração contra os usurários como guia de vida, eu ousei entrar na mesma arena, com pares de bois ou asnos, para competir com cavalos coroados com a vitória, pois sempre se vê algo mais humilde ao lado dos mais grandiosos: quando o sol brilha, a lua também reluz um pouco; e ao navio cargueiro, carregado de mil mercadorias, impelido pelos ventos, segue-se uma pequena embarcação, cortando o mesmo mar; e enquanto os homens lutam como atletas, também os meninos brincam de lutar sob as mesmas regras. Que seja esta, portanto, a nossa petição.
Tu, a quem me dirijo, seja quem fores, sendo homem, exorto a que detestes os costumes dos usurários, ames os homens, não a prata, e resistas ao pecado. Dirige aos teus outrora amados lucros as palavras de João Batista: “Raça de víboras, afastai-vos de mim. Sois a ruína daqueles que vos retêm e recebem. Proporcionais um breve prazer, mas, com o tempo, vosso veneno se torna amargo malefício para a alma. Barrais o caminho da vida, trancais as portas do reino celestial. Por um momento, agradais aos olhos com vossa aparência e aos ouvidos com vosso tilintar, mas logo vos tornais causa e origem de uma dor eterna”. Dito isso, despede-te do excesso de riquezas e da usura, e incita em ti o amor pelos pobres. E não lhe voltes as costas a quem te pedir emprestado (Mt 5,42). É pela necessidade que o aflito suplica diante de tuas portas; sendo pobre, recorre às tuas riquezas para que afastes dele a indigência. Mas tu fazes o contrário: tornas-te inimigo em vez de aliado, pois não o ajudas a escapar da pobreza que o oprime, nem o libertas do pagamento de juros; ao contrário, semeias males ao aflito, despojas o nu, feres novamente o ferido, acumulas preocupações sobre preocupações e dores sobre dores. Pois aquele que recebe dinheiro com a obrigação de pagar juros recebe um penhor de pobreza, levando para casa, sob aparência de um benefício, a ruína. Assim como alguém, movido por súplicas, oferece um copo de vinho puro a um doente febril, consumido por um calor intenso e uma sede insuportável, alegra o enfermo por um breve momento enquanto ele sorve o cálice; mas, pouco depois, provoca-lhe uma febre violenta e dez vezes maior; da mesma forma, aquele que empresta dinheiro com juros ao necessitado não alivia sua carência, mas aumenta sua desgraça.
Não vivas, pois, sob aparência de humanidade, uma vida desumana e selvagem, nem sejas um médico homicida, ostentando o nome e a figura de quem salva, como se cuidasses apenas por amor às riquezas — como aquele cuida por amor à sua arte —, quando, contudo, pela tua vontade e ânimo, trabalhas para a ruína daquele que a ti se confia. A vida do usurário é preguiçosa e insaciável. Ele não conhece o trabalho do campo, nem o labor do comércio; assentado num só lugar, alimenta em sua casa feras monstruosas. Deseja que tudo lhe venha sem semeadura nem cultivo. Seu arado é a pena; seu campo, o papel; sua semente, a tinta; sua chuva, o tempo, que em silêncio multiplica o fruto de seu dinheiro. Sua foice é a cobrança; sua eira é a casa onde debulha as fortunas dos miseráveis. E considera como suas as coisas pertencentes a todos. Reza pelo infortúnio dos homens, para que todos sejam forçados a recorrer a ele; odeia os que têm recursos suficientes para não tomar empréstimos a juros, considerando-os inimigos. Frequenta tribunais e fóruns para encontrar alguém atingido pela adversidade; segue seus cobradores e agentes como abutres seguem exércitos e batalhas. Leva consigo bolsas, mostrando isca aos afogados, para que, abrindo a boca por socorro, engulam o anzol da usura. Conta diariamente seus lucros, mas nunca sacia sua cobiça. Lamenta o ouro guardado em casa, que jaz ocioso e improdutivo. Imita os lavradores, que sempre tiram sementes do montão. Não deixa o ouro intocado, mas o transfere de mão em mão. Vês, portanto, que aquele que abunda em riquezas muitas vezes não tem um único óbolo em casa — suas esperanças estão em papéis, sua riqueza em contratos —, possuindo tudo sem ter nada, vivendo de maneira contrária aos preceitos apostólicos, quem tudo dá aos que pedem, não por caridade, mas por ganância; pois escolhe a pobreza temporária, para que o dinheiro, como um servo diligente, retorne a ele com lucros. Vês como a esperança de ganhos futuros esvazia sua casa e o torna temporariamente pobre, embora tenha muito ouro à disposição. Qual é a causa disso? Um documento assinado em papiro e a promessa ou compromisso de um aflito: “Pagarei com juros. Restituirei o capital com lucro”. Então, ele pressiona e lembra o devedor para que não quebre a promessa. E o devedor, embora pobre, cumpre a obrigação por causa do contrato. Mas Deus, que é rico, embora prometa muitas coisas com uma voz clara e sonora, não é ouvido. “Dá, e eu te pagarei”, clama o Evangelho, um documento público e notório em todo o mundo, escrito por quatro em lugar de um, tendo como testemunhas todos os cristãos desde o início dos tempos da salvação.
