QUI PLURIBUS
Papa Pio IX (†1878)
Fonte: Pii IX pontificis maximi acta, pars prima, volume I, p. 4–24. Roma, 1854.
Tradutor do texto latino: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: O Papa recém-eleito denuncia a proliferação de erros modernos (racionalismo, comunismo, indiferentismo religioso, etc.) causada pelos chamados filósofos e pelas sociedades secretas, que ameaça destruir a fé e a ordem civil. Reafirma a autoridade divina da Igreja, fundada sobre Pedro, como único intérprete legítimo da revelação, e conclama os bispos a combater esses perigos com vigilância, fortaleza e fidelidade absoluta à doutrina católica. Sexta condenação à Maçonaria.
_______________
Carta encíclica a todos os patriarcas, primazes, arcebispos e bispos.
Veneráveis irmãos, saúde e bênção apostólica.
Nós, que, já desde há muitos anos, juntamente convosco, veneráveis irmãos, procurávamos desempenhar, conforme as nossas forças, o múnus episcopal, cheio de labuta e cheio de solicitude, e apascentar a parte do rebanho do Senhor confiada aos nossos cuidados, sobre os montes de Israel, junto às torrentes e pastagens fertilíssimas, pela morte do nosso preclaríssimo predecessor Gregório XVI — cuja memória e cujas ações ilustres e gloriosas, assinaladas com letras de ouro nos fastos da Igreja, a posteridade sempre admirará —, além de qualquer opinião e pensamento nosso, pelo oculto desígnio da divina Providência, eis que fomos elevados ao Sumo Pontificado, não sem grande perturbação e trepidação da nossa alma. Pois, se sempre o ônus do ministério apostólico foi e deve ser considerado sumamente grave e perigosíssimo, nestes dificílimos tempos da república cristã ele há de ser sobretudo temível. Logo, plenamente cônscios de nossa fraqueza e considerando os gravíssimos deveres do supremo apostolado, especialmente em tão grande vicissitude das coisas, ter-nos-íamos entregue inteiramente à tristeza e às lágrimas, se não puséssemos toda a nossa esperança em Deus, nosso Salvador, que nunca abandona os que n’Ele esperam e que, para manifestar a força do seu poder, repetidas vezes utiliza instrumentos ainda mais fracos para reger a sua Igreja, a fim de que todos reconheçam mais e mais que é o próprio Deus quem governa e protege a Igreja com sua admirável providência.
Sustenta-nos também veementemente aquela consolação, de que temos a vós, veneráveis irmãos, como sócios e auxiliares na procura da salvação das almas. Chamados a compartilhar de nossa solicitude, esforçais-vos por desempenhar vosso ministério com todo o cuidado e dedicação e por combater o bom combate. Por isso, logo que fomos colocados, embora imerecidamente, nesta sublime Cátedra do Príncipe dos Apóstolos e recebemos, na pessoa do Bem-aventurado Pedro, do próprio eterno Príncipe dos Pastores, o gravíssimo múnus divinamente conferido de apascentar e reger não só os cordeiros, isto é, todo o povo cristão, mas também as ovelhas, isto é, os prelados, nada nos foi certamente mais importante e desejável do que dirigir-vos a todos uma exortação, com íntimo afeto de caridade. Portanto, apenas tomamos posse, segundo o costume e a instituição de nossos predecessores, na nossa Basílica de Latrão, sem nenhuma demora vos dirigimos esta carta, para excitar vossa exímia piedade, a fim de que, com ainda maior prontidão, vigilância e empenho, guardando as vigílias da noite sobre o rebanho confiado aos vossos cuidados, e combatendo com força e constância episcopal contra o terrível inimigo do gênero humano, vos oponhais corajosamente, como bons soldados de Cristo Jesus, qual muro em favor da Casa de Israel.
