SAGRADA ESCRITURA E USURA
Antologia de comentários
Fontes: (a) Santo Tomás de Aquino, Comentário ao Livro dos Salmos. (b) Id., Catena Aurea. Editora Ecclesiae, 2018–2020. (b) Cornélio a Lápide, Commentaria in Scripturam Sacram. Ludovico Vivès, 1859–1876. (c) George Leo Haydock, Haydock‘s Catholic Family Bible and Commentary. Edward Dunigan and Brother, 1859.
Tradutor do texto latino: Gustavo Petrônio Toledo.
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ÊXODO 22,25: Se emprestares dinheiro a algum do meu povo que é pobre, que habita contigo, não serás duro com ele como um cobrador exigente [ou extorsionário], nem o oprimirás com usuras.
Comentário de Cornélio a Lápide: Se emprestares dinheiro ao meu povo pobre que habita contigo, não o constrangerás como um credor, nem o oprimirás com usuras — Hebraico: não serás para ele como um cobrador ou agiota, e não lhe imporás a mordida (morsum), isto é, a usura: pois os hebreus chamam a usura de נֶשֶׁך (nesekh), isto é, “mordida”, porque a usura morde e rói os pobres mais do que um cão.
Comentário de Haydock: Pobre. Tais são frequentemente os que mais necessitam. A usura não é lícita, mesmo em relação aos ricos. O hebraico a chama de “mordida”. “O que é a usura”, disse Catão, “senão matar um homem?”. Os romanos exigiam que os ladrões restituíssem o dobro, mas os usurários deviam devolver quatro vezes o que haviam tomado (Varrão, Rustic., I). A restituição é prescrita em 2 Esdras 5,11. Alguns calvinistas levantaram-se em sua defesa, opondo-se às Escrituras, aos Padres e aos Concílios da Igreja Católica. “Emprestai, esperando nada ganhar com isso” (Lc 6,35). “Aquele que ama o dinheiro… empreste (nos pobres) Àquele que diz: Dai, e vos será dado” (São Leão Magno, Sermão). Os próprios judeus reprovaram a usura em qualquer caso.
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LEVÍTICO 25,35–37: 35. Se teu irmão empobrecer e suas forças fraquejarem, e tu o acolheres como estrangeiro e peregrino, e ele viver contigo, 36. não tomes usura dele nem mais do que deste: teme teu Deus, para que teu irmão possa viver contigo. 37. Não lhe darás teu dinheiro com usura, nem exigirás dele aumento de frutos.
Comentário de Cornélio a Lápide: [Na Vulgata], infirmus manu (Septuaginta, si impotens sit manibus frater tuus), isto é, um judeu que, por estar com as mãos debilitadas, não possa trabalhar para prover seu sustento e seja obrigado a pedir-te um empréstimo); ne accipias usuras ab eo, etc., et frugum superabundantiam non exiges, ou seja, não exijas dele, como usura, mais frutos do que lhe emprestaste. Ne capito a fratre tuo foenus (juro monetário, pago pelo dinheiro emprestado; em hebraico, תַּשךְ, tashék), aut usuram (juro real, pago por coisas emprestadas, como trigo, azeite, mosto; em hebraico, מַרְבִּית, marbit).
Comentário de Haydock: E tu. Hebraico, tu o receberás; e do estrangeiro… não tomarás usura. Há dois preceitos: socorrer os necessitados e não prejudicar a ninguém.
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DEUTERONÔMIO 23,19–20: 19. Não emprestarás a teu irmão dinheiro com usura, nem trigo, nem qualquer outra coisa: 20. Mas ao estrangeiro [poderás emprestar com usura]. A teu irmão emprestarás aquilo de que ele necessita, sem usura: para que o Senhor teu Deus te abençoe em todas as tuas obras na terra, na qual entrarás para possuir.
Comentário de Cornélio a Lápide: Vers. 19: Usura, em hebraico, é chamada נֶשֶׁךְ (nesekh), isto é, “mordida” (especificamente, a de um cão). Como ninguém desejava ser comparado a um cão faminto, que morde outros para se alimentar, os hebreus passaram a usar o termo תַּרְבִּית (tarbit), isto é, “incremento”, assim como os latinos a chamaram eufemisticamente de usura. Deus, para condenar tais subterfúgios, junta ambos os nomes, nesekh e tarbit. Ouça R. Salomonem: “O incremento da usura é chamado nesekh pois se assemelha à mordida de uma serpente, que faz uma pequena ferida no pé sem ser notada, até que o veneno se espalhe e atinja a cabeça. Assim é a usura: não é percebida até esgotar toda a substância do devedor”. Os caldeus a chamam de חֲבָלָא (chabulia), isto é, “perdição”, pois destrói todas as riquezas. Nesekh também alude, por metátese, a נָחָשׁ (nachash, “serpente”), pois rói e mata como um réptil. São João Crisóstomo (Comentário a Mateus 5) compara: “O dinheiro do usurário é semelhante à mordida de uma áspide: a vítima adormece suavemente, enquanto o veneno a corrói. Assim, quem recebe dinheiro com usura sente um ‘benefício’ inicial, mas a usura devora suas posses e o transforma em débito”. Por isso, Santo Ambrósio (De Officiis, III) chama a usura de “homicídio”. Assim, Catão testemunha que outrora os ladrões eram condenados a restituir o dobro, mas os usurários deviam restituir o quádruplo. E, sendo interrogado quanto ao que era emprestar com usura, respondeu: “É matar o homem”. Pois a usura exaure os pobres e os mata de fome. Até os filósofos pagãos a condenaram como contrária à razão natural, pois é injusto exigir frutos de algo infrutífero (como o dinheiro), especialmente com dano ao próximo. Os romanos, pela Lei das Doze