OS ERROS DE ATHANASIUS SCHNEIDER
Padre Anthony Cekada (†2020), 6 de abril de 2019
Fonte: https://www.fathercekada.com/2019/04/06/the-errors-of-athanasius-schneider/
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: Padre Cekada sustenta que Jorge Mario Bergoglio revelou de forma explícita a revolução doutrinária e moral do Vaticano II, antes parcialmente disfarçada por seus predecessores. Critica conservadores e neo-tradicionalistas por esvaziarem a autoridade real do magistério papal, criando um “papa de papelão” sem força vinculante. Ataca duramente a proposta de Athanasius Schneider (1961–) e o recurso ao caso do Papa Honório I (585–638), acusando-o de cometer analogias falsas, erros históricos e confusão teológica. Argumenta que a tradição pré-Vaticano II ensinava quase unanimemente a perda automática do ofício por heresia pública. Conclui que o problema não é apenas Bergoglio, mas o próprio Vaticano II, visto como a fonte estrutural do modernismo que corroeu a fé, a hierarquia e a lex credendi da Igreja.
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Seis anos de palhaçadas de Jorge Mario Bergoglio (também conhecido como “Papa Francisco”) deixaram profundamente abalados muitos católicos anteriormente alienados. A natureza radical e destrutiva da revolução doutrinária e moral do Vaticano II, mantida em grande medida discretamente mascarada sob os regimes de João Paulo II e Bento XVI, finalmente veio à luz do dia quando Bergoglio assumiu o comando em março de 2013 e começou a implementar o Concílio a toda velocidade e com espírito de vingança (muitas vezes, literalmente).
A “direita” da Igreja Conciliar — aqueles que chamaremos aqui de “conservadores” ou, no caso dos que promovem a missa antiga dentro do sistema Novus Ordo, “neo-trads” — ficou a princípio atônita e, depois, indignada com a amplitude, a profundidade e o volume de erros que Bergoglio começou a produzir por palavras e obras.
Críticas longas e abertas a Bergoglio começaram a aparecer em veículos de opinião conservadores e neo-trads. Logo, até mesmo as palavras “herege” e “heresia” começaram a surgir. Mas, como os críticos de Bergoglio nesses círculos há muito haviam declarado o sedevacantismo como algo absolutamente impensável, eles tiveram de criar algum tipo de justificativa teológica plausível para sua posição geral. Essa “terceira via”, de alguma forma. teria que permitir-lhes continuar fazendo duas coisas ao mesmo tempo:
- Ignorar completamente os erros e heresias que Bergoglio ensina e pratica; e
- Continuar afirmando que Bergoglio é um verdadeiro papa, o Sucessor de São Pedro e o Vigário de Jesus Cristo na Terra.
A justificativa encontrada por conservadores e neo-trads para “quadrar o círculo” é esta: os teólogos que ensinaram que o papa recebe algum tipo de assistência especial do Espírito Santo em seu magistério autêntico — a função docente que ele exerce diariamente — estavam errados. Do mesmo modo, os teólogos também estariam errados ao afirmar que os católicos devem dar “o assentimento do intelecto” ao que o papa ensina por meio desse magistério autêntico.
Puf — pronto! Problema resolvido! O papa não tem direitos e você não tem obrigações!
Mas essa teoria conveniente não apenas colidiu com os ensinamentos dos teólogos pré-Vaticano II (veja, por exemplo, Salaverri, De Ecclesia, 1:503ss.), mas também com o ensinamento explícito dos próprios papas.
“[A] autoridade docente da Igreja, que, por uma sabedoria divina, foi constituída na terra para que as doutrinas reveladas permanecessem intactas para sempre e chegassem com facilidade e segurança ao conhecimento dos homens, (…) é exercida diariamente [“cotidie exercetur”] pelo Romano Pontífice e pelos Bispos em comunhão com ele.” (Pio XI, Mortalium animos, 1928).
“É Ele quem enriquece os pastores e doutores e, acima de tudo, o Seu Vigário na terra [“imprimisque suum in terris Vicarium”] com os dons sobrenaturais de ciência, inteligência e sabedoria, para que guardem fielmente o tesouro da fé, o defendam com vigor, e o expliquem e confirmem com reverência e devoção.” (Pio XII, Mystici Corporis, 1943).
“Quanto às opiniões, tudo o que os Romanos Pontífices ensinaram até agora, ou vierem a ensinar no futuro, deve ser mantido com firme adesão da mente [“necesse est et tenere iudicio stabili comprehensa”] e, sempre que a ocasião o exigir, deve ser publicamente professado.” (Leão XIII, Immortale Dei, 1885).
