POR QUE TUDO O QUE VOCÊ SABE SOBRE SEGUNDA GUERRA MUNDIAL PODE ESTAR ERRADO
Ron Unz e Mike Whitney, 12 de junho de 2023
Fonte: https://www.unz.com/runz/why-everything-you-know-about-world-war-ii-is-wrong/
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: Entrevista de Ron Unz a Mike Whitney, uma longa revisão em que Unz desafia a narrativa convencional da Segunda Guerra Mundial, argumentando que muitas crenças difundidas sobre Hitler, as causas da guerra, o papel dos Aliados, Pearl Harbor, o Holocausto e outras questões são fundamentalmente equivocadas ou invertidas em relação aos fatos históricos. Unz sustenta que a história dominante foi moldada pela mídia, pela propaganda e por interesses políticos, levando a uma compreensão distorcida que legitima políticas ocidentais no presente. Ele apresenta interpretações alternativas de eventos como o início da guerra, a Blitz de Londres, a ocupação da Alemanha, as relações com a União Soviética (Operação Pike), a condução da guerra no Pacífico e o Holocausto.
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“Grande parte da legitimidade política atual do governo americano e de seus vários Estados-vassalos europeus baseia-se numa determinada narrativa histórica da Segunda Guerra Mundial, e questionar esse relato pode gerar graves consequências políticas.” — Ron Unz
QUESTÃO 1: HITLER
Whitney: Comecemos por Hitler. No Ocidente, é universalmente aceito que:
- Hitler iniciou a Segunda Guerra Mundial;
- A invasão da Polônia por Hitler foi o primeiro passo de uma campanha mais ampla voltada à dominação mundial.
Essa interpretação da Segunda Guerra Mundial é verdadeira ou falsa? E, se for falsa, então, na sua opinião, o que Hitler estava tentando alcançar na Polônia e a Segunda Guerra Mundial poderia ter sido evitada?
Ron Unz: Até cerca de uma dúzia de anos atrás, minhas visões sobre os acontecimentos históricos haviam sido bastante convencionais, formadas a partir das aulas que tive na universidade e da narrativa uniforme da mídia que absorvi ao longo das décadas. Isso incluía minha compreensão da Segunda Guerra Mundial, o maior conflito militar da história humana, cujo desfecho moldou o nosso mundo moderno.
Mas, nos anos posteriores aos ataques de 11 de Setembro e à Guerra do Iraque, tornei-me cada vez mais desconfiado da honestidade da nossa grande mídia e comecei a reconhecer que os livros de história frequentemente não passam de uma versão cristalizada dessas antigas distorções midiáticas. O crescimento da internet liberou uma enorme quantidade de idéias heterodoxas de todos os tipos possíveis e, desde 2000, eu vinha trabalhando num projeto para digitalizar os arquivos de nossas principais publicações dos últimos 150 anos, o que me deu acesso conveniente a informações que não estavam facilmente disponíveis para qualquer pessoa. Então, como escrevi mais tarde:
“À parte as evidências dos nossos próprios sentidos, quase tudo o que sabemos sobre o passado ou sobre as notícias de hoje provém de fragmentos de tinta no papel ou de pixels coloridos numa tela, e felizmente, ao longo da última década ou duas, o crescimento da internet ampliou enormemente o leque de informações disponíveis nessa última categoria. Mesmo que a esmagadora maioria das alegações heterodoxas fornecidas por essas fontes não tradicionais baseadas na web esteja incorreta, ao menos agora existe a possibilidade de extrair pepitas vitais de verdade de vastas montanhas de falsidade. Certamente, os acontecimentos da última dúzia de anos me forçaram a recalibrar completamente o meu próprio aparelho de detecção da realidade.”
Como consequência de todos esses desenvolvimentos, publiquei meu artigo original “Our American Pravda” (“Nosso Pravda Americano”) há uma década, que continha essa passagem. Nesse artigo, enfatizei que aquilo que nossos livros de história e nossa mídia nos diziam sobre o mundo e o seu passado muitas vezes podia ser tão desonesto e distorcido quanto o notório Pravda da extinta URSS.
Confira: “Our American Pravda” (“Nosso Pravda Americano”)
Ron Unz • The American Conservative • 29 de abril de 2013 • 4.500 palavras
De início, meu foco esteve em eventos históricos mais recentes, mas logo comecei a fazer muitas leituras e investigações também sobre a história da Segunda Guerra Mundial, percebendo gradualmente que uma grande parte de tudo aquilo que eu sempre aceitara sobre essa guerra estava completamente errada.
Talvez eu não devesse ter ficado tão surpreso ao descobrir isso. Afinal, se a nossa mídia podia mentir de forma tão flagrante sobre acontecimentos do aqui e agora, por que deveríamos confiar nela quando se trata de fatos ocorridos há muito tempo e em lugares distantes?
Acabei concluindo que a verdadeira história da Segunda Guerra Mundial não era apenas bastante diferente daquilo que a maioria de nós sempre acreditou, mas estava em grande medida invertida. Nossos livros de história dominantes vinham contando a história de cabeça para baixo e ao contrário.
No que diz respeito a Hitler e ao início da guerra, creio que um excelente ponto de partida seja The Origins of the Second World War (“As Origens da Segunda Guerra Mundial”), uma obra clássica publicada em 1961 pelo renomado historiador de Oxford A. J. P. Taylor (1906–1990). Como descrevi suas conclusões em 2019:
“A exigência final de Hitler — que Danzig, com 95% de população alemã, fosse devolvida à Alemanha, como seus habitantes desejavam — era absolutamente razoável, e apenas um terrível erro diplomático dos britânicos levou os poloneses a recusar o pedido, provocando assim a guerra. A alegação posterior, amplamente difundida, de que Hitler buscava conquistar o mundo era totalmente absurda, e o líder alemão havia, de fato, feito todo esforço possível para evitar uma guerra com a Grã-Bretanha ou a França. Na realidade, ele era geralmente bastante amigável com os poloneses e esperava alistar a Polônia como aliada alemã contra a ameaça da União Soviética de Stálin.
“O recente 80º aniversário do início do conflito que consumiu tantas dezenas de milhões de vidas naturalmente provocou numerosos artigos históricos, e a discussão resultante me levou a desenterrar minha antiga cópia do pequeno volume de Taylor, que reli pela primeira vez em quase quarenta anos. Achei-o tão magistral e persuasivo quanto nos meus dias de dormitório universitário, e os elogios na capa sugeriam parte do reconhecimento imediato que a obra havia recebido. O Washington Post saudou o autor como ‘o mais proeminente historiador vivo da Grã-Bretanha’; a revista World Politics chamou o livro de ‘poderosamente argumentado, brilhantemente escrito e sempre persuasivo’; o New Statesman, a principal revista esquerdista britânica, descreveu-o como ‘uma obra-prima: lúcida, compassiva, belamente escrita’; e o austero Times Literary Supplement caracterizou-o como ‘simples, devastador, soberbamente legível e profundamente perturbador’. Como best-seller internacional, ele certamente figura como a obra mais famosa de Taylor, e compreendo facilmente por que ainda constava da lista de leituras obrigatórias da minha universidade quase duas décadas após sua publicação original.
“Contudo, ao revisitar o estudo inovador de Taylor, fiz uma descoberta notável. Apesar das vendas internacionais e do amplo reconhecimento crítico, as conclusões do livro logo despertaram enorme hostilidade em certos círculos. As palestras de Taylor em Oxford haviam sido imensamente populares por um quarto de século, mas, como resultado direto da controvérsia, ‘o mais proeminente historiador vivo da Grã-Bretanha’ foi sumariamente expurgado do corpo docente pouco tempo depois. No início de seu primeiro capítulo, Taylor observara o quão estranho lhe parecia que, mais de vinte anos após o início da guerra mais cataclísmica do mundo, nenhuma história séria tivesse sido produzida analisando cuidadosamente suas origens. Talvez a retaliação que enfrentou o tenha levado a compreender melhor parte desse enigma.”

A Segunda Guerra Mundial (Zahar, 1979)
Numerosos outros estudiosos e jornalistas de destaque, tanto contemporâneos quanto mais recentes, chegaram a conclusões muito semelhantes, mas também sofreram frequentemente severas retaliações por suas avaliações históricas honestas. Durante décadas, William Henry Chamberlin (1897–1969) foi um dos mais respeitados jornalistas de política externa dos Estados Unidos, mas, após publicar America’s Second Crusade em 1950, desapareceu da maioria das publicações tradicionais. David Irving (1938–) talvez figure como o historiador britânico de maior sucesso internacional dos últimos 100 anos, com seus livros fundamentais sobre a Segunda Guerra Mundial recebendo enormes elogios da crítica e vendendo milhões de exemplares; mas ele foi levado à falência pessoal e quase passou o resto da vida numa prisão austríaca.

No final da década de 1930, Hitler havia ressuscitado a Alemanha, que se tornara novamente próspera sob seu governo, e também conseguira reunificá-la com várias populações alemãs separadas. Como resultado, foi amplamente reconhecido como um dos líderes mais bem-sucedidos e populares do mundo, e esperava finalmente resolver a disputa fronteiriça polonesa, oferecendo concessões muito mais generosas do que qualquer um de seus predecessores democraticamente eleitos da República de Weimar jamais considerara. Mas a ditadura polonesa passou meses rejeitando suas tentativas de negociação e também iniciou um tratamento brutal de sua minoria alemã, forçando finalmente Hitler a declarar guerra. E, como discuti em 2019, provocar essa guerra pode ter sido o objetivo deliberado de certas figuras poderosas.
“Talvez a questão mais óbvia seja a das verdadeiras origens da guerra, que devastou grande parte da Europa, matou talvez cinquenta ou sessenta milhões de pessoas e deu origem à subsequente era da Guerra Fria, na qual regimes comunistas controlaram metade de todo o continente euro-asiático. Taylor, Irving e muitos outros refutaram completamente a mitologia ridícula segundo a qual a causa teria sido o desejo insano de Hitler de conquistar o mundo; mas, se o ditador alemão claramente teve apenas uma responsabilidade menor, houve de fato algum verdadeiro culpado? Ou essa guerra mundial massivamente destrutiva surgiu de maneira algo semelhante à sua predecessora, que nossas histórias convencionais tratam como resultado sobretudo de uma coleção de erros, mal-entendidos e escaladas irrefletidas?
“Durante a década de 1930, John T. Flynn (1882–1964) foi um dos jornalistas progressistas mais influentes dos Estados Unidos e, embora tivesse começado como um forte apoiador de Roosevelt e de seu New Deal, gradualmente se tornou um crítico severo, concluindo que os diversos esquemas governamentais de FDR haviam fracassado em reanimar a economia americana. Em 1937, um novo colapso econômico elevou o desemprego novamente aos mesmos níveis de quando o presidente assumira o cargo, confirmando Flynn em seu duro veredito. E, como escrevi no ano passado:
‘De fato, Flynn alega que, no final de 1937, FDR havia se voltado para uma política externa agressiva destinada a envolver o país numa grande guerra externa, sobretudo porque acreditava que essa era a única saída para sua desesperada situação econômica e política, um estratagema nada desconhecido entre líderes nacionais ao longo da história. Em sua coluna da New Republic de 5 de janeiro de 1938, ele alertou seus leitores incrédulos para a perspectiva iminente de uma grande escalada militar e naval e de uma guerra no horizonte, depois que um alto assessor de Roosevelt lhe confidenciara, em privado, que uma grande dose de keynesianismo militar e uma guerra de grandes proporções curariam os aparentemente insuperáveis problemas econômicos do país. Naquele momento, a guerra com o Japão, possivelmente por interesses na América Latina, parecia ser o objetivo pretendido, mas os acontecimentos na Europa logo persuadiram FDR de que fomentar uma guerra geral contra a Alemanha era o melhor curso de ação. Memórias e outros documentos históricos obtidos por pesquisadores posteriores parecem, em geral, apoiar as acusações de Flynn, indicando que Roosevelt ordenou a seus diplomatas que exercessem enorme pressão tanto sobre os governos britânico quanto polonês para evitar qualquer acordo negociado com a Alemanha, levando assim à eclosão da Segunda Guerra Mundial em 1939.’

