SCORPIACE ADVERSUS GNOSTICOS, CAP. X
Tertuliano
Fonte: Patrologia latina, vol. II, p. 141–144. Paris, 1844.
Tradutor do texto latino: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: A palavra “scorpiace” vem do grego skorpiákē (σκορπιάκη), “contraveneno contra picada de escorpião”. No mundo antigo, scorpiacum era um antídoto médico usado contra veneno, sobretudo de escorpião e serpente. Tertuliano usa o termo metaforicamente: o escorpião é o herege gnóstico, cuja picada envenena a fé cristã; o Scorpiace é o remédio literário, sua obra polêmica, destinada a neutralizar o veneno gnóstico. Há também alusão bíblica: em Lc 10,19, Cristo diz: “Eis que vos dei poder para pisar serpentes, escorpiões e todo o poder do inimigo”. Tertuliano assume essa imagem: o herege é um escorpião, e o cristão precisa de um antídoto para resistir. Neste capítulo, ele se dirige contra a doutrina gnóstica (especificamente valentiniana) que negava o valor do martírio físico na Terra, argumentando que a verdadeira confissão de fé só aconteceria após a morte, perante as “potestades” celestes (os eões do Pleroma). Tertuliano combate essa tese mostrando, com ironia e argumentação bíblica, que o martírio cristão se cumpre aqui e agora, não em algum plano celeste.
A certa altura do texto, Tertuliano afirma que a fonte das perseguições aos cristãos era a sinagoga, isto é, os judeus.
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Mas quanto àqueles que pensam que a confissão não está estabelecida aqui, isto é, não dentro deste âmbito da terra, nem por este percurso da vida, nem diante dos homens desta natureza comum — quanta presunção há nisso contra toda a ordem das coisas que devem ser experimentadas nesta terra, nesta vida e sob as potestades humanas! Sem dúvida, [eles acham que], quando as almas tiverem saído dos corpos, e começarem a ser examinadas, por ordem, em cada uma das estações dos céus, e a serem interrogadas segundo aqueles arcanos sacramentos dos hereges, então é que se deveria confessar perante as verdadeiras potestades e os verdadeiros homens, a saber, os Theletos, os Abascantos e os Acinetos de Valentim.[1]
Com efeito, dizem eles, o próprio Demiurgo não aprovava uniformemente os homens do nosso mundo, a quem julgava equivalentes a um gotejar de balde, a pó de eira, a escarro e a gafanhotos; sim, até os equiparou aos animais irracionais.[2] Está realmente escrito assim. No entanto, não se deve por isso entender que exista outro gênero de homem além de nós: a nós, que, porque é certo que existimos, Ele pôde, por comparação, vestir-nos [com essas metáforas], salvaguardando tanto a propriedade do gênero quanto a singularidade [do indivíduo]. Pois, se a vida está corrompida, a ponto de, sendo julgada desprezível, ser comparada a coisas desprezadas, não se segue de imediato que a natureza foi abolida, a ponto de se considerar que outra [espécie] exista em seu nome. Pelo contrário, a natureza é preservada, ainda que a vida esteja maculada; e Cristo não conhece outros homens senão aqueles de quem diz: “Que dizem os homens que eu sou?” (Mt 16,13) e: “Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei vós também a eles” (Lc 6,31). Vê, portanto, como preservou o gênero daqueles de quem espera um testemunho sobre Si mesmo, e para os quais ordena a reciprocidade da justiça.
Quanto àqueles homens celestes, se eu exigir que me sejam mostrados, Arato[3] mais facilmente delineará no céu Perseu, Cefeu, Erígone e Ariadne entre os astros. Quem, porém, impediu o Senhor de determinar claramente que a confissão dos homens também deveria ser feita lá, onde Ele anunciou abertamente que a Sua [confissão] aconteceria, de modo que assim estivesse escrito: “Todo aquele que me confessar diante dos homens nos céus, também eu o confessarei diante de meu Pai que está nos céus”? Ele deveria ter-me livrado desse erro da confissão terrena, que Ele não quis que fosse aceite, se tivesse prescrito a celeste, porque eu não conhecia outros homens além dos habitantes da terra; já que nem sequer um homem tinha sido visto no céu até então.