A nenhum de vós é oculto, veneráveis irmãos, que nesta nossa deplorável época se promove uma guerra gravíssima e temibilíssima contra toda a causa católica, por parte daqueles homens que, unidos entre si por uma nefanda sociedade, não suportando a sã doutrina e desviando o ouvido da verdade, procuram tirar das trevas toda espécie de opiniões e erros monstruosos, exagerá-las com todas as forças, publicá-las e disseminá-las entre o povo. Horrorizamo-nos em nossa alma e somos consumidos por dor acerbíssima quando recordamos em pensamento todas as monstruosidades deles e as diversas e múltiplas artes de nocividade, emboscadas e maquinações com que esses inimigos da verdade e da luz, peritíssimos artífices da fraude, procuram extinguir na alma de todos qualquer zelo de piedade, justiça e honestidade; corromper os costumes; perturbar todos os direitos divinos e humanos; abalar e subverter a religião católica e a sociedade civil e, se possível fosse, destruí-las totalmente desde os fundamentos. Pois sabeis, veneráveis irmãos, que esses inimigos ferocíssimos do nome cristão, arrastados miseravelmente por um cego impulso de impiedade delirante, chegam a tal ponto de temeridade em suas opiniões que, com inaudita audácia, “abrindo a boca em blasfêmias contra Deus” (Ap 13,6), não se envergonham de ensinar publicamente que os sacrossantos mistérios da nossa religião são ficções inventadas pelos homens; que a doutrina da Igreja Católica se opõe ao bem e às conveniências da sociedade humana; e não temem sequer renegar o próprio Cristo e Deus.
E para iludir mais facilmente os povos e enganar os incautos, especialmente os simples e ignorantes, e arrastá-los consigo para os erros, fingem conhecer, só eles, as vias da prosperidade, e não hesitam em arrogar para si o nome de filósofos, como se a filosofia — que se ocupa inteiramente em investigar a verdade da natureza — devesse rejeitar aquilo que o próprio Deus, supremo e clementíssimo autor de toda a natureza, dignou-se manifestar aos homens com singular benefício e misericórdia, para que alcançassem a verdadeira felicidade e salvação. Daí, por certo modo enviesado e falaz de argumentar, não cessam jamais de invocar e exaltar a força e excelência da razão humana contra a santíssima fé de Cristo, e audaciosamente tagarelam que esta se opõe à razão humana. Certamente nada se pode imaginar de mais demente, mais ímpio e mais contrário à própria razão. Embora a fé esteja acima da razão, jamais pode haver dissensão nem dissídio verdadeiro entre elas, pois ambas procedem de um só e mesmo Deus, fonte imutável e eterna da verdade, e mutuamente se ajudam de tal modo que a reta razão demonstra, protege e defende a verdade da fé, enquanto a fé liberta a razão de todos os erros e a ilumina, confirma e aperfeiçoa maravilhosamente com a ciência das coisas divinas.
Nem com menor falácia, veneráveis irmãos, esses inimigos da divina revelação, elevando com sumos louvores o progresso humano, quiseram, com ousadia temerária e sacrílega, induzi-lo contra a religião católica, como se esta não fosse obra de Deus, mas dos homens, ou alguma invenção filosófica que pudesse ser aperfeiçoada por meios humanos. Muito bem se aplicam a esses delirantes as palavras com que Tertuliano justamente increpava os filósofos de seu tempo, que “apresentaram um Cristianismo estóico, platônico e dialético”[1]. E de fato, como a nossa santíssima religião não foi inventada pela razão humana, mas benignamente revelada por Deus aos homens, qualquer um facilmente entende que a religião tira toda sua força da autoridade do próprio Deus que fala, e jamais pode ser deduzida ou aperfeiçoada pela razão humana. Esta, para não errar numa questão de tão grande importância, deve diligentemente investigar o fato da divina revelação, para certificar-se de que Deus falou, e, como sabiamente ensina o Apóstolo, oferecer-lhe um culto racional (cf. Rm 13,1). Pois quem ignora ou pode ignorar que se deve prestar fé a Deus que fala, e que nada é mais conforme à razão do que aquiescer e aderir firmemente ao que se verificou ter sido revelado por Deus, que não pode enganar nem ser enganado?
