SEGUNDA GUERRA MUNDIAL I
Seleção de artigos (2009–2010)
Norberto Toedter
1. EISENHOWER
Às vezes acontece de se guardar alguma coisa sem saber exatamente por que e para quê. Pois assim guardei por 64 anos e alguns meses o primeiro jornal pós-guerra, editado em 9 de maio de 1945 pelo novo governo militar aliado na cidade de Hamburgo, Alemanha. Hoje eu o saco dos meus arquivos, para mostrá-lo aos meus leitores com uma constatação que me parece de importância singular neste nosso esforço para saber o que realmente aconteceu naquela guerra fatídica. O documento original mede 38,5cm de largura por 56,8cm de altura. É constituído de uma única folha impressa de um lado só. Segundo informa, teve uma tiragem de 154.500 exemplares e foi distribuído gratuitamente. Ei-lo:

A manchete em vermelho diz “A GUERRA ACABOU!” e tem o subtítulo “Rendição incondicional de todas as forças de combate alemãs”. Depois de um pequeno editorial, é reproduzida uma mensagem do presidente americano Truman (Roosevelt havia morrido pouco tempo antes), sob o título “A hora da glória”, bem como a do rei George VI (Rei da Grã-Bretanha), “O Rei aos seus povos”. Abaixo desses, a mensagem do primeiro ministro britânico Winston Churchill intitulada “A causa da liberdade venceu”. Além dessas, temos ainda em menor escala uma mensagem do rei George ao general Eisenhower; comunicados do ministro do Exterior inglês Eden, do marechal Smuts, do primeiro-ministro canadense Mackenzie King, e uma declaração de treze linhas do General Eisenhower. Podemos ver também uma “Ordem à frota alemã” e um “Comunicado” do quartel general aliado. Ao final da quarta coluna vemos algumas pequenas notícias. É um documento de valor inestimável, não só pela raridade, mas graças à grande surpresa que traz o seu estudo.
A imprensa mundial nos ensinou depois e durante agora 64 anos que a Segunda Guerra ficou marcada pelo enorme e inacreditável genocídio praticado pelos alemães. Pois a surpresa é que neste primeiro jornal, editado pelo governo militar aliado, não há uma só menção a qualquer tipo de barbárie, não aparece a palavra “judeu” ou sinônimo, nem genocídio, nem extermínio. “Campo de concentração” é mencionado uma única vez em uma daquelas pequenas notas dizendo: “Tropas do 5º Exército encontraram também em campos de concentração alemães: Dr. Hjalmar Schacht, General Von Falkenhausen, o ex-governador militar na Bélgica e França do Norte, demitido em 19 de julho de 1944, bem como o Pastor Niemöller”.
Agora por que escrevi “Eisenhower”, nome do general comandante americano das forças aliadas ocidentais na Europa, como título deste artigo? Porque está circulando na internet uma mensagem ilustrada (pps) mostrando várias fotos de cadáveres amontoados acompanhadas de dizeres que seriam do general Eisenhower, segundo a qual estaria ele mandando fotografar e documentar tudo, pois dali a 60 anos apareceria algum idiota dizendo que nada daquilo acontecera. Essa mensagem, que tem o título “Parece impossível”, só pode ser falsa, porque nem nesse primeiro jornal pós-guerra, nem no seu livro Cruzada na Europa (559 páginas) Eisenhower faz qualquer menção a tais ocorrências. Delete-a.
_______________
2. VAI FAZER 70 OU 90 ANOS?
Ou será que tudo teria começado realmente em 1871, com Otto Von Bismarck conseguindo unificar uma Alemanha então retalhada e dividida em reinos, principados e ducados? Formou-se ali o II Reich e, provavelmente, uma pedra no caminho de muitos e importantes interesses internacionais.
A pergunta do título foi inspirada pelo fato de que estamos nos aproximando do dia 1º de setembro, quando, certamente com muito barulho midiático, será lembrado o septuagésimo aniversário do início da Segunda Guerra Mundial. Foi mesmo neste dia de 1939 que este conflito começou, ou teria sido em 1919, vinte anos antes?
Em 1919 a Alemanha fôra obrigada a assinar o Tratado de Versailles, depois de ter deposto as armas ao término da Primeira Guerra Mundial. Muitos estudiosos e historiadores concluem que ali fôra aceso o estopim da bomba que eclodiria vinte anos depois. Anexei algumas imagens que mostram a Europa Central antes do Tratado, depois dele e após a Segunda Guerra.