Ademais, que fé [haveria] nas coisas, para que, após a partida [da morte], sendo elevado às regiões superiores, eu fosse aprovado lá, para onde não poderia ser colocado a não ser que já estivesse aprovado? Que eu fosse examinado lá por ordem, para onde não poderia chegar a não ser que fosse admitido? Para o cristão, o céu está aberto antes do caminho; porque não há caminho para o céu, a não ser para aquele a quem o céu está aberto; e aquele que o atingir, entrará.
Que potestades porteiras me afirmarás, segundo a superstição romana, um certo Jano, Fórculo e Limentino?[4] Que potestades tu alinhas às cancelas? Se alguma vez leste em Davi: “Levantai, ó portas, os vossos dintéis; levantai-vos, ó pórticos antigos, para que entre o Rei da Glória” (Sl 24,7).[5] Se igualmente ouviste em Amós: “Construiu a morada no céu, e fundou a sua abóbada sobre a terra; chama as águas do mar e derrama-as sobre a face da terra. O seu nome é: O Senhor” (Am 9,6),[6] sabe que essa ascensão desde então foi aplanada pelas pegadas do Senhor, e a entrada desde então foi aberta pela força de Cristo, e nenhuma demora ou inquirição ocorrerá no limiar aos cristãos que se apresentarem, pois não terão de ser reconhecidos ali, mas acolhidos; nem interrogados, mas admitidos. Pois, se ainda julgas que o céu está fechado, lembra-te que o Senhor deixou aqui as suas chaves a Pedro, e através dele, à Igreja, chaves que cada um, após ser interrogado e ter confessado aqui, levará consigo.[7]
Mas o diabo assevera que se deve confessar lá, para persuadir a negar aqui. [Segundo ele,] levarei belos documentos de recomendação, levarei comigo boas chaves: o medo daqueles que matam apenas o corpo, mas nada podem fazer à alma.[8] Serei recomendado pelo abandono deste preceito; ficarei honrosamente nos lugares celestes, eu que não pude manter-me nos terrenos; suportarei potestades maiores, eu que cedi às menores; merecerei, finalmente, ser admitido, já que fui excluído [aqui].
Resta ainda dizer: se nos céus se deve confessar, então aqui se deve negar; pois onde está uma coisa, aí está a outra; são rivais e andam sempre juntas. Será preciso até que a perseguição seja agitada nos céus, que é a matéria da confissão ou negação. Por que hesitas então, ó herege audacioso, em transferir toda a ordem da agitação cristã para as regiões superiores? E, em primeiro lugar, colocar o próprio ódio ao Nome lá, onde Cristo está sentado à direita do Pai? Lá estabelecerás também as sinagogas dos judeus, fontes de perseguições, perante as quais os Apóstolos sofreram flagelos, e os povos das nações com o seu circo, onde facilmente clamam: “Até quando a terceira raça?” (Usquequo genus tertium?, uma exclamação hostil contra os cristãos). Mas também terás de exibir lá os nossos irmãos, pais, filhos, sogras, noras e domésticos, através dos quais a traição é arquitetada; igualmente reis, presidentes e potestades armadas, perante os quais a causa deve ser defendida.
