PADRE HERMANN WEINZIERL VS PADRE OLIVIER RIOULT: REFUTAÇÃO DO LIVRO “MEMÓRIA EM FAVOR DA VALIDADE DO RITO DE CONSAGRAÇÃO EPISCOPAL PROMULGADO EM 1968 POR PAULO VI”
Lúcio Guimarães, 3 de fevereiro de 2026

INTRODUÇÃO
O livro Mémoire en faveur de la validité du nouveau rite de la consécration épiscopale promulgué en 1968 par Paul VI (“Memória em favor da validade do Rito de Consagração Episcopal promulgado em 1968 por Paulo VI”), escrito pelo Padre Olivier Rioult, foi respondido pelo Padre Hermann Weinzierl em seu livro Réponse au livre de M. l’abbé Rioult: Mémoire en faveur de la validité du nouveau rite de la consécration épiscopale promulgué en 1968 par Paul VI (“Resposta ao livro do Padre Rioult: Memória em favor da validade do Rito de Consagração Episcopal promulgado em 1968 por Paulo VI”). A controvérsia entre os dois autores ocorreu em 2023 e persiste até os dias de hoje devido ao silêncio do Padre Rioult. Publicada pela célebre Editions Saint-Rémi, a maior editora católica tradicionalista francesa da atualidade, a resposta do Padre Weinzierl permanece vitoriosa no campo teológico e ainda mais no campo social: não há notícia de nenhum grupo ou movimento que tenha subscrito à tese rioultista. O efeito absolutamente reverso ocorreu: os franceses tornaram-se ainda mais radicais na negação dos novos ritos de sagração episcopal. Essa rejeição espontânea dos católicos franceses é consequência de décadas de estudos promovidos pelo comitê Rore Sanctifica e que ainda vivem na mentalidade tradicionalista da Gália. Para dar notícia da controvérsia aos povos de língua portuguesa, traduzimos alguns excertos da resposta do Padre Hermann ao Padre Rioult, mas alertamos que a breve leitura de alguns parágrafos do livro não substitui a leitura completa da obra, a qual estará disponível abaixo, assim como os documentos essenciais do invicto comitê Rore Sanctifica.
Links:
Virgo-Maria: http://www.virgo-maria.org/
Les Publications Bimestrielles de Virgo-Maria: https://archive.org/details/virgo-maria-tome-xi-2007-septembre-octobre_202508/
Rore Sanctifica - Comité international de recherches scientifiques sur les origines et la validité de Pontificalis Romani: http://www.rore-sanctifica.org/index1.html
Rore Sanctifica - Invalidité du Rite de Consécration Épiscopale de Pontificalis Romani: https://archive.org/details/rore-sanctifica-tome-3-volume-3_202508/
Tome I: http://www.rore-sanctifica.org/rore-sanctifica-en-ligne_tome_1.html
Tome II: http://www.rore-sanctifica.org/rore-sanctifica-en-ligne_tome_2.html
Tome III: http://www.rore-sanctifica.org/rore-sanctifica-en-ligne_tome_3.html
Tome III - Livre 1: http://www.rore-sanctifica.org/bibilotheque_rore_sanctifica/01-publications_de_rore_sanctifica/rore_sanctifica-2014-01/Rore_Sanctifica_Tome3_Volume1.pdf
Tome III - Livre 2: http://www.rore-sanctifica.org/bibilotheque_rore_sanctifica/01-publications_de_rore_sanctifica/rore_sanctifica-2014-01/Rore_Sanctifica_Tome3_Volume2.pdf
Tome III - Livre 3: http://www.rore-sanctifica.org/bibilotheque_rore_sanctifica/01-publications_de_rore_sanctifica/rore_sanctifica-2014-01/Rore_Sanctifica_Tome3_Volume3.pdf
Tome III - Livre 4: http://www.rore-sanctifica.org/bibilotheque_rore_sanctifica/01-publications_de_rore_sanctifica/rore_sanctifica-2014-01/Rore_Sanctifica_Tome3_Volume4.pdf
EXCERTOS DO LIVRO DO PADRE HERMANN WEINZIERL

“O senhor escreveu recentemente um livro acreditando poder sustentar a validade da consagração episcopal do Novus Ordo. Quando ouvi falar disso, uma pergunta se impôs espontaneamente a mim: por que um confrade, que só recentemente tomou consciência da vacância da Santa Sé, sem precedente na história da Igreja, começaria por se ocupar desse tema? Há muitas outras questões teológicas mais urgentes a tratar!