No primeiro destes mapas vemos a situação antes do Tratado. Vemos a Alemanha como era desde a constituição do Reich em 1871, com 541 mil quilômetros quadrados. A Polônia era uma província russa. Logo ao sul se localizava um enorme território sob hegemonia da monarquia austro-húngara, que incluía, além de Áustria e Hungria de hoje, Galícia, Boêmia, Morávia, Tirol, Croácia, Bósnia e Montenegro. Com o final da primeira guerra sobreveio o Tratado de Versailles, que ignorou solenemente a promessa feita pelo presidente americano Woodrow Wilson, de que seria respeitada a autodeterminação dos povos. Seus resultados políticos podem ser vistos no segundo mapa.

Além de obrigar a Alemanha a assumir a culpa pela guerra, a Europa Central foi retalhada. A Polônia, cuja soberania fôra restabelecida dois anos antes pela Alemanha, após esta vencer a Rússia, além de receber grande parte do território da Alemanha Oriental e da Galícia, foi beneficiada com um acesso ao Mar Báltico, o “Corredor Polonês”. Neste (há um indicador vermelho no mapa) a cidade portuária alemã de Danzig (Gdansk) ganhou o status de território autônomo, sob soberania da Liga das Nações e administração da Polônia. A população alemã de todas essas áreas não foi consultada. Criou-se ainda a Tcheco-Eslováquia e a Iugoslávia. O Tirol do Sul passou para a Itália e outras cositas mas. A Alemanha perdeu 13% de suas terras, passando a 470.000 km².
O ano de 1938, cinco anos após assumir o governo, foi para Hitler o ano dos seus maiores triunfos. Todos conseguidos por meios diplomáticos. Ele entregou a 10 milhões de alemães os direitos de autodeterminação que lhes foram negados pelos “pacificadores” em 1919. Foi o ano em que os alemães da Áustria, Boêmia e Morávia (verdadeiras sobras do desmantelamento do Império Austro-Húngaro) passaram a integrar a nação alemã. Mas foi também o ano em que o problema Danzig começou a ficar evidente. Em 14 de janeiro de 1938, Hitler conferenciou com o ministro do Exterior polonês Josep Beck e, entre outros assuntos ali tratados, lhe disse que não concordaria com a revisão do status de Danzig que a Polônia pretendia requerer à Liga das Nações. Em outras palavras — e o que pouco se divulga —, era a Polônia quem estava querendo incorporar algo que não lhe pertencera. Certamente nem Hitler nem Beck estavam imaginando naquele momento que estavam tratando de um assunto que quase dois anos depois seria uma das causas de um novo conflito mundial.
No próximo artigo continuarei a tratar do assunto. Já que estávamos comparando mapas, aqui vai mais um da Alemanha como ficou depois da Segunda Guerra.

Restaram 357 mil quilômetros quadrados, 34% menos do que em 1918.
_______________
3. NINGUÉM VAI DIZER
Está chegando, feito um rolo compressor, novo esforço concentrado de propaganda antigermânica. Dentro de trinta dias, por volta de 1º de setembro, vamos cansar de ouvir falar da “pobre e indefesa Polônia pisoteada pelas botas dos soldados nazistas”, lembrando que há 70 anos começara a Segunda Guerra Mundial. Ninguém lembrará a intensa atividade diplomática, os conchavos políticos, o sofrimento de minorias étnicas, enfim, tudo que aconteceu antes que começasse o fatídico mês de setembro de 1939.
Ninguém vai dizer que Hitler, depois de vencer a batalha diplomática em torno da volta da terra alemã dos Sudetos (Tchecoslováquia), buscou também na diplomacia a solução para os problemas que começaram a surgir na Polônia. Ele instruiu seu ministro do Exterior, Joachim von Ribbentrop, a fazer uma proposta aos poloneses que parecia irrecusável. Já em 24 de outubro de 1938 o ministro se reuniu em um almoço com Józef Lipski, embaixador da Polônia em Berlim, quando sugeriu o seguinte entendimento:
- A cidade de Danzig, de população quase totalmente alemã, voltaria para o Reich.
- A construção de uma Autobahn através do “Corredor Polonês” (parte do território desmembrado da Alemanha pelo Tratado de Versalhes), permitindo uma ligação de trânsito livre com a Prússia Oriental.
- A manutenção de um porto livre polonês em Danzig.
- A garantia de reconhecimento pela Alemanha da nova fronteira entre os dois países.
Ninguém vai dizer que essa proposta nunca foi respondida pela Polônia, nem que no dia seguinte o ministro do Exterior inglês, Lord Halifax, já estava informado dela.