Mas quão numerosos, quão admiráveis, quão esplêndidos são os argumentos que se oferecem, pelos quais a razão humana deve ser lucidíssima e plenamente convencida de que a religião de Cristo é divina e que “o princípio e a raiz de todos os nossos dogmas provêm do Senhor do céu”;[2] e, por isso, nada há mais certo, mais seguro e mais santo do que nossa fé, a qual se apoia nos mais firmes princípios. Com efeito, esta fé, mestra da vida, guia da salvação, expulsora de todos os vícios e fecunda mãe e nutriz das virtudes, confirmada pelo nascimento, vida, morte e ressurreição de seu divino autor e consumador, Jesus Cristo, por sua sabedoria, prodígios e vaticínios, refulgente por toda parte com a luz da doutrina celeste, enriquecida pelos tesouros das riquezas celestiais, indicada pelas predições de tantos profetas, pelo esplendor de tantos milagres, pela constância de tantos mártires e pela glória de tantos santos, anunciando as salutares leis de Cristo, e adquirindo forças maiores e maiores até das próprias e crudelíssimas perseguições, penetrou todo o mundo, por terra e mar, desde o nascer até o pôr do sol, sob o único estandarte da Cruz; e, destruída a falácia dos ídolos, dissipada a escuridão dos erros e vencidos todos os inimigos de qualquer espécie, iluminou com a luz do conhecimento divino todos os povos, gentes e nações, embora bárbaros em ferocidade e diversos em índole, costumes, leis e instituições, e submeteu-os ao suavíssimo jugo de Cristo, anunciando-lhes a paz, anunciando-lhes o bem. Tudo isso resplende com tanto fulgor da divina sabedoria e potência que qualquer mente e entendimento facilmente reconhecem que a fé cristã é obra de Deus. Portanto, a razão humana, conhecendo clara e abertamente por esses argumentos tão esplêndidos e firmes que Deus é o autor da fé, não pode avançar além, mas, rejeitada e removida qualquer dificuldade e dúvida, deve prestar-lhe pleno assentimento, tendo por certo que foi dado por Deus tudo o que a própria fé propõe ao homem como crer e agir.
Daqui claramente aparece em quão grande erro estão aqueles que, abusando da razão e considerando as palavras de Deus como obra humana, ousam temerariamente explicá-las e interpretá-las segundo o próprio arbítrio, quando o próprio Deus estabeleceu uma autoridade viva que ensinasse e firmasse o verdadeiro e legítimo sentido de sua revelação celeste e dirimisse com juízo infalível todas as controvérsias em matéria de fé e de moral, para que os fiéis não fossem levados por todo vento de doutrina na malícia dos homens para a astúcia do erro. Essa viva e infalível autoridade reside somente naquela Igreja que Cristo Senhor edificou sobre Pedro, cabeça, príncipe e pastor de toda a Igreja, cuja fé Ele prometeu que jamais falharia, e que sempre teve seus legítimos Pontífices, sem interrupção, provenientes do próprio Pedro, colocados em sua Cátedra, herdeiros e defensores de sua doutrina, dignidade, honra e poder. E porque onde está Pedro aí está a Igreja,[3] e Pedro fala pelo Romano Pontífice,[4] e vive sempre e exerce seu juízo em seus sucessores,[5] e oferece a quem busca a verdade da fé,[6] por isso as palavras divinas devem ser recebidas naquele sentido que esta Cátedra Romana do Beatíssimo Pedro, que é mãe e mestra de todas as Igrejas,[7] sempre manteve e mantém, conservando sempre íntegra e inviolada a fé entregue por Cristo Senhor, ensinando-a aos fiéis e mostrando a todos o caminho da salvação e a doutrina da verdade incorrupta. Esta é a Igreja principal, de onde se origina a unidade sacerdotal;[8] esta é a metrópole da piedade, na qual existe íntegra a religião cristã, em sua perfeita solidez;[9] nela sempre vigorou o Principado da Cátedra Apostólica;[10] a ela, por causa de sua primazia, é necessário que conflua toda Igreja, isto é, todos os fiéis que estão por toda parte;[11] com a qual, quem não ajunta, espalha.[12]
Nós, portanto, que pelo inescrutável juízo de Deus fomos colocados nesta Cátedra da Verdade, excitamos veementemente no Senhor vossa exímia piedade, veneráveis irmãos, para que, com toda solicitude e cuidado, procureis incessantemente advertir e exortar os fiéis confiados aos vossos cuidados, a fim de que, aderindo firmemente a estes princípios, nunca se deixem enganar nem induzir ao erro por aqueles que, feitos abomináveis em seus desejos, sob o pretexto do progresso humano, procuram destruir a fé, sujeitá-la impiamente à razão e subverter as palavras de Deus, e não temem infligir gravíssima injúria ao próprio Deus, que se dignou, com suma clemência, cuidar do bem e da salvação dos homens por meio de sua religião celeste.