Torna-se ainda mais óbvio por que os conservadores e neo-trads querem se livrar dessas doutrinas estabelecidas se adicionarmos mais uma passagem sobre a autoridade de ensino papal, extraída da Encíclica Sapientiae Christianae de 1890, de Leão XIII, e a intercalarmos com alguns dos ensinamentos mais memoráveis do “Papa Francisco”:
“Portanto, o Pontífice deve ter o poder de declarar autoritativamente (…) o que é virtuoso [segundos casamentos adúlteros após um processo de discernimento!] e o que é pecaminoso [a pena de morte! prejudicar o meio ambiente!], o que deve ser feito [fronteiras abertas! acompanhamento LGBT!] e o que deve ser evitado [obsessões ‘abaixo da cintura’! a fé como adesão à doutrina! proselitismo! conversões! ter todas as respostas!] na obra da salvação; pois, de outro modo, ele não poderia ser nem um intérprete seguro da palavra moral de Deus, nem um guia seguro para o homem.”
Não importa. Sob a teoria conservadora/neo-trad, tanto a autoridade docente papal quanto o seu conteúdo estão mortos — reciclados como petiscos para as pombas da paz bergoglianas. Você pode ter o seu papa, mas ele é um papa de papelão, como aqueles displays do Walmart que falam sozinhos quando você passa por eles, mas que você geralmente ignora. Um papa assim é, em certo sentido, “Pedro”, mas com o microchip do “quem vos ouve, a mim ouve” removido.
No processo de promover sua teoria de um papado desnaturado, conservadores e neocons passaram então a denegrir o ensino tradicional pré-Vaticano II sobre o ofício papal, empregando termos como “papolatria” (idolatria do papa), “ultramontanismo” (um epíteto do século XIX inventado por galicanos, racionalistas “iluministas” e outros inimigos da autoridade papal) e “a teologia decadente dos manualistas” (um ataque modernista do século XX contra o tomismo neo-escolástico sistemático).
Esse fenômeno perturbador tornou-se agora bastante difundido, mas tratarei dele com mais vagar em outro artigo.
I. A INTERVENÇÃO DE SCHNEIDER
Aqui comentarei sobre um artigo recente que é o mais representativo dessa posição, “On the Question of a Heretical Pope” (“Sobre a questão de um Papa herético”), do Rev. Athanasius Schneider, bispo auxiliar da Arquidiocese de Santa Maria em Astana, Cazaquistão. O texto apareceu no blog Rorate Caeli em 20 de março de 2019 e foi tema de uma entrevista adicional com Dom Schneider que apareceu em 25 de março de 2019 no Life Site News.
Teremos que discutir o artigo do bispo com bastante detalhe, não apenas porque ele toca em uma ampla variedade de questões, mas também porque Dom Schneider é visto nos círculos conservadores e neo-trads como uma voz de liderança contra os erros bergoglianos mais escandalosos. Sei que artigos longos não agradam a todos os leitores, por isso espero produzir outro artigo, mais curto, para resumir o que se segue.
É óbvio pelo título que Dom Schneider pretende sufocar quaisquer tendências entre conservadores e neo-trads de considerar a possibilidade de que, em Francisco, eles estejam diante de um herege que, portanto, não poderia ser um verdadeiro papa — ou seja, de abraçar o sedevacantismo.
Para impedir isso, Dom Schneider tentará destruir o ensinamento pré-Vaticano II tanto sobre a natureza especial ou vinculante do magistério papal ordinário quanto sobre a perda automática do cargo por um papa herético. Dessa forma, leitores conservadores e neo-trads se sentirão livres para ignorar as heresias de Bergoglio, enquanto ainda alimentam a fantasia consoladora de que um propagador público de heresias ainda pode ser “Pedro”.
Seria de se esperar que um bispo que possui doutorado em teologia (ainda que em Patrística) conseguisse apresentar ao menos um argumento superficialmente coerente para o que é, à primeira vista, um ataque tão escandaloso tanto à autoridade de ensino papal quanto a uma opinião teológica quase unânime.
Mas aqui estaríamos enganados. O artigo de Dom Schneider é uma mesa de buffet de 7.000 palavras composta por erros factuais, alegações teológicas não comprovadas, analogias estúpidas e idéias desconexas, jogadas juntas sem qualquer aparência de raciocínio linear ou evidência de pesquisa séria. O estilo e a construção do artigo são um “fluxo de consciência” tão aleatório que se espera encontrar uma nota ao final dizendo: “Ditado, mas não revisado”.
As principais “iguarias” que Sua Excelência preparou para sustentar sua posição são:
- A própria proposta de Schneider de estabelecer uma espécie de “corretor papal”.
- O caso do Papa Honório como um argumento analógico contra o sedevacantismo.
Esses pratos estão servidos em meio a uma estranha variedade de acompanhamentos que não combinam nem com o prato principal nem entre si — os equivalentes teológicos, digamos, de sushi de marshmallow e cheesecake de sardinha.
II. OS ARGUMENTOS AUXILIARES DE DOM SCHNEIDER
Primeiramente, voltemos nossas atenções para alguns desses argumentos auxiliares. Cada um deles visa (desajeitadamente) a demonstrar que não há obrigação de assentimento interno ao magistério papal ordinário e que, se um papa vomita heresia, bem, devemos apenas dar de ombros, dizer “tanto faz” e ser “espirituais” a esse respeito.