Ninguém vai dizer que no dia 12 de janeiro de 1939 o embaixador polonês nos Estados Unidos, Jerzy Potocki, escreveu em relatório ao seu governo: “O ambiente aqui se caracteriza por um ódio crescente ao fascismo. (…) A propaganda está quase toda nas mãos de judeus, a quem pertencem quase 100% do rádio, filme, imprensa e revistas”.
Ninguém vai informar o público de hoje que na véspera da guerra o embaixador britânico em Berlim, Nevile Henderson, escreveu ao seu ministro do Exterior que para que se alcançasse uma paz duradoura:
- As queixas alemãs contra o seu vizinho precisavam ser atendidas.
- O território de Danzig, com exceção do porto, deveria ser devolvido à Alemanha e esta deveria ter uma comunicação direta e extraterritorial entre o Reich e a Prússia Oriental.
- O problema das minorias étnicas teria que ser resolvido através de uma permuta populacional.
- “Se, a qualquer tempo, quisermos que as forças armadas e a nação alemã se revoltem contra Hitler, estas condições são fundamentais.”
Henderson escreveu ainda que ressalta mais uma vez ser imperioso que a Polônia aceite a proposta de conferências diretas, para que, aos olhos do mundo, se coloque ao lado da justiça.[1]
Entre muitos outros fatos, nossa mídia controlada não vai dizer que no dia 31 de agosto de 1939, às 11 horas da manhã, o mediador sueco Birger Dahlerus, acompanhado do conselheiro britânico Forbes, procurou o embaixador polonês Lipski e lhe apresentou a última proposta de entendimento feita por Hitler. Lipski disse que não tinha motivo para se interessar, porque conhecia a situação na Alemanha. Em caso de guerra, haveria perturbação da ordem entre os alemães e as tropas polonesas marchariam com êxito até Berlim.[2]
_______________
4. POLÔNIA RACISTA?
A eclosão da Segunda Guerra Mundial há 70 anos não foi só uma decisão de governos. O Tratado de Versailles, ao cabo da guerra anterior, além de remanejar fronteiras na Europa Central, também misturou populações, etnias, religiões. Idiomas mudaram da noite para o dia e, obviamente, pipocavam (e eram estimulados) conflitos pontuais.
O que pouco se tem observado é o fato de ter sido grande a participação do elemento judeu na população da Polônia, país que acabara de se tornar independente da Rússia. Mesmo constituindo 8% do total de habitantes (para comparar: no Brasil é de 0,05%), este grupo aparentemente não se integrava de fato à nova nação polonesa. Em 28 de março de 1938, o embaixador americano em Varsóvia, Anthony Joseph Drexel Biddle Jr., relatava que muitos judeus poloneses eram a favor de uma guerra europeia, pois acreditavam que a destruição da Polônia favoreceria suas vidas. Muitos achavam que a União Soviética era um verdadeiro paraíso em comparação com a terra na qual viviam e onde suas condições de vida pioravam gradualmente. Biddle dizia ainda que o Legislativo polonês estava criando inúmeras leis antijudaicas, até mesmo buscando reduzir a proporção de advogados hebreus, que constituíam uma parcela de 53% do total. No mesmo mês, o embaixador da Polônia, Jerzy Potocki, informava o subsecretário de Estado americano Sumner Wells de que o seu país desejava incrementar a emigração deste grupo populacional. Wells prometeu ajudar no seu assentamento na América do Sul (!). Uma missão especial sob ordem do Major Mieczyslaw Lepecki já havia sido mandada a Madagascar para sondar a possibilidade de assentamento nesta colônia francesa de baixa densidade populacional.
Antipatia e desconfiança contra os judeus aumentavam entre os poloneses. Em 1937 o chanceler Felicjan Slawoj-Skladkowski, em conversa com o alto comissário da Liga das Nações para a Cidade Livre de Danzig, Carl Jacob Burckhardt, se queixava dizendo que 60% dos judeus poloneses eram comunistas e que 90% dos comunistas poloneses eram judeus. O Sejm (câmara baixa do parlamento polonês) aprovou lei em 1938 que proibia o consumo de carne kosher, obrigando os judeus ortodoxos a seguir uma alimentação vegetariana.
Naqueles anos que antecederam a Segunda Grande Guerra, cerca de 575.000 judeus emigraram da Polônia, e outra lei, editada em março de 1938, buscava evitar sua volta ao país estabelecendo que, após cinco anos no exterior, o cidadão polonês perdia sua nacionalidade, tornando-se um apátrida. Os que pretendiam voltar da Alemanha eram barrados na fronteira à custa de baionetas. Essa atitude não era nova, pois já aos tempos de Bismarck os russos, então donos da Polônia, não permitiam a volta de judeus, nem russos, nem poloneses.