“Como se sabe, o senhor deixou inicialmente a FSSPX para se juntar à chamada Resistência. Isto é, o senhor trocou o lefebvrismo moderado (em alemão, existe um ensaio fundamental sobre o tema, ‘Der Lefebvrismus’, do Dr. Josef Filser; revista ‘Athanasius’, Munique 1.2.3./2000) pelo endurecimento pontiagudo de Dom Williamson. Em seguida, o senhor esteve, por assim dizer, na escola dos dominicanos de Avrillé, dos quais adotou a posição diante do problema da consagração episcopal moderna; o senhor finalmente se distanciou de Dom Williamson — e tornou-se aquilo que se chama um ‘sedevacantista’. De repente, o senhor se encontrou sendo um de meus confrades que, alguns anos após a sua ‘conversão’, continua sempre a lançar-se em uma frente errada. Em todo caso, o seu livro transmite e reforça essa impressão.
“Vamos agora ao conteúdo do seu livro.
“Quanto a mim, gostaria de colocar logo no início aquilo que o senhor, infelizmente, só faz saber aos leitores no final, em um de seus anexos, pois isso lança uma luz crua sobre todo o seu trabalho:
“No referido anexo, o senhor zomba do professor Adrien Abauzit que, em seu zelo pela verdade católica, esforça-se por defender contra o senhor a infalibilidade do magistério ordinário da Igreja Católica Romana.
“Da sua parte, o senhor não hesita em utilizar a estratégia sofística bem aprendida junto à FSSPX e a Williamson, e nunca posta em questão: cita a exposição do Cardeal Franzelin, que mostra as condições da infalibilidade pontifical nas decisões extraordinárias «excathedra», para negar a infalibilidade do magistério ordinário! Conheço bem essa abordagem, pois é da mesma maneira que nosso antigo confrade da FSSPX, o Padre Gérard Mura, ‘argumentou’, chegando até a se desqualificar como teólogo.” (Weinzierl, 2023, p. 12).
(…)
“Caro confrade, talvez o senhor devesse começar pela ‘pequena tabuada’ da teologia antes de se lançar às ‘equações diferenciais’! Ainda consegue aceitar a ideia de que seu ‘papa’ é talvez infalível uma vez a cada cem anos — pois esse é, afinal, o resultado final desse raciocínio — e que isso seria suficiente para governar a Igreja como vicário visível de Jesus Cristo? Se for assim, compadeço-me verdadeiramente do senhor, pois então não compreendeu absolutamente nada, e seria mais honesto retornar à seita FSSPX!” (Weinzierl, 2023, p. 14–15).
(…)
“Aliás, o que é particularmente notável em sua pequena obra é que o senhor raramente cita teólogos reconhecidos e comprovados pela Igreja. Em contrapartida, cita o Padre Jean Michel Gleize de Écône, cujas omissões ‘teológicas’ (no sentido literal do termo!) já foram objeto de vários artigos por parte do senhor Padre Bernhard Zaby. O senhor ainda não percebeu que o Padre Gleize faz ‘teologia’ apenas pelo caminho da imaginação e da fantasia?” (Weinzierl, 2023, p. 15).
(…)
“No seu livro, a introdução sobre o que é um sacramento em geral é, infelizmente, extremamente sucinta. O senhor cita apenas uma obra em latim e, como disse, nenhum manual dogmático de renome internacional com «Notae theologicae» e, além disso, limita-se unicamente à questão da matéria e da forma da administração da ordenação. Lamento a ausência de nomes como Gonet, Paquet, Hugon, Lemmonyer, Héris, Lépicier, Brinktrine, Ferland e Garrigou-Lagrange, enquanto o senhor pretende escrever uma obra inspirada no Doutor Angélico. Onde estão os grandes comentadores tomistas no que concerne ao sacramento da ordem? O senhor mal menciona a possível influência dos «adjuncta» sobre a validade de um sacramento, se não fosse o fato de que zomba de velhos sacerdotes merecedores e de críticos da reforma litúrgica que qualificaram todos os ritos do Novus Ordo como ritos bastardos. Não foi isso que Dom Lefebvre fez? Contudo, a importância desses «adjuncta» em relação ao tema em questão se impõe já por causa da carta apostólica Apostolicae curae de Leão XIII. Aliás, o senhor encontrará diretamente nesta mesma carta apostólica uma instrução magisterial sobre como proceder na questão da validade de uma forma sacramental. O senhor já a conhece! Ou faz a sua leitura de olhos fechados?” (Weinzierl, 2023, p. 19).
(…)
“Em contrapartida, meu caro confrade, o senhor retoma sem refletir e sem escrúpulo a apresentação falsificada aprendida na FSSPX, inserida no vasto repertório dos papas que ‘se enganam’ e da qual a FSSPX necessita — como o senhor deveria e poderia saber nesse meio tempo —, para permitir e sustentar suas próprias heresias. A negação da infalibilidade do magistério ordinário serve também para criar um espaço de discussão que não existe e não pode existir para um católico.