Certamente haverá também uma prisão no céu, privada de sol, ou, para seu desgosto, luminosa, e talvez grilhões feitos de cintos zodiacais, e o cavalete de tortura será o próprio eixo [celeste] que gira. Depois, se um cristão for para ser apedrejado, granizos estarão à mão; se para ser queimado, raios estão prontos; se para ser trucidado, a mão armada de Órion executará a tarefa; se para ser morto por feras, a Ursa Maior lançará ursos, e o Zodíaco, touros e leões. Aquele que suportar estas coisas até ao fim, esse será salvo. Portanto, também o fim estará nos céus, e a paixão, e a morte, e a primeira confissão? Mas onde está a carne, necessária para tudo isso? Onde está o corpo, que é a única coisa que os homens podem matar?[9]
Essa lógica certa, quase de modo jocoso, nos impôs, e ninguém conseguirá evitar a objeção desta prescrição, de modo a não ser forçado a transferir para lá toda a ordem da perseguição, todo o aparato sólido da sua causa, onde ele situou o foro da confissão. Pois a confissão é derivada da perseguição, e a perseguição termina na confissão. E não podem deixar de ser concomitantes, pois dispõem tanto a entrada como a saída, isto é, o princípio e o fim.
Além disso, o ódio ao Nome será aqui, e a perseguição irrompe aqui, e a traição é perpetrada aqui, e o interrogatório compelido aqui, e a carnificina enfurece-se aqui, e é aqui na terra que a confissão ou a negação completam toda essa ordem. Portanto, se as demais coisas estão aqui, a confissão não está noutro lugar; se a confissão está noutro lugar, as demais coisas não estão aqui. Ora, na verdade, as demais coisas não estão noutro lugar; logo, a confissão também não está no céu.
Ou, se querem que haja outra razão para o interrogatório e a confissão celestes, decerto terão de construir para ela uma ordem completamente diferente e diversa desta disposição que está assinalada nas Escrituras, e podemos dizer: “Que vejam eles [os hereges], contanto que esta ordem do interrogatório e confissão terrenos, que decorre da matéria da perseguição e da discórdia pública contra o Nome, esteja a salvo na sua integridade; para que se deva acreditar assim como está escrito, e entender assim como se ouve”. Aqui é que suporto toda a ordem, com o próprio Senhor a não designar nenhuma outra região do mundo.
Pois o que é que Ele acrescenta após o termo da confissão e da negação? “Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas a espada” — certamente, à terra. “Pois vim para separar o homem contra seu pai, a filha contra sua mãe, a nora contra sua sogra; e os inimigos do homem serão os da sua própria casa” (Mt 10,34–36) Pois assim se efetiva que “o irmão entregue o irmão à morte, e o pai o filho; e que os filhos se levantem contra os pais e os matem. E aquele que suportar até ao fim, esse será salvo” (Mt 10,21–22).[10]
Assim, toda essa ordem da espada do Senhor, enviada não ao céu, mas à terra, estabelece também aqui a confissão, que, ao suportar até o fim, sofrerá a morte.
[1] Theletos, Abascantos e Acinetos são eões (entidades espirituais) do sistema gnóstico de Valentim. Ele multiplicava nomes estranhos e figuras celestes como intermediários no processo de salvação. Tertuliano ironiza, apresentando-os como os “verdadeiros homens” e “verdadeiras potestades” perante os quais o cristão deveria confessar, segundo a doutrina gnóstica. Theletos: do grego theletos, “o desejado” ou “voluntário”. Abascantos: obscuro, provavelmente inventado, significando “o incapturável”. Acinetos: do grego akinetos, “o imóvel, o inabalável”. (N.T.)
[2] No gnosticismo, o “Demiurgo” é o criador do mundo material, identificado muitas vezes com o Deus do Antigo Testamento, mas visto como um ser inferior, ignorante ou até hostil. Tertuliano ironiza ao mostrar que, segundo os gnósticos, ele desprezava os homens, equiparando-os a coisas ínfimas. (N.T.)
[3] Arato (315–240 a.C.), poeta grego autor dos Fenômenos, poema didático-astronômico que descreve as constelações. Tertuliano diz que Arato mais facilmente poderia “desenhar” Perseu, Cefeu, Erígone (Virgem) e Ariadne no firmamento do que os gnósticos poderiam mostrar seus “homens celestes”. (N.T.)