“Esse último ponto é importante, uma vez que as opiniões confidenciais daqueles que estiveram mais próximos de eventos históricos relevantes devem receber considerável peso probatório. Num artigo recente, John Wear reuniu as inúmeras avaliações contemporâneas que implicavam FDR como figura central na orquestração da guerra mundial, por meio de sua pressão constante sobre a liderança política britânica, uma política que ele próprio admitiu, em privado, que poderia significar seu impeachment, caso viesse a público. Entre outros testemunhos, temos as declarações dos embaixadores polonês e britânico em Washington e do embaixador americano em Londres, que também transmitiu a opinião concordante do próprio primeiro-ministro Neville Chamberlain. De fato, a captura alemã e a publicação de documentos diplomáticos secretos poloneses em 1939 já haviam revelado grande parte dessas informações, e William Henry Chamberlin confirmou sua autenticidade em seu livro de 1950. Mas, como a grande mídia jamais noticiou nada disso, esses fatos permanecem pouco conhecidos até hoje.”
Discuto esses acontecimentos históricos em grande detalhe em meu artigo de 2019:
“American Pravda: Understanding World War II” (“Pravda Americano: Entendendo a Segunda Guerra Mundial”)
Ron Unz • The Unz Review • 23 de setembro de 2019 • 20.500 palavras
QUESTÃO 2: A“BLITZ” DE LONDRES
Whitney: A Alemanha lançou a “Blitz” contra a Inglaterra com o objetivo de aterrorizar o povo britânico e forçá-lo à submissão. Você concorda com isso ou houve outros fatores envolvidos que foram omitidos nos livros didáticos de história do Ocidente? (Como, por exemplo, o bombardeio de Berlim por Churchill?)
Ron Unz: Mais uma vez, esse relato padrão da Segunda Guerra Mundial é, em grande medida, o oposto da verdade. Naquela época, o bombardeio aéreo de centros urbanos muito atrás das linhas militares era ilegal e considerado um crime de guerra, e Hitler não tinha absolutamente nenhuma intenção de atacar as cidades britânicas dessa forma.
De fato, o líder alemão sempre nutrira opiniões favoráveis em relação à Grã-Bretanha e também acreditava que a preservação do Império Britânico era do interesse estratégico da Alemanha, já que seu colapso criaria um vácuo geopolítico que poderia ser preenchido por uma potência rival.
Depois que a Alemanha atacou a Polônia, a Grã-Bretanha e a França declararam guerra. O exército polonês foi derrotado em poucas semanas, e então Hitler se ofereceu para retirar suas forças dos territórios poloneses que haviam sido ocupados e firmar a paz, mas as duas potências ocidentais prometeram continuar a guerra até que a Alemanha fosse esmagada. Houve poucos combates até a primavera de 1940, quando os alemães finalmente atacaram e derrotaram o enorme exército francês, tomando Paris e retirando a França da guerra.
As forças britânicas foram evacuadas em Dunquerque, e há muitas evidências de que Hitler deliberadamente lhes permitiu escapar como um gesto para salvar as aparências, em vez de ordenar sua captura. Ele seguiu sua vitória na França oferecendo termos extremamente generosos ao governo britânico, não fazendo nenhuma exigência contra eles e, ao contrário, propondo uma aliança alemã, incluindo apoio militar para proteger a segurança de seu império mundial. Hitler naturalmente acreditava que aceitariam uma oferta tão atraente e encerrariam a guerra, que ele supunha estar essencialmente terminada.
Vários dos principais líderes britânicos pareciam ansiosos por fazer a paz nos termos generosos de Hitler e, segundo as evidências encontradas pelo renomado historiador britânico David Irving, o próprio primeiro-ministro Winston Churchill (1874–1865) parecia disposto a fazê-lo antes de mudar de idéia e recuar. Churchill passara décadas tentando se tornar primeiro-ministro, e Irving argumenta de forma plausível que ele percebeu que perder uma guerra desastrosa poucas semanas depois de finalmente alcançar esse cargo o teria transformado em motivo de chacota nos livros de história.

Mas, diante da derrota militar britânica no continente e dos termos muito generosos que Hitler oferecia, Churchill enfrentou um enorme problema para persuadir seu país a continuar uma guerra que era amplamente considerada perdida. Por isso, começou a ordenar uma série de bombardeios contra a capital alemã, um crime de guerra ilegal, na esperança de provocar uma reação alemã. Isso levou Hitler a advertir repetidamente que, se continuassem a bombardear suas cidades, ele seria forçado a retaliar da mesma forma — o que acabou fazendo. Como o público britânico não sabia que o próprio governo havia iniciado a campanha de bombardeios urbanos, encarou esses ataques aéreos alemães de retaliação como crimes de guerra monstruosos e não provocados e, exatamente como Churchill esperava, tornou-se plenamente comprometido com a continuação da guerra contra a Alemanha.

Irving e outros explicam todos esses fatos importantes em seus livros, e uma palestra fascinante de Irving, resumindo suas informações, ainda está disponível no Bitchute, após ter sido expurgada do YouTube.
Link do vídeo: https://www.bitchute.com/video/C9z1fCgUn5If/
Irving é uma fonte crucial de muitas informações importantes sobre a guerra e, em 2018, expliquei por que os resultados de um processo judicial de grande repercussão envolvendo Deborah Lipstadt (1947–) haviam demonstrado que sua pesquisa histórica era extremamente confiável:
“Esses zelosos ativistas étnicos iniciaram uma campanha coordenada para pressionar os prestigiosos editores de Irving a abandonar seus livros, ao mesmo tempo em que atrapalhassem suas frequentes turnês internacionais de palestras e até faziam lobby para que países lhe negassem entrada. Eles mantiveram um bombardeio contínuo de difamação na mídia, denegrindo incessantemente seu nome e suas habilidades de pesquisa, chegando mesmo a denunciá-lo como ‘nazista’ e ‘adorador de Hitler’, assim como havia ocorrido de forma semelhante no caso do professor Wilson.
“Essa batalha judicial foi certamente um caso de Davi contra Golias, com ricos produtores cinematográficos e executivos corporativos judeus fornecendo um enorme fundo de guerra de 13 milhões de dólares ao lado de Lipstadt, o que lhe permitiu financiar um verdadeiro exército de 40 pesquisadores e especialistas jurídicos, comandados por um dos advogados de divórcio judeus mais bem-sucedidos da Grã-Bretanha. Em contraste, Irving, sendo um historiador sem recursos, foi forçado a defender-se sem o benefício de assistência jurídica.
“Na vida real, ao contrário das fábulas, os Golias deste mundo quase invariavelmente saem vitoriosos, e esse caso não foi exceção: Irving foi levado à falência pessoal, resultando na perda de sua bela casa no centro de Londres. Mas, vista a partir da perspectiva mais longa da história, considero que a vitória de seus algozes foi notavelmente pírrica.
“Embora o alvo do ódio que desencadearam fosse a alegada ‘negação do Holocausto’ por parte de Irving, tanto quanto posso perceber, esse tema específico esteve quase totalmente ausente de todas as dezenas de livros de Irving, e foi precisamente esse silêncio que provocou sua indignação espumante. Assim, carecendo de um alvo claro, seu corpo de pesquisadores e verificadores de fatos, ricamente financiado, passou um ano ou mais realizando aparentemente uma revisão linha por linha e nota por nota de tudo o que Irving havia publicado, procurando localizar cada possível erro histórico que pudesse lançá-lo sob uma luz profissional desfavorável. Com dinheiro e mão de obra quase ilimitados, chegaram até a utilizar o processo de discovery judicial para intimar e ler milhares de páginas de seus diários pessoais encadernados e de sua correspondência, na esperança de encontrar alguma evidência de seus ‘pensamentos perversos’. Denial, um filme hollywoodiano de 2016 co-escrito por Lipstadt, pode fornecer um esboço razoável da sequência de eventos vistos da perspectiva dela.

“No entanto, apesar de recursos financeiros e humanos tão maciços, eles aparentemente chegaram quase completamente de mãos vazias, ao menos se pudermos dar crédito ao livro triunfalista de Lipstadt de 2005, History on Trial. Ao longo de quatro décadas de pesquisa e escrita, que produziram numerosas afirmações históricas controversas da natureza mais surpreendente, conseguiram encontrar apenas algumas dezenas de supostos erros relativamente menores de fato ou de interpretação, a maioria deles ambígua ou contestada. E o pior que descobriram após ler cada página dos muitos metros lineares dos diários pessoais de Irving foi que ele certa vez compusera uma breve cantiga ‘racialmente insensível’ para sua filha ainda bebê, um detalhe trivial que, naturalmente, alardearam como prova de que ele era um ‘racista’. Assim, aparentemente admitiram que o enorme corpus de textos históricos de Irving era talvez 99,9% preciso.