“O senhor deveria se perguntar: que mal espírito galicano é necessário para exumar de maneira tão minuciosa todos os tipos de teorias e interpretar no decreto armênio esse falso problema?
“No entanto, existem outras críticas a formular contra o seu livro:
“O senhor explica, por exemplo, que «Spiritus principalis», ou «hegemonikon Pneuma», não significa simplesmente a pessoa do Espírito Santo, mas que se trata de uma metonímia, de um dom de graça particular com vista ao episcopado. (Weinzierl, 2023, p. 22).
“É, mesmo assim, estranho, mas não se lê em lugar algum algo a respeito disso. O senhor pensa, portanto, poder provar a validade de um conceito central de uma forma sacramental com uma tese que o senhor mesmo inventou. Não é isso mais do que ousado — ou, do ponto de vista teológico, temerário?
“Como a sua tese não se encontra entre os teólogos confirmados, o senhor é obrigado, meu caro confrade, a servir sucessivamente aos seus leitores conceitos diferentes, mas incompatíveis. Tem-se, de certa forma, a impressão de que não foi uma única pessoa que escreveu esse livro, mas um grupo de trabalho mal coordenado.
“A graça de ordem específica do episcopado não é, na verdade, senão uma graça habitual como complemento da «gratia sanctificans» para a santificação subjetiva do beneficiário da ordenação, «ut sit idoneus minister» no âmbito de um sacramento dos vivos; mas, com o senhor, é outra coisa: é, pelo contrário — o Padre Pierre-Marie o diz abertamente —, a ‘graça que faz o bispo’.
“Tal coisa não existe, pois a «potestas ordinis» não é um dom da graça em sentido próprio. A «potestas ordinis» está em relação direta com o caráter ordenado, ou mesmo concretamente idêntica a este; o caráter, portanto, não é uma graça. Ver a esse respeito o resumo dogmático de Pohle/Preuss, Dogmatic Theology, VIII, ‘The sacraments in general’, p. 85–86.
“O resumo dogmático de Pohle/Preuss se pergunta se o caráter é uma ‘relação («relatio»)’, uma «qualitas passiblis», um «habitus infusum como uma graça», ou então uma «potentia» para agir. A relação pressupõe algo existente como sujeito na alma, de onde a relação pode emergir. O caráter, portanto, não pode ser por excelência uma relação, mas a provoca.” (Weinzierl, 2023, p. 23).
(…)
“Portanto, ele não é em si mesmo uma relação (Suppl. III. q. 63 a. 2 ad 3). Também não pode ser uma «qualitas passibilis», à semelhança de um carisma, pois toda «passio» tem um ir e vir. Mas o caráter é algo permanente. Também não pode ser um «habitus infuso», pois um «habitus» de graça não pode servir para fazer o mal, assim como um «habitus» de vício não pode servir para fazer o bem. Resta, portanto, em última instância, a «potentia», pois esta é indiferente ao bem e ao mal (Suppl. III. q. 63 a. 3). O caráter, como «potestas ordinis», é um poder e uma capacidade de ação cujo uso pode ser bom ou mau. Um sacerdote em estado de pecado mortal pode celebrar a missa tão bem quanto um sacerdote em estado de graça que, além disso, se beneficia de sua graça específica de ordem que o santifica subjetivamente. Um bispo mal-intencionado pode vender os ministérios de maneira simoníaca. Mas a graça não é a «potestas ordinis».
[Nota d’O Recolhedor: Torna-se clara a nota distintiva de potência do sacramento enquanto caráter indelével nas palavras de São João, a propósito do Batismo, em Jo 1,12: Quotquot autem receperunt eum dedit eis potestatem filios Dei fieri his qui credunt in nomine eius (“Mas a todos os que o receberam, deu poder de se tornarem filhos de Deus, àqueles que crêem no seu nome”). No original grego, tem-se: ὅσοι δὲ ἔλαβον αὐτόν, ἔδωκεν αὐτοῖς ἐξουσίαν τέκνα θεοῦ γενέσθαι, τοῖς πιστεύουσιν εἰς τὸ ὄνομα αὐτοῦ, em que poder ou potência é exousían, “autoridade”.]