Tábuas, estabeleceram que ninguém emprestasse a juros superiores ao da unciária (1/12, ou 8,33% ao ano); depois, por proposta tribunícia, o juro foi reduzido à semunciária (1/24), em seguida ao semisse (1/48), e depois ao triente (1/36); por fim, Lúcio Genúcio, tribuno da plebe, propôs ao povo que de modo algum fosse lícito emprestar a juros. Pouco a pouco, porém, o juro voltou a crescer, até César reprimi-lo novamente. Foram louvados Lúculo, porque libertou a Ásia da usura, e Catão, porque libertou a Sicília. Cornélio Tácito narra que entre os germanos toda a usura era ignorada e execrada. Os indianos nunca admitiram a usura. Ágis, comandante dos atenienses, tanto detestou a usura que mandou queimar no fórum as tábuas das dívidas dos usurários, e após o que, disse que jamais vira fogo mais esplêndido e luminoso. Vers. 20: Sed alieno, isto é, ao estrangeiro (não judeu), seja ele infiel ou convertido ao judaísmo. Por isso Deus permitiu aos judeus emprestar com usura aos estrangeiros, e também permitiu que os estrangeiros emprestassem aos judeus, por causa da dureza de coração destes, para que os judeus ávidos de lucro não emprestassem com usura uns aos outros; permitiu, porém, isto é, não puniu. Pois a usura, por aquela antiga lei, era absolutamente proibida, sem distinção de irmão ou estrangeiro. Por isso no Salmo 14,5; Salmo 54,12; Ezequiel 18,8, lemos que era vedada. Assim ensinam Nicolau de Lira, Caetano e outros. Por isso, erram os judeus ao invocar esse lugar como pretexto para suas usuras, com que emprestam a cristãos e a outras gentes, e buscam aí uma justificativa. Sobretudo porque chamam os romanos de idumeus e pensam que são descendentes de Edom. Mas os idumeus eram irmãos dos judeus, pois Esaú, pai dos idumeus, era irmão de Jacó, ou Israel. Se, portanto, os cristãos são idumeus, então são irmãos dos judeus, e por isso não lhes seria lícito emprestar com usura. Pois está dito: “Não emprestarás a teu irmão com usura” — exemplo de refutação também de Calvino, que dizia que na Escritura antiga só se proibia emprestar aos pobres com usura; portanto, permitia-se emprestar aos ricos. Santo Ambrósio, no livro De Tobia, cap. XV, entende por “estrangeiros” os povos hostis, como os amalequitas, amorreus, cananeus etc., quer dizer, “exige deles usura, de quem não é crime matar”. Pois onde há direito de guerra, há também usura: aqueles que se poderia matar, ou saquear abertamente seus bens, ou às ocultas por meio da usura, sobretudo quando esses povos se serviriam da usura contra os hebreus e os explorariam. Por isso Deus concedeu este direito ao seu povo: que cobrasse usura daqueles que oprimiam. Assim, por duplo direito — primeiro de represália, segundo de guerra — podiam os judeus emprestar com usura a tais povos. Esse é o sentido verdadeiro e razoável, salvo se alguém quisesse restringir o nome de estrangeiros apenas aos povos hostis, mas pode-se dizer que todas as nações vizinhas eram inimigas dos judeus. “Da mesma forma”, diz D. Damhouder, eminente jurisconsulto em Locis Communibus, admoest. 9, “os cristãos podem emprestar com usura a turcos e sarracenos, para que assim recuperem os bens da Igreja que os turcos e sarracenos, sem nenhum direito ou equidade, roubaram e invadiram, matando milhares de cristãos. Portanto, quem recebe usura de turco, ladrão ou infiel, não faz rapina, nem prejudica o irmão, e ajuda a Igreja”.
Comentário de Haydock: Vers. 20: Ao estrangeiro: Esta foi uma dispensa concedida por Deus ao seu povo, que, sendo o Senhor de todas as coisas, pode conferir a um o direito e o título sobre os bens de outro. Caso contrário, a Escritura, em toda parte, condena a usura como contrária à lei de Deus e um pecado que clama aos céus. Veja Êxodo 22,25; Levítico 25,36–37; 2 Esdras 5,7; Salmo 14,5; Ezequiel 18,8.13, etc. O “estrangeiro” significa as nações votadas ao extermínio em Canaã, etc., que Deus autorizou seu povo a destruir. “Exige usura daquele a quem podes matar sem crime”, diz São Ambrósio (De Tobia, cap. XV), embora esse princípio nem sempre sirva de desculpa à usura. Essa prática sempre foi considerada injustificável, exceto quando Deus dava permissão ao seu povo para, por esse meio, tomar posse dos bens do estrangeiro, cujo direito já lhes havia concedido; a menos que consideremos que ele apenas tolerava essa prática contra o estrangeiro, por causa da dureza de coração dos judeus. Cristo, porém, declarou agora expressamente que ela é ilícita para qualquer um.
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SALMO 14: 1. Salmo de Davi. Senhor, quem habitará no teu tabernáculo? Ou quem repousará no teu santo monte? 2. Aquele que anda sem mancha e pratica a justiça: 3. Aquele que fala a verdade em seu coração, que não usou de engano em sua língua: Nem fez mal a seu próximo: nem levantou calúnia contra seus próximos. 4. A seus olhos o maligno é reduzido a nada: mas ele glorifica aqueles que temem o Senhor. Aquele que jura a seu próximo e não engana; 5. Aquele que não emprestou seu dinheiro a juros, nem aceitou suborno contra o inocente: Aquele que faz estas coisas não será abalado para sempre.