E já sabeis muito bem, veneráveis irmãos, os outros monstros de erros e fraudes com que os filhos deste século tentam atacar com a máxima veemência a religião católica e a autoridade divina da Igreja, bem como pisotear os direitos tanto da potestade sagrada como da civil. A isso visam as nefandas maquinações contra esta Cátedra Romana do Beatíssimo Pedro, na qual Cristo colocou o inexpugnável fundamento de sua Igreja. A isso visam aquelas seitas clandestinas que, emergindo das trevas para a ruína e devastação tanto da causa sagrada como da pública, e condenadas com reiterado anátema pelos Romanos Pontífices, nossos predecessores, por suas cartas apostólicas,[13] as quais Nós, na plenitude de Nossa potestade apostólica, confirmamos e ordenamos que sejam diligentemente observadas. A isso também querem as astuciosíssimas Sociedades Bíblicas, que, renovando a antiga arte dos hereges, não cessam de transmitir e impor a todos os homens de qualquer condição, mesmo aos mais rudes, gratuitamente, com enorme quantidade de exemplares e a grande despesa, livros das Sagradas Escrituras traduzidos em toda língua vulgar, contra as santíssimas regras da Igreja, e frequentemente interpretados com explicações perversas, para que, rejeitada a divina tradição, a doutrina dos Padres e a autoridade da Igreja Católica, todos interpretem as palavras do Senhor por seu próprio julgamento privado, pervertam seu sentido e assim deslizem para os maiores erros. Gregório XVI, de venerável memória, em cujo lugar fomos colocados, ainda que com méritos muito inferiores, imitando os exemplos de seus predecessores, reprovou essas Sociedades com sua carta apostólica,[14] e Nós igualmente queremos que sejam tidas como condenadas. A isso se dirige o horrendo sistema, e que repugna maximamente à própria luz da razão natural, da indiferença quanto a qualquer religião, pelo qual esses velhacos, removida toda distinção de virtude e vício, verdade e erro, honestidade e torpeza, imaginam que os homens podem alcançar a salvação eterna em qualquer culto religioso, como se pudesse alguma vez existir participação da justiça com a iniquidade, ou sociedade da luz com as trevas, e acordo de Cristo com Belial. A isso se dirige a horrendíssima conspiração contra o sagrado celibato dos clérigos, que é fomentada até mesmo, ó dor!, por alguns homens eclesiásticos, que, miseravelmente esquecidos de sua própria dignidade, permitem-se ser vencidos e seduzidos pelas blandícias e seduções dos prazeres; a isso, o pervertido método de ensinar, sobretudo nas disciplinas filosóficas, que engana de modo miserável a incauta juventude, corrompe-a e lhe oferece o fel do dragão no cálice da Babilônia; a isso, a ímpia doutrina — e maximamente contrária ao próprio direito natural — do que chamam comunismo, a qual, uma vez admitida, destruiria totalmente todos os direitos, bens, propriedades e até a própria sociedade humana; a isso, as tenebrosíssimas insídias daqueles que, em veste de ovelhas, sendo por dentro lobos rapaces, com fingida e fraudulenta aparência de mais pura piedade e mais severa virtude e disciplina, insinuam-se humildemente, captam suavemente, ligam brandamente, matam ocultamente, afastam os homens de todo culto religioso e trucidam e despedaçam as ovelhas do Senhor. A isso enfim, para omitir as demais coisas que vos são sobejamente conhecidas e vistas, se dirige o contágio tétrico de tantos volumes e libelos que voam de toda parte e ensinam a pecar, que, habilmente compostos e cheios de embustes e artimanhas, e dissipados com imensas despesas por todos os lugares para a ruína da plebe cristã, disseminam por toda parte doutrinas pestíferas, depravam principalmente as mentes e os espíritos dos incautos e causam gravíssimos danos à religião. Desse dilúvio de erros que se arrastam por toda parte, e dessa desenfreada licença de pensar, falar e escrever, os costumes se têm deteriorado, a santíssima religião de Cristo foi desprezada, a majestade do culto divino aviltada, a potestade desta Sé Apostólica vexada, a autoridade da Igreja atacada e reduzida a vergonhosa servidão, os direitos dos bispos conculcados, a santidade do matrimônio violada, o governo de toda potestade debilitado, e tantos outros danos, tanto da república cristã como da civil, que somos constrangidos a chorar convosco, veneráveis irmãos, com lágrimas comuns.