“Creio que esse silêncio do ‘cão que não latiu’ ecoa com o volume de um trovão. Não tenho conhecimento de nenhum outro acadêmico em toda a história do mundo que tenha tido décadas de trabalho de uma vida inteira submetidas a um escrutínio hostil tão meticulosamente exaustivo. E, como Irving aparentemente passou por esse teste com louvor, penso que podemos considerar como absolutamente precisas quase todas as afirmações surpreendentes contidas em todos os seus livros — tal como recapituladas em seus vídeos.”
Confira: “The Remarkable Historiography of David Irving” (“A Notável Historiografia de David Irving”)
Ron Unz • The Unz Review • 4 de junho de 2018 • 1.700 palavras
QUESTÃO 3: O EXPURGO DOS INTELECTUAIS ANTI-GUERRA
Whitney: Na década de 1940, houve um expurgo de intelectuais e comentaristas contrários à guerra, semelhante ao expurgo atual de críticos da política dos EUA nas redes sociais. Você pode explicar brevemente o que aconteceu, quem foi alvo e se a Primeira Emenda deveria aplicar-se em tempos de crise nacional?
Ron Unz: Por volta do ano 2000, iniciei um projeto para digitalizar os arquivos de muitas de nossas principais publicações dos últimos 150 anos, e fiquei espantado ao descobrir que algumas das figuras mais influentes dos anos anteriores à Segunda Guerra Mundial haviam sido “apagadas” de maneira tão completa que eu nunca tinha ouvido falar delas. Isso desempenhou um papel importante no crescimento de minhas suspeitas de que a narrativa padrão que eu sempre aceitara era falsa, e mais tarde descrevi essa situação usando a analogia das notórias mentiras históricas da antiga União Soviética:
“Às vezes eu me imaginava um pouco como um jovem pesquisador soviético zeloso dos anos 1970, que começou a vasculhar os arquivos empoeirados e há muito esquecidos do Kremlin e fez algumas descobertas surpreendentes. Trotsky aparentemente não era o notório espião nazista e traidor retratado em todos os livros didáticos, mas sim o braço direito do venerado Lênin nos dias gloriosos da grande Revolução Bolchevique, e por alguns anos depois permaneceu nos escalões mais altos da elite do Partido. E quem eram essas outras figuras — Zinoviev, Kamenev, Bukharin, Rykov — que também passaram aqueles primeiros anos no topo absoluto da hierarquia comunista? Nos cursos de história, mal mereciam algumas menções, como agentes capitalistas menores que foram rapidamente desmascarados e pagaram por sua traição com a vida. Como poderia o grande Lênin, pai da Revolução, ter sido tão idiota a ponto de cercar-se quase exclusivamente de traidores e espiões?
“Mas, diferentemente de seus análogos stalinistas de alguns anos antes, as vítimas americanas que ‘desapareceram’ por volta de 1940 não foram fuziladas nem enviadas ao Gulag, mas simplesmente excluídas da grande mídia que define a nossa realidade, sendo assim apagadas da memória coletiva, de modo que as gerações futuras gradualmente esqueceram que elas sequer haviam existido.
“Um exemplo destacável de um americano assim ‘apagado’ foi o jornalista John T. Flynn, provavelmente quase desconhecido hoje, mas cuja estatura fôra imensa em sua época.

“Como escrevi no ano passado:
“Imaginem, portanto, minha surpresa ao descobrir que, ao longo da década de 1930, ele havia sido uma das vozes progressistas mais influentes da sociedade americana, um escritor de economia e política cujo status talvez se aproximasse do de Paul Krugman, embora com um forte tom investigativo. Sua coluna semanal na The New Republic permitia-lhe servir como uma estrela-guia para as elites progressistas dos Estados Unidos, enquanto suas aparições regulares na Collier’s, uma revista semanal ilustrada de grande circulação que alcançava milhões de americanos, lhe proporcionavam uma plataforma comparável à de uma grande personalidade midiática no auge posterior das redes de televisão.
“Até certo ponto, a proeminência de Flynn pode ser quantificada objetivamente. Há alguns anos, mencionei seu nome a uma progressista bem informada e politicamente engajada, nascida na década de 1930, e ela, naturalmente, não se lembrou de nada, mas se perguntou se ele poderia ter sido algo como Walter Lippmann (1889–1974), o famoso colunista daquela época. Quando verifiquei, constatei que, entre as centenas de periódicos em meu sistema de arquivamento, havia apenas 23 artigos de Lippmann nos anos 1930, mas nada menos que 489 de Flynn.
“Um paralelo americano ainda mais forte com Taylor foi o do historiador Harry Elmer Barnes (1889–1968), uma figura quase totalmente desconhecida para mim, mas que em seu tempo foi um acadêmico de grande influência e prestígio.

“Imaginem meu choque ao descobrir mais tarde que Barnes havia sido, na verdade, um dos colaboradores mais frequentes dos primeiros anos da Foreign Affairs, atuando como principal resenhista de livros dessa venerável publicação desde sua fundação em 1922, enquanto sua estatura como um dos principais acadêmicos progressistas dos Estados Unidos era indicada por suas inúmeras aparições em The Nation e The New Republic ao longo daquela década. De fato, ele é creditado por ter desempenhado um papel central na ‘revisão’ da história da Primeira Guerra Mundial, removendo o retrato caricatural de uma maldade alemã indizível deixado como legado pela propaganda de guerra desonesta produzida pelos governos britânico e americano. Sua estatura profissional também era demonstrada por seus trinta e cinco livros ou mais, muitos deles volumes acadêmicos influentes, além de seus numerosos artigos na The American Historical Review, Political Science Quarterly e outros periódicos de destaque.
“Há alguns anos, mencionei Barnes a um eminente acadêmico americano cujo foco geral em ciência política e política externa era bastante semelhante, e, ainda assim, o nome nada lhe dizia. No final da década de 1930, Barnes tornara-se um dos principais críticos da proposta de envolvimento dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial e, como consequência, foi permanentemente ‘apagado’, barrado de todos os meios de comunicação tradicionais, enquanto uma grande cadeia de jornais foi fortemente pressionada a encerrar abruptamente sua coluna nacional sindicalizada de longa data, em maio de 1940.
“Muitos dos amigos e aliados de Barnes caíram no mesmo expurgo ideológico, que ele descreveu em seus próprios escritos e que continuou mesmo após o fim da guerra:
“Mais de uma dúzia de anos após seu desaparecimento da mídia nacional, Barnes conseguiu publicar Perpetual War for Perpetual Peace (‘Guerra Perpétua para Paz Perpétua’), uma longa coletânea de ensaios de acadêmicos e outros especialistas discutindo as circunstâncias em torno da entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, produzida e distribuída por uma pequena gráfica em Idaho. Sua própria contribuição foi um ensaio de 30 mil palavras intitulado ‘Revisionism and the Historical Blackout’ (‘Revisionismo e o Apagão Histórico’), no qual discutia os enormes obstáculos enfrentados pelos pensadores dissidentes daquele período.

“O livro foi dedicado à memória de seu amigo, o historiador Charles A. Beard (1874–1948). Desde os primeiros anos do século XX, Beard figurara como um intelectual de estatura e influência máximas, cofundador da The New School em Nova York e ocupante de mandatos como presidente tanto da American Historical Association quanto da American Political Science Association. Como um dos principais defensores das políticas econômicas do New Deal, era amplamente celebrado por suas posições.
“Contudo, assim que se voltou contra a política externa belicista de Roosevelt, os editores lhe fecharam as portas, e apenas sua amizade pessoal com o diretor da Yale University Press permitiu que seu volume crítico de 1948, President Roosevelt and the Coming of the War (‘Presidente Roosevelt e a Chegada da Guerra’) (1941) viesse a ser publicado. A reputação estelar de Beard parece ter iniciado então um rápido declínio, de modo que, em 1968, o historiador Richard Hofstadter (1916–1970) pôde escrever: ‘Hoje, a reputação de Beard se ergue como uma ruína imponente na paisagem da historiografia americana. O que outrora foi a mais grandiosa casa da província é agora um remanescente devastado’. De fato, a outrora dominante ‘interpretação econômica da história’ de Beard talvez hoje fosse quase descartada como promotora de ‘teorias conspiratórias perigosas’, e suspeito que poucos não-historiadores sequer tenham ouvido falar dele.

“Outro grande colaborador do volume de Barnes foi William Henry Chamberlin, que durante décadas figurou entre os principais jornalistas de política externa dos Estados Unidos, com mais de quinze livros em seu crédito, a maioria amplamente e favoravelmente resenhada. No entanto, America’s Second Crusade, sua análise crítica de 1950 sobre a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, não conseguiu encontrar um editor tradicional e, quando finalmente apareceu, foi amplamente ignorada pelos resenhistas. Antes de sua publicação, sua assinatura aparecia regularmente em nossas revistas nacionais mais influentes, como The Atlantic Monthly e Harper’s. Depois disso, porém, seus escritos ficaram quase totalmente confinados a boletins e periódicos de pequena circulação, voltados a públicos restritos de conservadores ou libertários.

Nos dias atuais de internet, qualquer pessoa pode facilmente criar um site para publicar suas opiniões, tornando-as imediatamente acessíveis a todos no mundo. Plataformas de redes sociais como Facebook e Twitter podem levar material interessante ou controverso à atenção de milhões com apenas alguns cliques no mouse, contornando completamente a necessidade do apoio de intermediários do establishment. É fácil esquecermos o quão extremamente desafiadora era a disseminação de idéias dissidentes naqueles dias do papel, da impressão e da tinta, e reconhecer que um indivíduo expurgado de seu veículo regular podia levar muitos anos para recuperar qualquer espaço significativo para a distribuição de seu trabalho.
Escrevi essas últimas palavras em junho de 2018 e, ironicamente, logo depois varreram as redes sociais amplos expurgos e práticas de shadow banning (banimento), engolfando muitos dissidentes contemporâneos e reduzindo drasticamente sua capacidade de difundir suas ideias.”
Confira: “American Pravda: Our Great Purge of the 1940s” (“Nosso Grande Expurgo da Década de 1940”)
Ron Unz • The Unz Review • 11 de junho de 2018 • 5.500 palavras
QUESTÃO 4: A ALEMANHA DO PÓS-GUERRA
Whitney: “A maioria dos americanos acredita que o povo alemão foi tratado humanamente após o fim das hostilidades e que o Plano Marshall ajudou a reconstruir a Europa. Essa é uma descrição precisa do que realmente aconteceu?” (Freda Utley).
Ron Unz: Embora hoje esteja amplamente esquecida, Freda Utley (1898–1978) foi uma jornalista de destaque em meados do século XX. Nascida inglesa, casou-se com um judeu comunista e mudou-se para a Rússia soviética, de onde fugiu para os Estados Unidos após seu marido cair em um dos expurgos de Stalin. Embora estivesse longe de simpatizar com os nazistas derrotados, ela compartilhava fortemente da visão de Beaty sobre a monstruosa perversão da justiça em Nuremberg, e seu relato em primeira mão dos meses passados na Alemanha ocupada é revelador ao descrever o sofrimento horrível imposto à população civil prostrada, mesmo anos após o fim da guerra.

“Em 1948, ela passou vários meses viajando pela Alemanha ocupada e, no ano seguinte, publicou suas experiências em The High Cost of Vengeance (‘O Alto Custo da Vingança’), que considerei revelador. Ao contrário da grande maioria dos jornalistas americanos, que geralmente faziam visitas breves e fortemente acompanhadas, Utley falava alemão e conhecia bem o país, tendo-o visitado com frequência durante a Era de Weimar. Enquanto a discussão de Russell Grenfell (1892–1954) era altamente contida e quase acadêmica em seu tom, a escrita de Utley era consideravelmente mais incisiva e emocional, o que não surpreende, dada sua exposição direta a um material extremamente angustiante. Seu depoimento como testemunha ocular parecia bastante crível, e as informações factuais que forneceu, sustentadas por inúmeras entrevistas e observações anedóticas, eram impactantes.