Comentário de Santo Tomás de Aquino: A Glosa [nota marginal dos Padres ou escolásticos] explica isso de outro modo: “Aos seus olhos, o ímpio é reduzido a nada”, ou seja, o diabo é vencido por ele — João 2: “Vós vencestes o maligno”, etc. O Senhor glorifica os que o temem, isto é, Ele glorifica a si mesmo. No entanto, a primeira explicação é a mais literal. Aqui, ele se contém para não enganar o próximo. Ora, o próximo é enganado de três maneiras. Primeiro, nas promessas, e isso por meio de juramento. Assim se diz: “Aquele que jura…”, isto é, aquele que dá seu assentimento com a intenção de enganar, porque não cumpre. — Zacarias 8: “Não amais o juramento enganoso”; Levítico 19,12: “Não jurareis falsamente em nome do vosso Deus, nem o profanareis”. O jurar, em si, não pertence à virtude, mas sim o guardar do juramento. Segundo, nos contratos. Por isso se diz: “Aquele que não emprestou seu dinheiro com usura” — Lucas 6: “Dai emprestado, nada esperando em troca”. E também: “Não aceitou subornos contra o inocente” — Provérbios 17: “O ímpio aceita presentes às escondidas” (isto é, da Igreja), para perverter o caminho do juiz. — Deuteronômio 23 proíbe que se dê a um irmão com usura, porque vende-se aquilo que não existe (o tempo, que pertence a Deus), já que não se possui o usufruto (isto é, o direito de fruir dos bens alheios sem destruí-los ou desgastá-los).
[Santo Tomás contrasta duas interpretações da Escritura: uma alegórica (o demônio vencido) e outra literal (a reprovação dos ímpios). O usurário cobra por algo que não lhe pertence (o tempo ou uso do dinheiro), tornando ilegítima a usura.]
Comentário de Haydock: Vers. 5: Usura: Isso sempre foi condenável, embora Moisés a tenha tolerado no caso dos judeus que emprestavam aos cananeus (Deuteronômio 23,19; Lucas 6,35). A lei romana condenava o culpado a pagar o dobro do que pagava o ladrão, sendo que este devia restituir o dobro do valor do que havia roubado (Catão, livro 1). Sob a aparência de bondade, a usura causa um dano real (Santo Hilário): “mesmo àqueles a quem parece socorrer, é odiosa” (Columela, prefácio). Nem aceitou suborno (munera, “presentes”): mesmo estes são perigosos, pois tendem a predispor o juiz. Tanto a usura quanto fazer o mal por subornos excluem do céu. O juiz deve sacudir de suas mãos tais coisas (cf. Isaías 33,15), pois não pode aceitá-las nem para emitir uma sentença justa, nem para uma injusta. Seu dever já o obriga a dar a sentença justa, de modo que, se aceitasse presentes para isso, o inocente estaria, na prática, comprando aquilo que já lhe era de direito. As mesmas máximas devem ser aplicadas a todos os que exercem autoridade, a testemunhas, etc. Aqueles que não falharam em nenhum desses aspectos precisam ainda possuir a fé e todas as outras virtudes necessárias antes de poder entrar no Céu. Pois, quando a Escritura atribui a salvação a uma virtude em particular, não quer com isso excluir as demais. Não será abalado para sempre: Todas as coisas terrenas são mutáveis; e, por isso, o salmista fala aqui do Céu. Se já se exigia tanta perfeição para comparecer ao tabernáculo, quanto mais se requer daquele que aspira ao Céu! O bom cristão que não cedeu à tentação pode aí gozar de repouso sem perturbação. Isaías 33,20–22 usa expressões semelhantes ao descrever o estado de Jerusalém após a derrota de Senaqueribe.
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SALMO 54: 10. Derruba-os, ó Senhor, e divide as suas línguas; pois vi iniquidade e contradição na cidade. 11. Dia e noite a iniquidade a cercará sobre seus muros: e no meio dela há tribulação, 12. e injustiça. E a usura e o engano não se afastaram de suas ruas. 13. Pois se meu inimigo me tivesse ultrajado, eu certamente teria suportado. E se aquele que me odiava tivesse se engrandecido contra mim, eu talvez me tivesse escondido dele. 14. Mas tu, um homem de mesmo sentir, meu guia e meu íntimo, 15. Que comias doces manjares comigo: na casa de Deus andávamos em concordância 16. Venha a morte sobre eles, e desçam vivos ao inferno [Sheol]. Pois há maldade em suas moradas: no meio deles.
Comentário de Haydock: Vers. 10: Derruba: O hebraico traz: “tragados”, como a terra tragou a Datã (cf. Números 16). A Septuaginta traduz: “afogados”. Línguas: isto é, que sejam confundidos como em Babel, para que não saibam como prosseguir. O hebraico também diz: “tragados… pela torrente de sua língua”. A palavra pallag também pode significar “dividir”. Absalão, por exemplo, foi confundido pelo amigo de Davi (2 Reis 15,31 e 17,7). Refere-se possivelmente à cidade de Hebron, ou até mesmo a Jerusalém, da qual Davi não deixou nenhuma guarnição. Essa cidade foi ainda mais abandonada no que diz respeito ao nosso Salvador. Contradição: Os conselhos dos ímpios não estão em harmonia. Eles têm seus sofrimentos, mas não se corrigem; ao contrário, lutam para oprimir os pobres. Vers. 13: Eu talvez me tivesse escondido dele: Mas como nos proteger de um traidor? O dano causado por um amigo é o mais doloroso de todos.
Comentário de Santo Tomás de Aquino: Vers. 11–12: Dia e noite: Aqui ele mostra a maldade da multidão de uma maneira particular. Há três coisas em qualquer cidade que se deve considerar, a saber: as muralhas que a cercam, a habitação central e as ruas. E Aristóteles distingue três tipos de pessoas. Pelas muralhas, entende-se os governantes e os magnatas da cidade que protegem o povo, assim como as muralhas protegem a cidade. Provérbios 25:“Como uma cidade que está aberta e não é cercada por muralhas”, etc.; Isaías 62: “Sobre tuas muralhas, ó Jerusalém, eu coloquei vigias”, ou seja, os governantes e líderes. Isaías 1: “Teus príncipes são infiéis”. E dia, isto é, na execução da maldade; noite, no planejamento dela. Ou, dia, nos tempos de boa fortuna; e noite, nos tempos de adversidade. Por isso ele diz: a iniquidade a cercará sobre seus muros, ou seja, a maldade dos governantes cercará a cidade do mundo, assim como as muralhas da cidade. O meio desta cidade representa o povo. No meio dela há trabalho [tribulação] e injustiça, na mesma medida das coisas más que eles fazem; então, quando ele fala de trabalho imposto, refere-se à dedicação à maldade. Jeremias 9: “Eles se esforçaram para cometer iniquidade”; Sabedoria 5: “Nós nos cansamos no caminho (da maldade)”. E isso é uma espécie de mal, e injustiça. E isso é entendido de forma passiva, como a injustiça que eles sofreram dos prelados e o trabalho imposto a eles. As ruas são lugares públicos, e são aqueles que exercem cargos públicos, como os homens de negócios nos quais a injustiça é manifesta, por exemplo, pela usura. Salmo 14: Aquele que não emprestou seu dinheiro a usura. E, portanto, ele diz: E a usura… não se afastaram. Da mesma forma, a injustiça [oculta], então, e o engano.