“É exatamente isso que afirma o Padre Lécuyer e o que o senhor também afirma! As afirmações de Lécuyer remontam a essa teoria de Farine que Diekamp rejeita severamente em seu resumo dogmático, como se o próprio Espírito Santo fosse o caráter indelével. É claro que Farine também sabia que o Espírito Santo, como Deus, não pode ser a forma metafísica de uma coisa criada, pois o infinito nunca é a forma do finito. Mas tomemo-lo no sentido dessa metonímia de que o senhor fala. Isso também não é possível, pois, no sentido dessa metonímia, o caráter indelével é o próprio Cristo, e não o Espírito Santo. O Espírito Santo é certamente a «causa efficiens» do caráter, mas não sua «causa formalis». (Suppl. III., q. 63, a. 3, sed contra) «Sed character aeternus est ipse Christus, secundum illud Heb. I, qui cum sit splendor gloriae et figura, vel character, ‘substantiae eius’. Ergo videtur quod character proprie sit attribuendus Christo».” (Weinzierl, 2023, p. 24).
(…)
“Pergunta: Mas como o caráter sacramental pode ser usado para o mal, se ele é o do Cristo? Resposta: Como o caráter não é senão uma participação imperfeita no sacerdócio de Cristo e em sua encarnação, isso é possível. É por isso que o segundo efeito do sacramento da ordem é justamente um aumento da graça, que provém do caráter, visto que o caráter confere certo direito à graça «sub ratione absentiae obecis gratiae». Mas o efeito da graça serve unicamente para a santificação subjetiva. Assim, a sua teoria sobre a ‘graça particular do episcopado, que faria o próprio episcopado’ é inválida.
“Falemos de outras contradições: de um lado, o senhor afirma que o «Spiritus principalis» é um dom do Espírito Santo no sentido da metonímia e, de outro, dá longamente a palavra ao Padre Lécuyer, que explica a origem estóica desse termo. Como uma coisa não tem nada a ver com a outra, o senhor precisa decidir já qual caminho quer seguir.
“Dom Botte escolheu o caminho da facilidade em 1974. Declarou sem hesitação que também não sabia o que esse termo queria dizer. Mas isso era falso, pois ele conhecia o Padre Lécuyer e suas teorias. Dom Botte temia com razão discussões críticas e não queria se envolver em um debate sobre as opiniões preferidas de Joseph Lécuyer. Foram necessárias décadas para que se interessassem realmente pelos trabalhos de Lécuyer nos anos 1950. Sem o Rore Sanctifica, ninguém saberia disso hoje.
“Mas existe ainda um meio muito simples e sem grande teoria para acabar com a sua suposta metonímia.
“A própria seita conciliar quer que «Spiritus principalis» signifique o Espírito Santo como pessoa, de acordo com o que essa seita afirma ser o ‘Espírito Santo’. Em todo o mundo, não há outra interpretação; por ocasião das novas cerimônias de consagrações episcopais, fala-se sempre com entusiasmo da ‘efusão do Espírito Santo’ que ocorre.” (Weinzierl, 2023, p. 25).
(…)
“Isso certamente vai contra a origem evidente dessa noção no estoicismo, que Joseph Lécuyer nos fez descobrir com ênfase, mas assim é. No entanto, trata-se de um estoicismo a seu gosto e seu caleidoscópio muito personalizado. A isso se acrescenta o fato de que a tipologia e a nomenclatura introduzidas nos novos ritos preveem a maiúscula para a pessoa do próprio Espírito Santo, e a minúscula para os dons de graça do Espírito Santo. Pode-se ver claramente isso comparando os ritos da antiga e da nova confirmação. Antes, não apenas «Spiritus Sanctus», mas também «Spiritus timor Tui» exigia a maiúscula. Na nova confirmação, isso se torna «spiritus timor Tui». Como na consagração episcopal do Novus Ordo está escrito «Spiritus principalis» com maiúscula, isso significa que se trata da própria pessoa do Espírito Santo, apesar de qualquer outra origem desse termo. E disso resulta que as suspeitas do Rore Sanctifica segundo as quais a nova forma de consagração episcopal violaria o dogma do Filioque são plenamente justificadas, e que suas zombarias, caro confrade, são totalmente deslocadas a esse respeito. O funcionamento teológico normal da seita conciliar passa pelo caminho da ‘cristologia segundo o Espírito’, muito na moda!” (Weinzierl, 2023, p. 25–26).
(…)
“E porque é assim, é também fácil provar que o Rore Sanctifica tem razão em supor que a forma do Novus Ordo da consagração episcopal deve ser compreendida no sentido de uma negação explícita do dogma da processão do Espírito Santo também de Deus Filho. Pois essa heresia se encontra frequentemente nos documentos e outros ritos da seita conciliar.” (Weinzierl, 2023, p. 26).