Por conseguinte, em tão grande vicissitude da religião, das coisas e dos tempos, sumamente solícitos pela salvação de todo o rebanho do Senhor a nós divinamente confiado, nada deixaremos por empreender ou tentar, segundo o ofício de nosso ministério apostólico, para que, com todas as forças, provejamos o bem de toda a família cristã. Mas também excitamos sobremaneira no Senhor a vossa ilustre piedade, virtude e prudência, veneráveis irmãos, para que, confiados no auxílio celeste, defendais destemidamente conosco a causa de Deus e de sua Santa Igreja no lugar que ocupais e na dignidade de que estais revestidos. Bem sabeis que vos cabe lutar fortemente, pois não ignorais de modo algum com que feridas e quão grandes é atingida a imaculada Esposa de Cristo Jesus, e com quanto ímpeto dos mais acerbos inimigos é ela vexada. E sobretudo sabeis muito bem que é vosso múnus defender e guardar a fé católica com vigor episcopal e vigiar com suma diligência para que o rebanho a vós confiado permaneça firme e imóvel naquela fé que, “se alguém não conservar íntegra e inviolada, sem dúvida perecerá eternamente”.[15]
Portanto aplicai-vos diligentemente, segundo a vossa solicitude pastoral, a defender e conservar esta fé, e nunca cesseis de instruir todos nela, de confirmar os vacilantes, de refutar os contraditores, de fortalecer os fracos na fé, não dissimulando nem tolerando jamais absolutamente nada que pareça poder violar minimamente a pureza da mesma fé. E, com não menor firmeza de ânimo, fomentai em todos a união com a Igreja Católica, fora da qual não há qualquer salvação, e a obediência para com esta Cátedra de Pedro, na qual, como firmíssimo fundamento, assenta toda a estrutura de nossa santíssima religião. E, com igual constância, cuidai para que sejam guardadas as santíssimas leis da Igreja, pelas quais certamente a virtude, a religião e a piedade vigoram e florescem sobremaneira.
E porque “grande piedade é revelar os esconderijos dos ímpios e derrotar neles aquele a quem servem, o diabo”,[16] suplicantes vos advertimos a quererdes, com toda a vossa força e trabalho, detectar ao povo fiel as multiformes insídias, enganos, erros, fraudes e maquinações dos inimigos dos homens, e afastá-lo diligentemente dos livros pestíferos, e exortá-lo continuamente a evitar com o máximo cuidado, como se fosse o rosto de uma serpente, as seitas e sociedades dos ímpios, e tudo quanto se opõe à integridade da fé, da religião e dos costumes. A respeito disso, nunca cesseis absolutamente de pregar o Evangelho, pelo qual o povo cristão, cada vez mais instruído nos santíssimos preceitos da lei cristã, cresça na ciência de Deus, decline do mal e faça o bem, e caminhe nas vias do Senhor. E porque sabeis que exerceis a função de embaixadores de Cristo, que se professou manso e humilde de coração, e que não veio chamar os justos, mas os pecadores, deixando-nos exemplo para que sigamos seus passos, não deixeis de, com espírito de mansidão e suavidade, repreender e advertir com paternas exortações e conselhos os que encontrardes delinquindo nos mandamentos do Senhor e errando da vereda da verdade e da justiça; suplicai, increpai com toda bondade, paciência e doutrina, pois “muitas vezes mais atua para corrigir a benevolência do que a severidade, mais a exortação do que a ameaça, mais a caridade do que o poder”.[17]
Esforçai-vos também ao máximo, veneráveis irmãos, para que os fiéis sigam a caridade, procurem a paz e pratiquem diligentemente tudo quanto é de caridade e de paz, a fim de que, extintas totalmente todas as dissensões, inimizades, emulações e contendas, todos se amem com mútua caridade e sejam perfeitos no mesmo sentir, no mesmo parecer, de modo que unânimes sintam o mesmo, digam o mesmo e pensem o mesmo em Cristo Jesus Nosso Senhor. Empenhai-vos também por inculcar ao povo cristão a devida obediência e sujeição aos Príncipes e potestades, ensinando, conforme o aviso do Apóstolo (cf. Rm 12,1–2), que não há potestade senão por Deus, e que resistem à ordenação de Deus e adquirem para si condenação os que resistem à potestade; e por isso, que o preceito de obedecer à própria potestade jamais pode ser violado por ninguém sem culpa grave, a não ser quando algo é ordenado que seja contrário às leis de Deus e da Igreja.