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EZEQUIEL 18,4–9: 4. Eis aí está que todas as almas são minhas, como o é a alma do pai, assim também a alma do filho é minha: a alma que pecar, essa morrerá. 5. E se um homem for justo, e obrar conforme a equidade e a justiça, 6. se não comer nos montes, e não não levantar os seus olhos para os ídolos da casa de Israel; e se não ofender a mulher do seu próximo, e não se ajuntar com a menstruada; 7. e se não oprimir a ninguém, se tornar o penhor ao seu devedor, se não tirar nada do alheio por violência, se der do seu pão ao que tem fome, e ao nu cobrir com vestes; 8. se não emprestar a juros, e não receber mais do que o que emprestou; se apartar a tua mão da iniquidade, e fizer um verdadeiro juízo entre homem e homem; 9. se andar nos meus preceitos, e guardar os meus mandamentos, para obrar segundo a verdade: este tal é justo, certissimamente viverá, diz o Senhor Deus.
Comentário do Padre António Pereira de Figueiredo: Vers. 6: se não comer nos montes: Entende-se não comer das ofertas consagradas aos ídolos, como costumavam os judeus desde os tempos de Jeroboão. Vers. 8: se não emprestar a juros: Deste lugar e dos seguintes na matéria, tira São Jerônimo que por direito divino a todos é proibido levar juro do que se empresta ou em dinheiro, ou em espécie.
Comentário de Cornélio a Lápide: Vers. 8: e não receber mais (em hebraico superabundanter, isto é, algo além do principal ou capital). Nota: Deus, entre outros crimes, também intenta a morte aos usurários, e o faz com justiça. Pois, como diz Santo Ambrósio, no livro De Tobia, cap. X: “Nada há de diferente entre funus (morte) e foenus (juros), nada entre morte e capital”. E quando perguntaram a Catão: “O que seria emprestar a juros?”, respondeu: “É matar um homem”. E no mesmo livro citado, cap. XII, Santo Ambrósio compara a usura a uma equidna (ou víbora): “A equidna é algo como o dinheiro do usurário, o qual dá à luz tão grandes males. Ela, porém, fecundada, trazendo no ventre as crias, rasga-se no parto e, com sua morte, ensina que a prole não é degenerada em relação à mãe. Ela [a prole] a dilacera com suas mordidas. Ali, onde o veneno se gera, é primeiro provado. Ora, o dinheiro do usurário concebe todos os seus males, dá-os à luz, nutre-os, e ele próprio cresce ainda mais na sua descendência, mais numeroso em triste prole”.[1] E mais abaixo: “Ali, pois, estão as dores como as da parturiente”. Donde também os gregos chamarem as usuras de τόκος (parto), porque parecem excitar dores de parto na alma do devedor.
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EZEQUIEL 22,11–12: 11. E cada um desonrou a mulher do seu próximo com abomináveis atos, e o sogro corrompeu com um horrível incesto sua nora, o irmão fez violência à própria irmã, a filha de seu pai, no meio de ti. 12. Eles receberão presentes no meio de ti para derramarem o sangue; tu recebeste usuras e lucros ilegítimos, e levado pela avareza caluniavas a teus próximos; e tu te esqueceste de mim, diz o Senhor Deus.
Comentário do Padre António Pereira de Figueiredo: Vers. 12: usuras e lucros ilegítimos: Conforme os Santos Padres, tudo o que se leva ultra sortem (além do principal), que é o que aqui e noutros lugares a Escritura chama de usura.
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II ESDRAS (NEEMIAS) 5,1–11: 1. Ora, houve um grande clamor do povo e de suas mulheres contra seus irmãos, os judeus. 2. E havia alguns que diziam: Nossos filhos e nossas filhas são muito numerosos; tomemos [emprestado/comprado] trigo pelo preço deles [penhorando-os ou à custa deles], para que comamos e vivamos. 3. E havia [outros] que diziam: Hipotequemos nossas terras, nossas vinhas e nossas casas, e tomemos trigo por causa da fome. 4. E outros diziam: Tomemos dinheiro emprestado para o tributo do rei, e entreguemos [empenhoremos] nossos campos e vinhas. 5. E agora, nossa carne é como a carne de nossos irmãos, e nossos filhos como os filhos deles. Eis que entregamos à servidão nossos filhos e nossas filhas, e algumas de nossas filhas já são escravas, nem temos com que resgatá-las, e nossos campos e nossas vinhas outros homens possuem. 6. E fiquei extremamente irado quando ouvi seu clamor conforme estas palavras. 7. Deliberei em meu coração [pensei comigo mesmo], e repreendi os nobres e os magistrados, e lhes disse: Exigis vós, cada um, usura de vossos irmãos? E convoquei contra eles uma grande assembleia, 8. e lhes disse: Nós, como sabeis, resgatamos conforme nossa possibilidade nossos irmãos judeus, que foram vendidos aos gentios; e vós, então, vendereis vossos irmãos, para que nós os resgatemos? E eles se calaram e não encontraram o que responder. 9. E eu lhes disse: O que fazeis não é bom; por que não andais no temor do nosso Deus, para que não sejamos expostos aos opróbrios [censuras] dos gentios, nossos inimigos? 10. Tanto eu como meus irmãos e meus servos emprestamos dinheiro e trigo a muitos; concordemos todos em não o cobrar mais; perdoemos a dívida que nos é devida. 11. Restituí-lhes hoje seus campos, suas vinhas, seus olivais e suas casas; e também a centésima parte do dinheiro, do trigo, do vinho e do azeite, que costumáveis exigir deles.
