VINEAM SOREC
Papa Nicolau III
Fonte: Charles Cocquelines, Bullarum privilegiorum ac diplomatum Romanorum Pontificum amplissima collectio, tomo III, pars secunda, p. 25–26. Roma, 1741.
Tradutor do texto latino: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: Sobre a pregação da Palavra de Deus para a conversão dos judeus.
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Nicolau, bispo, servo dos servos de Deus, ao dileto filho, prior provincial dos frades da Ordem dos Pregadores na Lombardia, saúde e bênção apostólica.
A vinha de Sorec, como eleita, foi plantada pela destra de Deus Pai, e toda semente verdadeira semeou nela; com custódia angélica foi cercada, e pedras nocivas foram lançadas fora dela. Essa vinha, que do Egito, no lodo e no tijolo, sob o jugo do Faraó, oprimida estava, foi conduzida com sinais e prodígios, tendo o próprio Deus por guia de sua jornada, até a terra da promissão. Pois a vinha do Senhor dos exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá, o seu rebento mais deleitável. Essa vinha, assim maravilhosamente transplantada, foi revolvida como campo ainda bruto com o arado legal, sulcada com a doutrina profética, para que se preparasse para o fruto maduro, isto é, para a graça da regeneração.
Mas — oh dor! — coberta de espinhos por causa dos pecados, não acolhendo chuva alguma da graça espiritual, produziu agraços, quando se esperava que desse boas uvas; onde se esperava juízo, surgiu iniquidade; onde se esperava justiça, surgiu clamor. Essa é a vinha em que a figueira, isto é, a sinagoga dos judeus, foi plantada, segundo a verdade evangélica; de cuja plantação Cristo foi o autor, e o colégio apostólico, o cultivador. Essa vinha, aguardada por três tempos — como por três anos — para produzir fruto, foi encontrada estéril, sendo o seu corte anunciado ao cultivador.
Pois nem no tempo da circuncisão foi levada à perfeição, porque não buscava a circuncisão da alma; nem foi santificada pela Lei, porque por ela seguia apenas as coisas carnais; nem tampouco foi justificada pela graça do Evangelho, pois recusou receber a graça. Pelo contrário, matou com injustiça o doador da graça, o Justo — e, de certo modo, excedendo até a obstinação do Faraó, rejeitou todo o remédio daquele que a curava, bem como o próprio cuidador; a tal ponto que não se deixou comover por palavras, nem por sinais, nem pelos sacramentos, nem sequer pela presença corporal do próprio Cristo, Deus.
Pois outrora, de muitos modos e de muitas maneiras, Deus falou aos pais daquela sinagoga pelos profetas; e, finalmente, no fim dos tempos, falou a eles e a nós por seu Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e por quem também criou os séculos. Mas sua alma abominou todo alimento — e por isso, pelo justo juízo de Deus, foi rejeitada: o javali da floresta a devastou, e a fera singular a devorou. A sebe foi arrancada, o muro foi derrubado, e ela foi posta em ruína e desolação, não se achando mais lugar para ela sobre a terra.
No entanto, como as misericórdias de Deus são proclamadas sobre todas as suas obras — Ele que quer que todos sejam salvos e que ninguém pereça; Ele que se ofereceu a si mesmo como vítima de salvação por nós e por eles; Ele que, exaltado da terra, predisse com voz evangélica que atrairia todos a si com as mãos estendidas na cruz —,[1]
§2. Nós, embora indignos, ocupando seu lugar na terra, não repelimos da sua misericórdia nem mesmo a perfídia judaica. Antes, com prazer assumimos os trabalhos por causa da cegueira daquele povo, para que, com o auxílio da clemência divina, sejam arrancados de suas trevas pela luz da verdade, que é Cristo, e assim conheçam. Contudo, como a dispersão dos próprios judeus, prefigurada pelo juízo divino, por quase todo o mundo, não permite que eles se reúnam comodamente para receber os sacramentos da fé e a doutrina, somos compelidos — por uma necessidade voluntária — a escolher diversos semeadores para diversas partes do mundo, por meio dos quais possamos espalhar a semente da Palavra de Deus, tanto quanto possível, a cada um, pois desejamos sua salvação universal e particular.
Voltando, portanto, os olhos da mente para ti entre outros, na esperança da graça divina — tu que brilhas com o esplendor da tua Ordem, e que és considerado frutuoso em toda parte por obras úteis e exemplos louváveis —, confiamos que, pela graça concedida a ti por Deus, sabes e podes produzir frutos abundantes na casa do Senhor.
Mandamos à tua discrição, por estas cartas apostólicas, que, confiando naquele que é próprio de conceder graças espirituais, te empenhes na tua província — por ti mesmo e por outros irmãos da tua Ordem, que conheceres como idôneos por honestidade de costumes, ciência comprovada, virtudes de probidade, prudência e experiência — para que, iluminados com dons divinos, resplandeçam destemidamente em favor da fé católica, e com sua claridade não hesitem, mas iluminem as mentes tenebrosas com o reflexo de seus raios e reprimam as cervizes obstinadas dos perversos. Convoca os referidos judeus, de forma geral e particular, nos lugares e terras onde habitam, uma ou várias vezes, quantas vezes achares que pode haver proveito, instruindo-os pelas pregações, exortações salutares e induções discretas com as doutrinas evangélicas, esforçando-te — segundo a graça dada por Deus — para afastar as nuvens das trevas e conduzi-los à vida da claridade, para que renascidos na fonte do batismo, resplandeçam na luz do rosto de Cristo, e que, por isso, o coro angélico se rejubile.
Tu também, e os outros que escolheres para a execução de tão grande missão, vos apoderareis de parte do bem eterno e da nossa bênção e graça — de bem para melhor.
§3. E para que percebam, de modo efetivo, o afeto que a Santa Mãe Igreja nutre pela salvação de sua condição, recomenda tu, da nossa parte e com afeto, aos prelados e senhores dos lugares onde vierem a habitar aqueles que a graça divina conduzir à recepção do santo batismo, para que, dando graças a Deus pela ovelha recuperada e pelo filho pródigo retornado, ofereçam o vitelo da exultação e da alegria, os acolham com caridade, os protejam com favores, os tratem com benignidade, e não consintam que sejam molestados injustamente em sua pessoa ou bens por judeus ou por outros, mas que, ao contrário, os assistam em tudo favoravelmente com oportunos auxílios.
§4. Mas se porventura (o que Deus não permita) alguns deles persistirem em sua perfídia obstinada, tapando os ouvidos como serpentes surdas para não ouvir a tua voz ou a daqueles irmãos que destinares a esta obra de salvação, e recusarem com desprezo vossas convocações salutares — como se fugissem das palavras dos encantadores —, não deixes de nos escrever quem são, onde se encontram e sob que domínio vivem, para que possamos pensar, conforme parecer mais adequado, num remédio salutar para tais pertinazes. E para que os nossos ardentes desejos em relação ao acima exposto sejam satisfeitos conforme nossas intenções, esforça-te por nos informar frequentemente de como prospera a missão que te foi confiada, e que frutos se promete a semente semeada.
Dado em Viterbo, nas segundas nonas de agosto, do primeiro ano do nosso pontificado.
[Dado em Viterbo, 4 de agosto de 1278.]
[1] A oração se completa no parágrafo seguinte. (N.T.)
