TRÊS TIPOS BRASILEIROS
Dietrich von Hildebrand
Fonte: Atitudes Éticas Fundamentais, p. 7–8, 15–16 e 32–37. Quadrante, 1988.
Descrição: Da inconsciência moral do afegão-médio brasileiro.
Nota d’O Recolhedor: O título não é do autor, é nosso, pois nos pareceu óbvio que Von Hildebrand está descrevendo o povo desta maravilhosa terra tropical chamada Brasil.
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1. O ávido embotado
A outra modalidade de falta de respeito [além do orgulhoso insolente], a do ávido embotado, é igualmente cega para os valores. Só lhe interessa saber se uma coisa lhe é ou não agradável, se lhe dá prazer, se lhe traz alguma utilidade, se precisa dela. Em tudo se limita a ver o aspecto que se prende com o seu interesse ocasional, imediato. Tudo quanto há se cifra para ele num meio de atingir os seus fins egoístas. Gira eternamente no círculo da sua estreiteza, sem dele sair jamais. Daí o não conhecer também a felicidade profunda e verdadeira que só brota da dedicação a valores puros, do contacto com aquilo que em si é belo e bom.
Não se dirige com insolência a tudo o que existe, como o primeiro tipo, mas é como ele falto de abertura e de distância; porque, como apenas procura o que num dado momento lhe é útil e necessário, tudo passa por alto. Não logra jamais o silêncio interior, não consegue abrir-se, não se deixa presentear. Também ele vive num eu espasmodicamente contraído. O seu olhar “resvala em tudo estupidamente”, sem penetrar no verdadeiro sentido e valor de qualquer assunto. É também “míope”, e põe-se tão “perto” de tudo, que lhe escapa o conhecimento da verdadeira essência das coisas; deste modo, não concede a nada do que existe o “espaço” necessário para que se desenvolva na sua peculiaridade e plenitude, e o mundo fecha-lhe por seu turno a sua amplitude, profundeza e altura.
2. O irresponsável/impressionável
Os homens distinguem-se uns dos outros pela sua diferente profundidade: uns vivem na camada mais superficial da sua consciência atual, e neles as vivências se sucedem fragmentariamente umas às outras, de modo que bem poderíamos denominá-los efêmeros; desses homens dizemos que se esgotam inteiramente no momento que passa. Outros vivem das camadas mais profundas da pessoa, e nada de significativo neles desaparece só por não ser já presente, antes se torna um cabedal humano sobre o qual se constrói algo de novo, cheio de sentido. Só estes últimos merecem o nome de personalidades. Só neles se pode formar uma riqueza interior.
Quantos não há que chegaram a conhecer grandes obras de arte, viram países magníficos, entraram em contacto com homens notáveis — mas sem nada lhes deixar efeito duradouro! Talvez, por instantes, tenham ficado fortemente impressionados, mas nada lançou neles raízes profundas, nada “retiveram”, pois desapareceu mal se deixaram levar por novas impressões. Esses homens são como uma peneira por onde tudo passa. Podem ser bons, afetuosos, honestos, mas atolaram-se num estado puerilmente inconsciente; não têm nenhuma profundidade, escapam-nos, são incapazes de relacionar-se realmente com outros homens, porque lhes faltam de todo em todo laços profundos com o que quer que seja.
São homens irresponsáveis, já que desconhecem condições duradouras e nada conservam de um dia para o outro. Ainda que suas impressões sejam vivas, decerto não chegam a penetrar naquelas camadas profundas em que, por sobre as mudanças de um instante, se encontram as orientações e atitudes elevadas. Prometem honestamente alguma coisa num instante, mas logo a seguir tudo se esvai; concebem propósitos sob uma impressão forte, mas qualquer impressão mais forte que se siga lhos apaga. São tão impressionáveis que, na sua vida, só a camada exterior da consciência atual tem a palavra. Para esses homens, o que determina a dedicação e o interesse não é o valor e o peso de um assunto, mas apenas o viço e intensidade do “presente”. O que os domina é esta preferência geral pela intensidade, em que a impressão presente ou a presente situação levam a melhor sobre o passado.
3. O mentiroso
Na falta de veracidade cumpre distinguir três espécies.
A primeira é a daqueles que se propõem a enganar os outros por algum interesse egoísta. Referimo-nos ao mentiroso astuto, que não se importa nada em afirmar o contrário da verdade, desde que lhe convenha aos objetivos. Estamos em face de um homem consciente do seu propósito, que mente e engana os outros para atingir o seu fito, à maneira de um Iago no Otelo de Shakespeare, ou de um Franz Moor nos Bandoleiros de Schiller; no caso dessas personagens, é verdade, ainda acresce à finalidade da mentira uma maldade particular, que não é essencial ao puro e simples mentiroso. Com efeito, há também mentirosos cujos fins são inofensivos.
A segunda é a daqueles que se enganam a si mesmos, vivendo na ilusão. Trata-se do mentiroso que só mente aos outros porque primeiro mente a si mesmo. É o caso do homem que refuga sem mais tudo o que de difícil ou desagradável encontra na vida; que, além de fazer de conta que não vê, como o avestruz, tenta convencer-se de que a coisa é outra, ou de que fará isto ou aquilo, muito embora não possa deixar de saber que lhe faltam forças para tanto; que não admite os seus próprios erros; que, ao deparar com situações humilhantes ou de alguma forma penosas, teima em torcê-las, de modo que percam a sua aspereza.