[4] Jano, Fórculo e Limentino são divindades menores da religião romana: 1) Jano: deus das transições, entradas e passagens, sempre representado com duas faces; 2) Fórculo: deus protetor das portas; 3) Limentino: deus dos limiares. Tertuliano ironiza ao perguntar se os gnósticos imaginam algo semelhante nos céus: divindades-porteiras que controlam o acesso da alma. (N.T.)
[5] Tertuliano mostra que a entrada do céu é aberta por Cristo, não guardada por potestades gnósticas. (N.T.)
[6] Citado para reforçar que a ascensão e o caminho ao céu foram estabelecidos por Cristo. (N.T.)
[7] Tertuliano argumenta que Cristo deixou as chaves a Pedro e à Igreja, e que o cristão as leva consigo mediante a confissão feita na terra — contra a tese gnóstica de confissão celeste. (N.T.)
[8] Alusão clara a Mt 10,28: Tertuliano critica os gnósticos que “temem os poderes terrenos” e esperam confessar apenas nos céus. (N.T.)
[9] Tertuliano ironiza, dizendo que, se a perseguição fosse no céu, os suplícios celestes corresponderiam aos astros: saraiva para apedrejamento, raios para fogueira, Órion (caçador mitológico associado à constelação) para espada, a Ursa Maior para feras, e os signos de Touro e Leão para bestas. Mostra o absurdo de projetar no céu o drama do martírio cristão. (N.T.)
[10] Texto central para Tertuliano: Cristo mesmo indicou que a confissão e a perseguição se dão na terra, não nos céus. (N.T.)
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APÊNDICE EXPLICATIVO
Argumentos principais de Tertuliano
1. Contexto terreno da confissão: O argumento central é que a confissão (confessio) está inextricavelmente ligada à perseguição (persecutio). Como a perseguição, o ódio, a traição, as torturas e a morte acontecem na Terra, entre homens de carne e osso, a confissão que lhes dá sentido só pode ocorrer no mesmo contexto. Separar os dois é absurdamente contra a ordem das coisas (omnem ordinem rerum).
2. Reductio ad absurdum (redução ao absurdo): Tertuliano usa sarcasmo e ironia para demolir a tese gnóstica. Se a confissão e o julgamento são celestes, então todo o aparato da perseguição deveria ser celestial. Ele pinta um quadro ridículo: prisões nos céus, torturas com instrumentos zodiacais, execuções com constelações (ursos da Ursa Maior, touros de Taurus, leões de Leo), e traição por parte de familiares que também estariam no céu. Esse exercício lógico visa a mostrar a incoerência da posição herética.
3. A natureza humana: Refuta a ideia de que os gnósticos são “homens celestes” diferentes dos homens comuns (criados pelo Demiurgo). Cristo referiu-se aos homens terrenos, falou para eles e sobre eles. A natureza humana, mesmo decaída, é real e é o objeto da salvação de Cristo.
4. Exegese bíblica: Tertuliano argumenta que se Cristo quisesse que a confissão fosse celestial, Ele o teria dito explicitamente. Pelo contrário, as passagens sobre confissão e perseguição (como Mateus 10) são claramente situadas na terra (“não vim trazer paz, mas a espada à terra”).
5. Acesso ao Céu: Para o cristão, o céu é aberto pela fé e pela graça de Cristo, não por um exame após a morte. As chaves foram dadas à Igreja na Terra. O céu não é um lugar de novo julgamento ou interrogatório para os crentes, mas de acolhimento.
6. A intenção do Diabo: Tertuliano atribui a origem desta doutrina ao Diabo: o seu objetivo é persuadir os crentes a negar a fé aqui na Terra, onde isso importa, prometendo uma confissão fácil e sem risco num suposto tribunal celestial futuro.
Conclusão: O capítulo é uma defesa vigorosa e apaixonada do martírio como o ápice do testemunho cristão. Para Tertuliano, a confissão de fé perante as autoridades terrestres, mesmo sob ameaça de morte, é um elemento essencial e não negociável da vida cristã neste mundo, instituído pelo próprio Cristo. A doutrina gnóstica é, na sua visão, uma fuga covarde disfarçada de espiritualidade superior.