Mas, como “nada há que instrua mais os outros à piedade e ao culto de Deus do que a vida e o exemplo daqueles que se dedicaram ao ministério divino”,[18] e tais são os sacerdotes, dos quais costuma ser tal qual é o povo, pela vossa singular sabedoria percebeis, veneráveis irmãos, que vos cumpre trabalhar com suma solicitude e cuidado para que no clero brilhem a gravidade dos costumes, a integridade de vida, a santidade e a doutrina, e que a disciplina eclesiástica seja diligentissimamente observada segundo a prescrição dos sagrados cânones, e, onde tenha caído, seja restaurada ao seu antigo esplendor. Por isso, como muito bem sabeis, é preciso que tenhais o máximo cuidado para não impor as mãos sobre alguém precipitadamente, conforme o preceito do Apóstolo, mas inicieis nas ordens sagradas e promovais aos mistérios sagrados somente aqueles que tenham sido cuidadosamente e exaustivamente examinados, ornados de todas as virtudes e notáveis pela sabedoria, que possam ser úteis e honrosos às vossas dioceses; e que, abstendo-se de tudo o que é proibido aos clérigos, e dedicando-se à leitura, à exortação e à doutrina, “sejam exemplo dos fiéis na palavra, na conversação, na caridade, na fé e na castidade” (I Tm 4,12), e inspirem veneração a todos, formando, excitando e inflamando o povo segundo a instrução da religião cristã. Com efeito, como advertiu sapientissimamente Bento XIV, de imortal memória, nosso predecessor, “é melhor ter menos ministros, porém probos, idôneos e úteis, do que muitos que nada possam valer para a edificação do Corpo de Cristo, que é a Igreja”.[19] Nem ignorais que vos cabe investigar com maior diligência os costumes e a ciência daqueles a quem se confia o cuidado e o governo das almas, para que eles, como fiéis dispensadores da multiforme graça de Deus, procurem continuamente alimentar, ajudar e conduzir o povo a eles confiado com a administração dos sacramentos, com a pregação da palavra divina e com o exemplo das boas obras, instruindo-o em todos os preceitos e ensinos da religião, e conduzindo-o ao caminho da salvação. Pois compreendeis que, quando os párocos são ignorantes de seu ofício ou negligentes, os costumes do povo continuamente se deterioram, a disciplina cristã afrouxa, o culto da religião se dissolve e se desmorona, e todos os vícios e corrupções facilmente entram na Igreja.
E para que a palavra de Deus, “que é viva e eficaz e mais penetrante do que toda espada de dois gumes” (Hb 4,12), instituída para a salvação das almas, não se torne infrutuosa por culpa dos ministros, nunca cesseis de inculcar e ordenar aos pregadores da mesma palavra divina, veneráveis irmãos, que, considerando no espírito o gravíssimo dever de seu múnus, exerçam religiosissimamente o ministério evangélico, não com palavras persuasivas da sabedoria humana, não com aparato profano de vã e ambiciosa eloquência e artifício, mas com a demonstração do espírito e da virtude; que, tratando retamente a palavra da verdade e não pregando a si mesmos, mas a Cristo Crucificado, anunciem clara e abertamente aos povos, em gênero de discurso grave e esplêndido, segundo a doutrina da Igreja Católica e dos Padres, os dogmas e preceitos de nossa santíssima religião, expliquem com precisão os deveres específicos de cada um, afastem todos dos vícios, inflamem-nos à piedade, para que os fiéis, salutarmente imbuídos e alimentados pela palavra de Deus, declinem de todos os vícios, sigam as virtudes e assim possam evitar as penas eternas e alcançar a glória celeste.
A todos os varões eclesiásticos, pela vossa solicitude e prudência pastoral, adverti continuamente e excitai para que, pensando seriamente no ministério que receberam no Senhor, cumpram diligentemente todas as partes de seu próprio múnus, amem sobremaneira o decoro da casa de Deus, e com íntimo senso de piedade se dediquem sem interrupção às súplicas e orações, e recitem as horas canônicas conforme o preceito da Igreja, para poderem alcançar para si os auxílios divinos necessários ao cumprimento dos gravíssimos deveres de seu ministério, e tornar Deus propício e favorável ao povo cristão.
Mas, como não escapa minimamente à vossa sabedoria, veneráveis irmãos, que só podem tornar-se ministros idôneos da Igreja aqueles clérigos que tenham sido formados da melhor maneira, e que grande peso tem, para o restante do curso da vida, uma formação correta, continuai a empregar todas as forças do vosso zelo episcopal sobretudo para que os jovens clérigos, desde os mais tenros anos, sejam devidamente instruídos tanto na piedade e na sólida virtude quanto nas letras e nas disciplinas mais severas, especialmente as sagradas. Por isso, nada deve ser para vós mais adiante nem mais prioritário do que instituir, com todo empenho, diligência e indústria, seminários clericais segundo a prescrição dos Padres de Trento,[20] se ainda não existirem; e, se já instituídos, ampliá-los, se necessário, e dotá-los dos melhores superiores e mestres, e vigiar continuamente com o mais atento cuidado, para que ali os jovens clérigos sejam educados no temor do Senhor e na disciplina eclesiástica de modo santo e religioso, e sobretudo cultivados nas ciências sagradas conforme a doutrina católica, totalmente alheios a qualquer perigo de erro, e cuidadosamente formados nas tradições da Igreja, nos escritos dos Santos Padres e nas sagradas cerimônias e ritos; a fim de que possais ter operários diligentes e laboriosos, que, dotados de espírito eclesiástico e formados corretamente nos estudos, possam, a seu tempo, cultivar com zelo o campo do Senhor e lutar valorosamente as batalhas do Senhor.
