SOBRE O JUDEO-CATOLICISMO
Padre Juljan Unzlicht
Fonte: Ateneum Kapłańskie, 1935, volume 36, p. 373–377. Link: https://images.elk.pl/i/1063/8771/
Tradutor do texto: Estanislau Sobieski.
Descrição: O autor distingue entre a massa judaica ídiche-talmúdica, considerada irredutível e hostil à polonidade, os judeus assimilados externamente mas ainda antagônicos, e um grupo minoritário de judeus inclinados ao catolicismo. Defende a necessidade de resistir à influência judaica na vida econômica e cultural, mas sem recorrer ao antissemitismo racial. Para ele, a conversão dos judeus deve ser buscada com critérios pastorais, dentro da estrutura nacional polaca, sem um rito separado, embora seja algo lento e difícil.
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A questão judaica, quase sempre atual, adquire uma tensão particular na época presente. Falar sobre ela com calma e objetividade é muitas vezes muito difícil, devido às paixões violentas que desperta. Especialmente na Polônia contemporânea, essa questão se agravou fortemente e é talvez o maior problema de sua vida nacional e econômica. A antiga convivência relativamente pacífica entre polacos e judeus está a ceder lugar a uma luta cada vez mais acirrada pela predominância nas cidades, centros da cultura nacional. Nada impedirá essa luta, já a previa o abaixo-assinado antes da guerra; trata-se apenas de dar-lhe um caráter de acordo com a ética cristã. Pois mesmo em relação aos judeus a ética nos obriga.
Buscando libertar a nossa vida econômica das influências perigosas de um elemento estrangeiro, que inúmeras vezes assumiu uma posição hostil perante a Polônia e desprezou a sua língua, tomemos como exemplo a região da Posnânia, onde a ação solidária da nação polaca, sem quaisquer excessos, levou a uma quase completa polonização das cidades. Se eclodirem distúrbios antijudaicos, que a culpa nunca esteja do lado polaco. Os judeus devem saber que o contínuo incentivo por eles dado a correntes subversivas, com o objetivo de exterminar a fé católica, aniquilar a liberdade da Polônia e transformá-la numa impotente província soviética, deve, por fim, provocar uma enorme reação da parte polaca, pois ninguém pode garantir-lhes impunidade a esse respeito.
Contudo, uma defesa inteligente da causa polaca não requer medidas tão severas. Uma atmosfera fortemente católica na sociedade polaca, juntamente com um alto senso de solidariedade nacional, paralisa em grande medida a ação judaica. Sob essa luz, examinaremos a questão judaica na Polônia contemporânea.
Em primeiro lugar, no que diz respeito à enorme massa ídiche-talmúdica, não se pode falar de sua assimilação nacional, nem de sua conversão. O seu papel terminou na Polônia, a cujo desenvolvimento cultural ela se constitui um obstáculo. Pela polonidade e o catolicismo essas massas, em geral, nutrem aversão, se não desprezo; desejam regressar à Palestina, ao menos em teoria, pois na prática entendem a Palestina como sendo a Polônia e dela não querem sair totalmente. No entanto, terão de abandonar a Polônia, à medida que o comércio e a indústria polacos se desenvolverem. Naturalmente, também nessa turba podem encontrar-se exceções, afeiçoadas à polonidade e ao catolicismo, que por isso mesmo pertencem à próxima categoria e serão consideradas com ela.
Mas antes devemos examinar quem é o elemento externamente assimilado, isto é, aquele que fala polaco, sem um apego adequado à polonidade, e por vezes até nutre ódio pela Polônia — um triste exemplo disso foi o chamado socjal-litwactwo (“social-litvakismo”), que se agrupava na antiga “Social-Democracia do Reino da Polônia”, sob a liderança do litvak-provocador Lejba Jogiches, Róża Luksemburg, sua “esposa”, e Warszawski, incutindo no povo polaco a convicção de que “a Polônia é um cadáver que deve ser chutado” e organizando, em conluio com a Okhrana moscovita, verdadeiros massacres das massas polacas — cf. o meu livro intitulado O pogromy ludu polskiego (“Sobre os pogroms do povo polaco”), publicado antes da guerra. O seu papel é geralmente muito ambíguo: dele saem falsas “conversões” para iludir a vigilância do elemento polaco; o exemplo clássico disso é o acima mencionado Warszawski, que para facilitar a sua propaganda antipolaca e anticatólica recebeu o batismo, casou-se com uma polaca católica e enviou os filhos à catequese!
