TCHECOSLOVÁQUIA
Norberto Toedter, c. 2013
Em meus encontros sociais é comum a conversa derivar para o tema Segunda Guerra Mundial e seu entorno. Acontece muitas vezes que o meu interlocutor, mesmo que queira se mostrar simpático à minha atividade, acaba dizendo: “Pois é, o nacional-socialismo foi no começo uma coisa muito boa, mas no fim degenerou”. Em outras palavras, o que contam de ruim sobre o “nazismo” é verdade. É que é assim que a chamada História foi e é contada.
Estou convencido de que muito professor de História ainda hoje ensina que o motivo real da Segunda Guerra foi o fato de Hitler ter invadido a então Tchecoslováquia. Não é verdade. É muito erro, muito engodo ou, simplesmente, muita falta de informação. Por isso creio que valha a pena contribuir para esclarecer ou, ao menos, lançar a dúvida na cabeça dos crédulos e mal-informados.
Quando a Segunda Guerra começou, este país, a Tchecoslováquia, existia há apenas vinte anos. Fôra criado pelos aliados após o término da Primeira Guerra, com a decomposição do Império Austro-Húngaro, que, na verdade, como nação, já era um despropósito. Unia o Império Austríaco ao Reino Húngaro. O primeiro compreendia a Áustria, o Tirol, a Boêmia, a Morávia, a Silésia, a Galícia, a Bucovina, o Krain e a Dalmácia, com uma população aproximada de 30 milhões de habitantes (1914). O Reino Húngaro era a própria Hungria mais Fiume, Croácia, Eslovênia e, por tratado especial, Bósnia e Herzegovina, tendo na mesma época uma população de 23 milhões. Perdida a Primeira Guerra Mundial, os tratados de Saint-Germain-en-Laye (10 de setembro de 1919) e Trianon (4 de junho de 1920) criaram um novo país chamado Tchecoslováquia, com 13,7 milhões de habitantes, e outro denominado Iugoslávia, com 7,5 milhões. Deixaram a Áustria com 6,4 milhões, a Hungria com 7,9 milhões, a Itália com 1,6 milhão, a Polônia com 7,7 milhões, e a Romênia com 6,2 milhões.
Assim botaram arbitrariamente no mapa dois países, cada qual com uma miscelânea de povos. Com a Iugoslávia ainda é bem lembrado o que aconteceu poucos anos atrás. Veja como havia ficado a Tchecoslováquia:

- 6.000.000 tchecos.
- 3.600.000 alemães.
- 2.300.000 eslovacos.
- 700.000 magiares.
- 700.000 magiares.
- Além de 450.000 de etnias diversas.
Evidentemente, as minorias significativas, sobretudo a dos alemães sudetos — no mapa representada pela área vermelha —, não ficaram em situação muito confortável. Essa foi efetivamente oprimida. Em março de 1919, a Áustria alemã realizou plebiscitos para decidir seu futuro. Os tchecos não permitiram a participação dos alemães sudetos. Estes fizeram manifestações pacíficas, dissolvidas por soldados tchecos com armas de fogo. Mataram 54 homens, mulheres e crianças. O jornal Ceske Slovo escreveu a 29 de outubro de 1920 que não se deve dar direitos iguais aos alemães, mas de preferência “pendurá-los em forcas e candelabros”. O conciliador britânico Lord Runciman escreveu do local ao seu primeiro-ministro: “É muito amargo ser dominado por um povo estranho. (…) Eu sou da opinião de que essas áreas limítrofes deveriam ser transferidas à Alemanha”.
Nada aconteceu. O [jornal] “Social-democrata” de Praga escreveu no dia 2 de fevereiro de 1935: “Falta dinheiro para a compra de alimentos, a roupa desgastada não pode ser substituída”. No mesmo jornal, a 20 de fevereiro de 1937: “A cidade de Pressnitz contava antes da guerra com 5400 habitantes. (…) Hoje, apenas 2800. (…) São tão desnutridos que a maioria das crianças que venham a ser acometidas de escarlatina ou difteria morre”.
Não é, pois, nada surpreendente que, após a reintegração da Áustria, a Alemanha viesse a voltar sua atenção à situação dos alemães sudetos. Através de contatos diplomáticos entre o Reich, Londres, Paris e Praga, seguidos da Conferência de Munique (30 de setembro de 1938), entre Hitler, Chamberlain, Daladier e Mussolini, foi decidida a incorporação da região dos sudetos ao Reich. Portanto nada de “invasão”.
Com a saída dos alemães, os tchecos passaram a se desentender com a minoria eslovaca, fazendo com que estes declarassem sua independência em 1939. A nação chamada Tchecoslováquia desmoronou. O presidente da Eslováquia, o padre Jozef Gaspar Tiso (1887–1947), colocou-se sob a proteção do Reich (na guerra que seguiu, foi aliada da Alemanha). Aí o presidente tcheco, Emil Hácha (1872–1945), viajou a Berlim e pediu a Hitler que assumisse o protetorado sobre o que restou do país. Repetindo, não houve invasão. E convém lembrar que na época havia dezenas de “protetorados” mundo afora, destacando-se Índia, Paquistão, Quênia e muitos outros que eram protetorados da Inglaterra.

Tudo isso provocou frustração e profundos ressentimentos no povo tcheco, o que talvez esclareça, mas não justifique, a horrível vingança sangrenta que perpetrou em 1945, no fim da Segunda Guerra. Essa é a verdadeira História, não a contada pelos professores nas salas de aula ou aos visitantes de “memoriais” que existem por aí.
Quero finalizar com uma observação pertinente. No Brasil vivem muitos imigrantes advindos da Europa no decorrer dos dois séculos passados. Entre eles muitos da região aqui descrita. Caso seus descendentes queiram saber qual a herança genética que corre em suas veias, é recomendável distinguir entre os povos que ali habitavam.
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Retirado de: Pobre mundo novo! Sangue, suor, lágrimas e muita mentira. Curitiba: Editora e Livraria do Chain, 2015, p. 43–46.