Toma o paraíso como penhor — um penhor digno, sem dúvida — no qual possas firmemente confiar. E se, mesmo aqui, queres alguma garantia, todo o mundo é propriedade do bom devedor. Observa cuidadosamente a abundância de que transborda aquele que te pede um favor, e descobrirás suas riquezas. Pois todas as minas de ouro e de prata pertencem ao devedor. Todo metal, prata, bronze e outros do gênero estão sujeitos ao seu domínio e poder. Contempla todo o céu, até onde ele se estende; concebe em tua mente a imensidão do mar; pensa na vastidão da terra; conta as feras que ela sustenta; tudo está sujeito ao poder daquele cuja pobreza tu desprezas. Sê moderado e justo. Não cometas injustiça contra Deus, nem consideres Deus inferior ou menos honrado que os banqueiros, aos quais, se prometem, acreditas sem dúvida. Dá ao Fiador imortal. Crê no documento inefável e invisível, mas de tal natureza que não pode ser perdido. Não busques lucro, e verás que Deus não te recompensará sem acréscimo.
Se este discurso soa estranho e inesperado aos teus ouvidos, tenho à mão um testemunho de que Deus recompensa de muitas e variadas maneiras aqueles que fazem gastos piedosos. Pois, quando Pedro perguntou, dizendo: “Eis que abandonamos tudo e te seguimos;que será de nós?”, Ele respondeu: “Em verdade vos digo, todo aquele que deixar casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, esposa, filhos ou campos por minha causa receberá cem vezes mais e possuirá a vida eterna” (Mt 19,27–29). Vês a generosidade? Vês a bondade? O usurário sem vergonha trabalha arduamente para dobrar o capital; mas Deus livremente dá o cêntuplo àquele que não oprime seu irmão. Obedece, pois, ao conselho de Deus, e receberás juros sem pecado. Por que te consomes em cuidados pecaminosos, contando os dias, calculando os meses, revisando o capital em tua mente, sonhando com o lucro, temendo que o dia estipulado venha sem frutos, como a safra destruída pelo granizo? O usurário esquadrinha os passos do devedor — suas viagens, suas saídas, seus negócios. Se ouve um rumor infausto de que alguém caiu nas mãos de ladrões ou, por algum infortúnio, ficou pobre, ele se senta, torce as mãos, geme incessantemente, muitas vezes chora, desenrola o contrato, lamenta o ouro contido naquelas letras, exibindo as tábuas do acordo como as vestes de um filho morto, reavivando a dor com sua visão. Se o empréstimo for náutico, ele se senta à beira-mar, lamenta as tempestades e os ventos, interroga continuamente sobre os que vêm e vão, se há notícias de algum naufrágio ou de alguém que tenha ouvido falar de algum perigo. Sua alma é oprimida e angustiada pela preocupação diária. A tal homem, portanto, deve-se dizer: Cessa, ó homem, dessa inquietação perigosa! Abandona a esperança corrosiva, para que, buscando juros, não percas também o capital. Do pobre buscas rendimento e acréscimos de riqueza, como quem quisesse colher um monte de trigo de um campo ressecado pelo calor intenso, ou uma multidão de uvas de uma vinha após uma chuva de granizo, ou filhos de um ventre estéril, ou leite de mulheres que não deram à luz. Ninguém tenta o que é contra a natureza e impossível, pois, além de não conseguir nada, seria objeto de riso e escárnio. Só Deus, o Onipotente, que tira provisões de coisas desesperadas e abandonadas, e faz o que está além de toda esperança e expectativa — fazendo jorrar água da rocha, enviando do céu, como chuva, um pão novo e incomum, tornando doce as águas amargas de Mara pelo toque do madeiro, dando um filho a Isabel, Samuel a Ana, e o Primogênito à Virgem Maria — somente a sua destra realiza tais obras.
