TRADIÇÃO APOSTÓLICA DE HIPÓLITO OU ESTATUTOS DOS SANTOS APÓSTOLOS?
Jean Magne (†2009)
Fonte: https://orecolhedor.com/wp-content/uploads/2026/02/Jean-Magne-Tradition-apostolique-dHippolyte.pdf
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: Neste breve artigo, Jean Magne questiona a autoria da chamada Tradição Apostólica atribuída a Hipólito de Roma (†c. 235 d.C). Através de análise gramatical e comparação com as Constituições Apostólicas, o autor argumenta que o documento X não é uma obra unitária de Hipólito, mas uma compilação anônima de textos litúrgicos de diferentes origens e épocas. Magne propõe que Hipólito escreveu especificamente uma Tradição Apostólica sobre os Carismas, texto este que foi fundido com os Estatutos dos Santos Apóstolos por compiladores posteriores. O autor apresenta evidências manuscritas e análise textual regressiva para sustentar sua tese de que a obra tradicionalmente atribuída a Hipólito é, na verdade, resultado de sucessivas compilações e edições. A conclusão desafia a visão estabelecida desde os estudos de Schwartz (1910) e Connolly (1916) sobre a natureza e autoria desse importante documento da Igreja antiga.
_______________
1 – O documento X, que se considera como a Tradição Apostólica de Hipólito desde que E. Schwartz (1910) e R. H. Connolly (1916) interpretaram, independentemente um do outro, o prólogo-transição da mesma maneira, já não pode mais, após a análise gramatical e lógica dos textos (por onde se deve sempre começar), ser considerado uma obra de Hipólito. Deve ser visto como uma coleção anônima de regras litúrgicas e canônicas de idades e proveniências diversas, que o compilador nem sequer se deu ao trabalho de revisar para conferir-lhes uma aparência de unidade, como fizeram os autores dos documentos derivados: Testamentum Domini, Cânon de Hipólito e Constituições Apostólicas.
2 – O paralelismo entre as Constituições Apostólicas (C.A.) e o documento X leva à conclusão de que os capítulos sobre os carismas das C.A. são uma reelaboração do texto sobre os carismas ao qual o prólogo-transição se refere, mas que falta no início do documento.
3 – É muito fácil, nesses capítulos sobre os carismas das C.A., separar as glosas do Constituidor do texto de sua fonte, empregando o método de análise regressiva ou anabática, isto é, remontando o texto do fim para o início e perguntando-se, para cada frase, de qual frase anterior ela é realmente a continuação. O texto assim extraído é o seguinte (os números são os das C.A.):
- (1.3) Os carismas não foram dados para nós, os crentes, mas para os incrédulos. E, de fato, expulsar demônios não aproveita a nós, mas àqueles que são purificados pela ação do Cristo, conforme o próprio Senhor, instruindo-nos, mostra em algum lugar: “Não vos alegreis porque os espíritos vos estão sujeitos, mas alegrai-vos porque vossos nomes estão escritos no céu” (Lc 10,20). O primeiro ponto, com efeito, depende do Seu poder; o segundo, da nossa boa vontade e aplicação.
- (4) Não é, portanto, necessário que todo fiel expulse demônios, ressuscite mortos ou fale línguas, mas apenas aquele que é agraciado com esse carisma por uma razão precisa de utilidade em vista da salvação dos incrédulos, os quais frequentemente não são convencidos pela evidência das demonstrações, mas sim pela força impositiva dos sinais, quando são dignos da salvação.
- (7b) E é por causa deles que apraz a Deus, como bom administrador, que milagres sejam realizados, não pela força dos homens, mas por Sua vontade.
- (8) E dizemos isto para que aqueles que receberam tais carismas não se julguem superiores àqueles que não os receberam.
- (13) E, de fato, Moisés, “o homem de Deus” (Dt 33,1), realizando sinais no Egito, não foi arrogante com seus irmãos de raça; e, chamado “deus” (Ex 7,2), tampouco fanfarroneou diante de seu próprio irmão, Aarão.
- (14) Josué, filho de Nun, também não — ele que conduziu o povo depois dele e que, na guerra contra os jebuseus, porque o dia era curto demais para assegurar a vitória, “deteve o sol sobre Gibeão e a lua sobre o vale de Ajalon” (Js 10,12) — não se mostrou arrogante com Fineias e Caleb; Samuel, que fez tantas coisas incríveis, também não menosprezou Davi.
- (15) E diante de Baal, somente Elias e seu discípulo Eliseu tornaram-se taumaturgos; mas Elias não dobrou o joelho diante de Baal, nem ridicularizou o intendente Abdias que, embora temesse a Deus, não realizava sinais. Eliseu também não olhou com superioridade para seu discípulo, que tremia diante dos inimigos.
- (16) Nem Daniel, o sábio, duas vezes preservado da cova dos leões, nem os três jovens (preservados) da fornalha, desprezaram seus outros irmãos de raça. Sabiam, com efeito, que não era por poder próprio que haviam escapado do perigo, mas que era pela força de Deus que haviam operado sinais e se livrado das dificuldades.
- (II.8) Silas e Ágabo, exercendo a profecia, não se igualaram aos Apóstolos, nem abandonaram suas atribuições.
- (9) Mulheres também profetizaram. Outrora Maria, a irmã de Moisés e Aarão. Depois dela, Débora; mais tarde Ana e Judite, aquela sob Josias, esta sob Dario. E a mãe do Senhor também profetizou, assim como Isabel, sua parenta, e Ana, e as filhas de Filipe. Mas elas não se colocaram acima dos homens e permaneceram restritas às suas atribuições.