- “Não há ‘verdadeiro consenso’ sobre como lidar com um papa herético”. Falso. O bispo não fez nenhuma pesquisa? Ou o Google não funciona no Cazaquistão? Depois de São Roberto Belarmino, teólogos dogmáticos e canonistas todos acabaram por se fixar no ensino de Belarmino como o correto: se um papa se torna um herege público, ele perde automaticamente o cargo porque se coloca fora da Igreja. Até o Dr. Roberto de Mattei chama a atenção de Dom Schneider por descartar levianamente um fato que todos parecem conhecer. (Veja a seção V abaixo).
- “O Papa João XXII (1316–1334) foi considerado ‘herege ou semi-herege’”. História distorcida e factualmente falsa. Incontáveis teólogos dogmáticos pré-Vaticano II refutaram essa afirmação. Para um resumo, veja meu artigo “Dr. de Mattei Prescribes an Anti-Sede Tranquilizer” (“Dr. de Mattei Prescreve um Tranquilizante Anti-Sede”).
- “A Igreja, nos raríssimos casos concretos de um papa cometer erros teológicos graves ou heresias, poderia perfeitamente viver com tal papa”. Apenas se, como Dom Schneider e companhia, você acha que pode ignorar o que o Vigário de Cristo ensina. Mas aqueles de nós que acreditam que Cristo deu ao papa autoridade real de ensino e as graças especiais para exercê-la, sustentariam, como o canonista pré-Vaticano II Maroto, que hereges públicos “devem certamente ser considerados excluídos de ocupar o trono da Sé Apostólica, que é a mestra infalível da verdade da fé e o centro da unidade eclesiástica” (Institutiones Iuris Canonici, 2:784).
- “A opinião dos teólogos errou sobre a matéria das Ordens Sagradas”. Falso, e um argumento analógico verdadeiramente patético contra Belarmino. Os teólogos envolveram-se em uma disputa sobre o que constituía a matéria das Ordens Sagradas — havia seis opiniões teológicas diferentes — e Pio XII encerrou a disputa na Sacramentum Ordinis (1947).
- “Já que uma pessoa excomungada pode validamente se tornar um papa, um herege também pode”. Falso e uma manobra de distração (red herring). A excomunhão é um impedimento de direito eclesiástico, do qual a legislação do conclave papal podia e de fato dispensou. A heresia, por outro lado, é um impedimento de lei divina para a obtenção do Pontificado e, como tal, a legislação do conclave papal não dispensou e, de fato, não poderia dispensar. Essa objeção ao sedevacantismo foi respondida repetidamente. Veja meu artigo de 2007, “Can an Excommunicated Cardinal Be Elected Pope?” (“Pode um Cardeal Excomungado ser Eleito Papa?”).
- “O papa é como um pai ruim; você não pode ‘deserdá-lo como pai de uma família’”. Analogia estúpida e inapropriada. A autoridade do pai de família surge da lei natural como resultado de um fato físico, e consiste em um poder dominativo privado sobre seus súditos (esposa e filhos); ele nunca pode deixar de ser pai. A autoridade do Romano Pontífice, pelo contrário, baseia-se num poder divino conferido a ele como resultado de um fato jurídico, e consiste num poder jurisdicional público sobre os seus súditos (os membros da Igreja); ele nem sempre foi papa, e ele pode deixar de ser papa por heresia, insanidade, renúncia ou morte. A analogia idiota do “pai ruim” é um dos mais antigos mitos tribais da corrente “Reconhecer e Resistir”. Veja meu vídeo “Why Do Traditionalists Fear Sedevacantism?” (“Por que os Tradicionalistas Temem o Sedevacantismo?”) e meu artigo “The Tribal Myth-Keepers: Salza and Siscoe on Sedevacantism” (“Os Guardiões dos Mitos Tribais: Salza e Siscoe sobre Sedevacantismo”).
- “A tentativa de depor um papa herético é ‘humana demais’, uma recusa a ‘carregar a Cruz’”. Pseudo-espiritualidade piegas, sem teologia. Diga isso a São Roberto Belarmino.
- “Outro erro na intenção ou na tentativa de depor um papa herético consiste na identificação indireta ou subconsciente da Igreja com o papa”. Será que nosso bispo/doutor em Patrística nunca tropeçou no dito de Santo Ambrósio Ubi Petrus, ibi Ecclesia — Onde está Pedro, aí está a Igreja?
- “A teoria que permite que um papa perca o cargo é uma espécie de ‘donatismo’”. Outra analogia estúpida e inapropriada. A heresia donatista sustentava, em efeito, que o poder permanente do caráter sacramental recebido na ordenação pode ser perdido pela indignidade do ministro. A perda do cargo papal, no entanto, refere-se à perda do poder de jurisdição, que não é permanente e pode ser perdido por uma variedade de razões — morte, perda da razão, renúncia ou heresia.
- “Quando um papa está em heresia, ele está ‘sob grilhões espirituais’, assim como São Pedro esteve sob grilhões materiais”. Outra analogia idiota e pseudo-piedosa. Um papa herege já não é mais “Pedro”. E quem colocou Bergoglio em suas correntes senão o próprio Bergoglio?