Tu, porém, do bronze e do ouro, coisas que por natureza não geram nada, não procures extrair fruto; nem forces o pobre a entregar o que é próprio dos ricos; nem obrigues a pagar juros aquele que pede apenas o capital. Não sabes quão digna de misericórdia é a necessidade daquele que pede emprestado? Por isso, a Sagrada Escritura, que nos instrui para toda piedade, proíbe as usuras em toda parte. “Se emprestares dinheiro a teu irmão, não o oprimas com usuras” (Ex 22,25). Além disso, a própria graça, fonte abundantíssima de toda bondade, estabelece a remissão das dívidas com uma lei santíssima nestes termos: “Não empresteis àqueles de quem esperais receber de volta” (Lc 6,34); e em outro lugar, sob a forma de parábola, pune severamente o servo duro e inimigo, porque não teve piedade de seu companheiro que se prostrou, nem perdoou os cem denários (uma dívida insignificante), embora lhe tivesse sido perdoada uma quantia equivalente a dez mil talentos (cf. Mt 18,23–35). Nosso Salvador, mestre de toda honestidade, ao prescrever aos seus discípulos um modo de orar que nada contém de supérfluo, acrescentou este artigo à fórmula de oração, como o que mais vale para implorar a Deus: “Perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores” (Mt 6,12). Como, então, pedirás isso a Deus, ó usurário? Com que consciência desejas participar do juramento que Deus deu, tu, que tudo tomas e nada sabes dar? Não sabes que tuas orações não são outra coisa senão a repetição de tua desumanidade? O que perdoaste, para que peças perdão? De quem tiveste piedade, para que implores misericórdia? E, se dás esmola, não está ela cheia das desgraças, lágrimas e gemidos alheios? Se o pobre soubesse de onde vem tua esmola, certamente a recusaria, evitando saborear a carne de seus irmãos e o sangue de seus familiares, e te exortaria com palavras moderadas, mas com certa liberdade: “Não me sustentes, ó homem, com as lágrimas de meus irmãos. Não dês ao pobre um pão feito com os gemidos de companheiros necessitados e aflitos. Devolve ao teu irmão o que lhe tomaste injustamente, e eu te serei grato”. Que proveito trazes ao criar muitos pobres para consolar um só? Se não houvesse tantos usurários, não haveria tamanha multidão de pobres. Dissolve tua tribo e teu grupo, e todos terão o necessário. Todos acusam os usurários, mas não conseguem erradicar esse mal nem a lei, nem os profetas, nem os evangelistas. Assim clama o divino Amós: “Ouvi, vós que oprimis o pobre pela manhã e esmagais os necessitados da terra, dizendo: Quando passará o mês, para que vendamos as mercadorias?” (Am 8,4–6). Nem os pais se alegram tanto com a geração de seus filhos quanto os usurários com o fim dos meses.
Além disso, mascaram seu crime com belos nomes, chamando-o de “censo humano” ou “renda”, à maneira dos pagãos, que chamam com o nome brando de Eumênides certas deusas inflamadas de ódio contra todos e assassinas de homens.[1] É realmente um “censo humano”? Ou não é cobrança de usura, que destrói lares, dissipa riquezas e faz com que os nascidos em condição honesta e nobre vivam uma vida pior que a dos escravos, que no início causa algum prazer, mas depois enche de amarga dor? Pois, assim como as aves, para as quais os caçadores armam ciladas, se deleitam inicialmente com a isca espalhada e frequentam os lugares onde encontram comida abundante, mas logo depois são capturadas pelas redes e perecem, assim também os que recebem dinheiro com usura, por um breve momento, desfrutam da abundância, mas depois caem da casa paterna. Toda misericórdia está exilada das almas vis e avarentas dos usurários. Quando veem a própria casa do devedor posta à venda, não se comovem, mas, ao contrário, apressam ainda mais a venda, para que, com o dinheiro recebido, possam prender outro miserável com as correntes da usura, como caçadores incansáveis e insaciáveis que, após capturarem todas as feras de um vale cercado por redes, transferem as armadilhas para vales vizinhos, e destes para outros, e assim por diante, até percorrerem todos os lugares e esgotarem as montanhas.
