RESGATE DE JUDEUS
Norberto Toedter
Cotidianamente o mundo é confrontado — e isso quase 70 anos após os acontecimentos — com notícias sobre o genocídio de judeus, que teria sido praticado de forma planejada e sistemática pelos alemães durante a Segunda Guerra. A repetição permanente dá a entender que ela é necessária a fim de não permitir questionamentos. Países que nada têm a ver com os fatos até adotaram leis que criminalizam a negação da ocorrência. Medidas dessa natureza e dimensão nunca foram indispensáveis para convencer a opinião pública em relação ao extermínio de índios na América do Norte. Ninguém o põe em dúvida, porque índios não mais existem. Tampouco é preciso proibir que se negue a escravização dos povos africanos. A prova é que seus descendentes estão aí, ao nosso lado. Não vieram a nado, nem emigraram de suas origens.
Acontece que também existem outras notícias, não evidenciadas, não repetidas ao extremo, mas que têm a virtude de convidar ao raciocínio e à formação de dúvidas ou de um conceito próprio. Assim vemos Yehuda Bauer, professor e historiador judeu, em seu livro Freikauf von Juden? Verhandlungen zwischen dem nationalsozialistischen Deutschland und jüdischen Repräsentanten von 1933 bis 1945 (“Resgate de Judeus? Negociações entre a Alemanha Nacional-Socialista e Representantes Judeus entre 1933 e 1945”) (Suhrkamp Verlag, 1996), escrever detalhadamente sobre a preocupação alemã de se livrar da população judaica, não por meio de seu extermínio físico, mas dela se utilizando como valor de troca. Segundo Bauer, houve no ano de 1944/45, entre 3 de novembro e 15 de janeiro, no hotel Bauer em Zurique, conversações em torno da troca de 600.000 prisioneiros judeus por caminhões e outros bens. Teria havido a participação de [Heinrich] Himmler. Parece que nesse caso não houve acordo. Americanos e ingleses não se preocuparam em salvar quem quer que seja. O que chama a atenção é o número de prisioneiros objetos da pretendida transação. Mas Bauer menciona ainda diversos comboios que nos meses finais da guerra levaram judeus para a Suíça.

Um cidadão de Stuttgart diz em declaração juramentada que ao final de janeiro de 1945, quando o tráfego de trens já sofria as maiores irregularidades, ele foi embarcado na condição de correio oficial por acidente em um trem-hospital. O comboio consistia de no mínimo 20 vagões novos e, segundo lhe disse o chefe do transporte, estava levando 1500 pessoas de Bergen-Belsen (campo de concentração ao norte da Alemanha) para Kreuzlingen (Suíça) via Constança. Lá seriam trocados por 2000 alemães, prisioneiros de guerra feridos. Perguntado, lhe falara ainda que fazia um transporte desses por semana e que certamente não era o único. Quando o declarante deixou o trem em Ulm, pôde constatar que os passageiros usavam indumentária normal, como qualquer habitante. Também não davam sinais de subnutrição.
Durante toda a Segunda Guerra houve negociações entre órgãos oficiais alemães e aliados ou representantes judeus para que estes pudessem deixar a área de domínio alemão. Isso é confirmado também pelo Prof. Yehuda Bauer. Confirmaria também que era propósito do regime nacional-socialista encontrar um destino para a população judaica — como se falou na ilha de Madagascar, por exemplo —, e que não era seu extermínio puro e simples.[1]
[1] Ainda sobre a literatura a respeito do resgate de judeus e das negociações ocorridas entre a comunidade judaica e o regime nacional-socialista alemão, há duas obras editadas no Brasil: 1) Bryan Mark Rigg, Resgatado do Reich: Como um Soldado de Hitler Salvou o Rabino Lubavitcher (Imago Editora, 2004); 2) Edwin Black, Haavara: O Acordo de Transferência: A Dramática História do Pacto entre a Palestina Judaica e o Terceiro Reich (Idea Editora, 2021). (N.E.)
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Retirado de: A paz que não houve. O outro lado da história. Curitiba: Editora e Livraria do Chain, 2010, p. 77–78.