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MATEUS 5,42: Dá a quem te pede, e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes.
Comentário de Cornélio a Lápide: Em grego, μη αποστραφῇς, isto é, “não te desvies”. Santo Agostinho interpreta: “Não te desvies”, isto é, não sejas avesso a quem te pede um empréstimo. À primeira vista, esta sentença não parece coadunar-se com o que precede, relativo à lei de talião e à vingança; mas, na verdade, ajusta-se perfeitamente, pois o sentido é este (como Cristo quer dizer): “Eu, em lugar da lei de talião e de malefício, estabeleço a lei da caridade e da beneficência”. Portanto, a qualquer um que te peça algo, seja amigo ou inimigo que te feriu e bateu na tua face, ou te roubou o manto, ou de outra forma te oprimiu, dá-lhe o que pede; e se quiser pedir-te um empréstimo, não te desvies, mas recebe-o benignamente como próximo, e empresta-lhe, como se nunca te tivesse ofendido. Que este seja o sentido fica claro pela expressão ne avertaris (“não te desvies”), ou, como está em grego, ne averseris (“não te avesses”), e pelo que acrescenta Lucas 6,30: “A todo aquele que te pede, dá-lhe; e a quem tomar o que é teu, não lho reclames”. Donde se vê aqui que se trata daquele que tomou o que é teu como ladrão ou raptor; a este deves conceder o que tomou e não o reclamar, especialmente se ele estiver muito necessitado (se não tivesse tomado, estarias obrigado a dar-lhe por esmola), embora seja um conselho, mas muito útil. Entenda-se: isso se aplica se tiveres algo teu para lhe dar ou emprestar, pois bens alheios, especialmente consagrados a Deus, como os de um mosteiro, não podem ser dados ou emprestados sem permissão do superior, como ensina São Basílio nas Regulis brevior., Resp. 101. Assim, Santo Espiridião e alguns anacoretas davam aos ladrões não só o que lhes fora roubado, mas até mais.
Além disso, Cristo acrescentou apropriadamente este preceito de dar a todo que pede ao preceito de suportar pacientemente o roubo, como a túnica ou o manto que te foram tirados; pois, quem pacientemente suporta que lhe tirem o que é seu, facilmente dará o que é seu a outro. Como diz São Gregório Magno (Pastoral, III, 21): “Quando a mente não sabe suportar a falta, se muitas coisas lhe forem tiradas, encontrará ocasião de impaciência contra si mesma. Primeiro, pois, deve-se preparar a alma para a paciência, e depois dar muito ou pouco, para que, não suportando com equanimidade a pobreza que sobrevém, não só se perca o mérito da generosidade anterior, mas ainda a alma seja arruinada pelo murmúrio subsequente”.
Finalmente, esse preceito de Cristo não diminui, mas aumenta em exigência de santidade; pois embora seja mais fácil dar a todo que pede do que oferecer a outra face a quem te bateu, ou dar o manto a quem te tirou a túnica, é mais difícil na prática, porque, como já disse, supõe aquela paciência com a qual somos obrigados a suportar tais coisas e tais pessoas, e acrescenta a beneficência de dar ou emprestar aos mesmos que pedem; pois é mais difícil, depois de recebida a injúria, fazer o bem ao injuriador do que meramente suportar a injúria recebida dele. Assim ensina Santo Agostinho (O Sermão da Montanha, cap. XL).
São Lucas (6,27.31.35) dá a razão anterior: “E a qualquer um que vos faça bem, fazei o mesmo a ele; e a quem vos odeia, fazei bem, e dai, e emprestai, sem nada esperar em troca”. Vês que te dá esmola mesmo sendo teu inimigo? Faze o mesmo a ele. Ouve o Clímaco (Escada do Paraíso, XXVI): “É dos piedosos dar a todo que pede; mas é mais piedoso dar mesmo a quem não pede. Não reclamar ou esperar algo daquele que te tirou algo, enquanto poderias fazê-lo, talvez seja só dos que se despiram de todo apego às coisas materiais”. A prática desse preceito de Cristo foi recentemente ensinada em Roma pelo exemplo raro de caridade do Beato Filipe Néri, que dava a todo que pedia tudo o que podia — consolo, conselho e auxílio —, e por isso queria que seu quarto estivesse sempre aberto, para que pudesse receber quem quer que chegasse a qualquer hora; e dizia que o servo de Deus deve ser homem de todas as horas, não reservando nada para si durante o dia, mas dedicando-se totalmente aos outros, como fez Cristo, que “passou fazendo o bem e curando todos os oprimidos pelo diabo” (Atos 10–11), e se deu a si mesmo com tudo por nós; e Paulo, “que se fez tudo para todos”, para ganhar todos para Cristo (1 Cor 9,22).
É notória a liberalidade de São João, Patriarca de Alexandria, que, movido por esse sábio conselho de Cristo, dava grandes esmolas a todos que pediam, e por isso foi chamado Esmoler; e quanto mais dava, mais recebia, como se competisse com Deus em liberalidade, e Deus com ele. João venceu a Deus, e Deus venceu João ainda mais. Não examinava se os que pediam eram ricos ou pobres, dignos ou indignos, poucos ou muitos. Dizia ele: “Estou convencido de que, mesmo que todo o mundo viesse a Alexandria necessitado de beneficência, os tesouros de Deus de modo algum se esgotariam”.
São Francisco de Assis, no início de sua conversão, tendo repelido um pobre que lhe pedia esmola contra o costume, arrependido subitamente do feito, deu-lhe uma esmola generosa e fez voto de nunca mais negar a quem lhe pedisse, e por essa sua liberalidade atraiu copiosamente a graça de Deus, pela qual logo alcançou tamanha santidade.
