SERMÃO 17 (EXCERTO)
São Leão Magno
Fonte: Philip Schaff, Henry Wace (eds.), Nicene and Post-Nicene Fathers, Second Series, Vol. 12. Buffalo, NY: Christian Literature Publishing Co., 1895. Revisado e editado para New Advent por Kevin Knight: <http://www.newadvent.org/fathers/360317.htm>.
Tradutor do texto: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: São Leão Magno exorta o cristão a praticar a “usura santa” — dar aos pobres como quem empresta a Deus, que retribui com bens eternos — e condena com rigor a usura comum, que enriquece à custa alheia e leva à ruína da alma.
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II. Aquele que empresta ao Senhor faz melhor negócio do que aquele que empresta ao homem
Sê firme, ó cristão que dás: dá para que possas receber, semeia para que possas colher, espalha para que possas ajuntar. Não temas gastar, não te aflijas com a incerteza do lucro. Teus bens aumentam quando são sabiamente distribuídos. Volta o teu coração para os lucros que advêm da misericórdia e negocia em ganhos eternos. O teu Remunerador quer que sejas munificente, e Aquele que te dá para que tenhas, ordena-te que gastes, dizendo: “Dai, e dar-se-vos-á” (Lc 6,38). Deves abraçar agradecidamente as condições desta promessa. Pois, embora não tenhas nada que não tenhas recebido, não poderás deixar de ter aquilo o que deres.
Portanto, aquele que ama o dinheiro e deseja multiplicar as suas riquezas por lucros desmedidos, deve antes praticar esta santa usura e enriquecer-se com este modo de emprestar, não para apanhar homens enredados em dificuldades e, com ajuda enganosa, prendê-los em dívidas que jamais poderão pagar, mas para ser credor e emprestador d’Aquele que diz: “Dai, e dar-se-vos-á; e com a medida com que medirdes, também vós sereis medidos” (Lc 6,38).
Mas é infiel e injusto até consigo mesmo quem não quer possuir para sempre aquilo que considera desejável. Amontoe o que quiser, acumule e guarde o que puder: deixará este mundo vazio e necessitado, como diz o profeta Davi: “Quando morrer, nada levará, nem a sua glória descerá com ele” (Sl 48,18). Ao contrário, se cuidasse da própria alma, confiaria os seus bens Àquele que é, ao mesmo tempo, o verdadeiro Fiador dos pobres e o generoso Pagador dos empréstimos.
Mas a avareza injusta e sem vergonha, que promete fazer alguma boa obra, mas a adia, não confia em Deus — cujas promessas nunca falham — e confia no homem — que faz negócios apressados; e, enquanto considera o presente mais certo que o futuro, muitas vezes, com razão, descobre que a sua cobiça de ganho injusto é a causa de uma perda nada injusta.
III. A usura é iníqua em todos os aspectos
E assim, qualquer que seja o resultado, a profissão do agiota é sempre má, pois é pecado tanto diminuir quanto aumentar a quantia emprestada: se perde o que emprestou, é infeliz; se recebe mais do que emprestou, é ainda mais infeliz. A iniquidade da usura deve ser absolutamente rejeitada, e o lucro desprovido de toda humanidade deve ser evitado.
De fato, os bens de um homem podem multiplicar-se por esses meios injustos e deploráveis, mas a riqueza da alma se arruína, porque a usura do dinheiro é a morte da alma. O que Deus pensa de tais homens é claramente indicado pelo santíssimo profeta Davi: quando pergunta, “Senhor, quem habitará em vossa tenda? ou quem descansará em vosso santo monte?” (Sl 14,1), recebe em resposta o oráculo divino, do qual aprende que aquele homem alcança o descanso eterno que, entre outras regras de vida santa, “não deu o seu dinheiro à usura” (Sl 14,5).
Assim, quem obtém lucro enganoso emprestando a juros é mostrado como estrangeiro à tenda de Deus e exilado do seu santo monte, e, procurando enriquecer-se com a perda alheia, merece ser castigado com uma indigência eterna.