Tudo isso demonstra que a política restritiva a esse agrupamento étnico, racial ou religioso, adotada por Hitler na Alemanha a partir de 1935, nada tinha de exclusivo e próprio dos alemães. O fato é que esse problema contribuiu muito para aumentar a tensão entre os dois países. Desenvolveu-se um autêntico “empurra-empurra” humano na fronteira entre eles — que, de resto, envolveu também outros países; o próprio Brasil, por exemplo, chegou a se negar a receber imigrantes judeus.
É difícil dizer se essas diferenças também influenciaram as medidas tomadas pelos dirigentes poloneses contra a expressiva minoria alemã, agora parte da população daquele país. Procurarei abordar no próximo artigo esste aspecto dos dias que antecederam o fatídico dia 1º setembro.
_______________
5. DISCRIMINAÇÃO DOS ALEMÃES NA POLÔNIA
O ano de 1938 foi de sofrimento para a minoria populacional alemã na Polônia. Medidas discriminatórias adotadas pelo governo polonês agravaram as tensões já existentes. Como razão dessas perseguições, os mandatários poloneses alegavam maus tratos que poloneses residentes na Alemanha estariam lá sofrendo. É preciso que nos lembremos que, com o Tratado de Versailles em 1919, grande área territorial foi desmembrada da Alemanha e incluída na recém criada Polônia. Portanto a “minoria” alemã então incorporada à população do país vizinho era incomparavelmente mais numerosa que a minoria polonesa na Alemanha. Esta, no censo demográfico realizado em 1920 na Alemanha derrotada e humilhada, somou, entre os residentes nas regiões limítrofes, 15.927 pessoas que se declararam poloneses ou descendentes. Esse número caiu para 212 em maio de 1938. A divulgação desses dados acirrou ainda mais o ânimo dos poloneses, que alegavam haver uma assimilação forçada, esquecendo que a Alemanha vivia um período de euforia e bem-estar econômico.
Fundamental para o agravamento progressivo da tensão deve ter sido o receio de que Hitler viesse a reivindicar a autodeterminação do povo, prometida antes do fatídico Tratado de Versailles. Seria uma consulta popular que poderia questionar o retalhamento territorial havido, como já acontecera no caso da Áustria e dos Sudetos na Tchecoslováquia. Esse receio era insuflado por importantes órgãos da imprensa mundial, liderados pelo The New York Times. Independentemente das forças externas que incitavam o país contra a Alemanha, o polonês, recém libertado do jugo russo, passou a ver no alemão e no ucraniano novos opressores em potencial. Assim extrapolou em suas ações contra essas minorias. Em 1938, botou em prática um plano que proibia alemães de serem proprietários de terra numa faixa de 30 km da fronteira.[3] Escolas alemãs foram fechadas. As empresas eram induzidas a não empregar força de trabalho germânica, ocasionando grande taxa de desemprego no grupo alemão. Entre 1920 e 1939, cerca de um milhão de alemães deixou a Polônia.
Foi a Polônia que depois da primeira guerra instalou os primeiros campos de concentração na Europa Central, a saber: Szezypiowo e Stralkowo, que receberam perto de 16.000 alemães; Berza-Kartuska e Brest-Litowsk, para 30.000 pessoas, principalmente alemães e ucranianos, mas também adversários políticos.[4] De março a meados de setembro de 1939 foram internados mais de 50.000 alemães em campos de concentração na Polônia.
O fato é que o povo polonês era metodicamente orientado e estimulado a ver no seu vizinho alemão um inimigo. Agia com esse propósito o agrupamento chamado Obóz Zjednoczenia Narodowego (OZN) — chamado coloquialmente de “OZON”, palavra polaca para ozônio —, criado pelo coronel Adam Koc. Propunha-se a construção da unidade nacional. Com objetivo idêntico operava a associação “Polônia Jovem”, esta de orientação não apenas antigermânica, mas também antijudaica.[5] Some-se a tudo isso a recusa do governo polonês de participar de qualquer tipo de negociação, e tem-se pronta a fórmula para desencadear um conflito armado.
Última hora: Acabo de ver no noticiário da noite que na Polônia trabalhadores da construção encontraram junto à cidade ex-alemã de Marienburg, situada na fronteira com o ex-Corredor Polonês, uma cova coletiva com 2116 corpos, principalmente mulheres e crianças, “provavelmente” alemãs, vítimas de chacina. Tiveram agora um sepultamento decente.