- “São Pio X foi o primeiro papa a fazer uma ‘reforma radical’ na ordem dos salmos recitados no Ofício Divino”. Asneira inventada e infinitamente reciclada por leigos aficcionados por liturgia. O arranjo romano primitivo dos salmos foi alterado pela primeira vez por São Gregório Magno (c. 600) e depois por São Pio V (1568). Veja meu artigo “The Pius X Breviary Reforms: A Personal Appreciation” (“As Reformas do Breviário de Pio X: Uma Apreciação Pessoal”).
- “O Papa Pio IX, quando solicitado a colocar São José no Cânon, fez o comentário ‘impressionante e instigante’: ‘Não posso fazer isso: sou apenas o Papa’”. Ah, é mesmo? Pio IX também disse La tradizione sono io! (“Eu sou a tradição!”), também bastante instigante, especialmente se você se dedica a uma triagem diária dos ensinamentos de um papa para decidir quais aceitar “à luz da tradição”. Para uma discussão, veja meu vídeo “The Pope Speaks: YOU Decide!” (“O Papa Fala: VOCÊ Decide!”).
- “Quanto mais um papa espalhar ambiguidades doutrinárias, erros ou mesmo heresias, mais luminosamente brilhará a pura Fé Católica dos pequeninos na Igreja”. Dom Schneider está brincando? Alguém estava queimando a plantação de papoula cazaque sob sua janela quando ele digitou essa frase? O que acontece quando “os pequeninos” perguntam à mãe o que o Santo Padre quis dizer com “sadomasoquismo” ou “coprofilia”? Sua Excelência já ouviu o trecho do Evangelho sobre escandalizar os pequeninos e as pedras de moinho?
Mas basta dessas gafes. Passemos agora às duas questões principais para as quais Dom Schneider deseja chamar a atenção de seus leitores.
III. UMA PROPOSTA DE “CORRETOR PAPAL”
É isso o que Dom Schneider nos oferece como antídoto para futuros Bergoglios: uma solução que ele afirma ser uma alternativa “mais segura” ao ensinamento praticamente unânime dos teólogos e canonistas segundo o qual um papa herege perde automaticamente o seu ofício.
“Normas canônicas vinculantes”, diz Sua Excelência, poderiam estipular o procedimento a seguir no caso de um papa herético ou manifestamente heterodoxo. O decano do Colégio de Cardeais seria obrigado a corrigir o papa privadamente e, se isso falhasse, publicamente. Em seguida, o decano apelaria a toda a Igreja para rezar para que o papa confirme a Fé e, ao mesmo tempo, publicaria uma Profissão de Fé rejeitando os erros teológicos que o papa ensina ou tolera. Se o decano falhasse em fazer isso, qualquer cardeal, bispo, grupo de bispos ou qualquer grupo de fiéis poderia seguir o mesmo procedimento. Além disso, nenhuma pessoa envolvida poderia ser submetida a sanções canônicas.
Minha primeira reação é pensar que o Cardeal Sodano, o atual decano do Colégio, talvez precisasse recolher outro envelope gordo de dinheiro dos Legionários de Cristo antes de pôr o processo em andamento — para se transformar, por assim dizer, de “cardeal coletor” em “cardeal corretor”.
Dito isso, a proposta padece de uma série de outras falhas mortais:
- Ela viola o princípio geral “Prima sedes a nemine judicatur” — a Primeira Sé (o papa) não é julgada por ninguém. No plano de Dom Schneider, inferiores são autorizados a sentar-se em julgamento sobre o ensinamento e o magistério autêntico de um verdadeiro papa e, se estes, a seu juízo, forem considerados deficientes, a condená-los publicamente como falsos.
- Um papa verdadeiro não está sujeito ao direito canônico porque, como Legislador Supremo, ele está acima dele e pode modificar ou alterar qualquer parte dele. Um papa herético poderia, portanto, modificar as “normas canônicas” propostas por Dom Schneider ou suprimi-las por completo.
- Do mesmo modo, um papa verdadeiro possui jurisdição universal, o que lhe confere poder irrestrito para nomear ou remover detentores de ofícios. Assim, um cardeal decano que invocasse a legislação de “correção” proposta por Dom Schneider e decidisse tornar-se o “cardeal corretor” de um papa herético poderia, portanto, ver-se sumariamente removido e nomeado como uma espécie de “cardeal vizinho” de Dom Schneider — nos arredores do Turcomenistão, Uzbequistão ou Tajiquistão.
- Quem corrige os corretores? Que garantia se tem da ortodoxia doutrinária deles, ou mesmo de sua probidade moral, ao presumirem emitir uma correção? Isso, como apontei no meu vídeo “Stuck in a Rut” (“Preso na Mesma Rotina”), era o problema de insistir que, antes que a heresia pudesse existir em um papa ou em qualquer outra pessoa, o herege tivesse primeiro que receber três advertências de um “amiguinho da ortodoxia”.