É raro o que lemos nas Crônicas da Ordem de São Francisco sobre Alexandre de Hales — apelidado de Fons Vitae (“Fonte da Vida”) —, mestre de São Boaventura e, segundo se diz, de Santo Tomás. Ele tinha tal afeto pela Mãe de Deus que resolveu nunca negar o que lhe fosse pedido em seu nome; o que, tendo entendido um franciscano, vendo-o como doutor celebérrimo, a quem ninguém igualava na Academia de Paris, aproximou-se dele e disse: “Por Santa Maria, peço-te que venhas conosco”. Ele julgou que o homem era enviado por Deus e imediatamente o seguiu, tornando-se irmão franciscano. Lucas Waddingus narra esse fato nos Annales minorum, tomo I, ano de Cristo 1222, n. 26.
Catena Aurea (Santo Tomás de Aquino)
Pseudo-Crisóstomo (Opus imperfectum in Matthaeum, hom. 12): Uma vez que as riquezas não são nossas, mas de Deus, quis Ele que fôssemos os dispensadores de suas riquezas, não os donos.
São Jerônimo: Mas, se interpretamos isso como se referindo apenas a esmolas, não se poderá dizê-lo a respeito de muitos pobres; porque mesmo os ricos, se derem constante-mente, não poderão dar sempre.
Santo Agostinho (De sermone Domini, 1, 20): Diz, pois: Dá a quem te pede, mas não todas as coisas àquele que peça, indicando que se deve dar o que se possa justa e honestamente. Que se diria se alguém pedisse dinheiro com o propósito de com ele oprimir um inocente? Que se diria se pedisse um estupro? Deve-se dar, então, o que não pode fazer mal a ti nem a outrem. Quando negares o que te for pedido, deves indicar a justiça, para não despedir aquele que pede de mãos abanando, e, vez ou outra, é melhor corrigir do que dar àquele que pede injustamente.
Santo Agostinho (Ad vinventium, epistola 93, 2): Pois é mais útil tomar o pão daquele que tem fome, se a certeza de ter provisões o faz negligenciar a justiça, do que partir-lhe o pão de modo que, seduzido, alegre-se na força da injustiça.
São Jerônimo: Pode-se compreender isso também acerca da riqueza da doutrina, riqueza que não só não perece, mas que, quanto mais dela se tira, mais abunda.
Santo Agostinho (De sermone Domini, 1, 20): Quanto àquele que diz: “E não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes” com isso deve se referir à alma; pois Deus ama aquele que dá de boa vontade (2 Cor 9, 7). Desse modo é que aquele que recebe algo, em verdade, recebe em empréstimo, mesmo quando não pode pagar, porque Deus devolve em maior quantidade aos mise-ricordiosos. Se não se quiser compreender como mutuante senão aquele que recebe de volta, deve-se entender que Deus compreendeu estas duas maneiras de emprestar: porque ou damos ou emprestamos àquele que depois nos devolverá, e em ambos os casos devemos adotar esta exortação: “Não voltes as costas”; isto é, não te recuses a emprestar, como se, porque o homem deveria te pagar, então Deus não o deveria; pois tudo o que for feito por ordem de Deus não pode ficar sem fruto.
Pseudo-Crisóstomo (Opus imperfectum in Matthaeum, hom. 12): Logo, Cristo nos manda emprestar, mas sem usura, pois quem dá com usura não dá o que é seu, antes subtrai o que é do outro; desata um vinculo e ata muitos outros; não dá pela justiça de Deus, e sim por ganância própria. O dinheiro que se obtém por meio da usura é semelhante a mordida de uma serpente venenosa. Assim como o veneno da aspide corrompe todos os membros de uma maneira oculta, de igual modo a usura converte todos os bens em dívidas.
Santo Agostinho (Ad Marcellinum, epístola 138, 2): Objetam alguns que esta doutrina de Cristo é contrária aos costumes dos po-vos. Dizem: “Quem permitirá que algo lhe seja tirado por um inimigo? Ou quem não quererá retribuir, pelo direito de guerra, os males causados pelos depredadores das províncias romanas?”. Ao que se responde: estes preceitos de paciência devem sempre ser guardados no fundo do coração como preparação da alma, e a benevolência, que nos inclina a não pagar o mal com o mal, deve ter um assento permanente na vontade. Deve-se fazer muitos benefícios, mesmo àqueles que não os quiserem receber, castigando-os com uma certa severidade benigna; por isso, quando os governos da terra cumprem os preceitos cristãos, mesmo as guerras não serão travadas sem benevolência e seu propósito não será outro senão atender aos interesses dos vencidos de modo mais favorável com a sociedade pacificada pela piedade e pela justiça; pois é vantajosamente vencido aquele a quem é retirada a licença da iniquidade, porque nao existe nada mais infeliz que a felicidade dos que pecam, com a qual se alimenta a impunidade penal e a má vontade, como um inimigo interior, se robustece.
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LUCAS 6,35: Mas amai vossos inimigos; fazei o bem e emprestai, sem nada esperar em troca; e vossa recompensa será grande, e sereis filhos do Altíssimo; pois ele é bondoso para com os ingratos e maus.
Comentário de Haydock: Sem esperar nada, mas apenas impelidos pelo desejo de fazer o bem. Aqueles que só dão quando têm certeza de receber um retorno maior, não dão, mas negociam com sua generosidade, na qual não há caridade.
Comentário de Cornélio a Lápide: Emprestai, nada esperando em troca — “dos homens”, acrescenta Syrus, “para que recebais vossa recompensa de Deus”; “nada”, isto é, nenhum prêmio, nenhum juro, nenhuma usura, nenhuma recompensa. Cristo quer, portanto, que emprestemos gratuitamente, não apenas que não aceitemos usura pelo empréstimo (o que é preceito), mas, além disso, que não esperemos similar benefício da parte de quem nos pede emprestado (o que é conselho), por exemplo pensando: “Eu emprestarei a Pedro, para que ele, em troca, me devolva algum serviço ou favor”. Pois isso é sinal de ânimo pouco liberal, mas avaro e ganancioso. Cristo, porém, nos instrui para uma liberalidade sincera e completa, pela qual não esperemos lucro algum do empréstimo, mas apenas que o mesmo seja restituído no devido tempo. Alguns pensam que nem mesmo essa restituição se deve esperar. Mas não é disso que Cristo trata aqui: pois isso já é doar, não emprestar; nem é empréstimo, mas um dom. Assim ensinam Toletus, Lessius, Valentia e outros que escreveram sobre usura e empréstimo.