É patente o que caracteriza esta espécie de falsidade, se a confrontarmos com a do hipócrita e mentiroso. O embuste dirige-se sobretudo contra ele próprio, e só indiretamente contra os outros. Enganando-se a si mesmo, acaba por embair os outros como que de boa fé. Não é consciente do seu propósito, como o mentiroso típico, nem tem a sua maldade, astúcia, vilania, pelo menos o mais das vezes. Desperta-nos muitas vezes compaixão. Mas nem por isso fica isento de culpa, pois recusa-se a responder ao valor e à dignidade do existente, arrogando-se também uma superioridade que não lhe compete.
Decerto, não se deixa dominar por uma insolência específica; e um resto de respeito pela verdade torna-lhe impossível ignorá-la ou deturpá-la propositada e abertamente. Teme semelhante responsabilidade: falta-lhe a coragem do hipócrita, e ladeia através da ilusão o conflito entre comodidade e respeito pela verdade. Tem algo de covarde e de fraco. Em vez da astúcia e da manha premeditada do mentiroso, o que nele subsiste é mais uma manha instintiva. O mentiroso deliberado e astuto da primeira espécie não nega o fato de mentir. Mas este outro, que vive na ilusão, nega precisamente que esteja passando por alto a verdade. E, enquanto deturpa e tergiversa esse fato, nas suas mentiras não se dá conta do conflito com a verdade.
A não ser no caso do fingimento do fariseu, que não vê a trave nos seus olhos — fingimento mau no mais profundo sentido do termo —, esta segunda espécie de falsidade costuma ser menos maliciosa. As suas consequências sobre a totalidade da vida ética são, no entanto, incalculáveis. Os homens em quem ela se dá não podem ser levados a sério. Por mais que se comportem com correção moral nalguns casos isolados, quando não está em jogo a sua soberba ou cobiça, basta que os valores lhes exijam qualquer coisa de desagradável para que, mesmo sem perceberem claramente essa exigência, se afastem dela, porque logo se iludem, como se por qualquer razão essa exigência não lhes dissesse respeito, ou fosse apenas aparente, ou já a tivessem acatado.
Nestes homens, a vida da alma assemelha-se à areia movediça; nunca os podemos apanhar, escapam-nos sempre. No mentiroso consciente, ainda que moralmente seja muito negativo, é mais fácil uma conversão do que nestes defraudadores de si mesmos. Estes últimos, com efeito, estão mais doentes da alma, o seu mal tem a sua sede numa camada psicologicamente mais profunda. Vivem num mundo de ilusões. Ainda assim, a sua falsidade, em todo o caso culposa, pode-se apagar através de uma livre e derradeira conversão, através de uma ruptura que se traduza numa consagração sacrificada, incondicional, ao mundo dos valores.
Na terceira espécie aludida, enquadram-se aqueles que, sem o propósito de enganar, pecam por falta de autenticidade. Aqui, embora o corte com a verdade seja menos culposo ainda, é talvez mais profundo. Seu tipo é o do homem que é incapaz de sentir verdadeira alegria, entusiasmo autêntico, amor autêntico, e cujas atitudes estão marcadas inteiramente pelo caráter da aparência, do puro “como se”. Estes homens não querem mistificar e iludir os outros, e também não mentem a si mesmos; mas não conseguem estabelecer nenhum contacto real e verdadeiro com o mundo porque, aprisionados no seu “eu”, sempre olham para si mesmos, ainda que de través, viciando assim o conteúdo das suas atitudes. O seu erro já não se estriba na deturpação do existente, na falta de correspondência à sua dignidade, mas num egocentrismo geral, que tira ao seu comportamento a vida interior e converte todo o seu ser numa aparência.
Trata-se desses homens indefinidos, cujas atitudes são objetivamente “inautênticas”, cuja alegria e tristeza são artificiais. A falsidade, aqui, reside em que nada no seu comportamento é motivado pelo objeto; apesar das suas pretensões, comportam-se teatralmente, e suas atitudes não passam de um simulacro oco.
Esta inautenticidade pode manifestar-se de muitas maneiras e sobretudo numa extensão muito ampla e variável. É própria do homem afetado, cuja conduta externa, não sendo efetivamente simulada, é porém muito pouco natural, fictícia. Dá-se no homem sugestionável, cujas opiniões e convicções são apenas as que os outros lhe impõem, para as repetir, ratificando-as, sem nunca se definir por coisa alguma com base na realidade das coisas. É própria do indivíduo exagerado, que em tudo está subindo de ponto, na sua tristeza, na sua alegria, no seu amor, no seu ódio, no seu entusiasmo, os quais agiganta artificialmente porque se delicia nessas atitudes.
Neste tipo há menos malícia ainda que no dos que mentem a si mesmos, mas não se vê nele nenhum fundamento donde possa nascer uma vida moral. Tudo nesses homens é inválido, o bem e o mal; tudo é irreal, tudo se reduz a uma frase, a uma aparência, a um nada. Também esta falsidade substancial é muito profundamente culposa, pois deriva de uma atitude fundamental de soberba.