- E qual é o desfecho que Dom Schneider propõe se o corrigido ignorar os corretores? O bispo não diz. O papa-herege continua a ensinar erros e heresias para toda a Igreja, imagino. Suponha que, na teologia revisada do magistério papal à moda schneideriana/conservadora/neo-trad, graças ao microchip ausente, o papa simplesmente continuaria a ser ignorado.
- Além disso, Dom Schneider parece não ter considerado que esse negócio de correção “faça-você-mesmo” pode muito bem funcionar nos dois sentidos em relação a um sucessor de Francisco mais “ortodoxo”. Progressistas descontentes do National Catholic Reporter e, digamos, a conferência episcopal alemã poderiam muito bem decidir lançar o torpedo da “correção” contra um futuro “Papa Burke-oglio”, alegando que ele estaria espalhando erros que contradizem os ensinamentos de seu amado predecessor sobre contracepção, segundos casamentos adúlteros, clericalismo, imigração, pena de morte e canudos de plástico.
- E, por fim, deve-se acrescentar: “Ora, sim, Sua Excelência. É bom ouvir sobre a proposta de ‘correção pública’. Como é que isso tem funcionado para o senhor até agora?”.
Em sua proposta de um “corretor papal”, portanto, Dom Schneider está tentando flutuar com canudos — embora, espera-se, não sejam canudos de plástico prejudiciais ao meio ambiente.
IV. A “SOLUÇÃO” HONÓRIO
Aqui, Dom Schneider propõe que extraiamos um princípio de ação vis-à-vis Bergoglio a partir da controvérsia em torno do Papa Honório I (625–638). Antes de avaliarmos as razões do bispo, porém, será necessário fornecermos ao leitor algumas informações de contexto.
A. Contexto geral. Honório reinou durante a grande controvérsia sobre a heresia monotelita (= Cristo possuía apenas uma vontade, a divina). Por volta de 634, ele foi abordado por Sérgio, Patriarca de Constantinopla, que tentava resolver a disputa e pacificar todos os lados para agradar ao imperador Heráclio. Honório respondeu a Sérgio com várias cartas tratando da controvérsia. O conteúdo dessas cartas só se tornou público após a morte de Honório e levou a que eles fosse acusado, de diversas maneiras, ou de ser ele próprio um herege ou, ao menos, de ser brando com a heresia.
Em 681, o Terceiro Concílio de Constantinopla condenou e anatematizou Honório postumamente, juntamente com vários monotelitas; essa condenação foi posteriormente renovada pelo Segundo Concílio de Nicéia em 787 e pelo Quarto Concílio de Constantinopla em 870. A condenação acabou sendo incorporada aos textos de alguns juramentos eclesiásticos, e o Breviário Romano anterior a 1570 retratava Honório como tendo sido condenado por heresia.
No entanto, apesar dessas condenações, a Igreja continuou a reconhecer Honório como tendo sido um papa verdadeiro e sucessor legítimo (embora talvez fraco) de São Pedro.
Esses são os fatos do caso Honório com os quais todos concordam.
B. Fatos e interpretações disputados. Mas há inúmeros outros fatos e complicações nessa história sobre os quais historiadores da Igreja e teólogos não concordam, que foram interpretados de maneiras diferentes e que, em geral, têm sido objeto de disputas há séculos.
Essas questões disputadas incluem: se os próprios textos das cartas de Honório realmente provam que ele era um herege, ou apenas que ele foi “brando” no combate à heresia; como o termo “heresia” deve ser entendido nas diversas condenações conciliares, já que, à época, nem sempre tinha o significado técnico preciso que tem hoje; se a subsequente aprovação papal dos atos conciliares do Terceiro de Constantinopla (necessária para seu efeito legal) aprovou a condenação de Honório por heresia propriamente dita, ou apenas por covardia; ou se alguns dos documentos eram ou continham falsificações, um problema comum naquela época.
Inúmeras outras incertezas desse tipo turvam as águas, tornando difícil não apenas chegar a um relato histórico claro e objetivo do caso Honório, mas também extrair desses eventos complexos consequências teológicas corretas.
Protestantes, galicanos, racionalistas e outros, especialmente no século XIX, não hesitaram em suas conclusões, é claro, e rotineiramente exibiam o caso Honório como um de seus principais argumentos contra a autoridade papal em geral e a infalibilidade papal em particular.
Ao longo dos séculos, porém, os grandes teólogos dogmáticos católicos, incluindo São Roberto Belarmino, embora muitas vezes discordassem entre si quanto aos fatos e à documentação do caso, refutaram extensamente as repetidas tentativas de usar Honório como um porrete para esmagar o ensinamento católico tradicional sobre a autoridade do papa. Seus argumentos foram tão bem-sucedidos que, no século XX, os manuais padrão de teologia dogmática geralmente tratavam o caso de Honório sumariamente, em uma frase ou duas, entre as objeções menores à autoridade do papa.
(Para uma visão geral, veja “The Case of Honorius I”, junto com um link para uma obra do século XIX do Pe. [posteriormente Cardeal] Louis-Nazaire Bégin.)