_______________
6. MAIS UM REVISIONISTA
Ainda tendo em vista que estão se repetindo pela septuagésima vez os dias que antecederam a Segunda Guerra Mundial, volto mais uma vez ao assunto.
O historiador Dr. Stefan Scheil acaba de lançar na Alemanha, pela editora Duncker & Humblot, um livro denominado Churchill, Hitler und der Antisemitismus: Die deutsche Diktatur, ihre politischen Gegner und die europäische Krise der Jahre 1938/39 (“Churchill, Hitler e o Antissemitismo: A Ditadura Alemã, seus Oponentes Políticos e a Crise Européia de 1938/39”). O forte de suas pesquisas é a política internacional dos anos 1930. Deparei com uma entrevista que esse autor deu à revista DMZ, edição nº 69 de 5-6/09, e procurarei resumi-la aos meus leitores.
Ele trata especificamente dos precedentes políticos do conflito germano-polonês, e ressalta que os livros de História fazem de conta que essa anterioridade não existiu. Retratam tudo como se tivesse sido um ataque unilateral puro e simples, quando de fato o dia 1º de setembro foi antecedido por meses de crise, durante os quais foi a Polônia o primeiro país a mobilizar suas forças armadas e o primeiro a expressar ameaças concretas de guerra. Retrocedendo, Scheil explica: a partir de 1938 se impuseram revisões territoriais como consequência das demarcações aleatórias traçadas em Versailles; alguns Estados de estrutura frágil, como a Tchecoslováquia, se desfizeram; outros apresentaram reivindicações, entre os quais Alemanha, Itália, Hungria e também a Polônia. Nesse contexto, não se pode esquecer de que Estados Unidos e União Soviética não haviam reconhecido os tratados de 1919.

Na Polônia atuavam consistentes forças políticas que viam a existência de sua nação garantida somente enquanto grande potência, havendo para tanto necessidade de conquista de importantes áreas territoriais da Alemanha. Círculos governamentais em Varsóvia a falar em “nossa Danzig, nossa Prússia Oriental, nossa Silesia, nossa Pomerânia”. Por isso a proposta alemã de reconhecer as fronteiras atuais não encontrou qualquer respaldo. Confiavam essas forças polonesas no apoio que outras potências ocidentais lhes podiam oferecer. Winston Churchill já teria dito em 1934 que o nacional-socialismo oferecia a oportunidade de se derrotar definitivamente a Alemanha. Na virada dos anos 1937/38, o embaixador polonês em Washington já informava seu governo que lá uma guerra contra a Alemanha era coisa decidida.
Em meados da década de 1930, Churchill passou a liderar uma estranha coalizão de forças conservadoras, liberais, esquerdistas, cristãs e judaicas. O grupo se denominava “Focus” e tinha por objetivo incitar a Inglaterra contra o nacional-socialismo e colocar Churchill na chefia do governo inglês. Serviu-se de todos os meios — publicidade, conchavos e falsificações. O serviço secreto inglês fez chegar ao presidente Roosevelt mapas adulterados que mostrariam planos de invasão da América do Sul pelos alemães.[6]
A existência desse “partido da guerra” na Inglaterra era de conhecimento do governo alemão, e fez com que este, depois do acordo de Munique, buscasse evitar novas áreas polêmicas. Mesmo assim ocorreu o estabelecimento do “protetorado” na Tchecoslováquia, pois, depois de Munique, Polônia e Hungria também passaram a reivindicar territórios, ao passo que a Eslováquia se declarava independente. Hitler esclareceu aos ingleses o caráter emergencial da medida e prometeu voltar atrás dentro de um acordo geral.
De fato, no verão europeu de 1939 ainda houve conversações entre os governos alemão e inglês, durante as quais o premier Neville Chamberlain se dispôs até a considerar uma anulação da garantia de apoio dada à Polônia e uma nova estrutura para as áreas coloniais. Mas Chamberlain estava sob forte pressão, e não se deu continuidade aos entendimentos, apesar da extrema generosidade (segundo Chamberlain) das propostas alemãs.
Do outro lado estava a figura de Stálin. Este contava com uma guerra europeia. Era o que mais queria. Para que a Polônia arriscasse uma guerra contra a Alemanha, era preciso que se sentisse segura do outro lado. Daí a renovação do pacto de não-agressão polaco-soviético em fins de 1938. Stálin também não queria assustar a Alemanha entrando numa aliança com Inglaterra e França. Em lugar disso, firmou um pacto de não-agressão com a Alemanha, com o que complementou sua estratégia provocatória. Já Hitler entendeu esse pacto como chave que abriria as portas para um acordo idêntico com a Inglaterra, o qual efetivamente propôs no dia 25 de agosto de 1939.