- (10) Se, portanto, um homem ou uma mulher recebe alguma graça deste gênero, que se humilhe para que Deus se compraza nele: “Para quem olharei, com efeito, senão para aquele que vive humilde, em paz, e no respeito às minhas palavras?” (Is 66,2)
Esse belíssimo texto pode perfeitamente ser um extrato, ou melhor, creio eu, o texto integral — que não precisaria ser muito longo — do Peri charismatôn apostolikê paradosis (“Tradição Apostólica sobre os Carismas”), mencionado com outras obras de Hipólito no pedestal da estátua do Campo Verano.
4 – A citação do capítulo 36 do documento X, descoberta por Marcel Richard em 1963 num florilégio do manuscrito “Ochrid 86” e reencontrada no manuscrito “Paris B.N. gr 900”, traz a referência Ek tôn diataxeôn tôn hagiôn apostolôn (“Extrato dos Estatutos dos Santos Apóstolos”). Não há razão para buscar outro título, já que o Constituidor o demarca substituindo Diataxeis por Diatagaï, e que Job Ludolph o reinventava como Statuta Apostolorum sic dicta.
5 – Numa época em que a origem apostólica era o grande argumento de autoridade, a presença da palavra “apostólica” no título dos dois documentos foi suficiente para que o compilador pensasse em fundi-los num único documento através de um prólogo, uma transição e um epílogo. Da mesma forma, após ele, o compilador da Coleção o fez preceder da Ordenança Apostólica, que faz cada Apóstolo falar — ficção que o Constituidor retomaria — acrescentando três referências ao “que foi dito anteriormente” nos estatutos do bispo, do presbítero e do diácono.
Conclusão
Hipólito não escreveu uma “Tradição Apostólica”, mas uma Tradição Apostólica sobre os Carismas, que um primeiro compilador fundiu, mediante um prólogo, uma transição e um epílogo, aos Estatutos dos Santos Apóstolos. O compilador da Coleção fez estes serem precedidos pela Ordenança Apostólica, a qual o Constituidor glosou em suas Constituições dos Santos Apóstolos, mas que o editor ou copista do(s) exemplar(es) grego(s), de que dependem as traduções e adaptações que chegaram até nós, eliminou como um corpo estranho à legislação.
Para explicações mais amplas, veja:
- Jean Magne, “La prétendue Tradition Apostolique d’Hippolyte s’appelait-elle Ai Diataxeis tôn hagiôn Apostolôn, Les Statuts des Saints Apóstres: Étude détaillée d’une phrase de la prière d’ordination presbytérale suivie de considérations sur la vrai nature du document”, em Ostkirchliche Studien 14 (1965), p. 35–67.
- Jean Magne, Tradition Apostolique sur les Charismes et Diataxeis des Saints Apôtres: Identification des Documents et Analyse du Rituel des Ordinations, Paris 1975, edição do autor.
***
APÊNDICE EXPLICATIVO
Essa tese de Jean Magne é um marco na crítica textual patrística, pois desafia a visão tradicional estabelecida no início do século XX sobre a autoria de Hipólito de Roma. O argumento central de Magne é que o que chamamos hoje de Tradição Apostólica é, na verdade, uma “colagem” de dois documentos distintos realizada por um compilador posterior.
A desconstrução do “Documento X”
Magne argumenta que a unidade do texto atribuído a Hipólito é artificial. Ele separa o material em duas fontes originais:
- Tradição Apostólica sobre os Carismas (“Peri charismatôn”): Esta seria a obra autêntica de Hipólito. É um texto exortativo e teológico sobre dons espirituais, focado na humildade e na ordem eclesial.
- Estatutos dos Santos Apóstolos (“Diataxeis”): Um manual disciplinar e litúrgico anônimo, que contém as regras de ordenação e ritos que conhecemos.
O processo de fusão textual
De acordo com o autor, a confusão de títulos e autoridade ocorreu em etapas:
- A fusão inicial: Um compilador uniu os dois textos usando um “prólogo-transição” para dar a aparência de uma obra única.
- O argumento da autoridade: O uso do termo “Apostólica” servia para validar regras litúrgicas diversas, agrupando-as sob um nome de peso.
- A “análise anabática”: Magne usa esse método (ler do fim para o começo) para provar que os capítulos das Constituições Apostólicas sobre carismas fluem logicamente apenas quando se removem as adições posteriores do compilador.
Genealogia dos documentos (segundo Magne)
| Documento original | Ação do Compilador | Resultado final conhecido |
| Tradição sobre Carismas (Hipólito) | Fundido via Prólogo/Epílogo | “Tradição Apostólica” (Documento X) |
| Estatutos dos Santos Apóstolos (Anônimo) | Incorporado ao Documento X | Base para o Cânon de Hipólito e Constituições Apostólicas |
| Ordenança Apostólica | Adicionada como prefácio | “Coleção” (Versões siríacas/etíopes) |
Impacto da descoberta
A análise de Magne é fundamental porque:
- Questiona a arqueologia litúrgica: Se o documento não é de Hipólito (c. 235 d.C.), mas uma compilação posterior, a datação de orações famosas (como a Oração Eucarística II do Missal Romano e a Oração de Consagração Episcopal do Novus Ordo, baseadas nesse texto) pode ser contestada ou revista.
- Destaque para a estátua do Campo Verano: Ele valida que a lista de obras gravada na famosa estátua de Hipólito refere-se especificamente ao tratado sobre carismas, e não ao manual litúrgico completo.
Nota: O método “anabático” mencionado no item 3 é uma técnica de “limpeza” textual. Magne sugere que, ao retirar as explicações redundantes (glosas), o texto original sobre os carismas revela uma beleza e simplicidade que combinam muito mais com o estilo do século III do que com o emaranhado jurídico das compilações posteriores.