C. Honório e os tradicionalistas. Após o Vaticano II, no entanto, escritores tradicionalistas da variedade “reconhecer e resistir”, como Michael Davies e Christopher Ferrara — talvez sem saber que estavam mantendo companhia teológica profundamente desacreditada — tentaram ressuscitar Honório como um argumento analógico matador contra o sedevacantismo e contra a obrigação de assentir ao magistério papal ordinário.
A conclusão que eles queriam que fosse tirada era que, como Honório foi um herege e a Igreja ainda o reconheceu como um verdadeiro papa, então um papa que seja herege não perde o seu ofício e pode ser ignorado com segurança.
Há quase quinze anos, levei apenas algumas frases para desmontar essa analogia frágil em meu artigo “Mr. Ferrara’s Cardboard Pope” (“O Papa de Papelão do Sr. Ferrara”) (veja o nº 11).
D. Honório na era de Bergoglio. Honório, porém, ressurgiu em tentativas conservadoras e neo-trads de explicar Bergoglio, como o artigo de 2015 do Dr. Roberto de Mattei, “Honorius I: The Controversial Case of a Heretic Pope” (“Honório I: O Caso Controverso de um Papa Herege”). Nesses artigos, sempre que historiadores católicos e teólogos dogmáticos do passado discordavam quanto a fatos, documentação ou análises, esses polemistas conservadores e neo-trads escolhiam invariavelmente a posição que parecesse mais prejudicial a Honório — e, portanto, a mais favorável à sua própria posição anti-sedevacantista de ignorar o papa.
Esse é o mesmo procedimento que Dom Schneider adota agora com Honório, a fim de empurrar os leitores para a seguinte conclusão:
“O Papa Honório I era falível, ele estava errado, ele era um herege. (…) [Os três concílios ecumênicos sucessivos, apesar do fato de terem] excomungado o Papa Honório I por causa da heresia, (…) não declararam sequer implicitamente que Honório I tivesse perdido o papado ipso facto por causa da heresia. De fato, o pontificado do Papa Honório I foi considerado válido mesmo depois de ele ter apoiado a heresia em suas cartas ao Patriarca Sérgio em 634, uma vez que ele reinou depois disso por mais quatro anos, até 638.”
Tenho certeza de que Dom Schneider pensou que esse argumento era realmente poderoso e original (assim como, sem dúvida, pensaram muitos de seus leitores conservadores e neo-trads). Porém, mais uma vez, se ele tivesse feito um pouco mais de pesquisa, teria descoberto que o argumento já havia sido feito e sumariamente derrubado há muito tempo.
E. Sim, outra analogia falha. Pois, como inúmeros polemistas trads das décadas de 70, 80, 90 e 2000, Sua Excelência deseja que derivemos por analogia dessa série complexa de eventos dois princípios teológicos gerais:
- O caso Honório refuta o ensinamento de Belarmino de que um papa herético perde automaticamente o seu ofício.
- O caso Honório demonstra que os católicos não têm obrigação de assentir ao magistério papal ordinário.
Ambos os argumentos analógicos e os princípios deles derivados são falsos, simplesmente porque as propriedades comuns necessárias para que qualquer analogia “funcione” estão completamente ausentes dessas analogias.
- Historiadores católicos e teólogos dogmáticos disputaram acaloradamente questões factuais no caso Honório (se as cartas demonstram que ele era culpado de heresia ou meramente brando com ela, o sentido do termo “heresia”, o significado das condenações conciliares, etc.); isso torna o fundamento factual das analogias não confiável desde o início. Por quê? Porque não se pode ter qualquer certeza quanto às propriedades comuns essenciais entre as duas coisas que estamos comparando: o caso Honório e o ensino de Belarmino sobre a perda do ofício papal. No que diz respeito apenas às questões de fato, portanto, a base para a analogia simplesmente desaparece.
- As cartas disputadas NÃO ERAM PÚBLICAS; e é apenas a heresia PÚBLICA que impede um herege de obter ou reter o ofício ou autoridade papal. O teólogo Hurter e outros dizem que é certo que: “as cartas de Honório eram desconhecidas [“ignotae”] até a morte do Pontífice e a do [Patriarca] Sérgio” (Medulla Theologiae Dogmaticae, 360). Esse fato sozinho já destrói o caso Honório como argumento tanto contra os teólogos pós-Belarmino quanto contra o sedevacantismo, mesmo se alguém concedesse que o conteúdo das cartas de Honório fosse herético. Pois é apenas a heresia pública que exclui alguém do corpo da Igreja e, no caso do papado, é a heresia pública que impede o herege de obter ou reter a autoridade papal. A heresia privada em um papa, por outro lado, não produz tal efeito. A existência de heresia pública em um papa é o próprio fundamento do princípio estabelecido por Belarmino, e é à existência de heresia pública nos papas do Vaticano II que os sedevacantistas aplicam o princípio de Belarmino e tiram sua conclusão. Assim, Dom Schneider, como inúmeros outros antes dele, está oferecendo uma analogia que não é apropriada — ou, em bom português, é simplesmente burra — pois se baseia em uma comparação falsa de bananas com laranjas.