Além disso, sendo certo para vós que, para manter e conservar a dignidade e santidade da ordem eclesiástica, muito contribui a prática piedosa dos exercícios espirituais, instai, pelo vosso zelo episcopal, tão salutar obra e admoestai e exortai todos os chamados à sorte do Senhor a não deixarem de, frequentemente, retirar-se a algum lugar oportuno para realizar tais exercícios; para que, afastadas as preocupações exteriores e dedicando-se com mais veemente aplicação à meditação das coisas eternas e divinas, possam ao mesmo tempo limpar as sujeiras contraídas da poeira mundana e renovar o espírito eclesiástico, e, despindo o homem velho com seus atos, revestir-se do novo, criado em justiça e santidade. Nem vos cause aborrecimento se nos detivemos um pouco mais na formação e disciplina do clero. De fato, bem sabeis que muitos, cansados da variedade, inconstância e mutabilidade dos erros, e sentindo a necessidade de professar nossa santíssima religião, serão tanto mais facilmente levados, com a ajuda de Deus, a abraçar e cultivar a doutrina, os preceitos e as instituições da própria religião, quanto mais virem o clero sobressaindo aos demais pelo louvor da piedade, integridade, sabedoria e pelo esplendor e exemplo de todas as virtudes.
Além disso, caríssimos irmãos, não duvidamos de que todos vós, inflamados de ardente caridade para com Deus e os homens, ateados de suma devoção para com a Igreja, enriquecidos de quase angélicas virtudes, munidos de fortaleza e prudência episcopais, animados pelo mesmo e único desejo de santa vontade, seguindo os vestígios dos Apóstolos e imitando Cristo Jesus, modelo de todos os pastores, em cujo nome exerceis a vossa missão, como convém aos bispos, com esforços plenamente concordes vos façais verdadeiramente modelo do rebanho, iluminando o clero e o povo fiel com o esplendor de vossa santidade; e, revestidos das entranhas da misericórdia e compadecendo-vos dos que ignoram e erram, busqueis com amor, sigais e, com afeto paterno, tomeis sobre vossos ombros e reconduzais ao redil as ovelhas desviadas e perdidas, segundo o exemplo do Pastor evangélico; e não poupeis jamais cuidados, conselhos ou trabalhos para cumprir santamente todos os ofícios do múnus pastoral e defender todas as ovelhas amadas por Nós, redimidas pelo preciosíssimo sangue de Cristo e confiadas à vossa solicitude, da fúria, do ímpeto e das ciladas dos lobos vorazes; afastando-as dos pastos venenosos, conduzindo-as aos salutares, e levando-as, por obras, palavras e exemplo, ao porto da salvação eterna.
Trabalhai, portanto, com vigor, veneráveis irmãos, para promover a maior glória de Deus e da Igreja, e com toda prontidão, solicitude e vigilância esforçai-vos ao mesmo tempo para que, dissipados completamente todos os erros e arrancados pela raiz os vícios, a fé, a religião, a piedade e a virtude, por toda parte, recebam cada dia maiores incrementos; e para que todos os fiéis, rejeitando as obras das trevas, vivam como filhos da luz, agradando a Deus em tudo e frutificando em toda boa obra. E, entre as máximas angústias, dificuldades e perigos, que sobretudo nestes tempos não podem estar ausentes do vosso gravíssimo ministério episcopal, nunca vos deixeis atemorizar, mas confortai-vos no Senhor e na força de seu poder: Ele, “que nos contempla do alto, constituídos na luta pelo seu nome, aprova os que querem, ajuda os que combatem e coroa os que vencem”.[21]
E como nada é para Nós mais agradável, mais doce, mais desejável do que socorrer com toda afeição, conselho e obra todos vós, que amamos nas entranhas de Cristo Jesus, e, juntamente convosco, empenhar-nos de todo o coração na glória de Deus e na defesa e propagação da fé católica, e salvar as almas, pelas quais estamos prontos a derramar a própria vida, se necessário, vinde, irmãos, suplicamos e imploramos, vinde com grande ânimo e grande confiança a esta Sé do Beatíssimo Príncipe dos Apóstolos, centro da unidade católica e ápice do Episcopado, de onde o próprio Episcopado e toda a autoridade do nome episcopal emergiu; vinde a Nós sempre que reconheçais precisar da ajuda, do auxílio e do amparo da nossa autoridade e da autoridade desta mesma Sé.