Além disso, esperar lucro ou vantagem do empréstimo vai contra a etimologia e a natureza do mútuo. Pois mútuo (δανείζητε em grego; mutuum em latim) se chama o que é dado com mutuo animo (“ânimo mútuo”), por causa do dever, como diz Varrão (Livro V, De Lingua Latina); ou melhor, como diz Nônio Marcelo, “mútuo” se diz como que meum tuum (“meu teu”). “Mútuo”, diz ele, “chama-se o que, por afeto amigável, faz o meu ser teu durante o tempo necessário”. Donde São Gregório de Nissa (Oração contra os usurários): “Aquele que exige juros sobre um empréstimo é condenado como usurário”. Pois “o empréstimo é uma transação amigável quando é livremente dado e livremente restituído”, diz Cícero (Livro V, Epístola 2 a Metelo).
Finalmente, o homem prudente dará empréstimo ao necessitado, ainda que julgue que não será reembolsado, pois muitos, com efeito, são pobres que não podem restituir o empréstimo, outros são ingratos e não o querem. Donde o Comediante:
Si amico, ait, des mutuum, illud dum repetes,
Vel illud quod credideris perdes, vel illum amicum amittes.
(“Se a um amigo, diz, dás empréstimo, ao reclamá-lo,
Ou perderás o emprestado, ou perderás o amigo.”)
E noutro lugar:
Mutuo talento, ait, mihi inimicum emi, amicum perdidi.
(“Por um talento emprestado, diz, ganhei um inimigo, perdi um amigo.”)
Por isso, quem dá empréstimo, estime-o como dado — digo, dado por amor a Deus — e que por Deus lhe será retribuído com grande juro, conforme o dito: “Quem se compadece do pobre empresta ao Senhor” (Pr 19,17). Veja-se o que ali se disse. Donde São João Crisóstomo: “O pobre recebe, mas Deus se obriga a pagar”. E São Basílio (Sermão 4, Sobre a Esmola): “Quando dás algo ao pobre por causa do Senhor, isso é ao mesmo tempo donativo e empréstimo: donativo, pois não esperas recompensa humana; empréstimo, por causa da magnífica munificência do Senhor, que tendo recebido na pessoa do pobre, recompensa em grande medida em seu nome”.
Por isso o Eclesiástico (29,13) diz cristãmente: “Perde dinheiro por teu irmão e teu amigo”. Ali, em vários versículos, dei vários conselhos para estimular a emprestar com facilidade. Vi em certa cidade importante um abuso comum do empréstimo, pelo qual os que o recebiam o aceitavam não como empréstimo, mas como doação; por isso, não pensavam em restituí-lo; e, se o empréstimo fosse reclamado, indignavam-se. Mas com esse abuso conseguiram que ninguém ali queira mais emprestar a outro, considerando que o emprestado era o mesmo que doado ou perdido.
Catena Aurea (Santo Tomás de Aquino)
São João Crisóstomo (Hom. 1 in Epist. Ad Col.): Dissera o Senhor que os inimigos devem ser amados. Porém, para não supores que se tratava apenas de uma hipérbole, usada, quem sabe, para incutir terror aos ouvintes, acrescenta ainda a razão, dizendo: Se vós amais os que vos amam, que mérito tendes? O amor, é certo, pode ter muitas causas, mas o amor espiritual supera todos: não o gera nada terreno, nenhuma vantagem, nenhum favor, nenhuma natureza, nenhum tempo: é do Céu que desce. Por que te admira que não necessite de nenhum favor para seguir de pé, se nem mesmo a crueldade dos maus o pode perverter? Um pai que sofreu ultraje quebra a aliança de amor; a esposa, depois de uma briga, abandona o marido; o filho, se o pai avança muito em anos, lamenta-se do fardo: mas Paulo caminhava em direção dos que o apedrejavam para fazer-lhes o bem; Moisés, enquanto é apedrejado pelos judeus, ora por eles. Veneremos, então, as amizades espirituais, porque são indissolúveis. Por isso, a fim de repreender os preguiçosos, acrescenta: Porque os pecadores também amam quem os ama, como se dissesse: “Quero que possuais algo maior que eles, por isso vos aconselho a amar não só os amigos, mas também os inimigos”. Fazer bem aos benfeitores é comum a todos. Mas Nosso Senhor mostra pedir um pouco mais do que o costume entre os pecadores, que prestam favores aos amigos; por isso segue: Se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que mérito tendes? Os pecadores também fazem isso.
São Beda: Não denuncia apenas a infrutuosidade do amor e do favor dos pecadores, mas também a do empréstimo; por isso segue: Se emprestardes àqueles de quem esperais receber, que mérito tendes? Os pecadores também emprestam aos pecadores, para que se lhes faça outro tanto.
Santo Ambrósio: A filosofia, ao que parece, dividiu a justiça em três partes: a primeira, para com Deus, que é chamada de piedade; a segunda, para com os pais ou o resto da raça humana; a terceira, para com os mortos, que nos obriga a cumprir os seus direitos de exéquias. Porém o Senhor, indo além dos oráculos da lei e das alturas dos profetas, aperfeiçoa o dever de piedade e o estende aos que nos prejudicaram, ao acrescentar: Vós, porém, amai os vossos inimigos.
São João Crisóstomo (In Gen. Hom. 58): Fazendo isto, dás mais a ti do que a ele: ele, afinal, ganha o amor de um companheiro de escravidão; tu, porém, te tornas semelhante a Deus. Ora, não há nada mais virtuoso do que quando envolvemos de benefícios os que nos querem fazer mal; daí que siga: fazei o bem. Como a água lançada sobre uma fornalha acesa lhe apaga as chamas, assim faz a razão cheia de doçura com a ira: o que a água é para o fogo, a humildade e a mansidão são para a ira. E como o fogo não apaga o fogo, assim a ira não é pela ira apaziguada.
