PREFÁCIO AO LIVRO “GLADIUS CHRISTI”
Padre Luan Guidoni

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Graças vos dou, Pai celestial, pela santa ira e arma que me destes nesta saga para que eu a entregasse dividida em três partes aos meus irmãos: o púgio, o gládio e a espada. O teu Filho veio ao mundo como o relâmpago e falou com voz de trovão; entregou-nos o fogo e trouxe-nos a espada, e nele cremos e temos fé que voltará para derrotar o dragão, a besta e o falso profeta. E nós, que pelo Espírito Santo e pela Santa Igreja Romana constituímos o pequeno katechon do terceiro milênio, rogamos a ti, ó Trindade Santíssima, que não repila nosso clamor por justiça contra aqueles que derramam o sangue dos inocentes, mas dai-nos forças para fazer prevalecer a palavra do teu reino nesta terra, para que retorne o vosso império sem fim.
Assim tenho rezado em meu íntimo desde minha ordenação e estes mistérios estão sempre diante dos meus olhos na celebração da santa missa. Comemos e bebemos o corpo e o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo para termos em nós a vida, e a vida só pode vir para os que estão purificados do pecado e inseridos na Igreja pela fé e pelo batismo, e que invocam constantemente a Deus em suas orações. Mas eis que vemos a abominação dentro das igrejas e o corpo e o sangue de Cristo são entregues aos pecadores, aos pérfidos e aos irreligiosos para sua própria condenação. Sempre fui zeloso das coisas do alto e muito me espantei quando retornei da terra dos vulcões para o país onde habito e ter descoberto que o povo ainda não aprendeu a rezar. Crêem os autoproclamados fiéis que Deus escuta as orações dos pecadores e daqueles que se dizem seguidores do Cristo, mas que não conhecem as palavras do Cristo nem entendem o que querem dizer as palavras que recitam em suas preces. Ninguém os ensinou a rezar e louvam a Deus somente com os lábios.
A Providência livrou-me de tal destino e desde minha pequenez um homem ensinou-me os caminhos da verdade. Meu avô Guidoni, cujo nome era João, me ensinou a rezar e a distinguir o bem do mal. Vendo-me orar diante de uma imagem de Maria, exclamou: “O caçula da família será padre”. Vendo, pois, os familiares o que lá se passava, disseram-lhe: “É possível uma criança tornar-se padre? Até que cresça, terá esquecido a oração”. E desde aquele dia, por onde ia dizia a todos que via: “Meu neto será padre”. Dizem hoje os que diziam que assim não seria: “É verdade o que dizia o velho João”.
Se a proclamação da ordenação foi motivo de escárnio de muitos, com mais razão foi a concretização do sacramento. Não sou eu testemunha do que se passou em todas as igrejas? Disseram os americanos: “Ele é aquele que semeou o joio no coração de Dolan, e por causa dele se quebrou a paz e todos estamos em conflito”; e disseram os canadenses: “E que temos nós com ele?”; e também os mexicanos: “Ele veio ao nosso país para guerrear contra nós e ainda deseja reorganizar nosso movimento? Quem ele é para desafiar a grande universidade?”; e ainda disseram os argentinos: “Ele queria ensinar-nos a missa quando não tinha sequer a batina, quanto mais agora que é sacerdote”; e quando tomaram ciência disso os colombianos, disseram: “Expulsemos todos daqui, pois não sabemos quem é dele e quem não é”; e logo foram informados os italianos, e disseram: “Por causa dele nos perseguem os franceses, e ele é o culpado pelo cisma de Dolan conosco”; e logo que a notícia chegou nas igrejas francesas, disseram: “Guidoni conhece muitas coisas, mas nós conhecemos mais do que ele”; e os mexicanos informaram os espanhóis, e eles disseram: “Ordenaram mais um para vir assaltar nossa grande Espanha”; e logo que retornei ao Brasil, disseram os portugueses: “Por que ele celebra missa nos rios e nas florestas? Ele é um revolucionário”; mas dentre todas as nações que estão no mundo, e vós, meus irmãos, também sois testemunhas de todas essas coisas, foi no Brasil onde mais me renegaram.