Resta a escassa categoria de “almas de Cristo” em Israel, isto é, aquelas que se debatem nas garras do judaísmo, desejando por vezes inconscientemente a fé católica, e geralmente também a cultura e a nacionalidade polaca (ou francesa, como se vê em França), por vezes, embora raramente, a cultura e a nacionalidade hebraica (uso esta expressão porque a palavra “judaico” geralmente associa-se ao ídiche e ao Talmude, coisas que tais indivíduos repudiam). Essa questão deve ser considerada tendo em vista, antes de tudo, a eficácia e a durabilidade da conversão — afinal, trata-se da salvação das almas —, em seguida, as convicções internas das pessoas em questões que, do ponto de vista da Igreja, são livres, como por exemplo o sentimento nacional.
Ora, é fácil entender que os judeus convertidos devem sair de seu meio, fundamentalmente anticristão: primeiro porque suas práticas religiosas se realizarão nas igrejas, e não nas sinagogas; segundo, porque a influência do ambiente judaico pode revelar-se fatal para a sua fé. Qual pode ser a situação na sociedade polaca de um convertido do judaísmo, ou de um judeu descrente? Ora, assim como não se pode impor a nacionalidade polaca a um convertido que se identifica com a “nacionalidade” judaica,[1] também não se lhe pode impor a “nacionalidade” judaica se ele não se identifica com ela. Mas será que a própria sociedade polaco-católica pode fechar-se perante os convertidos do judaísmo, como se fossem uns pestilentos? Se assim fizesse, estaria na essência a negar o seu caráter católico, pois dificultaria aos convertidos a prática da fé católica, e depois desprezaria esses católicos porque os une o sangue a Cristo, que, como homem, foi israelita, e não um “ariano”.
[Nota d’O Recolhedor: Nesse ponto, nós nos afastamos do entendimento do Padre Unszlicht, o qual repete o velho argumento do atavismo psicobiológico entre Nosso Senhor Jesus Cristo e os judeus. A esse respeito, julgamos correta a leitura do Padre Roland Hamel.]
Na medida em que uma defesa inteligente contra a inundação judaica é indicada e necessária, na mesma medida o antissemitismo insensato, que ataca o judaísmo enquanto raça, é condenado pela Igreja Católica, pois atinge a própria Revelação Divina, os livros sagrados do Antigo e do Novo Testamento, atinge o próprio Deus, que através de Israel revelou a sua vontade. Por isso, a sociedade católica nunca seguirá os caminhos dos antissemitas em relação aos convertidos, sentindo nisso uma ofensa divina; o passado da Polônia é a melhor indicação disso. Por sua vez, os convertidos não devem temer esses excessos, oferecendo os sofrimentos e humilhações daí decorrentes a Cristo, que tantos sofreu dos seus, confiando que Ele saberá domar e envergonhar aqueles que perseguem os seus fiéis.
Algo análogo vemos na França contemporânea: os convertidos do judaísmo francês consideram-se católicos franceses, não querem ouvir falar de nenhuma nacionalidade judaica, nem de culto hebraico (o clero francês também não), no entanto não negam a sua origem, pois todos os anos na Sexta-Feira Santa organizam uma cerimônia expiatória na basílica do Sagrado Coração de Jesus em Paris, depositando uma coroa de flores com a inscrição Hommage d’Israel a son Sauveur (“Homenagem de Israel ao seu Salvador”).
Todavia, podem haver indivíduos que se identificam com a “nacionalidade” judaica e, ao mesmo tempo, são sinceramente convertidos ao catolicismo. Ora, da sua conversão, bem como da necessidade de recorrer ao clero polaco nas necessidades religiosas, devem concluir que é necessário ser absolutamente leal em relação à Polônia, que deu abrigo ao judaísmo, e depois ter por ela reconhecimento por, ao longo dos séculos, ter adorado Aquele a quem ele [o judaísmo] renunciou. Eles podem ter os seus próprios sacerdotes, se tais se encontrarem, porque a vocação sacerdotal depende inteiramente de Deus, por isso nem sempre é para os compatriotas: assim São Paulo foi chamado para as nações pagãs, chamava-se a si mesmo doctor Gentium (“doutor dos Gentios”), e se orgulhava do título de civis romanus (“cidadão romano”). Da mesma forma, na França atual, muitas vocações francesas vão para missões, enquanto as paróquias francesas ficam vazias e são ocupadas por belgas, holandeses e até mesmo polacos.