(…)
“Queremos aqui ser muito breves, pois o assunto pode ser tratado em poucas frases. Com o seu elogio ao pseudo-Hipólito, o senhor está infelizmente assentado sobre uma petição de princípio. Em outras palavras, o senhor pressupõe aquilo que deveria de fato provar, a saber, que as fontes da chamada Traditio apostolica são autênticas. Mas ao que tudo indica, o senhor está meio século atrasado em relação ao estado da ciência. Lembro-lhe que Jean Magne e Jean-Michel Hannsens já haviam feito a limpeza desse amontoado na sua época, em meados da década de 1970. Um cético como o Padre Bernard Gy acabou por se alinhar a isso no final de sua vida. O senhor sabe que houve um colóquio na Universidade de Laval, no Québec, há alguns anos, com uma personalidade científica como Paul-Hubert Poirier. Na Alemanha e em toda a área de língua alemã, o trabalho de Christoph Markschies sobre a chamada Traditio apostolica do Pseudo-Hipólito já foi aceito há muito tempo. Interrogamos sobre isso especialistas em manuscritos da Universidade de Innsbruck.” (Weinzierl, 2023, p. 29).
(…)
“Então, o que é essa história da Traditio apostolica? Deixem-me dizer como essa fábula nasceu: na segunda metade do século XIX, os dois maçons Connally e Schwartz descobriram, aparentemente de modo ‘independente’ um do outro, a existência dessa suposta tradição. Mas, na realidade, tratava-se de outra coisa. Imagine um produtor farmacêutico que foi obrigado a retirar seu produto do mercado. Ele pega então os componentes e age como se tivessem sido redescobertos, mistura tudo de novo e dá um novo nome a esse produto. É só isso! Quando falamos da Traditio apostolica, trata-se na realidade de uma coletânea pseudo-canônica dos monofisitas coptas, conhecida desde sempre pelo nome de Sinodos alexandrinus e já condenada no sínodo do Latrão sob o Papa São Martinho I; (cân. 20, Denz. 272):
“Se alguém, segundo os hereges ímpios, de qualquer forma que seja (…) deslocar de maneira ilícita os limites que os santos Padres da Igreja Católica — ou seja, os cinco santos Concílios universais — determinaram de maneira irrevogável e buscar de forma temerária novidades e apresentações de outra fé, ou livros, ou cartas, ou escritos, ou assinaturas, ou falsos testemunhos, ou sínodos [nosso acréscimo: trata-se do Sinodos], ou atos de debates, ou ordenações vãs não reconhecidas pelos cânones eclesiásticos, ou delegações que não convêm e sem fundamento [nosso acréscimo: por essas delegações, deve-se entender a suposta missão de São Clemente de Roma, como secretário dos Apóstolos, de espalhar essas absurdidades pseudo-apostólicas. No Sinodos, está de fato escrito que ele deve copiar tudo isso e dar a conhecer ao mundo. Assim, portanto, as pseudo-clementinas também são condenadas!], e se, de maneira geral, como é costume dos hereges, alguém faz outra coisa por sua atividade diabólica e por vias tortuosas e astutas contra as pregações piedosas dos ortodoxos da Igreja Católica — ou seja, de seus santos Padres e de seus sínodos — a fim de destruir a confissão sincera de nosso Senhor e Deus Jesus Cristo, e que persista até o fim, sem arrependimento, nessas ações ímpias, que tal homem seja condenado pelos séculos dos séculos, e que todo o povo diga: assim seja.” (Weinzierl, 2023, p. 29–30).
(…)
“O Sinodos alexandrinus também existe na versão do Senodos aethiopicus. Curiosamente, ele contém todos os elementos importantes que contém também a Traditio apostolica. Os coptas monofisitas consideram essa coletânea sagrada até hoje. Existe hoje literatura suficiente sobre esse assunto, consultável no Google Books. Mesmo Dom Botte citou o Sinodos. Para dar credibilidade à construção da Traditio apostolica, simplesmente pegaram antigos fragmentos do Sinodos e os declararam autênticos. O manuscrito veronês que contém uma parte do Sinodo em tradução latina, sobre o qual se baseia a consagração episcopaldo Novus Ordo, provém da tradição escrita do bispo ariano godo Maximinus. Isso também está comprovado há muito tempo. Mostraremos mais adiante que uma interpretação ariana desse texto é perfeitamente possível.” (Weinzierl, 2023, p. 30–31).
(…)
“Summa Summarum: a utilização do termo «hegemonikon pneuma» em orações de Ordem de origem obscura certamente não é sempre herética, mas é, em princípio, um sinal externo de uma origem duvidosa, e também, com bastante frequência, uma razão para invalidá-la. É isso a resposta para essa questão! A pluriformidade heterogênea dos escritos pseudo-apostólicos no Sinodos, que muitas vezes se contradizem entre si, de forma alguma corresponde a um monofisismo puro.