São Gregório de Nissa (Oratio contra usurarios): O homem deve evitar a danosa preocupação com o dinheiro, que faz com que busque obter do pobre o aumento das suas riquezas, tentando assim colher frutos do bronze e do ouro, metais estéreis; daí que siga: e emprestai sem daí esperardes nada. Não errará quem chamar de furto e homicídio o cálculo avarento dos rendimentos dos empréstimos: pois que diferença há entre quem arromba um muro para possuir bens roubados e quem se aproveita da necessidade de empréstimos para possuir bens ilícitos?
São Basílio: A essa espécie de avareza os gregos dão o nome de tókos, que significa parto, e os latinos, de fenus (usura), parecido com fetus (gravidez), por causa, creio eu, da fecundidade do mal. Ou, talvez, lhe chamam parto por causa das dores, semelhantes às do parto, que costuma incutir nas mentes dos que tiram algum empréstimo com usura. Os animais nascem e só com o passar do tempo é que crescem e parem; já a usura tão logo nasce já começa a parir. Os animais, quanto mais cedo começam a parir, mais cedo deixam de parir; mas o dinheiro dos avaros nunca deixa de crescer, por mais tempo que passe. Os animais deixam de parir depois que transferem à prole a capacidade de gerar e parir; o dinheiro dos usurários, porém, parem novos dinheiros e restauram os velhos. Ninguém, portanto, chegue perto dessa besta mortífera. “Mas”, dirás, ó pobre, “é de grande necessidade e vantagem para mim tirar um empréstimo”. E que vantagem é essa? Voltará a tua pobreza, e com ela a mesma necessidade. Pergunta-te: como farás para restituir o empréstimo? Como farás para multiplicar o teu dinheiro a ponto de ter o bastante tanto para as tuas necessidades quanto para a restituição? Mas dizes: “Com o que, então, me alimentarei, a não ser que tire um empréstimo?”. Há mil meios de tirar sustento. Tens mãos: trabalha, serve, enfim, pede esmola: tudo é mais tolerável que tomar dinheiro emprestado com usura. Por sua vez, dirá o rico: “Como se pode chamar de empréstimo o que é dado sem nenhuma esperança de restituição?”. Medita a virtude da palavra divina e admirarás a clemência do legislador. Quando dás ao pobre em nome do Senhor, é doação e empréstimo ao mesmo tempo: doação, porque não esperas nada de volta; empréstimo, por causa da magnanimidade do Senhor, que recebe pouco por meio do pobre e devolve muito aos que deram; donde segue: e será grande a vossa recompensa. Não queres que o Senhor de todas as coisas tenha dívidas contigo e te esteja obrigado a restituir? Ou ainda: se um rico prometer que vai te pagar uma dívida no lugar de outro homem, aceitarás a garantia dele, mas não admitirás Deus como quitador dos pobres?
São João Crisóstomo (In Genesim sub finem, hom. 3): Atenta à natureza admirável do empréstimo: um recebe, e outro fica obrigado à dívida, dando o cêntuplo no presente, e no futuro a vida eterna.
Santo Ambrósio: Quão grande será a recompensa da misericórdia a quem for admitido entre os filhos da divina misericórdia! Com efeito, segue: e sereis filhos do Altíssimo. Vai atrás da misericórdia, portanto, para mereceres a graça. A bondade de Deus se alastra por vastas regiões: a chuva cai sobre os ingratos, e a terra fértil não nega aos maus a colheita. Segue: [o] Altíssimo, que é bom para os ingratos e para os maus.
São Beda: Seja distribuindo bens temporais, seja inspirando, por uma singular graça, os dons celestiais.
São Cirilo: É grande o elogio da piedade: essa virtude não apenas nos deixa semelhantes a Deus, mas também como que imprime um selo da natureza celestial nas nossas almas; daí segue: Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso.
Santo Atanásio (Oratio 4, contra Arianos): Assim diz para que, em consideração dos seus benefícios, façamos o bem que fazemos não para os olhos dos homens, mas para os olhos de Deus, na medida em que é de Deus, e não dos homens, que alcançamos as recompensas.
[1] O que Santo Ambrósio repete aqui é uma lenda zoológica herdada da tradição greco-romana, especialmente da physiologia antiga, e não um dado observado da biologia real.
1. Origem do mito
- Já aparece em autores gregos como Heródoto (Histórias 3.109), Aristóteles (História dos Animais III, 16) e poetas helenísticos, e foi retomado por Plínio, o Velho (História Natural 10.170) e Lucano (Farsália IX, 700–733).
- Segundo essa crença, as víboras eram ovovivíparas e, quando chegava o momento do parto, os filhotes rompiam o ventre da mãe de dentro para fora, matando-a.
- Essa narrativa passou para a literatura moral cristã (Santo Ambrósio, Santo Agostinho, Santo Isidoro de Sevilha, etc.) como metáfora para o filho ingrato, o pecador ou, como aqui, o usurário que gera uma prole de males que o destrói.
2. A realidade zoológica
- As víboras são ovovivíparas (os ovos eclodem dentro do corpo da fêmea, e os filhotes nascem vivos), mas o nascimento não envolve dilaceração letal do corpo materno.
- O mito pode ter surgido porque, quando capturadas e mortas, algumas víboras eram encontradas com filhotes vivos dentro — o que foi interpretado como prova de “ruptura interna”.
- Na Idade Média, sem dissecação científica sistemática, esse tipo de observação ocasional era reforçado por interpretações morais e alegóricas.
3. Sentido moral no texto de Santo Ambrósio
- Assim como o filhote (na lenda) mata a mãe para nascer, o dinheiro emprestado a juros destrói quem o gerou — ele “dilacera” moralmente e socialmente o usurário.
- A metáfora enfatiza autodestruição pelo próprio fruto.