“Mais de três anos após o fim das hostilidades, Utley encontrou um país ainda quase totalmente arruinado, com grandes parcelas da população forçadas a buscar abrigo em porões danificados ou a dividir quartos minúsculos em edifícios destruídos. A população se via como ‘sem direitos’, muitas vezes sujeita a tratamento arbitrário por tropas de ocupação ou outros elementos privilegiados, que se encontravam completamente fora da jurisdição legal da polícia local regular. Alemães, em grande número, eram removidos regularmente de suas casas, que eram usadas para alojar tropas americanas ou outros favorecidos por elas, uma situação registrada com certa indignação nos diários de guerra do general George Patton publicados postumamente. Mesmo nesse período, um soldado estrangeiro ainda podia, às vezes, apropriar-se de qualquer coisa que quisesse dos civis alemães, com consequências potencialmente perigosas caso houvesse protesto. Utley cita de forma reveladora um ex-soldado alemão que havia servido em funções de ocupação na França e observou que ele e seus camaradas operavam sob a disciplina mais rigorosa e jamais poderiam imaginar comportar-se com civis franceses da maneira como as atuais tropas aliadas tratavam os civis alemães.
“Algumas das alegações citadas por Utley são bastante surpreendentes, mas parecem solidamente fundamentadas em fontes respeitáveis e plenamente confirmadas em outros lugares. Durante os primeiros três anos de paz, a ração diária de alimentos destinada a toda a população civil alemã era de aproximadamente 1.550 calorias — aproximadamente a mesma fornecida aos prisioneiros dos campos de concentração alemães durante o fim da guerra —, e, por vezes, caía muito abaixo disso. Durante o difícil inverno de 1946–47, toda a população do Ruhr, o coração industrial da Alemanha, recebeu apenas rações de fome de 700 a 800 calorias por dia, e níveis ainda mais baixos foram alcançados em algumas ocasiões.
“Influenciada pela propaganda oficial hostil, a atitude generalizada do pessoal aliado em relação aos alemães comuns era certamente tão ruim quanto qualquer coisa enfrentada por populações nativas sob regimes coloniais europeus. Repetidas vezes, Utley observa os notáveis paralelos com o tratamento e a atitude que ela havia visto anteriormente os ocidentais adotarem em relação aos chineses nativos durante grande parte da década de 1930, ou que os britânicos demonstravam em relação aos seus súditos coloniais indianos. Meninos alemães pequenos, descalços, miseráveis e famintos, recuperavam avidamente bolas em clubes esportivos americanos em troca de uma ninharia. Hoje, às vezes, se discute se cidades americanas do final do século XIX realmente exibiam placas com os dizeres ‘Estamos contratando, exceto irlandeses’, mas Utley certamente viu placas dizendo ‘Proibida a entrada de cães e alemães’ do lado de fora de inúmeros estabelecimentos frequentados pelo pessoal aliado.
“Com base nos meus livros didáticos padrão de história, sempre acreditei que existia uma diferença absoluta, como da noite para o dia, no comportamento em relação aos civis locais entre as tropas alemãs que ocuparam a França de 1940 a 1944 e as tropas aliadas que ocuparam a Alemanha a partir de 1945. Depois de ler os relatos detalhados de Utley e de outras fontes contemporâneas, acredito que minha opinião estava absolutamente correta, mas com o sinal invertido.
“Utley acreditava que parte da razão dessa situação absolutamente desastrosa era uma política deliberada do governo americano. Embora o Plano Morgenthau — destinado a eliminar cerca de metade da população alemã — tivesse sido oficialmente abandonado e substituído pelo Plano Marshall, que promovia a recuperação alemã, ela constatou que muitos aspectos do primeiro ainda prevaleciam na prática. Mesmo em 1948, grandes porções da base industrial alemã continuavam a ser desmanteladas e enviadas para outros países, enquanto restrições muito severas à produção e às exportações alemãs permaneciam em vigor. De fato, o nível de pobreza, miséria e opressão que ela via por toda parte parecia quase deliberadamente calculado para voltar os alemães comuns contra os Estados Unidos e seus aliados ocidentais, talvez abrindo caminho para simpatias comunistas. Tais suspeitas são certamente reforçadas quando consideramos que esse sistema havia sido concebido por Harry Dexter White, posteriormente revelado como agente soviético.
“Ela foi especialmente severa quanto à total perversão de quaisquer noções básicas de justiça humana durante o Tribunal de Nuremberg e vários outros julgamentos de crimes de guerra, tema ao qual dedicou dois capítulos inteiros. Esses processos judiciais exibiram o pior tipo de duplo padrão legal, com juízes aliados de destaque afirmando explicitamente que seus próprios países não estavam vinculados às mesmas convenções jurídicas internacionais que alegavam impor aos réus alemães. Ainda mais chocantes foram algumas das medidas utilizadas, com juristas e jornalistas americanos indignados revelando que tortura horrível, ameaças, chantagem e outros meios totalmente ilegítimos eram empregados regularmente para obter confissões ou denúncias de terceiros, uma situação que sugeria fortemente que um número considerável dos condenados e enforcados era totalmente inocente.
“Seu livro também deu ampla cobertura às expulsões organizadas de alemães étnicos da Silésia, dos Sudetos, da Prússia Oriental e de várias outras partes da Europa Central e Oriental onde haviam vivido pacificamente por muitos séculos, com o número total desses expulsos geralmente estimado entre 13 e 15 milhões. Às vezes, as famílias recebiam apenas dez minutos para deixar as casas onde haviam residido por um século ou mais, sendo então forçadas a marchar a pé, às vezes por centenas de quilômetros, rumo a uma terra distante que nunca haviam visto, levando consigo apenas o que podiam carregar nas próprias mãos. Em alguns casos, quaisquer homens sobreviventes eram separados e enviados para campos de trabalho escravo, produzindo um êxodo composto apenas por mulheres, crianças e idosos muito frágeis. Todas as estimativas indicam que pelo menos alguns milhões pereceram no caminho, por fome, doença ou exposição.
“Hoje em dia lemos interminavelmente discussões dolorosas sobre a notória ‘Trilha das Lágrimas’ sofrida pelos cherokees no distante início do século XIX, mas esse evento bastante semelhante do século XX foi quase mil vezes maior em escala. Apesar dessa enorme discrepância de magnitude e da distância temporal muito maior, eu arriscaria dizer que o primeiro evento talvez receba mil vezes mais atenção pública entre os americanos comuns. Se for assim, isso demonstraria que o controle esmagador da mídia pode facilmente deslocar a realidade percebida por um fator de um milhão ou mais.
“Esse movimento populacional parece ter representado a maior limpeza étnica da história mundial e, se a Alemanha tivesse feito algo minimamente semelhante durante seus anos de vitórias e conquistas européias, as cenas visualmente impactantes de um fluxo tão enorme de refugiados desesperados certamente teriam se tornado o centro de inúmeros filmes da Segunda Guerra Mundial ao longo dos últimos setenta anos. Mas, como nada disso jamais aconteceu, os roteiristas de Hollywood perderam uma oportunidade tremenda.
Confira The High Cost of Vengeance (“O Alto Custo da Vingança”)
Freda Utley • 1949 • 125.000 palavras
“A descrição extremamente sombria de Utley é fortemente corroborada por inúmeras outras fontes. Em 1946, Victor Gollancz (1893–1967), um proeminente editor britânico de origem judaica socialista, fez uma longa visita à Alemanha e publicou In Darkest Germany (‘Nas Sombras da Alemanha’) no ano seguinte, relatando seu enorme horror diante das condições que encontrou. Suas alegações de desnutrição alarmante, doenças e completa miséria foram apoiadas por mais de cem fotografias chocantes, e a introdução da edição americana foi escrita pelo presidente da Universidade de Chicago, Robert M. Hutchins (1899–1977), um dos intelectuais públicos mais respeitados de sua época. Ainda assim, seu pequeno volume parece ter atraído relativamente pouca atenção na grande mídia americana, embora seu livro um pouco semelhante Our Threatened Values (‘Nossos Valores Ameaçados’), publicado no ano anterior e baseado em informações de fontes oficiais, tenha recebido um pouco mais. Gruesome Harvest: The Costly Attempt to Exterminate the People of Germany (‘Colheita Macabra: A Custosa Tentativa de Exterminar o Povo Alemão’) de Ralph Franklin Keeling (1902–1951), também publicado em 1947, reúne de forma útil um grande número de declarações oficiais e reportagens da grande imprensa, que em geral sustentam exatamente esse mesmo quadro dos primeiros anos da Alemanha sob ocupação aliada.



“Durante as décadas de 1970 e 1980, esse tema angustiante foi retomado por Alfred M. de Zayas (1947–), formado em Direito por Harvard e doutor em História, que teve uma longa e ilustre carreira como advogado internacional de direitos humanos, estreitamente ligado às Nações Unidas. Seus livros, como Nemesis at Potsdam: The Anglo-Americans and the Expulsion of the Germans (‘Nêmesis em Potsdam: Os Anglo-Americanos e a Expulsão dos Alemães’), A Terrible Revenge: The Ethnic Cleansing of the East European Germans (‘Uma Vingança Terrível: A Limpeza Étnica dos Alemães da Europa Oriental’) e The Wehrmacht War Crimes Bureau, 1939–1945 (‘O Departamento de Crimes de Guerra da Wehrmacht, 1939–1945’), concentraram-se especialmente na limpeza étnica em massa das minorias alemãs e basearam-se em grandes quantidades de pesquisa arquivística. Receberam considerável elogio acadêmico e atenção em importantes periódicos especializados, além de venderem centenas de milhares de cópias na Alemanha e em outras partes da Europa, mas parecem ter penetrado muito pouco na consciência americana ou do restante do mundo de língua inglesa.



“No final da década de 1980, esse debate histórico latente tomou um novo rumo notável. Durante uma visita à França, em 1986, para preparar um livro não relacionado, um escritor canadense chamado James Bacque (1929–2019) deparou com indícios que sugeriam que um dos segredos mais terríveis da Alemanha do pós-guerra permanecera completamente oculto por muito tempo, e logo iniciou uma extensa pesquisa sobre o tema, publicando finalmente Other Losses: The Shocking Truth Behind the Mass Deaths of Disarmed German Soldiers and Civilians under General Eisenhower’s Command (‘Outras Perdas: A chocante verdade por trás das mortes em massa de soldados e civis alemães desarmados sob o comando do General Eisenhower’) em 1989. Com base em evidências substanciais, incluindo registros governamentais, entrevistas pessoais e testemunhos oculares gravados, ele argumentou que, após o fim da guerra, os americanos haviam deixado morrer de fome até um milhão de prisioneiros de guerra alemães, aparentemente como um ato político deliberado, um crime de guerra que certamente figuraria entre os maiores da história.

“A discussão de Bacque sobre as novas evidências provenientes dos arquivos do Kremlin constitui uma parte relativamente pequena de sua continuação de 1997, Crimes and Mercies: The Fate of German Civilians Under Allied Occupation, 1944-1950 (‘Crimes e Misericórdias: O Destino dos Civis Alemães sob a Ocupação Aliada, 1944-1950’), que se concentrou numa análise ainda mais explosiva e também se tornou um best-seller internacional.
“Como descrito acima, observadores diretos da Alemanha do pós-guerra em 1947 e 1948, como Gollancz e Utley, relataram diretamente as condições horríveis que encontraram e afirmaram que, por anos, as rações alimentares oficiais destinadas a toda a população haviam sido comparáveis às dos internos dos campos de concentração nazistas — e, por vezes, muito inferiores —, levando à desnutrição generalizada e às doenças que testemunharam por toda parte. Eles também observaram a destruição da maior parte do parque habitacional alemão anterior à guerra e a severa superlotação produzida pela chegada de tantos milhões de miseráveis refugiados étnicos alemães expulsos de outras partes da Europa Central e Oriental. Contudo, esses visitantes não tinham acesso a estatísticas populacionais sólidas e só podiam especular sobre o enorme número de mortes humanas já causadas pela fome e pelas doenças, e que certamente continuariam se as políticas não fossem rapidamente alteradas.