Tornei-me vosso inimigo por dizer a verdade? Sim, tornei-me, porque não há comunhão entre nós, que defendemos a verdade, e vós, que defendeis a mentira. Não sou eu testemunha de todas as degenerações do clero? Pois eu vi a Escritura repertir-se perante mim depois de dois mil anos. Por menos de trinta moedas de prata venderam a cruz do bispo que me confirmou na fé; vi também a fé ser lançada fora para dar lugar ao luxo; nossas igrejas foram transformadas em casas de vendilhões; os livros sagrados foram pisados; todas as leis da Igreja foram ridicularizadas e desobedecidas; o dinheiro ofertado para o sacrifício foi dado às prostitutas; de impureza em impureza correram os ministros do altar para o fogo eterno; vi também o povo pedindo pão, e entregaram-lhe serpentes. Vendo a decadência da religião, preguei a justiça e a conversão, e que recebi? Recebi o apedrejamento e o ataque das línguas dolosas que me acusaram de ter demônio, e mais uma vez vi a Escritura repertir-se em mim e também nos meus irmãos, pois todo aquele que se torna discípulo de Cristo enfrentará as dores de Cristo.
Permaneci de pé onde centenas caíram, e rogo a Deus que me sustente tal como tem feito desde minha pequenez, pois eu também sou homem capaz de pecar como os outros homens, e se cometo pecado, de mim veio o pecado, mas se realizo a obra de Deus, é Deus que obra através de mim. Por isso dou-vos graças, Senhor, por permitires ao teu servo a consumação deste livro que tenho desejado escrever desde os meus dias como seminarista.
Irmãos, ouvi-me bem: O desconhecimento da Escritura é a causa de todos os pecados que ocorreram no meio de nós. A Escritura e a lectio divina sustentaram minha alma durante meu seminário. De joelhos e com a Sagrada Escritura em mãos, lendo atentamente cada versículo e meditando no meu intelecto os triunfos divinos, abria minha alma em oração rogando ao Cristo por sabedoria e força enquanto contemplava muitas vezes com sucesso, e outras sem sucesso. Estando, portanto, com os ouvidos atentos para escutar o sermão da missa, encontrava-me várias vezes confundido, indagando-me: “Este já leu a Escritura alguma vez? Pois se a leu, por que não a explica corretamente e não vive de acordo com ela? Mas se não a leu, que faz então no presbitério?”. Tragicamente tomei ciência de que se tratava de um problema global, e não apenas local. A queda da prática da lectio divina, unida ao advento da devotio moderna, tem matado de século em século a sabedoria dos eclesiásticos, pois todas as mazelas que vi neste tempo ocorreram também no passado, mas não na mesma intensidade como vemos hoje.
Vendo o lastimável estado daquelas almas que não conheciam nem a letra nem o espírito, tomei a resolução, desde antes da batina, de escrever um livro para ensinar-lhes o caminho de Deus. Que desgraça, porém, foi constatar que a causa eficiente não era a falta da oração, mas da própria fé. Que fé tem o clero? A fé deles não está na cruz, mas no ouro que está banhado na cruz. Meditando as calamidades que via, fui mais além e investiguei profundamente sobre as origens da crise, e descobri que a modernidade começa muito antes do que julgam os tradicionalistas, e por isso proclamo-me como um tradicionalista radical.
