TRATADO DE RAPALLO
Norberto Toedter, 17 de abril de 2012
Rússia e Alemanha entraram em acordo
Ontem, 16 de abril de 2012, fez exatamente noventa anos que Walter Rathenau (1867–1922), ministro do Exterior da Alemanha, e seu colega russo Georgi Tschitscherin (1872–1936) assinaram o Tratado de Rapallo. Um detalhe macabro: dois meses após assinar o tratado em nome da Alemanha, Walter Rathenau foi assassinado.
Foi um acordo entre duas nações proscritas na época. Duas nações que haviam acabado de sair derrotadas de guerras, até mesmo uma (Rússia) contra outra (Alemanha). Em 1922 a Alemanha estava arrasada pelas condições que lhe foram ditadas pelos Aliados no Tratado de Versailles. Para obrigá-la a assinar, sofreu por muitos meses, após o término do enfrentamento bélico, um boicote pelo bloqueio britânico, que fizera milhares de alemães morrerem de fome. A França também a isolava e insistia nas reparações de guerra.

Na Rússia, a guerra civil entre as forças vermelhas e brancas (1918–1921) havia chegado ao fim. Crudelíssima de ambas as partes, provocou mais de vinte milhões de mortos. Os ocidentais (Grã Bretanha, França e Estados Unidos), que não queriam perder a exploração de recursos naturais, sobretudo petróleo, chegaram a enviar forças expedicionárias ao Báltico, a fim de apoiar os brancos. A recém-renascida Polônia resolveu aproveitar a situação e estender suas fronteiras: atacou a Rússia, chegando a ocupar Kiev (1920). Foi rechaçada. Rússia e Polônia selaram a paz em março de 1921.
Um ano depois, em abril, Stalin passou a ocupar a Secretaria Geral do Partido Comunista e, com isso, dar as ordens em lugar do gravemente enfermo Lênin (consta que fôra vítima de atentado), que acabou falecendo dois anos depois. Como a ascensão de Stalin e a assinatura do Tratado de Rapallo aconteceram no mesmo mês, acredito que a iniciativa ainda fôra de Lênin. Só para completar esse pequeno sobrevôo histórico, registre-se que a União Soviética fôra constituída em 30 de dezembro de 1922.
Pois foi neste ano que Rússia e Alemanha (República de Weimar) firmaram o Tratado de Rapallo. Aconteceu à margem da conferência econômico-financeira (a G20 de hoje) que se realizava em Gênova, em meio à qual a notícia teve o efeito da explosão de uma granada.
Como é que aqueles dois renegados foram se atrever a combinar algo de tamanho alcance? Houve o reatamento das relações diplomáticas. Renunciaram mutuamente ao pagamento de reparações de guerra. Ali a Alemanha se comprometeu a fornecer instalações industriais e postos de serviço, para que a Rússia pudesse explorar suas reservas petrolíferas, seara exclusiva dos Rothschilds (Shell) e dos Rockefellers (Standard Oil).
Rapallo ainda legalizou uma situação “de fato”: o Tratado de Versailles proibia à Alemanha a posse de armamento moderno, especialmente tanques e aviões. Graças a Rapallo, passou a desenvolvê-los na Rússia, a quem a Alemanha forneceu tecnologia: fez-se uma fábrica de aviões inteira instalada perto de Moscou, bem como uma área de desenvolvimento e treinamento para tanques. Em dez anos, 120 pilotos alemães foram formados na Rússia — ou seja, na União Soviética.
A História pouco menciona o entendimento havido entre essas duas nações. A hipótese de uma reprise semelhante, por menos provável que seja, deve ser um espectro assustador para os que hoje mandam no mundo.
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Retirado de: Outra face da notícia. O que os jornais não disseram. Curitiba: Editora e Livraria do Chain, 2012, p. 235–236.