“Anos de pesquisa arquivística por parte de Bacque procuram responder a essa questão, e a conclusão a que ele chega certamente não é agradável. Tanto o governo militar aliado quanto as posteriores autoridades civis alemãs parecem ter feito um esforço deliberado para ocultar ou obscurecer a verdadeira escala da calamidade infligida aos civis alemães entre 1945 e 1950, e as estatísticas oficiais de mortalidade encontradas nos relatórios governamentais são simplesmente fantásticas demais para serem corretas, embora tenham servido de base para as histórias posteriores desse período. Bacque observa que esses números sugerem que a taxa de mortalidade durante as terríveis condições de 1947 — há muito lembrado como o ‘Ano da Fome’ (Hungerjahr) e vividamente descrito no relato de Gollancz — foi, na realidade, inferior à da Alemanha próspera do final da década de 1960. Além disso, relatórios privados de autoridades americanas, taxas de mortalidade de localidades individuais e outras evidências robustas demonstram que esses números agregados, aceitos por tanto tempo, eram essencialmente fictícios.
“Em vez disso, Bacque tenta fornecer estimativas mais realistas com base no exame dos totais populacionais dos diversos censos alemães, juntamente com o registro da enorme afluência de refugiados alemães. Aplicando essa análise simples, ele apresenta um argumento razoavelmente sólido de que as mortes excedentes na Alemanha durante esse período totalizaram pelo menos cerca de 10 milhões, e possivelmente muitos milhões a mais. Ademais, ele fornece evidências substanciais de que a fome foi deliberada ou, no mínimo, enormemente agravada pela resistência do governo americano aos esforços de socorro alimentar provenientes do exterior. Talvez esses números não devam ser tão surpreendentes, dado que o Plano Morgenthau oficial previa a eliminação de cerca de 20 milhões de alemães; e, como Bacque demonstra, líderes americanos de alto escalão concordaram silenciosamente em continuar essa política na prática, mesmo enquanto a repudiavam na teoria.
“Supondo que esses números sejam minimamente corretos, as implicações são bastante notáveis. O custo humano da catástrofe vivida pela Alemanha do pós-guerra certamente figuraria entre os maiores da história moderna em tempos de paz, superando amplamente as mortes ocorridas durante a fome ucraniana do início da década de 1930 e talvez até se aproximando das perdas involuntárias do Grande Salto Adiante de Mao, entre 1959 e 1961. Além disso, as perdas alemãs do pós-guerra superariam amplamente qualquer um desses outros eventos infelizes em termos percentuais, e isso continuaria verdadeiro mesmo que as estimativas de Bacque fossem consideravelmente reduzidas. Ainda assim, duvido que sequer uma pequena fração de um por cento dos americanos hoje esteja ciente dessa enorme calamidade humana. Presumivelmente, as memórias são muito mais fortes na própria Alemanha, mas, dada a crescente repressão legal a visões discordantes naquele infeliz país, suspeito que qualquer pessoa que discuta o tema com excessivo vigor corra o risco de prisão imediata.
“Em grande medida, essa ignorância histórica foi fortemente fomentada por nossos governos, frequentemente utilizando meios ardilosos ou até nefastos. Assim como na antiga e decadente URSS, grande parte da legitimidade política atual do governo americano e de seus diversos Estados-vassalos europeus baseia-se numa narrativa histórica específica da Segunda Guerra Mundial, e contestar esse relato pode ter graves consequências políticas. Bacque relata de forma crível alguns dos aparentes esforços para dissuadir qualquer grande jornal ou revista de publicar artigos discutindo as descobertas surpreendentes de seu primeiro livro, impondo assim um ‘apagão’ destinado a minimizar absolutamente qualquer cobertura midiática. Tais medidas parecem ter sido bastante eficazes, pois até oito ou nove anos atrás, não tenho certeza de jamais ter ouvido uma única palavra sobre essas idéias chocantes, e certamente nunca as vi discutidas seriamente em nenhum dos numerosos jornais ou revistas que li cuidadosamente ao longo das últimas três décadas.
“Ao avaliar os fatores políticos que aparentemente produziram um número tão enorme e aparentemente deliberado de mortes entre civis alemães muito depois de os combates terem cessado, um ponto importante deve ser observado. Historiadores que buscam demonstrar a tremenda perversidade de Hitler ou sugerir seu conhecimento de vários crimes cometidos ao longo da Segunda Guerra Mundial são regularmente obrigados a vasculhar dezenas de milhares de palavras impressas em busca de uma frase sugestiva aqui ou ali, e então interpretar essas alusões vagas como declarações absolutamente conclusivas. Aqueles que se recusam a esticar as palavras para que se encaixem, como o renomado historiador britânico David Irving, às vezes veem suas carreiras destruídas como consequência.
“Mas já em 1940, um judeu americano chamado Theodore N. Kaufman (1910–1986) ficou tão enfurecido com o que considerava os maus-tratos de Hitler aos judeus alemães que publicou um pequeno livro de título evocativo, Germany Must Perish! (‘A Alemanha Deve Perecer!’), no qual propunha explicitamente o extermínio completo do povo alemão. E esse livro aparentemente recebeu comentários favoráveis — ainda que talvez não inteiramente sérios — em muitos dos mais prestigiosos veículos de comunicação, incluindo o New York Times, o Washington Post e a revista Time. Se tais sentimentos estavam sendo livremente expressos em certos círculos ainda antes da entrada efetiva dos Estados Unidos no conflito militar, talvez as políticas há muito escondidas que Bacque parece ter descoberto não devessem nos chocar tanto assim.”


“UMA IDÉIA SENSACIONAL!”
— Revista Time
“UMA TEORIA PROVOCATIVA — APRESENTADA DE MANEIRA INTERESSANTE”
— Washington (D.C.) Post
“UM PLANO PARA A PAZ PERMANENTE ENTRE NAÇÕES CIVILIZADAS!”
— New York Times
“APRESENTA FRANCAMENTE O TERRÍVEL PANO DE FUNDO DA ALMA NAZISTA”
— Philadelphia Record

Confira: “American Pravda: Post-War France and Post-War Germany” (“Pravda Americano: França do Pós-Guerra e Alemanha do Pós-Guerra”)
Ron Unz • The Unz Review • 9 de julho de 2018 • 6.600 palavras
QUESTÃO 5: O ATAQUE A PEARL HARBOR
Whitney: O ataque japonês a Pearl Harbor foi inesperado ou foi precedido por numerosas provocações dos Estados Unidos que obrigaram o Japão a responder militarmente?
Ron Unz: Em 7 de dezembro de 1941, as forças militares do Japão lançaram um ataque surpresa contra a nossa Frota do Pacífico, baseada em Pearl Harbor, afundando muitos de nossos maiores navios de guerra e matando mais de 2.400 americanos. Como resultado, os Estados Unidos foram subitamente lançados na Segunda Guerra Mundial, e aquela data ‘viveu na infâmia’ como uma das mais famosas de nossa história nacional.
Na época, quase todos os americanos comuns encararam o ataque japonês como um choque inesperado, um raio caído do céu sem qualquer provocação, e por mais de 80 anos nossos livros de história convencionais e a cobertura da grande mídia reforçaram fortemente essa impressão. Mas, como expliquei em 2019, os fatos reais são inteiramente diferentes:
“A partir de 1940, FDR vinha fazendo um grande esforço político para envolver diretamente os Estados Unidos na guerra contra a Alemanha, mas a opinião pública estava esmagadoramente do outro lado, com pesquisas mostrando que até 80% da população se opunha a isso. Tudo isso mudou imediatamente quando as bombas japonesas caíram sobre o Havaí, e, de repente, o país estava em guerra.
“Diante desses fatos, surgiram suspeitas naturais de que Roosevelt tivesse provocado deliberadamente o ataque por meio de suas decisões executivas de congelar os ativos japoneses, embargar todos as remessas de suprimentos vitais de óleo combustível, especialmente petróleo, e rejeitar repetidos pedidos de negociação por parte das lideranças de Tóquio. No volume de 1953 editado por Barnes, o renomado historiador diplomático Charles C. Tansill (1890–1964) resumiu de forma contundente seu argumento de que FDR pretendia usar um ataque japonês como sua melhor ‘porta dos fundos para a guerra’ contra a Alemanha, tese que ele já havia defendido no ano anterior em um livro com esse mesmo título. Ao longo das décadas, as informações contidas em diários privados e documentos governamentais parecem ter estabelecido quase de maneira conclusiva essa interpretação, com o Secretário da Guerra Henry Stimson indicando que o plano era ‘manobrar [o Japão] para que disparasse o primeiro tiro’.

“Em 1941, os Estados Unidos já haviam quebrado todos os códigos diplomáticos japoneses e liam livremente suas comunicações secretas. Por isso, há muito tempo existe também a crença amplamente difundida, embora contestada, de que o presidente estava bem ciente do ataque japonês planejado contra nossa frota e deliberadamente deixou de alertar seus comandantes locais, garantindo assim que as pesadas perdas americanas resultantes produzissem uma nação vingativa e unida para a guerra. Tansill e um ex-chefe de pesquisas do comitê investigativo do Congresso apresentaram esse argumento no mesmo volume de Barnes, em 1953, e no ano seguinte um ex-almirante americano, Robert A. Theobald (1884–1957), publicou The Final Secret of Pearl Harbor (‘O Segredo Final de Pearl Harbor’), desenvolvendo argumentos semelhantes de forma ainda mais extensa. Esse livro também incluía uma introdução escrita por um dos mais altos comandantes navais americanos da Segunda Guerra Mundial, que endossava plenamente a teoria controversa.

Em 2000, o jornalista Robert M. Stinnett (1953–2025) publicou uma grande quantidade de novas evidências de apoio, baseadas em oito anos de pesquisa arquivística, que foram discutidas em um artigo recente. Um ponto revelador destacado por Stinnett é que, se Washington tivesse alertado os comandantes de Pearl Harbor, suas preparações defensivas teriam sido notadas pelos espiões japoneses locais e comunicadas à força-tarefa que se aproximava; com a perda do elemento surpresa, o ataque provavelmente teria sido abortado, frustrando assim todos os planos de guerra de longa data de FDR. Embora alguns detalhes possam ser contestados, considero bastante convincente o conjunto de evidências a favor da prévia ciência de Roosevelt.