Agora, como sacerdote, tenho a obrigação de ensinar a verdade, e consagrei todo o ano de 2025 para a realização deste livro que há muito sonhava em escrever. Que Escritura deve ser lida? Claramente a vulgata de São Jerônimo. Qual Escritura devemos nós da língua lusitana ler? Evidentemente a primeira tradução da vulgata de São Jerônimo para a língua portuguesa. Tomei em mãos uma edição da vulgata latina traduzida para o português e publicada em 1866, ano da morte do Rei Dom Miguel, e a transcrevi em um único livro, e dei-lhe o nome de Gladius Christi. A palavra de Cristo é uma arma que os católicos olvidaram que é arma. Darei o Antigo Testamento e o Novo Testamento para o povo meditar? Não, mas unicamente aquilo do Novo Testamento que propositalmente omite-se na modernidade. Jesus Cristo é misericórdia e justiça, e quem dividiu o Cristo em dois foi o mundo moderno, pois, subtraindo a justiça crística, pregam apenas misericórdia, e tal misericórdia é usada como uma discórdia que toma a palavra do Cristo contra o mesmo Cristo e em defesa do anticristo. Quem vos retirou o gládio, Senhor, e quem o escondeu de sua Igreja? Porém eu digo que eu o reencontrei e que darei o gládio de Cristo novamente ao povo da Igreja de Roma.
A lectio divina é ordinariamente entendida em quatro partes: lectio, meditatio, oratio, contemplatio. Eu, porém, relembrei aquilo que por muito tempo foi esquecido na lectio divina: oppugnatio. A milícia celeste contempla a Deus armada das espadas que manuseou contra os exércitos satânicos desde os primórdios e que ainda há de manusear no fim dos tempos. Foi no momento de maior opugnação que Santo Estevão contemplou o Filho ao lado Pai no mais alto dos céus, e o mataram por ter dito essas palavras. Igualmente Constantino, no momento de maior opugnação, contemplou o símbolo do Cristo nas alturas, e se converteu por graça de Deus. Dois dos maiores contemplativos da Idade Média, São Bruno e São Bernardo, foram os maiores defensores da guerra pelo santo nome de Deus. A contemplação conduz infalivelmente à opugnação, porque após ter contemplado por quarenta dias e quarenta noites no deserto, Nosso Senhor derrotou Satanás, e isso foi escrito na Escritura para que fosse provada sua divindade, e para que nós, como seguidores do Cristo, imitássemos seu exemplo.
Procure primeiro purificar-se de todo pecado e também estudar e professar a fé antes de ler a Sagrada Escritura. Não pense que apenas ler é suficiente para vossa santificação, porque quem diz conhecer a Escritura, ao passo que não vive de acordo com toda palavra que sai da boca de Deus, faz-se semelhante ao diabo que usou a Escritura contra o Cristo. Ide ao Doutor Angélico e seus comentários para aprofundar suas meditações. Reze todos os dias e contemple a glória de Deus enquanto transforma sua alma em um templo digno no qual a Santíssima Trindade possa habitar. No dia da oppugnatio, Jesus Cristo derrubará novamente o templo do anticristo.
Disse-me um jovem na fé: “Padre, não te preocupas de que todo o inferno possa revoltar-se contra ti após a publicação do Gladius?”. Respondi-lhe: “Como disse Pilatos, o que escrevi, escrevi, e o que escrevi não veio de mim, mas do Espírito Santo por meio dos Apóstolos, e eu, como um copista, relembrarei aos meus irmãos da nossa fé”. Tudo o que fiz foi para este livro, e tudo o que farei após este livro é continuação deste mesmo livro, porém vos digo que se agora morresse, feliz morreria. Cumpri com minha vocação de continuar o legado daqueles que vieram antes de mim, e mesmo que eu não termine aquelas outras obras que devo realizar, mandará Deus outro depois de mim para continuar de onde parei.
Tome o Gladius, leia-o todos os dias, medite na palavra, ore sem cessar e contemple a justiça divina, e te prepare para a opugnação, pois assim disse o Cristo: nolite arbitrari quia venerim mittere pacem in terram non veni pacem mittere sed gladium.
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Padre Luan Guidoni
28 de novembro de 2025