“Ainda teríamos muito a escrever sobre seu anexo referente à Lumen Gentium, onde felizmente concordamos com o senhor em muitos pontos, embora não possamos seguir a conclusão que o senhor dele tira, mas guardamos isso para mais tarde. Desejamos, portanto, concluir aqui.
“Fornecemos ao senhor, de forma breve, toda uma série de indicações e provas que precisa estudar! Para isso, é certamente necessário se libertar definitivamente do sino ideológico da FSSPX, a fim de poder considerar a doutrina católica sem preconceitos. Com todo o respeito que lhe devo, o fato de o senhor ter negado um dogma em um de seus anexos, zombando do professor Adrien Abauzit, nos deixa perplexos…
“Mas, para além dessa heresia evidente da negação da infalibilidade do magistério ordinário, há outro erro em seu livro, que diz respeito à negação de uma «conclusio theologica», e que queremos abordar brevemente.
“Para relembrar, uma «conclusio theologica» é uma conclusão tirada a partir de dois dogmas. Uma «sententia certa» é uma conclusão tirada de um dogma e de uma verdade racional certa. Essa «conclusio theologica» de que falamos se enraíza nos dois dogmas seguintes:
“1) O sacramento da ordem, enquanto sacramento dos vivos, confere uma graça específica («de fide»).
“2) O sacramento da ordem confere um caráter indelével («de fide»). A «conclusio theologica» que daí decorre é a seguinte:
“A graça específica da ordem e o caráter são realmente diferentes.
“Ora, ou o caráter é idêntico à «potestas ordinis» segundo a doutrina estritamente tomista, ou pelo menos se enraíza nela segundo outros teólogos reconhecidos (cardeal Billot), e, por outro lado, a graça específica da ordenação, não sendo infundida no contexto de um sacramento dos vivos senão para a santificação subjetiva do ordenado, não se pode falar que a graça específica do episcopado ‘faz o bispo’, como afirmam o Padre Lécuyer e o Padre Pierre-Marie de Kergorlay, e como o senhor também pensa, uma vez que concorda com eles em tudo! Em todo caso, sua maneira constante de se expressar não permite tirar outra conclusão sobre esse assunto.
“Ao identificar a graça com a «potestas ordinis», o senhor nega, portanto, a «conclusio theologica» acima mencionada de uma distinção real entre a graça e o caráter. Segundo todas as edições de Diekamp a Diekamp/Jüssen, utilizadas no seminário da FSSPX em Zaitzkofen e reeditadas pelas editoras da FSSPX, tal coisa está sujeita à seguinte censura: «gravis error in fide ecclesiastica».
“O seu erro de fé quanto à negação da infalibilidade do magistério ordinário é certamente moralmente mais grave, mas o senhor deveria apenas suprimir um único apêndice. Porém, o segundo erro se encontra em todo o seu livro. O senhor deve, portanto, retirar o seu livro [de circulação] e corrigir os erros que ele contém!” (Weinzierl, 2023, p. 49–50).
(…)
“Agradecemos também por citar, no DTC, as formas sacramentais que também são mencionadas na Vindication, o que nos inspirou a consultar o texto original, pois isso nos fornece um verdadeiro argumento de autoridade no âmbito do magistério ordinário dos bispos ingleses, em concordância com a Apostolicae curae.” (Weinzierl, 2023, p. 49–51).
(…)
“Felizmente, agora está realmente claro que, mesmo após a eliminação da heresia adocionista na forma de Paulo VI, esta ainda seria inválida, porque assim só se teria obtido uma equivalência formal com uma forma etíope de ordenação sacerdotal (um texto sem significado prático, encontrado apenas em antigos manuscritos e com o qual nunca se ordenou), cuja validade a Santa Sé não quis reconhecer, pois o título de ‘padre’ não se encontra nele.” (Weinzierl, 2023, p. 51).
(…)
“Em todas as páginas seguintes do seu livro, as outras aparições da palavra ‘caráter’ aparecem apenas como uma menção em suas citações de Lumen Gentium, que, no contexto de seu livro, não acrescentam nada à clarificação do problema. Deixo para mais tarde a frequência da menção dos termos «potestas ordinis» ou ‘poder de ordem’ e de seu contexto. Além disso, a obra do Padre Karl Prümm merece uma discussão aprofundada. Não a faremos aqui.