- As cartas disputadas não eram públicas; portanto, elas não podem ser aduzidas como argumento analógico contra a obrigação dos católicos de dar “o assentimento do intelecto” ao que o papa ensina por meio do seu magistério ordinário autêntico. Cartas papais que permanecem ocultas e desconhecidas ao longo de um pontificado e só surgem após a morte de um papa não são magistério de forma alguma. O magister (mestre) estava morto havia cinquenta anos — neste caso, até 680 — e não havia ninguém na sala de aula. E na discussão atual, são precisamente os ensinamentos públicos (por palavras ou obras) dos papas do Vaticano II que os católicos fiéis objetam como contrários à fé e à moral católica — os erros e males que esses homens tentaram aberta e manifestamente impor à Igreja universal em todas as partes do mundo. Isso foi feito em milhares de ocasiões, por meio de suas inúmeras encíclicas, decretos, instruções, discursos e atos públicos. Portanto, assim como ocorre com o argumento da perda do ofício papal, a analogia de Honório carece de mais uma propriedade comum necessária ao princípio que tenta provar.
- O princípio sobre o qual Belarmino e os sedevacantistas fundamentam sua posição teológica é derivado dos dados da revelação — a fé é necessária para a pertença à Igreja — e, portanto, à primeira vista, oferece um grau de certeza teológica que não pode ser obtido de uma mera analogia (e, neste caso, factualmente questionável). O argumento por analogia (comparação de propriedades comuns entre duas coisas) nunca pode fornecer certeza, apenas probabilidade. Somente semelhanças significativas têm valor em um argumento deste tipo (Bittle, Science of Correct Thinking, 1950, 348), e não há nenhuma aqui.
Pois, no caso de Honório, demonstramos claramente que os fatos fundamentais da analogia são disputados e que as propriedades comuns exigidas não existem. Ademais, mesmo assumindo que elas existissem, ainda assim não poderiam fornecer um argumento analógico nem remotamente credível contra Belarmino, o sedevacantismo e a autoridade docente do magistério papal autêntico.
V. DE MATTEI: “RAZOAVELMENTE ACEITÁVEL”
Enquanto a reação inicial entre conservadores e neo-trads foi aplaudir o artigo de Dom Schneider, o historiador neo-trad Dr. Roberto de Mattei, como mencionado acima, mostrou-se bem menos entusiasta e, de fato, adotou um tom de elogio frouxo em sua entrevista ao Rorate Caeli em 22 de março de 2019.
Quase se pode ver il dottore professore encolher-se quando afirma que o artigo do bispo é “razoavelmente aceitável [ênfase minha] no momento presente, a fim de evitar aquele cripto-sedevacantismo ao qual alguns tradicionalistas tendem”, enquanto tenta contornar delicadamente o erro de Schneider quanto ao consenso dos teólogos a respeito da perda do ofício papal.
Aparentemente, porém, o Dr. de Mattei não acredita que o artigo do bispo seja suficiente para sufocar pensamentos intrusivos sobre o sedevacantismo entre as tropas conservadoras e neo-trads. O bom doutor sentiu-se, então, compelido a fazer uma digressão de três parágrafos explicando que, well, quando Belarmino ou Caetano escreviam sobre um papa publicamente herético, eles, na verdade, queriam dizer “público” no sentido de que a heresia fosse evidente para uma sociedade que era plenamente católica.
“Penso que os erros ou heresias do Papa Francisco, ainda que professados publicamente, não acarretam a perda do papado, uma vez que não são conhecidos e manifestos para a população católica. Quando falo de população católica, não me refiro à opinião pública católica no sentido mais amplo do termo, mas àquele grupo restrito de batizados que hoje mantém a fé católica em sua integridade. Muitos deles ainda interpretam pro bono as palavras e ações do Papa Francisco e não percebem qualquer malícia. Não podemos dizer, então, que a sua perda de fé seja evidente e manifesta.”
Ah, sim. Então, se, digamos, católicos homeschoolers vivendo isolados em Hayden Lake, Idaho, não perceberem as heresias de Bergoglio, ele continua livre de culpa como Vigário de Jesus Cristo na Terra? Ou a perda de ofício ipso facto só entraria em vigor depois que esses homeschoolers e outros como eles obtivessem altas pontuações num teste de manutenção da fé/percepção de heresia bergogliana?
Mas espere, tem mais! Não são apenas os pequenos bolsões de católicos alienados, mas ortodoxos que livram Bergoglio da culpa, mas também a grande horda de clérigos e leigos hereges. Eles também não notaram a heresia!
“A grande maioria dos batizados, os padres, os bispos, até o Papa, estão imersos na heresia e muito poucas pessoas conseguem distinguir a verdadeira fé. Portanto, as indicações corretas dos grandes teólogos clássicos são difíceis de seguir na prática.”