Com que olhos, pois, tu, que és assim, olharás para o céu? Como pedirás o perdão dos pecados? Acaso, em teu estupor, também oras o que o Salvador nos ensinou: “Perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores” (Mt 6,12)? Quantos, por causa da usura, se enforcaram ou se precipitaram nos rios, considerando a morte mais tolerável do que o usurário, deixando órfãos seus filhos, para os quais a pobreza se tornou uma madrasta severa e nada indulgente! Mas esses ilustres usurários, é claro, não têm piedade nem mesmo de uma casa órfã; pelo contrário, arrastam e saqueiam os herdeiros — a quem talvez nada tenha restado além da herança — e exigem ouro daqueles que vivem da caridade alheia. E quando a morte do devedor lhes é, como é justo, lançada em rosto, e alguns chegam a invocar a lembrança da corda para que se envergonhem, eles não sentem nenhum pudor por esse crime, nem tremem em suas almas, mas, com o coração ulcerado, vomitam palavras cheias de insolência: “E será que a culpa agora será atribuída aos nossos costumes, se aquele miserável, nascido sob um astro infortúnio, compelido pela necessidade do destino, infligiu violência a si mesmo?”. Pois os usurários também filosofam e fazem a defesa dos astrólogos, justificando seus crimes abomináveis.
Tal homem deve ser interpelado nestes termos: Tu és um nascimento funesto, a infeliz fatalidade dos astros. Pois, se tivesses aliviado a carga e perdoado uma parte do que te era devido, e recebido a outra parte com desconto, não teria ele odiado a luz como odiosa, nem se teria tornado o próprio carrasco de si mesmo. Com que olhos, no dia da ressurreição, contemplarás aquele que mataste? Pois ambos comparecereis ao tribunal de Cristo, onde não se contarão usuras, mas se julgará a conduta da vida. O que responderás, acusado diante do juiz incorruptível, quando Ele te disser: “Tiveste a lei, os profetas, os preceitos evangélicos. Ouviste a todos proclamarem numa só voz pela caridade, uns dizendo: ‘Não emprestarás com juros a teu irmão’ (Dt 23,19); outros: ‘Não deu seu dinheiro a usura’ (Sl 14,5); e ainda: ‘Se emprestares a teu irmão, não o oprimas com usuras’ (Ex 22,25). Por fim, Mateus, ao proclamar nas parábolas, anunciando o mandamento do Senhor, diz: ‘Servo mau, perdoei-te toda a dívida porque me suplicaste; não deverias também ter piedade de teu companheiro, como eu tive de ti? E, irado, o Senhor o entregou aos torturadores até que pagasse toda a dívida’ (Mt 18,32–34)”? Então, serás levado a um arrependimento tardio e infrutífero; um lamento gravíssimo te acometerá, e serás punido com uma pena inevitável. Nem o ouro te servirá de ajuda, nem a prata te socorrerá. A aceitação da usura será mais amarga que o fel. Essas não são meras palavras de intimidação, mas a própria verdade dos fatos, que testifica o julgamento futuro antes que seja conhecido pela experiência, e que, perante isso, o homem prudente e cuidadoso do futuro se esforçará por precaver-se.