Do exposto pode ser deduzido que o número de interessados numa guerra em 1939 não era pequeno. Uma situação repleta de contrastes, inclusive ideológicos, onde temos o capitalismo, o nacional-socialismo, o nacionalismo quase autista polonês e o stalinismo.
O entrevistado encerrou dizendo que esperava estar contribuindo para corrigir a visão simplista de hoje, que atribui à Alemanha a responsabilidade exclusiva pelo desencadeamento da Segunda Guerra Mundial.
_______________
7. REVELAÇÕES FINLANDESAS
É um disparate querer proibir a pesquisa e o consequentemente possível revisionismo histórico. Surge agora, do autor Erkki Hautamäki, o livro Finland in stormen öga (“Finlândia no olho da tormenta”), que vem revelar aspectos totalmente novos da Segunda Guerra Mundial. A obra foi publicada em sueco — uma edição alemã está sendo preparada pela editora Pour Le Merite. O autor teve acesso a anotações do Marechal Carl Gustaf Emil Mannerheim, que foi comandante em chefe das forças finlandesas que enfrentaram a União Soviética. Certamente não foram divulgadas antes em função da delicada situação vivida pelo país em relação à União Soviética, enquanto esta existia.

Hautamäki nos confirma a imagem daquele Stálin que em momento algum abandonara a ideia do domínio mundial, mesmo quando firmou o pacto de não-agressão com Hitler em 23 de agosto de 1939. Vamos saber agora que poucas semanas depois, em 15 de outubro, Stálin assinou um pacto supersecreto com Churchill (este ainda Primeiro Lorde do Almirantado britânico, mas já pré-destinado a substituir Chamberlain no comando). Combinaram ali uma estratégia para acabar com a Alemanha. Churchill realizaria um sonho que já acalentara durante a Primeira Guerra: encurralar seu inimigo figadal por todos os lados, acabando com ele. A Alemanha não lutaria apenas em duas frentes: ela seria virtualmente estrangulada. O plano previa que a União Soviética atacaria a Finlândia (como fez). As potências ocidentais, Grã-Bretanha e França, a pretexto de prestar socorro aos finlandeses, mandariam tropas através dos países escandinavos, Noruega e Suécia, com ou sem licença destes. Uma vez ali assentados, iniciar-se-ia um ataque coordenado, previsto em tese para o dia 10 de maio de 1940. O planejamento estratégico foi provavelmente confirmado por Churchill nos primeiros dias de fevereiro de 1940 e entregue no dia 9 a um emissário de Stálin, que o encaminhou por avião a Moscou. Alertados pelo serviço secreto, os alemães interceptaram o avião sobre o Mar Báltico, obrigando-o a pousar. Fotografaram os documentos e mandaram-no seguir. Ao próprio Mannerheim remeteram cópias de parte dos documentos em 9 de março.
Stálin naturalmente soube do vazamento ocorrido, mas aparentemente não avisou os ingleses. É que o projeto dele sempre foi o de que as forças ocidentais se digladassem entre si, enfraquecendo-se a ponto de facilitar-lhe a revolução mundial.
Segue um croqui ilustrando as ideias desse pacto tripartite, revelado agora por iniciativa dos finlandeses:

Frente N — Ocupação soviética da Finlândia.
Frente M — Operação ofensiva anglo-francesa.
Frente E — Operação ofensiva soviética.
Frente S — Operação ofensiva anglo-francesa e soviética nos Bálcãs.
Vale lembrar que já em abril daquele ano Alemanha (dia 9) e Grã-Bretanha (dia 14) iniciam uma corrida para ocupar a Noruega, na qual a Alemanha acabou levando a melhor após encarniçadas batalhas. E os alemães sabiam das verdadeiras intenções dos soviéticos, tanto que buscaram desesperadamente a paz com a Inglaterra. Quando viram que o tempo trabalhava a favor de Stálin, lançaram-se ao ataque contra os soviéticos em junho do ano seguinte.
Que a revelação do arquivo pessoal do general finlandês Mannerheim valha também para que certos legisladores se convençam do absurdo que fizeram, ou pretendem fazer, de conceder caráter dogmático a determinados conceitos históricos. A maior parte dos arquivos da época permanece sob o mais rígido segredo de estado.