No ano passado, ampliei ainda mais esses argumentos:
“Essa reconstrução histórica é fortemente sustentada por muito material adicional. Durante esse período, o professor Revilo P. Oliver (1908–1994) ocupou um cargo elevado na Inteligência Militar, e quando publicou suas memórias quatro décadas depois, afirmou que FDR havia deliberadamente enganado os japoneses para levá-los a atacar Pearl Harbor. Sabendo que o Japão havia quebrado os códigos diplomáticos de Portugal, FDR informou ao embaixador desse país seus planos de esperar até que os japoneses se estendessem excessivamente e, então, ordenar que a Frota do Pacífico lançasse um devastador ataque surpresa contra as ilhas japonesas. Segundo Oliver, os telegramas diplomáticos japoneses subsequentes revelaram que eles haviam sido convencidos com sucesso de que FDR planejava atacá-los repentinamente.
“De fato, apenas alguns meses antes de Pearl Harbor, a Argosy Weekly, uma das revistas mais populares dos Estados Unidos, publicou uma história fictícia de capa descrevendo exatamente um ataque surpresa devastador a Tóquio em retaliação a um incidente naval, com os poderosos bombardeiros de nossa Frota do Pacífico infligindo enormes danos à capital japonesa desprevenida. Pergunto-me se a Administração Roosevelt não teve participação em fazer com que essa história fosse publicada.

“Já em maio de 1940, FDR havia ordenado que a Frota do Pacífico fosse transferida de seu porto-base em San Diego para Pearl Harbor, no Havaí — uma decisão fortemente contestada por James O. Richardson (1878–1974), o almirante comandante da frota, por considerá-la desnecessariamente provocativa e perigosa, razão pela qual acabou sendo demitido. Além disso:
“Houve também um episódio doméstico muito estranho que se seguiu imediatamente ao ataque a Pearl Harbor, e que parece ter despertado interesse muito insuficiente. Naquela época, o cinema era o meio de comunicação de massa mais poderoso, e embora os gentios constituíssem 97% da população, controlavam apenas um dos grandes estúdios; talvez coincidentemente, Walt Disney também fosse a única figura de alto escalão de Hollywood firmemente situada no campo anti-guerra. E no dia seguinte ao ataque surpresa japonês, centenas de tropas americanas tomaram o controle dos estúdios Disney, supostamente para ajudar a defender a Califórnia de forças japonesas localizadas a milhares de quilômetros de distância, com a ocupação militar se estendendo pelos oito meses seguintes. Pensem no que mentes desconfiadas poderiam ter pensado se, em 12 de setembro de 2001, o presidente Bush tivesse imediatamente ordenado que os militares ocupassem as instalações da rede CBS, alegando que tal medida era necessária para ajudar a proteger a cidade de Nova York contra novos ataques islâmicos.
“Pearl Harbor foi bombardeada em um domingo e, a menos que FDR e seus principais assessores estivessem plenamente cientes do ataque japonês iminente, eles certamente estariam totalmente absorvidos pelas consequências do desastre. Parece altamente improvável que os militares dos Estados Unidos estivessem prontos para tomar o controle dos estúdios Disney logo na manhã de segunda-feira seguinte a um ataque verdadeiramente ‘surpresa’.”
QUESTÃO 6: OPERAÇÃO PIKE
Whitney: A Inglaterra e a França planejaram atacar a Rússia antes da invasão desse país por Hitler?
Ron Unz: Por mais de oitenta anos, um dos pontos de inflexão mais cruciais da Segunda Guerra Mundial foi omitido de praticamente todas as histórias ocidentais escritas sobre esse conflito e, como resultado, virtualmente nenhum americano instruído sequer tem conhecimento de sua existência.
É um fato inegável e documentado que, apenas alguns meses após o início da guerra, os Aliados Ocidentais (Grã-Bretanha e França) decidiram atacar a União Soviética neutra, que consideravam militarmente fraca e uma fornecedora crucial de recursos naturais para a máquina de guerra de Hitler. Com base em sua experiência na Primeira Guerra Mundial, a liderança aliada acreditava que havia pouca chance de qualquer avanço militar na frente ocidental, e por isso julgava que sua melhor oportunidade de derrotar a Alemanha seria vencendo o quase-aliado soviético da Alemanha.
No entanto, a realidade era inteiramente diferente. A URSS era imensamente mais forte do que eles imaginavam na época e foi, em última instância, responsável pela destruição de 80% das formações militares da Alemanha, enquanto os Estados Unidos e os demais Aliados responderam apenas pelos 20% restantes. Portanto, um ataque aliado contra os soviéticos em 1940 os teria levado diretamente à guerra como aliados militares plenos de Hitler, e a combinação da força industrial da Alemanha com os recursos naturais da Rússia teria sido quase invencível, quase certamente revertendo o resultado da guerra.
Desde os primeiros dias da Revolução Bolchevique, os Aliados haviam sido intensamente hostis à União Soviética, hostilidade que se intensificou ainda mais depois que Stalin atacou a Finlândia no final de 1939. Essa Guerra de Inverno transcorreu de forma desfavorável, pois os finlandeses, em enorme desvantagem numérica, resistiram com grande eficácia às forças soviéticas, levando a um plano aliado de enviar várias divisões para lutar ao lado dos finlandeses. De acordo com o livro inovador de Sean McMeekin, Stalin’s War: A New History of World War II (“A Guerra de Stalin: Uma Nova História da Segunda Guerra Mundial”) (2021), o ditador soviético tomou conhecimento dessa perigosa ameaça militar, e suas preocupações com uma iminente intervenção aliada o convenceram a encerrar rapidamente a guerra com a Finlândia em termos relativamente generosos. Apesar disso, os planos aliados de atacar a URSS continuaram, agora deslocando-se para a Operação Pike, a idéia de utilizar esquadrões de bombardeiros baseados na Síria e no Iraque para destruir os campos petrolíferos de Baku, no Cáucaso soviético, ao mesmo tempo em que tentavam alistar a Turquia e o Irã em seu ataque planejado contra Stalin. Nessa época, a agricultura soviética havia se tornado fortemente mecanizada e dependente do petróleo, e os estrategistas aliados acreditavam que a destruição bem-sucedida dos campos petrolíferos soviéticos eliminaria grande parte do abastecimento de combustível do país, possivelmente provocando uma fome que derrubaria o detestado regime comunista.

No entanto, praticamente todas essas suposições dos Aliados estavam completamente erradas. Apenas uma pequena fração do petróleo da Alemanha vinha dos soviéticos, de modo que sua eliminação teria pouco impacto sobre o esforço de guerra alemão. Como os acontecimentos subsequentes logo demonstraram, a URSS era enormemente forte em termos militares, e não fraca. Os Aliados acreditavam que apenas algumas semanas de ataques por dezenas de bombardeiros existentes devastariam completamente os campos petrolíferos, porém mais tarde, durante a guerra, ataques aéreos muito maiores tiveram apenas impacto limitado sobre a produção de petróleo em outros locais.
Bem-sucedido ou não, o ataque planejado dos Aliados contra a URSS teria representado a maior ofensiva de bombardeio estratégico da história mundial até então, e foi programado e reprogramado durante os primeiros meses de 1940, sendo finalmente abandonado apenas depois que os exércitos alemães cruzaram a fronteira francesa, cercaram e derrotaram as forças terrestres aliadas e retiraram a França da guerra.
Os alemães vitoriosos tiveram a sorte de capturar todos os documentos secretos relativos à Operação Pike e obtiveram um grande triunfo propagandístico ao publicá-los em fac-símile e tradução, de modo que todos os indivíduos informados logo souberam que os Aliados haviam estado à beira de atacar os soviéticos. Esse fato ausente ajuda a explicar por que Stalin permaneceu tão desconfiado dos esforços diplomáticos de Churchill antes do ataque Barbarossa de Hitler, um ano depois.

No entanto, por mais de três gerações, a notável história de como os Aliados quase perderam a guerra ao atacar a URSS foi totalmente excluída de praticamente todas as histórias ocidentais. Por isso, quando descobri esses fatos nas memórias de 1952 de Sisley Huddleston, um destacado jornalista anglo-francês, inicialmente presumi que ele estivesse delirando:
“A noção de que os Aliados estivessem se preparando para lançar uma grande ofensiva de bombardeio contra a União Soviética apenas alguns meses após o início da Segunda Guerra Mundial era obviamente absurda, uma idéia tão ridícula que nem mesmo um vestígio desse rumor há muito desacreditado havia aparecido nos textos históricos padrão que eu havia lido sobre o conflito europeu. Mas o fato de Huddleston ainda se apegar a tais crenças sem sentido mesmo vários anos após o fim da guerra levantava sérias dúvidas sobre sua credulidade ou até mesmo sobre sua sanidade. Perguntei-me se poderia confiar sequer em uma única palavra que ele dissesse sobre qualquer outro assunto.
“No entanto, não muito tempo depois, tive uma grande surpresa ao encontrar um artigo de 2017 publicado na The National Interest, um periódico eminentemente respeitável. O breve texto trazia o título descritivo ‘In the Early Days of World War II, Britain and France Planned to Bomb Russia’ (“Nos primeiros dias da Segunda Guerra Mundial, a Grã-Bretanha e a França planejaram bombardear a Rússia’). O conteúdo me deixou absolutamente pasmo e, com a credibilidade de Huddleston agora plenamente estabelecida — e a credibilidade dos meus livros de história padrão igualmente demolida — prossegui e utilizei amplamente seu relato em meu longo artigo ‘American Pravda: Post-War France and Post-War Germany’ (‘American Pravda: França do Pós-Guerra e Alemanha do Pós-Guerra’).
Se todos os nossos livros de história da Segunda Guerra Mundial conseguem excluir uma história plenamente documentada de tamanha importância, eles obviamente não podem ser considerados confiáveis em relação a mais nada.
Confira: “American Pravda: How Hitler Saved the Allies” (“Pravda Americano: Como Hitler Salvou os Aliados”)
Ron Unz • The Unz Review • 13 de maio de 2019 • 8.300 palavras
QUESTÃO 7: O HOLOCAUSTO
Whitney: Qual é a verdade sobre o Holocausto? Você aparentemente realizou uma quantidade considerável de pesquisas sobre o tema e pode ter uma opinião sobre o que de fato ocorreu. Podemos afirmar com certeza quantos judeus foram mortos ou verificar a maneira pela qual foram mortos? Na sua opinião, os fatos históricos sobre o Holocausto se alinham à narrativa sustentada por poderosas organizações judaicas ou existem grandes discrepâncias?
Ron Unz: Para a maioria dos americanos e outros ocidentais, o Holocausto judeu figura como um dos eventos mais importantes e monumentais do século XX, provavelmente hoje com maior visibilidade do que qualquer outro aspecto da Segunda Guerra Mundial, durante a qual ocorreu.
A simples menção do número icônico de “seis milhões” é imediatamente compreendida e, nas últimas décadas, muitos países ocidentais protegeram legalmente o status desse evento histórico específico, impondo multas pesadas ou penas de prisão a qualquer pessoa que o conteste ou minimize, o equivalente moderno das antigas leis de blasfêmia.
Como alguém que foi educado no sistema escolar americano e depois passou a vida inteira absorvendo informações de nossa mídia e cultura popular, eu certamente sempre estive ciente do Holocausto, embora nunca tivesse explorado muito seus detalhes. Com o crescimento da internet nas últimas duas décadas, ocasionalmente eu deparava com indivíduos que contestavam essa narrativa, mas o mundo está cheio de todo tipo de excêntricos e malucos, e eu geralmente não dava muita atenção aos seus argumentos.
Então, há oito ou nove anos, eclodiu uma grande controvérsia envolvendo a revista Reason, a publicação emblemática do movimento libertário. Aparentemente, em meados da década de 1970, a Reason havia publicado e promovido ativamente o trabalho dos principais negadores do Holocausto nos Estados Unidos, uma revelação bastante chocante. Durante a década de 1990, eu havia me tornado um pouco próximo das pessoas da Reason e, embora às vezes pudessem ser dogmáticas em certas questões ideológicas, de modo geral pareciam bastante sensatas. Eu não conseguia entender por que teriam negado a realidade do Holocausto, especialmente porque muitos deles eram judeus. Então, mais tarde, quando tive algum tempo, decidi investigar a controvérsia com mais cuidado.
A maioria dos artigos de negadores do Holocausto que a Reason publicou tratava, na verdade, de outras controvérsias históricas, mas todos esses textos pareciam extremamente sólidos e bem elaborados. Por isso, decidi ler os livros de Deborah Lipstadt, uma das mais importantes críticas da negação do Holocausto no mundo, que havia sido amplamente citada nos artigos que atacavam a Reason. O nome de Lipstadt já me era um pouco familiar por causa de sua vingativa batalha judicial, no fim da década de 1990, contra o historiador britânico David Irving.