Elevamo-nos, além disso, à esperança de que os caríssimos em Cristo nossos filhos, os príncipes, trazendo à memória, por sua piedade e religião, que “o poder régio lhes foi concedido não apenas para o governo do mundo, mas sobretudo para a defesa da Igreja”,[22] e lembrando que Nós “tratamos tanto da causa da Igreja quanto da salvação de seus reinos, para que possam obter com pleno direito a tranquila posse de suas províncias”,[23] favoreçam com sua ajuda e autoridade nossos votos, conselhos e esforços comuns, e defendam a liberdade e a integridade da própria Igreja, “para que também o império deles seja defendido pela destra de Cristo”.[24]
Para que todas essas coisas prosperem e se realizem felizmente conforme o desejo, aproximemo-nos com confiança, veneráveis irmãos, do trono da graça, e unidos, na humildade de nosso coração, supliquemos sem cessar com preces fervorosas ao Pai das misericórdias e Deus de toda consolação, que, pelos méritos de seu Filho Unigênito, se digne cumular nossa fraqueza com a abundância de todos os dons celestes, e com sua onipotente virtude vença os que nos combatem e por toda parte aumente a fé, a piedade, a devoção e a paz, para que sua santa Igreja, uma vez removidas completamente todas as adversidades e erros, goze da tão desejada tranquilidade e se faça um só rebanho e um só pastor. E para que o clementíssimo Senhor incline mais facilmente seu ouvido às nossas preces e atenda aos nossos votos, recorramos sempre junto a Ele à intercessão da santíssima Mãe de Deus, a Imaculada Virgem Maria, dulcíssima mãe de todos nós, medianeira, advogada e esperança fidelíssima e de máxima confiança, cujo patrocínio nada há mais eficaz e mais presente diante de Deus. Invoquemos também o Príncipe dos Apóstolos, a quem o próprio Cristo entregou as chaves do Reino dos Céus e que constituiu pedra de sua Igreja, contra a qual as portas do inferno jamais prevalecerão; e seu coapóstolo Paulo, e todos os santos do céu, que, já coroados, possuem a palma, para que obtenham para todo o povo cristão a desejada abundância da divina propiciação.
Por fim, como auspício de todos os dons celestes e testemunho da nossa intensíssima caridade para convosco, recebei a bênção apostólica, que, saída do íntimo de nosso coração, concedemos com todo amor a vós mesmos, veneráveis irmãos, e a todos os clérigos e fiéis leigos confiados ao vosso cuidado.
Dado em Roma, junto a Santa Maria Maior, no dia 9 de novembro de 1846, no primeiro ano de nosso pontificado.
[1] Tertuliano, De praescriptione, cap. VIII.
[2] São João Crisóstomo, Homilia 1 in Isaiam.
[3] Santo Ambrósio, in Psalmos 40.
[4] Concílio Calcedonense , Act. 2.
[5] Sínodo de Éfeso, Act. 3.
[6] São Pedro Crisólogo, Epístola a Éutico.
[7] Concílio de Trento, Sessão VII sobre o Batismo.
[8] São Cipriano, Epístola 55, ao Pontífice Cornélio.
[9] Carta Sinodal de João de Constantinopla ao Pontífice Hormisdas (em Sozomeno, História eclesiástica, livro 3, cap. 8).
[10] Santo Agostinho, Epístola 162.
[11] Santo Irineu, livro 3 contra os hereges, cap. 3.
[12] São Jerônimo, Epístola ao Pontífice Dâmaso.
[13] Confira: https://orecolhedor.com/maconaria-documentos-magisteriais/
[14] Gregório XVI, encíclicaInter praecipuas machinationes.
[15] Do símbolo Quicumque.
[16] São Leão Magno, Sermão VIII, cap. 4.
[17] Concílio de Trento, Sessão XIII, cap. 1, da Reforma.
[18] Concílio de Trento, Sessão XXII, cap. 1, da Reforma.
[19] Bento XIV, encíclica Ubi primum.
[20] Concílio de Trento, Sessão XXIII, cap. 18, da Reforma.
[21] São Cipriano, Epístola 77, a Nemesiano e aos outros mártires.
[22] São Leão Magno, Epístola 136 (outras vezes 123), ao imperador Leão.
[23] São Leão Magno, Epístola 43 (outras vezes 34), ao imperador Teodósio.
[24] Idem ibid.