_______________
8. RELATÓRIOS DIPLOMÁTICOS
Joseph (Joe) Kennedy (pai do futuro Presidente dos Estados Unidos) era embaixador dos Estados Unidos em Londres de 1937 a 1940. Ele era contra uma participação americana na guerra e favorável a um plano para solução da questão judaica, o qual — como o alemão do Presidente do Reichsbank, Dr. Hjalmar Schacht — previa um assentamento dos judeus na África. James Forrestal, então secretário da Marinha dos Estados Unidos, anotou em seu diário na data de 27 de dezembro de 1945:
“Joguei golfe hoje com Joe Kennedy [Joseph P. Kennedy, que foi Embaixador de Roosevelt na Grã-Bretanha nos anos imediatamente anteriores à guerra]. Perguntei-lhe sobre suas conversas com Roosevelt e Neville Chamberlain a partir de 1938. Ele disse que a posição de Chamberlain em 1938 era que a Inglaterra não tinha nada com que lutar e que não podia arriscar entrar em guerra com Hitler. A opinião de Kennedy: que Hitler teria atacado a Rússia sem qualquer conflito posterior com a Inglaterra, se não tivesse sido pelas insistências de Bullitt [William C. Bullitt, então Embaixador na França] pressionando Roosevelt, no verão de 1939, para que os alemães fossem contidos pela Polônia; que nem os franceses nem os britânicos teriam transformado a questão da Polônia numa causa de guerra se não fosse pela constante pressão de Washington. Bullitt, disse ele, continuava dizendo a Roosevelt que os alemães não lutariam, Kennedy dizia que lutariam, e que dominariam toda a Europa. Chamberlain, segundo ele, dizia que a América e os judeus do mundo haviam forçado a Inglaterra a entrar na guerra. Em sua conversa telefônica com Roosevelt, no verão de 1939, o Presidente ficava insistindo para que ele [Kennedy] “colocasse algum ferro na espinha” de Chamberlain. A resposta de Kennedy sempre era que colocar ferro na espinha dele não adiantava nada, a menos que os britânicos tivessem com o quê lutar — e eles não tinham.”[7]
Até aqui, o relatório Kennedy.
Agora vamos encontrar o Mr. Bullitt de novo no relatório do embaixador polonês Jerzy Potocki de 16 de janeiro de 1939 ao seu ministro do Exterior. Ali ele diz que falou com Bullitt, segundo ele o mais importante conselheiro do presidente americano para assuntos internacionais. O mesmo lhe disse que Roosevelt queria que França e Inglaterra acabassem com qualquer política de compromissos com Alemanha e Itália. Bullitt o assegurou da “garantia moral” do seu presidente, de que, em caso de guerra, os Estados Unidos interviriam ativamente ao lado de Inglaterra e França. A América colocaria todos os seus recursos financeiros e materiais à disposição.
Esse é o relatório Potocki.
Depois dessa, quem é que não toparia um pequeno “desforço físico” no qual morreriam mais de 50 milhões?
_______________
9. O DIA EM QUE STÁLIN SURTOU
Estamos no mês de junho. Foi no dia 22 deste mês no ano de 1941 que as tropas alemãs começaram sua longa e sofrida marcha através das terras do universo bolchevista. Começara então a guerra entre Alemanha e União Soviética, que, para a História Estabelecida, é mais uma prova da agressividade nazista e do pretendido domínio mundial por parte da Alemanha. Entretanto, para os que pretendem uma revisão da história, foi um ato preventivo, no qual Hitler se antecipou a Stálin por poucos dias, como já o fizera na Noruega, quando lá chegou antes dos ingleses.
“Bati antes que me batessem”, coisa que já nos nossos tempos de guri na escola era difícil de provar. Mas neste caso existem muitos indícios que efetivamente comprovam que era da União Soviética a intenção de atacar a Alemanha, e não o contrário. Já no artigo “Revelações Finlandesas” isso ficou bastante claro. E aqui têm mais algumas:
- Stálin dá com a língua nos dentes: No dia 5 de maio de 1941 ele discursa no Kremlin (palácio sede do Soviete Supremo) perante formandos acadêmicos e revela suas intenções de atacar a Alemanha. Faz o mesmo mais tarde, no mesmo dia, perante altos oficiais.
- Golpe militar na Iugoslávia: Em março de 1941, contrário à aliança do país com o Eixo. Teve patrocínio comunista.
- Anexação dos Estados Bálticos: Em junho de 1940 a União Soviética ocupa militarmente a Lituânia, a Letônia e a Estônia, garantindo seu acesso ao Mar Báltico.