É difícil imaginar uma hierarquia especial judeo-católica, pois não se sabe de quem a formar, e vocações judaicas isoladas teriam de trabalhar sob a direção dos bispos locais na conversão de seus compatriotas. Mas esses convertidos poderiam “desnacionalizar-se” e, com isso, atrair o ódio do judaísmo, o que dificultaria sua evangelização? Há aqui um grande equívoco. Em primeiro lugar, exigir dos convertidos que se dediquem a converter os seus “compatriotas” é, em geral, exigir demasiado; pensemos em quantos sacerdotes têm um espírito, como se diz em França, “burguês”, e não apostólico! Se os convertidos se mantêm na prática religiosa, apesar da desconfiança dos cristãos e do ódio dos judeus, já é muito bom, em geral não se pode exigir mais deles. Se, porém, surgirem entre eles vocações heróicas, então Deus e a hierarquia da Igreja saberão como utilizá-las.
Naturalmente, os convertidos de Israel poderiam ter suas próprias capelas, onde sacerdotes católicos polacos, ou de origem judaica, celebram ofícios (batismos, casamentos, sermões), mas isso não requer um rito especial.[2] Obviamente, não quero pré-julgar a questão do rito hebraico; apenas a Santa Sé é autorizada a esse respeito; no entanto, vemos que em nações tão grandes e tradicionais como a China e o Japão, a Igreja leva a cabo sua ação no rito latino, do qual essas nações se orgulham, pois é o rito dos países mais civilizados. Pensemos: estaria a Polônia em nível tão elevado e pertencendo ao Ocidente se tivesse adotado o cristianismo no rito eslavo?
Se a conversão dos judeus avança tão lentamente, é porque — parece paradoxal — o materialismo contemporâneo, tão propagado pelos judeus, ainda não lavrou suficientemente a alma judaica. Quando o fizer, então poder-se-á colocar a questão da conversão do judaísmo, porque em nenhum lugar as melhores almas se contentarão com uma existência puramente animal. Por outro lado, as conversões individuais são uma ocorrência diária; devem ocupar-se delas os sacerdotes que com elas contactam diretamente, sem esperar por problemáticas vocações especiais para esse trabalho. Um sacerdote que se esquivasse a isso, e rejeitasse os israelitas que a ele se dirigissem como sendo repulsivos ou pelo menos indiferentes, talvez servisse de cortina de fumo conveniente para certas correntes políticas, mas trairia sua missão.
Mas também os convertidos do judaísmo devem lembrar-se de que a desconfiança quanto à sinceridade dos seus motivos é mais do que justificada e que é preciso passar por uma prova de fogo, algo doloroso, mas não acima das forças humanas, pois Cristo os sustentará. Por isso, não devem desanimar diante das várias dificuldades, mas pela perseverança mostrar o verdadeiro espírito de fé e trazer consolo espiritual aos sacerdotes que querem ocupar-se deles, apesar de tantas decepções e comprometimentos que possam ter experienciado nesses piedosos esforços.
Meaux
Pe. Juljan Unszlicht
[1] Os judeus, na minha opinião, não são e nunca serão uma verdadeira nacionalidade, mas seria demasiado longo debruçar-me aqui sobre esse problema. A distinção e a permanência do judaísmo não provêm de seu sentimento nacional — se assim fosse, já teria há muito desaparecido —, mas do papel de testemunha de Cristo, um papel negativo, mas sobrenatural, por isso imperecível apesar de tantos abalos e reviravoltas pelos quais o judaísmo passou e ainda passará, “até que a plenitude das nações entre na Igreja”.
[2] É o que acontece na capela Notre Dame de Sion em Paris, fundada pelo Pe. Ratisbonne para a conversão dos judeus.
