UBI PRIMUM
Papa Clemente XI (†1721)
Fonte: Bullarum diplomatum et privilegiorum santorum romanorum pontificum Taurinensis editio, tomo XXI, p. 676–677. Turim, 1871.
Tradutor do texto latino: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: Convocação de um jubileu universal contra os turcos otomanos.
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Clemente, Papa XI, a todos os fiéis cristãos que contemplarem estas nossas letras, saúde e bênção apostólica.
Mal tomamos conhecimento, não sem gravíssima dor de alma, de que o nefário tirano turco, bem consciente das tantas e tão grandes derrotas que sofreu há alguns anos, com imortal glória do nome cristão, e pensando seriamente em vingar-se delas, reunindo as forças de tantas províncias e reinos que oprime com sua tirania, quer reiniciar a guerra com uma ferocidade mais selvagem do que nunca, e decidiu irromper com seus imensos exércitos, tanto marítimos quanto terrestres, sobre os territórios dos cristãos com seu temível poder, Nós, profundamente comovidos pela caridade paterna diante dos perigos iminentes que ameaçam o povo fiel, primeiramente não cessamos de clamar a Deus com todo o coração, através de nossos sacrifícios privados, para que derramasse sua ira sobre os povos que não o conhecem e sobre os reinos que não invocam seu nome (cf. Sl 78,6), humildemente usando aquelas palavras do rei Josafá, quando era atacado pelos amonitas e moabitas: “Senhor, Deus de nossos pais, tu és Deus no céu, e dominas sobre todos os reinos das nações; em tua mão está a força e o poder, e ninguém pode resistir-te. Em nós, porém, não há força suficiente para resistir a esta multidão que nos assalta; mas, não sabendo o que fazer, apenas isto nos resta: levantar nossos olhos para ti.” (II Cr 20,6.12).
Logo depois, ordenando orações públicas, procuramos incitar os fiéis cristãos, não só na amada cidade de Roma, mas também em toda a Itália e nas ilhas adjacentes, a aplacar a ira de Deus, que é constantemente provocada pelos pecados dos homens, através dos lamentos da penitência salutar, dos jejuns, das esmolas e das sinceras súplicas. E julgamos agora que isso deve ser feito finalmente por todo o povo cristão, para que todos, com o fervor concorde da caridade, se aproximem com confiança do trono da graça, e, com os corações dilacerados pela verdadeira penitência, e com as forças da oração aumentadas pelos trabalhos dos jejuns e pela distribuição de esmolas, implorem unânimes o auxílio divino nestas urgentíssimas necessidades da Igreja. Pois é poderosa a oração da Igreja suplicante diante do Senhor, que é piedoso e misericordioso e se torna propício àqueles que o invocam em verdade.
Chegando, pois, esta época oportuna, em que se renova o tempo em que o Espírito Santo, com som repentino, desceu sobre os Apóstolos, e transformou os corações carnais em amor, e, aparecendo-lhes línguas de fogo, inflamou interiormente seus corações, supliquemos ao Pai das misericórdias e Deus de toda a consolação, para que una firmemente os seus fiéis, e especialmente os príncipes católicos, com o vínculo indissolúvel da verdadeira caridade, e os revista com a fortaleza que vem do céu; para que assim os inimigos do nome cristão, que, vindo em multidão contumaz e cheia de soberba, intentam destruir reinos, províncias e principados e envolvê-los em desgraças, sob a proteção do Senhor, em cuja mão está salvar com muitos ou com poucos, sejam dispersos e destruídos, e repelidos para longe dos pescoços dos cristãos.
§1. Para que estas coisas sejam prontamente realizadas por todos da maneira mais frutuosa, segundo o antigo costume da Igreja Romana, mãe e mestra de todos, decidimos abrir os tesouros dos dons celestiais, cuja dispensação a divina bondade confiou ao ministério de nossa fé, e distribuí-los com mão liberal. Portanto, confiados na misericórdia do Deus onipotente e na autoridade dos bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo, cuja potestade de ligar e desligar, embora indignos, o Senhor se dignou conceder-nos, a todos e cada um dos fiéis cristãos de ambos os sexos residentes nesta nossa cidade — os quais, na segunda-feira seguinte à festa de Pentecostes próxima, participarem da solene procissão que se fará desde a Basílica do Príncipe dos Apóstolos até a Igreja de Santo Espírito em Sassia, nesta mesma cidade, junto com nossos veneráveis irmãos, os cardeais da Santa Igreja Romana, bem como patriarcas, arcebispos e bispos que estiverem presentes em Roma, e também os prelados e oficiais da Cúria, com o clero e o povo, e os embaixadores dos reis e príncipes cristãos —, concedemos, com a bênção do Senhor, indulgência plenária, contanto que, devotamente, dentro do espaço de duas semanas contadas a partir do domingo seguinte à oitava da Ascensão, visitem ao menos uma vez, com piedade, alguma das igrejas ou basílicas desta cidade — a saber, São João de Latrão, São Pedro do Vaticano ou Santa Maria Maior — e ali rezem piedosamente, etc. (O restante veja-se em outros lugares).
Dado em Roma, junto a Santa Maria Maior, sob o anel do Pescador, no dia 31 de maio de 1715, no décimo quinto ano do nosso pontificado.