- Na mesma época Stálin anexa a Bessarábia, parte do território da Romênia, com o que passa a ficar a apenas 120km das fontes de petróleo que abastecem a Alemanha.
- A teoria militar dominante na União Soviética era a do ataque. É o que ensinavam suas academias e escolas de armas.
- Stálin deu ênfase à preparação de tropas pára-quedistas, que se destinam eminentemente a serem usadas em operações de ataque. Não servem para defesa. Em 1941, já contava com 16 brigadas e uma reserva de um milhão de pára-quedistas treinados.
- Segundo o próprio ditador vermelho, seu exército contava em 1941 com divisões de blindados e mais 24 mil carros de combate. Era o maior contingente da época. Também sua força aérea era maior que qualquer outra européia. É inquestionável que essas armas se destinavam ao ataque.
- Qual era a finalidade dos 345 submarinos (Alemanha tinha 30), prontos ou em construção quando começou a guerra, de que dispunha Moscou? Evidentemente, para serem usados no Mar Báltico, a fim de bloquear os portos alemães.
- O Exército Vermelho quase não dispunha de mapas e material cartográfico do próprio território da Rússia, mas tinha em abundância da Polônia e da Alemanha.
- Nos anos 1920, a União Soviética contava com um bem organizado e treinado contingente de guerrilha (partisans). Ao final dos anos 1930, quando Stálin mudou a concepção tática de defesa para ataque, ele ordenou sua dissolução. Só determinou sua reorganização em 3 de julho de 1941, quando proclamou a “guerra do povo”.
Fato é que neste dia 22 de junho de 1941 se encontravam frente a frente 256 divisões soviéticas e 148 alemãs. Essa supremacia vermelha em nada estava preparada para a defesa. Todos os procedimentos normais para tanto haviam sido negligenciados. Suas maiores forças estavam concentradas em dois lugares onde a fronteira avançava acentuadamente para o oeste, o que as beneficiaria quando atacassem, mas facilitou seu encurralamento e desmantelamento quando atacadas. No Stawka (Conselho de Guerra) em Moscou reinava a estupefação. Faltavam notícias confiáveis que permitissem uma visão geral da situação. Para o Marechal Timoschenko e para o General de Exército Schukow, a perplexidade aumentaria ainda mais quando Stálin, que recentemente assumira o comando supremo das forças armadas da URSS, ordenou “o contra-ataque geral”, militarmente impossível naquela situação. Perderia até o fim do ano 5,3 milhões de soldados e oficiais (mortos, aprisionados ou desaparecidos), 20.500 blindados, 101.100 peças de artilharia e 10.300 aviões. Em novembro a Wehrmacht chegaria a 50km de Moscou.
Se a Alemanha perdeu a guerra, isso certamente não foi devido à estratégia militar do líder vermelho.
[1] Documents on British Foreign Policy, 1919–1939, Series 3, Volume VII, H.M.S.O., 1954, Doc. 537.
[2] Aqui, em seu artigo original, Toedter referencia a página 110 da obra A última tentativa, de Dahlerus. Mas como se trata de uma tradução do título original, ficamos sem saber então que edição foi consultada por ele. (N.E.).
[3] Cf. David L. Hoggan, The Forced War: When Peaceful Revision Failed (Institute for Historical Review, 1989).
[4] Cf. Erich Kern, Bernhard Steidle (Hrsg.), Verheimlichte Dokumente: Was den Deutschen verschwiegen wird, Band 2 (FZ-Verlag, 1995).
[5] Não encontramos referências a uma associação com esse nome (em polonês, é claro) citada por Toedter. (N.E.)
[6] Cf. Karl Radl, “The Jewish Origin of Franklin Delano Roosevelt’s ‘Secret Nazi Map’ of South America”. Substack, 28 dez. 2024. Disponível em: <https://karlradl14.substack.com/p/the-jewish-origin-of-franklin-delano>. Acesso em: 7 jul. 2025. Também do mesmo autor, “Analysing Franklin Delano Roosevelt’s ‘Secret Nazi Map’ of South America”. Substack, 20 jan. 2025. Disponível em: <https://karlradl14.substack.com/p/analysing-franklin-delano-roosevelts>. Acesso em: 7 jul. 2025. (N.E.)
[7] The Forrestal Diaries. Edited by Walter Millis. New York: The Viking Press, 1951, p. 121–123.
_______________
Retirado de: A paz que não houve. O outro lado da história. Curitiba: Editora e Livraria do Chain, 2010, p. 49–51, 53–65, 109–111, 137–138, e 140–142.