Entendeu? Os milhões de hereges que o Vaticano II criou não conseguem agora reconhecer a heresia como tal, logo a heresia papal NÃO PODE ser realmente pública ou manifesta — e assim o herege-chefe ganha deles mais um salvo-conduto!
Assim — apesar da internet, de todos os blogs, da mídia de massa, Facebook, Twitter, etc., etc. — o Dr. de Mattei quer que entremos em um mundo de faz-de-conta no qual as heresias de Bergoglio não são realmente públicas, não são realmente notórias, não são realmente manifestas. E isso para que os conservadores e neo-trads não precisem se preocupar com o fato de que os ensinamentos de Belarmino e de inúmeros outros teólogos e canonistas católicos se aplicam a Bergoglio e ao restante dos papas do Vaticano II, mesmo que uma realidade indiscutivelmente “pública” esteja escancarada diante de seus olhos.
Aqui precisamos acrescentar mais uma observação. Outros polemistas anti-sedevacantistas tentaram no passado, assim como o Dr. de Mattei, encontrar uma rota de fuga para contornar o ensino de Belarmino e companhia sobre um papa herético (e, assim, contornar também o sedevacantismo), atribuindo significados técnicos fantasiosos aos qualificadores “público”, “manifesto”, “abertamente divulgado”, etc., aplicados ao termo “heresia”.
Essa porta já foi fechada, porque os qualificadores em questão eram usados de modo intercambiável antes do Código de 1917 para distinguir a heresia difundida por documentos públicos ou discursos, por exemplo, da heresia que era oculta ou secreta — escrita em um diário ou conhecida apenas por algumas pessoas discretas. Veja “A Pope as a ‘Manifest’ or a ‘Public’ Heretic” (“Um Papa como Herege ‘Manifesto’ ou ‘Público’”).
VI. MAS FINALMENTE: NÃO É APENAS UM “PROBLEMA BERGOGLIO”
“A análise do Bispo Schneider sobre papas heréticos”, entusiasmou-se o site conservador/neo-trad One Peter 5, “pode ser exatamente a resposta que estamos procurando”.
Sem dúvida — mas é a resposta errada, baseada como está em analogias burras, “fatos” mal apresentados ou simplesmente errados, fantasias canônicas dignas da Terra do Nunca e erros teológicos. Como demonstramos extensamente acima, conservadores ou neo-trads estão enganando a si mesmos se ainda pensam que a lavagem teológica servida por Dom Schneider resolveu o seu “problema Bergoglio”.
E, de fato, eles estão se enganando ainda mais se pensam que aquilo que estão enfrentando desde 13 de março de 2013 é apenas um problema Bergoglio. É, na realidade, um “problema Vaticano II”.
O Vaticano II representou o triunfo da heresia modernista, dominado como foi por teólogos que eram, como disse o professor de Louvain Jürgen Mettepennigen, “herdeiros do modernismo”. As sementes envenenadas do erro teológico foram semeadas durante o Concílio com todos os seus “sim/mas”, baboseiras existencialistas, equívocos, ambiguidades, subterfúgios, silêncios, neologismos venenosos, redefinições, falsas equivalências, distinções destruídas e todo o resto.
Bergoglio nada mais é do que mais um fruto envenenado de um jardim completamente envenenado, e ele tem apenas aplicado os princípios que o Vaticano II lhe deu. Portanto, não pensem que, mesmo aplicando o princípio de perda de cargo de Belarmino a ele, seria possível de alguma forma se livrar do problema subjacente que ele encarna.
Pois alguém seriamente acha que Bergoglio abraçou e começou a espalhar os erros teológicos e heresias que hoje vomita apenas depois de aparecer na loggia de São Pedro seis anos atrás, sans mozetta? É claro que não — ele era um herege antes de ser eleito e, como assinalei em outra parte, Bergoglio realmente não tem nada a perder.
A fonte última desses erros, e de todo o sistema de pensamento que os originou e tornou possível sua implementação, é o modernismo do Vaticano II. A menos que os conservadores e neo-trads admitam isso e ajam em sua conformidade, trocar um Bergoglio por um “Burke-oglio” e esperar por uma restauração “de cima para baixo” será um sonho de tolo, pois o modernismo do Vaticano II já rachou e destruiu todos os alicerces, quebrou as ferramentas dos construtores e levou os escombros para um aterro ambientalista.
Admitam, pessoal. Exceto por um punhado relativamente pequeno de refúgios seguros da Missa latina, vocês não têm mais nada. Toda a lex credendi por trás dessa lex orandi desapareceu. Ao redor de vocês, o modernismo transformou a doutrina e a moral em lama, traduziu suas heresias em ação e institucionalizou o desprezo pela submissão à lei e pela própria noção de hierarquia.
Portanto, em vez de continuarem a clamar inutilmente contra os bichos-papões da “papolatria”, do “ultramontanismo”, do sedevacantismo e de Honório, os conservadores e neo-trads que buscam preservar a fé deveriam, de uma vez por todas, voltar seu fogo contra o verdadeiro inimigo — o Vaticano II — e trovejar a uma só voz: “Anátema ao Conciliábulo! Mil vezes anátema!”.