“Resta, portanto, que a maneira de invocar a noção de caráter sacramental indelével tem, em seu livro, o puro objetivo de uma folha de figueira como a que Adão usou quando se deu conta de sua nudez. O senhor toma o caráter exatamente como Lécuyer o toma, enquanto «pneuma». Pouco importa se se refere ao Espírito Santo ou, ao contrário, estritamente ao sentido do estoicismo: trata-se de um grave erro! De resto, o senhor tenta misturar toda sorte de noções por meio de expressões demasiado implícitas: «graça» e «caráter», «causa efficiens» e «causa formalis», etc. O senhor apresenta um jogo de palavras de modo associativo, sem ser discursivo! Com esses equívocos, pode-se afirmar qualquer coisa. E tudo se constrói sobre uma Traditio apostolica que não existe! Essa é a sua metodologia!” (Weinzierl, 2023, p. 56).
(…)
“Se o senhor procura uma saída pensando poder justificar-se por uma analogia entre o caráter sacramental e a união hipostática decorrente da Encarnação do Verbo eterno, de modo que ainda se pudesse considerar o caráter como uma graça do Espírito Santo no que diz respeito à sua «causa formalis», pois seria o mesmo no contexto da encarnação, queremos imediatamente rejeitar essa idéia. Santo Tomás de Aquino e São Boaventura argumentaram ambos contra Alexandre de Hales dizendo que a união hipostática não ocorre nem «mediante SpirituSancto como seu principiumformale», nem por um «habitus» de graça criada (ver Boaventura, Opera Omnia III, dist. 2, art. 3, q. 2 & 3; disponível em www.documentacatholicaomnia.eu; assim como Tomás, in Sent. lib. III, d. 2, q. 2, a. 2, q. 1 & 2, e também S. Th. III., q. 6, a. 6; disponíveis em www.docteurangelique.com). O Espírito Santo é, simplesmente, como Boaventura ensina claramente, a «causa efficiens» por apropriação! A doutrina de Boaventura é totalmente aceita em manuais dogmáticos conhecidos, como, por exemplo, o de Scheeben, ao qual também nos referimos no início da lista de fontes propostas e que o senhor pode consultar em francês via www.archive.org. Tanto mais que é claro que não há diferença entre Tomás e a escola franciscana primitiva, representada pelo Doutor Seráfico, a esse respeito. O nestorianismo decorre da opinião de que a encarnação do Verbo teria ocorrido «formaliter mediante SpirituSancto», pois, nesse caso, o Espírito Santo — como ironiza São Boaventura — seria apenas uma cola («glutamen»), incapaz de conduzir a qualquer unidade substancial, visto que uma ‘cola’ estaria mais próxima de cada tábua colada do que as duas tábuas entre si. As opiniões de dois hereges condenados, Teodoro de Mopsuéstia e Teodoreto de Ciro, citadas pelo Padre Lécuyer (sem sua crítica), têm precisamente em mente uma unidade acidental. As duas naturezas de Cristo coladas juntas pelo Espírito Santo no meio!” (Weinzierl, 2023, p. 56–57).
(…)
“No decorrer de sua investigação, nada disso mais se nota, e tudo parece ser uma paráfrase do que já lemos até aqui sob a pena do Padre Pierre-Marie de Kergorlay. Tudo o que o senhor expõe baseia-se mais ou menos nos artigos do Padre Lécuyer, cujas citações constituem grande parte de seu livro. Sua investigação, portanto, não traz nenhum elemento novo, e como o senhor mesmo não respeita a intenção que formulou no início e que se mantém apenas como uma folha de figueira, não vale a pena levá-la a sério.” (Weinzierl, 2023, p. 94).
(…)
“Ao contrário do senhor, nos parece que vale a pena examinar como os manuscritos dessa nova consagração episcopal se inserem no contexto de todo o conjunto dos escritos dessas coleções pseudo-epigráficas; e como devem ser compreendidos em seu contexto. Depois de ter lido os artigos correspondentes de Harnack e Schwartz, que à época apresentavam a Traditio apostolica, cuja existência postulavam então, é necessário chegar à seguinte conclusão, a saber, que tudo isso tinha um pano de fundo sectário! É absolutamente claro que a noção de «hegemonikon pneuma», ou «spiritus principalis», designava um carisma muito próximo da concepção herética do ministério dos adeptos modernos do ‘movimento carismático’, assim como da concepção daqueles protestantes. Assim, segundo os Canones Hippolyti, a ‘ordenação sacerdotal dos confessores’ prontos para o martírio seria supérflua, pois eles já teriam demonstrado, por essa disposição para o sofrimento, que sua ordenação não era necessária, pois possuíam já esse ‘carisma indispensável’ para o sacerdócio.” (Weinzierl, 2023, p. 95).