Para edificar os ouvintes, contarei um caso ocorrido em nossos dias, na casa de certo usurário, pouco antes de seu juízo particular. Prestai atenção, embora muitos de vós talvez já conheceis o que irei relatar: Havia um homem na cidade de N. (omitirei seu nome, para não parecer que desejo difamar um morto), cuja única arte era emprestar dinheiro e lucrar com juros abomináveis. Acometido pela doença da avareza, tornou-se mesquinho e sórdido até consigo mesmo e com os seus (como costumam ser os avaros), pois não colocava comida suficiente na mesa, não trocava de roupa senão por extrema necessidade, não provia o necessário para seus filhos, nem frequentava os banhos por medo de gastar um trióbolo. Vivia obcecado numa só coisa: aumentar cada vez mais sua fortuna. Não considerava ninguém digno de confiança para guardar sua bolsa, nem filho, nem servo, nem banqueiro, nem chave, nem selo. Escondia suas riquezas em fendas das paredes, cobrindo-as com barro, mantendo seu tesouro invisível a todos, mudando-o de lugar constantemente, de uma parede a outra, planejando engenhosamente para que ninguém o descobrisse. De repente, partiu desta vida sem revelar a ninguém de sua família onde havia escondido o ouro. Assim, foi sepultado ele mesmo, tendo como único lucro o segredo. Seus filhos, que esperavam tornar-se os mais ricos da cidade, reviraram tudo — interrogando-se mutuamente, examinando os servos, escavando o chão da casa, perfurando paredes, invadindo casas de vizinhos e familiares, movendo, como se diz, cada pedra —, mas não encontraram um único óbolo. Vivem, porém, no presente, detestando a loucura de vida do pai.
Tal foi, ó usurários, vosso amigo e companheiro, que terminou sua vida de maneira condizente com seus costumes: um agiota vazio e leviano, que, atormentado por inúmeras angústias e até mesmo pela fome, adquiriu para si a punição eterna como herança, e legou a pobreza aos seus filhos. Não sabeis, miseráveis, para quem acumulastes riquezas e vos esforçastes. Os eventos da vida são incertos, os impostores são inúmeros, salteadores e ladrões perturbam a terra e o mar. Cuidai para que, com a perda do ouro, sobretudo, o vosso lucro não se torne pecado.
“Mas este discurso”, dizeis, “é odioso e pesado para nós”. Conheço muito bem vosso murmúrio e o ranger de vossos dentes, embora eu, deste púlpito, frequentemente tente firmar-vos no reto caminho. “Ele inveja”, dizeis, “aqueles que são objeto de benefícios e os pobres que os recebem. Eis que não mais emprestaremos. Como viverão então os pobres e aflitos?”. Decerto são palavras dignas de seus atos, objeção conveniente àqueles envoltos nas trevas das riquezas, pois não têm o julgamento da mente suficientemente firme para compreender o que é dito. Assim, ouvem os conselhos dos que os exortam em sentido oposto, pois, enquanto prego contra a usura, murmuram e sussurram ameaças de fechar as portas aos que lhes pedem ajuda. Da minha parte, porém, proclamo e ordeno primeiramente que se doe; em seguida, que se empreste, pois o empréstimo é uma segunda forma de doação. Mas digo que isso deve ser feito sem juros nem exações usurárias, conforme nos ordenou o divino oráculo. Pois é igualmente culpado aquele que não empresta e aquele que empresta sob a condição de usura. A impiedade de um e o lucro usurário do outro são igualmente dignos de condenação. Mas vós, por iniciativa própria, correis para o extremo oposto, prometendo negar todo auxílio. “Ou não daremos”, dizeis, “ou faremos um contrato com juros”. Isso é uma objeção descarada, uma contenda insana contra a justiça, uma guerra contra Deus.
Contra os usurários, pois, basta o que foi dito até aqui; os pontos da acusação foram claramente expostos, como num tribunal. Que Deus lhes conceda o arrependimento. Quanto àqueles que prontamente concedem empréstimos e se prenderam na armadilha da usura, não direi palavra, julgando suficiente o conselho que nosso divino pai Basílio deu em seu próprio sermão sobre este tema, ao lidar com muitos que emprestam de modo imprudente, mais do que com aqueles que o fazem por pura avareza.
[1] Eumênides (Εὐμενίδες) é um nome eufemístico grego que significa “as Benevolentes” ou “as Bondosas”. Na mitologia grega, Eumênides é usado como um nome alternativo para as Erínias (Fúrias), as deusas da vingança que punem crimes, especialmente crimes de sangue. O uso do nome Eumênides era uma forma de contornar o nome temido das Erínias e, assim, evitar atrair sua ira. (N.T.)