Ao ler os livros de Lipstadt, fiquei muito surpreso ao descobrir que, durante a própria Segunda Guerra Mundial, poucas figuras do mainstream político ou midiático aparentemente acreditavam na realidade do Holocausto em curso, considerando a maioria das histórias amplamente divulgadas por ativistas judeus e governos aliados como mera propaganda de guerra desonesta, semelhante às histórias atrozes e ridículas da Primeira Guerra Mundial sobre alemães estuprando freiras belgas ou comendo crianças belgas. E, de fato, muitas das histórias do Holocausto que Lipstadt condena a mídia por ignorar eram totalmente ridículas, como a alegação de que os alemães teriam matado mais de um milhão de judeus injetando individualmente um composto venenoso diretamente no coração. Como escrevi:
“Lipstadt intitulou seu primeiro livro Beyond Belief (‘Além da Crença’), e penso que todos nós podemos concordar que o evento histórico que ela e tantos outros na academia e em Hollywood transformaram no centro de suas vidas e carreiras é certamente uma das ocorrências mais extraordinárias de toda a história humana. De fato, talvez apenas uma invasão marciana fosse mais digna de estudo histórico, mas a famosa peça de rádio Guerra dos Mundos, de Orson Welles, que aterrorizou tantos milhões de americanos em 1938, acabou se revelando uma farsa, e não algo real.
“Os seis milhões de judeus que morreram no Holocausto certamente constituíram uma fração muito substancial de todas as baixas de guerra no Teatro Europeu, superando em um fator de 100 todos os britânicos que morreram durante o Blitz e sendo dezenas de vezes mais numerosos do que todos os americanos que ali tombaram em combate. Além disso, a monstruosidade do crime contra civis inocentes teria certamente fornecido a melhor justificativa possível para o esforço de guerra dos Aliados. Ainda assim, por muitos e muitos anos após a guerra, uma forma muito estranha de amnésia parece ter tomado conta da maioria dos principais protagonistas políticos a esse respeito.
“Robert Faurisson (1929–2018), um acadêmico francês que se tornou um proeminente negador do Holocausto na década de 1970, certa vez fez uma observação extremamente interessante a respeito das memórias de Eisenhower, Churchill e De Gaulle:
‘Três das obras mais conhecidas sobre a Segunda Guerra Mundial são Crusade in Europe, do General Eisenhower (Nova York: Doubleday [Country Life Press], 1948), The Second World War, de Winston Churchill (Londres: Cassell, 6 vols., 1948–1954), e os Mémoires de guerre do General de Gaulle (Paris: Plon, 3 vols., 1954–1959). Nessas três obras não se encontra a menor menção às câmaras de gás nazistas.’
‘Crusade in Europe, de Eisenhower, é um livro de 559 páginas; os seis volumes de The Second World War, de Churchill, totalizam 4.448 páginas; e os Mémoires de guerre, de De Gaulle, em três volumes, somam 2.054 páginas. Nesse conjunto de escritos, que totaliza ao todo 7.061 páginas (sem contar as partes introdutórias), publicados entre 1948 e 1959, não se encontra qualquer menção a ‘câmaras de gás’ nazistas, a um ‘genocídio’ dos judeus ou a ‘seis milhões’ de vítimas judaicas da guerra.’



“Dado que o Holocausto poderia razoavelmente ser classificado como o episódio mais notável da Segunda Guerra Mundial, omissões tão marcantes quase nos forçam a colocar Eisenhower, Churchill e De Gaulle entre as fileiras dos ‘negadores implícitos do Holocausto’.”
Os livros de Lipstadt e de outros historiadores proeminentes do Holocausto, como Lucy S. Dawidowicz (1915–1990), condenaram ferozmente uma longa lista dos principais historiadores americanos e outros acadêmicos como negacionistas implícitos ou explícitos do Holocausto, alegando que continuavam a ignorar ou contestar a realidade do Holocausto mesmo anos após o término da guerra.

Ainda mais notável foi o fato de que grupos judaicos influentes, como a ADL, pareciam não estar dispostos a desafiar ou criticar até mesmo a negação mais explícita do Holocausto durante os anos posteriores à Segunda Guerra Mundial. Em minha pesquisa, descobri um exemplo particularmente impressionante disso:
“Há alguns anos, deparei com um livro totalmente obscuro de 1951 intitulado The Iron Curtain Over America (‘A Cortina de Ferro sobre a América’), de John Beaty, um conceituado professor universitário. Beaty passara seus anos de guerra no serviço de inteligência militar, encarregado de preparar os relatórios diários de briefing distribuídos a todas as principais autoridades americanas, resumindo as informações de inteligência disponíveis e adquiridas nas 24 horas anteriores, o que era obviamente uma posição de grande responsabilidade.
“Como um zeloso anticomunista, ele considerava grande parte da população judaica da América profundamente implicada em atividades subversivas, constituindo, portanto, uma séria ameaça às liberdades tradicionais americanas. Em particular, o crescente domínio judaico sobre o mercado editorial e a mídia tornava cada vez mais difícil que pontos de vista discordantes chegassem ao povo americano, sendo esse regime de censura a ‘Cortina de Ferro’ descrita em seu título. Ele culpava interesses judaicos pela guerra totalmente desnecessária contra a Alemanha de Hitler, que havia buscado por muito tempo boas relações com os Estados Unidos, mas que, em vez disso, sofrera destruição total por sua forte oposição à ameaça comunista européia apoiada por judeus.

“Beaty também denunciou duramente o apoio americano ao novo Estado de Israel, que potencialmente nos fazia perder a boa vontade de tantos milhões de muçulmanos e árabes. E, como um comentário lateral relativamente menor, também criticou os israelenses por continuarem a alegar que Hitler teria matado seis milhões de judeus, uma acusação altamente implausível, sem qualquer base aparente na realidade e que parecia ser apenas uma fraude inventada por judeus e comunistas, destinada a envenenar nossas relações com a Alemanha do pós-guerra e a extrair dinheiro do sofrido povo alemão para o Estado judeu.
“Além disso, ele foi impiedoso em relação aos Julgamentos de Nuremberg, que descreveu como uma ‘grande mancha indelével’ sobre a América e ‘uma farsa judicial’. Segundo ele, os processos foram dominados por judeus alemães vingativos, muitos dos quais teriam se engajado na falsificação de testemunhos ou mesmo possuído antecedentes criminais. Como resultado, esse ‘sórdido fiasco’ apenas ensinou aos alemães que ‘nosso governo não tinha nenhum senso de justiça’. O senador Robert A. Taft (1889–1953), líder republicano do imediato pós-guerra, adotou uma posição muito semelhante, que mais tarde lhe valeu elogios de John F. Kennedy (1917–1963) em Profiles in Courage. O fato de que o principal promotor soviético em Nuremberg havia desempenhado o mesmo papel nos notórios julgamentos-espetáculo stalinistas do fim da década de 1930 — durante os quais numerosos velhos-bolcheviques confessaram todo tipo de coisas absurdas e ridículas — apenas diminuiu a credibilidade dos processos aos olhos de muitos observadores externos.
“Na época, como agora, um livro que adotasse posições tão controversas tinha poucas chances de encontrar um grande editor nova-iorquino, mas logo foi lançado por uma pequena editora de Dallas e, em seguida, tornou-se enormemente bem-sucedido, passando por cerca de dezessete reimpressões nos anos seguintes. Segundo Scott McConnell (1952–), editor fundador da The American Conservative, o livro de Beaty tornou-se o segundo texto conservador mais popular da década de 1950, ficando atrás apenas do clássico icônico de Russell Kirk (1918–1994), The Conservative Mind.
“Além disso, embora grupos judaicos, incluindo a ADL, tivessem condenado duramente o livro, especialmente em seu lobby privado, esses esforços provocaram uma reação contrária, e numerosos generais americanos de alto escalão, tanto da ativa quanto da reserva, endossaram de todo o coração a obra de Beaty, denunciando as tentativas de censura da ADL e instando todos os americanos a ler o volume. Embora a negação bastante explícita do Holocausto por parte de Beaty possa chocar sensibilidades modernas mais delicadas, à época ela parece ter causado apenas uma ondulação mínima de preocupação e foi quase totalmente ignorada até mesmo pelos críticos judeus mais duros da obra.”
O enorme best-seller nacional de Beaty atraiu atenção maciça, bem como críticas intensas de judeus e liberais; ainda assim, embora o atacassem energicamente em todas as outras questões, nenhum deles o contestou quando ele descartou o Holocausto como meramente uma notória farsa de propaganda de guerra na qual poucos ainda acreditavam. Além disso, uma longa lista de nossos principais comandantes militares da Segunda Guerra Mundial endossou fortemente o livro de Beaty que fazia essa afirmação.
Nossa compreensão moderna do Holocausto pode ser quase inteiramente atribuída a um livro seminal de 1961 do historiador Raul Hilberg. Ele havia sido uma criança quando sua família de refugiados judeus chegou à América no início da guerra e ficou indignado com o fato de toda a mídia americana estar ignorando o extermínio dos judeus europeus conforme alegado por ativistas judeus. Anos depois, ao ingressar na universidade, indignou-se ainda mais ao perceber que seu professor de história — também um refugiado judeu-alemão — parecia não aceitar a realidade do Holocausto, de modo que Hilberg decidiu fazer desse tema o foco de sua pesquisa de doutorado.