(…)
“Em outras palavras, tudo o que essa chamada Traditio apostolica tem a oferecer é uma origem sectária. Pode-se notar aqui que a suspeita quanto à origem estóica do termo-chave «hegemonikon pneuma» é exagerada, uma vez que o sistema religioso do gênero literário pseudo-hipolítico se baseia apenas em um ‘dinamismo’ primitivo, assim como o ‘animismo’ de algum selvagem pagão nas florestas virgens. Em si, isso pode ser verdade nesse caso em particular, mas não explica a preferência dos ‘círculos iluminados’ desde o século XIX por esse gênero literário duvidoso.” (Weinzierl, 2023, p. 98).
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APÊNDICE EXPLICATIVO
1. Crítica metodológica geral
Padre Hermann Weinzierl critica Padre Rioult como alguém cuja trajetória errática dentro do tradicionalismo (FSSPX → Resistência → sedevacantismo) teria feito com que herdasse vícios metodológicos e doutrinários de posições anteriores. Weinzierl acusa Rioult de:
- Negar implicitamente dogmas, sobretudo a infalibilidade do magistério ordinário;
- Utilizar sofismas herdados da FSSPX, citando seletivamente o Cardeal Franzelin para restringir a infalibilidade apenas ao magistério extraordinário;
- Ignorar a tradição dogmática sólida, omitindo manuais clássicos e comentadores tomistas centrais (Garrigou-Lagrange, Billot, Hugon, Gonet, etc.);
- Basear-se quase exclusivamente em Lécuyer e Pierre-Marie de Kergorlay, cujas posições Weinzierl considera teologicamente errôneas ou perigosas.
O livro, segundo ele, carece de rigor, coerência interna e fidelidade ao método escolástico.
2. O núcleo dogmático: graça, caráter e “potestas ordinis”
O ponto central da crítica é a confusão entre graça e caráter sacramental.
Weinzierl reafirma a doutrina tradicional:
- O sacramento da ordem confere: 1) um caráter indelével (“potestas ordinis”); 2) uma graça específica, ordenada à santificação subjetiva do ordenado.
- Esses dois efeitos são realmente distintos (“conclusio theologica”).
- O caráter: 1) não é graça, 2) não é o Espírito Santo, 3) não é um “habitus”, 4) mas uma “potentia” permanente, capaz de ser usada bem ou mal.
Ao sustentar que haveria uma “graça que faz o bispo”, Rioult identifica graça e caráter, incorrendo em um grave erro teológico.
3. O problema do “Spiritus principalis”
Grande parte do debate gira em torno da expressão “Spiritus principalis / hegemonikon pneuma” na forma da consagração episcopal do Novus Ordo.
Weinzierl sustenta que:
- O autor tenta salvar a validade do rito por meio de uma metonímia inventada, segundo a qual o termo designaria um dom de graça, e não a Pessoa do Espírito Santo;
- Essa interpretação não tem respaldo nos teólogos reconhecidos;
- Na prática litúrgica e teológica do próprio Novus Ordo, o termo é entendido como a Pessoa do Espírito Santo, o que é reforçado: a) pelo uso da maiúscula, b) pela linguagem oficial de “efusão do Espírito Santo”;
- Isso gera um problema grave: a forma sacramental passa a sugerir uma processão do Espírito Santo sem referência explícita ao Filho, o que toca diretamente no dogma do Filioque.
Assim, as suspeitas de heresia não se referem a elementos meramente acidentais.
4. Rejeição da “Traditio apostolica”
Weinzierl rejeita frontalmente o uso da chamada Traditio apostolica atribuída a Hipólito:
- Considera-a uma construção pseudo-epigráfica moderna, já desmontada pela crítica acadêmica contemporânea (Magne, Hanssens, Markschies);
- Afirma que ela deriva do “Sinodos alexandrinus”, coletânea monofisita já condenada;
- Sustenta que esses manuscritos têm origem sectária, com traços: a) dinamistas, b) proto-protestantes, c) proto-carismáticos, d) incompatíveis com a teologia sacramental católica.
O uso dessa fonte compromete toda a fundamentação histórica e teológica do rito.
5. Avaliação final
Weinzierl conclui que o livro criticado:
- Nega ao menos dois pontos doutrinários graves: 1) a infalibilidade do magistério ordinário; 2) a distinção real entre graça e caráter.
- É metodologicamente inconsistente, dependente de fontes espúrias e repleto de ambiguidades conceituais;
- Não apresenta contribuição original, limitando-se a repetir Lécuyer;
- Deve, por isso, ser retirado de circulação e corrigido.
Para Weinzierl, o problema não é periférico nem opinável: trata-se de uma ruptura com a tradição dogmática e sacramental da Igreja.
[Nota d’O Recolhedor: O chamado opinionismo é definitivamente uma posição insustentável.]