Ironicamente, os principais acadêmicos judeus o aconselharam a evitar esse assunto para não arruinar sua carreira acadêmica e, por anos, grandes editoras rejeitaram repetidamente seu livro. No entanto, quando finalmente conseguiu publicá-lo, a obra mostrou-se tremendamente popular entre ativistas judeus e, ao longo da década ou duas seguintes, deu origem a todo um gênero de literatura, incluindo inúmeras memórias do Holocausto, embora algumas das mais proeminentes tenham se revelado fraudulentas. Uma Hollywood fortemente judaica logo começou a produzir um fluxo incessante de filmes e programas de televisão com temática do Holocausto, acabando por consagrá-lo como um evento central do século XX. E quando historiadores ou outros pesquisadores passaram a contestar esses fatos alegados, grupos enérgicos de ativistas judeus conseguiram aprovar leis na Europa e em outros lugares que criminalizavam essa “negação do Holocausto”, ao mesmo tempo em que expurgavam ou até atacavam fisicamente tais dissidentes.

Apesar dessa repressão considerável, ao longo das décadas foi produzida uma grande quantidade de literatura acadêmica que levanta enormes dúvidas sobre a narrativa oficial do Holocausto que parece em grande medida ter sido criada por Hollywood. De fato, a primeira análise abrangente desse tipo, de um aparentemente apolítico professor de Engenharia Elétrica chamado Arthur R. Butz (1933–), havia surgido há quase meio século, provavelmente despertando o interesse da revista Reason naquele mesmo ano; e, embora banida há alguns anos pela Amazon, a obra de Butz ainda permanece uma síntese muito eficaz do argumento básico.

Confira The Hoax of the Twentieth Century: The Case Against the Presumed Extermination of European Jewry
Arthur R. Butz • 1976/2015 • 225.000 palavras
Depois de lê-la, bem como quase uma dúzia de outros livros de ambos os lados dessa questão controversa, encerrei meu longo artigo com o seguinte veredicto:
“Quaisquer conclusões a que eu tenha chegado são obviamente preliminares, e o peso que outros devam atribuir a elas deve refletir absolutamente meu status estritamente amador. No entanto, como um observador externo explorando esse tema controverso, considero muito mais provável do que improvável que a narrativa padrão do Holocausto seja pelo menos substancialmente falsa e, possivelmente, quase inteiramente assim.
“Apesar dessa situação, o poderoso foco da mídia em apoio ao Holocausto nas últimas décadas elevou-o a uma posição central na cultura ocidental. Eu não me surpreenderia se atualmente ele ocupasse um lugar maior na mente da maioria das pessoas comuns do que a própria Segunda Guerra Mundial que o abarcou, e, portanto, possuísse uma realidade aparente ainda maior.
“Entretanto, algumas formas de crenças compartilhadas podem ter uma milha de largura, mas uma polegada de profundidade; e as suposições casuais de indivíduos que nunca investigaram de fato um determinado assunto podem mudar rapidamente. Além disso, a força popular de doutrinas que por muito tempo foram mantidas por severas sanções sociais e econômicas, muitas vezes respaldadas por penalidades criminais, pode ser muito mais fraca do que se imagina.
“Até trinta anos atrás, o domínio comunista sobre a URSS e seus aliados do Pacto de Varsóvia parecia absolutamente permanente e inabalável, mas as raízes dessa crença haviam apodrecido por completo, restando apenas uma fachada oca. Então, certo dia, veio uma rajada de vento, e toda a gigantesca estrutura desmoronou. Eu não ficaria surpreso se nossa atual narrativa do Holocausto acabasse sofrendo o mesmo destino, talvez com consequências infelizes para aqueles que estiveram demasiado associados à sua manutenção.”
Confira: “American Pravda: Holocaust Denial” (“Pravda Americano: Negação do Holocausto”)
Ron Unz • The Unz Review • 27 de agosto de 2018 • 17.600 palavras
Confira: “American Pravda: Secrets of Military Intelligence” (Pravda Americano: Segredos da Inteligência Militar”)
Ron Unz • The Unz Review • 10 de junho de 2019 • 12.500 palavras
QUESTÃO 8: NOSSA COMPREENSÃO DA GUERRA
Whitney: Na página 202, você fez a seguinte afirmação, que ajuda a sublinhar a grave importância da exatidão histórica:
“Devemos também reconhecer que muitas das idéias fundamentais que dominam o nosso mundo atual foram fundadas sobre uma compreensão específica daquela história de guerra, e, se houver boas razões para acreditar que essa narrativa é substancialmente falsa, talvez devamos começar a questionar o arcabouço de crenças erguido sobre ela.”
Essa é uma afirmação instigante, que me faz perguntar se os últimos 80 anos de intervenções sangrentas dos EUA podem ser todos atribuídos à nossa “compreensão específica” da Segunda Guerra Mundial. Parece-me que nossos líderes têm usado esse mito idealizado da “boa guerra”, na qual o povo americano “excepcional” combate o mal do fascismo, para promover sua agenda belicista e justificar sua busca implacável pela hegemonia global.
Na sua opinião, qual é o maior perigo de erguer um “arcabouço de crenças” sobre uma compreensão falsa da história?
Ron Unz: A imagem, construída por Hollywood, de nosso grande triunfo global na guerra heróica contra Hitler e a Alemanha nazista inspirou um legado de colossal arrogância americana, que agora nos conduz a um confronto enormemente imprudente com a Rússia por causa da Ucrânia e com a China por causa de Taiwan, um tipo de hybris geopolítica que frequentemente leva à nêmesis, talvez até a uma nêmesis de forma extrema, dados os arsenais nucleares desses Estados rivais. Como escrevi pouco depois do início da Guerra da Ucrânia:
“Por anos, o eminente estudioso da Rússia Stephen Cohen classificou o presidente Vladimir Putin da Federação Russa como o líder mundial mais importante do início do século XXI. Ele elogiou o enorme sucesso do homem em revitalizar seu país após o caos e a miséria dos anos Yeltsin e enfatizou seu desejo de manter relações amistosas com a América, mas temia cada vez mais que estivéssemos entrando em uma nova Guerra Fria, ainda mais perigosa do que a anterior.
“Já em 2017, o falecido professor Cohen argumentava que nenhum líder estrangeiro havia sido tão vilipendiado na história recente dos Estados Unidos quanto Putin, e a invasão russa da Ucrânia, ocorrida duas semanas atrás, elevou exponencialmente a intensidade dessas denúncias midiáticas, quase igualando a histeria que nosso país experimentou duas décadas atrás após o ataque de 11 de setembro à cidade de Nova York. Larry Romanoff forneceu um catálogo útil de alguns exemplos.
“Até recentemente, essa demonização extrema de Putin estava em grande parte confinada a democratas e centristas, cuja bizarra narrativa do Russiagate o acusava de ter instalado Donald Trump na Casa Branca. Mas a reação agora se tornou inteiramente bipartidária, com o entusiástico apoiador de Trump, Sean Hannity, usando recentemente seu programa em horário nobre na Fox News para pedir a morte de Putin, clamor logo acompanhado pelo senador Lindsey Graham, o principal republicano no Comitê Judiciário do Senado. Essas são ameaças assombrosas de se fazer contra um homem cujo arsenal nuclear poderia rapidamente aniquilar a maior parte da população americana, e a retórica parece sem precedentes em nossa história do pós-guerra. Mesmo nos dias mais sombrios da Guerra Fria, não me recordo de sentimentos públicos semelhantes terem sido dirigidos à URSS ou à sua liderança comunista de topo.
“Em muitos aspectos, a reação ocidental ao ataque da Rússia tem estado mais próxima de uma declaração de guerra do que de um simples retorno a uma confrontação de Guerra Fria. As enormes reservas estrangeiras da Rússia mantidas no exterior foram apreendidas e congeladas, suas companhias aéreas civis foram excluídas dos céus ocidentais e seus principais bancos foram desconectados das redes financeiras globais. Cidadãos russos privados e ricos tiveram suas propriedades confiscadas, a seleção nacional de futebol foi banida da Copa do Mundo, e o maestro russo de longa data da Filarmônica de Munique foi demitido por se recusar a denunciar o próprio país.
“De fato, o paralelo mais próximo que me ocorre é a hostilidade americana dirigida contra Adolf Hitler e a Alemanha nazista após o início da Segunda Guerra Mundial, como indicado pelas comparações generalizadas entre a invasão da Ucrânia por Putin e o ataque de Hitler à Polônia em 1939. Uma simples busca no Google por ‘Putin e Hitler’ retorna dezenas de milhões de páginas da internet, com os principais resultados variando desde a manchete de um artigo do Washington Post até tuítes da estrela da música pop Stevie Nicks. Já em 2014, Andrew Anglin, do Daily Stormer, havia documentado o meme emergente ‘Putin é o novo Hitler’.”

Prossegui então discutindo as implicações extremamente perigosas de nossa política histérica anti-Rússia.
Confira: “American Pravda: Putin as Hitler?” (“Pravda Americano: Putin como Hitler?”)
Ron Unz • The Unz Review • 7 de março de 2022 • 7.900 palavras
Confira: “American Pravda: World War III and World War II?” (“Pravda Americano: Segunda Guerra Mundial ou Terceira Guerra Mundial?”)
Ron Unz • The Unz Review • 24 de outubro de 2022 • 4.700 palavras
Confira: “Assassinating Vladimir Putin?” (“Assassinando Vladimir Putin?”)
Ron Unz • The Unz Review • 15 de maio de 2023 • 3.700 palavras
E, como escrevi em 2019, minha própria avaliação da história real é consideravelmente diferente:
“Na esteira dos ataques do 11 de Setembro, os neoconservadores judeus levaram a América em direção à desastrosa Guerra do Iraque e à consequente destruição do Oriente Médio, com os comentaristas de nossas televisões afirmando incessantemente que ‘Saddam Hussein é outro Hitler’. Desde então, temos ouvido regularmente o mesmo bordão repetido em diversas versões modificadas, sendo-nos dito que ‘Muammar Gaddafi é outro Hitler’, ou ‘Mahmoud Ahmadinejad é outro Hitler’, ou ‘Vladimir Putin é outro Hitler’, ou até mesmo ‘Hugo Chávez é outro Hitler’. Nos últimos dois anos, nossa mídia americana tem sido implacavelmente preenchida com a alegação de que ‘Donald Trump é outro Hitler’.
“No início dos anos 2000, eu obviamente reconheci que o governante do Iraque era um tirano severo, mas zombava da absurda propaganda midiática, sabendo perfeitamente bem que Saddam Hussein não era nenhum Adolf Hitler. Porém, com o crescimento constante da internet e a disponibilidade das milhões de páginas de periódicos fornecidos por meu projeto de digitalização, fiquei bastante surpreso ao descobrir também gradualmente que Adolf Hitler não era nenhum Adolf Hitler.
Talvez não seja inteiramente correto afirmar que a história da Segunda Guerra Mundial foi a de Franklin Roosevelt buscando escapar de suas dificuldades domésticas ao orquestrar uma grande guerra européia contra a próspera e pacífica Alemanha nazista de Adolf Hitler. Mas penso que esse quadro está provavelmente um pouco mais próximo da realidade histórica efetiva do que a imagem invertida mais comumente encontrada em nossos livros didáticos.”
