VIOLÊNCIA SEXUAL
Norberto Toedter, 14 de março de 2008
Dois milhões de mulheres alemãs foram violentadas pelos vencedores da Segunda Guerra — os “libertadores” —, nos meses finais do conflito e no pós-guerra. Essa afirmação foi divulgada pela diretora de cinema Helke Sander em conjunto com a escritora Barbara Johr através do documentário de três horas BeFreier und Befreite (“Libertadores e Libertados”), apresentado no Festival de Cinema de Berlim em 1992. Sob o mesmo título o trabalho foi publicado em livro pela Kunstmann-Verlag e em livro de bolso pela Fischer. Deste número de atos de violência sexual, 200.000 tiveram como consequência a morte da vítima.
Não são números aleatórios ou simplesmente estimativos. São baseados nas pesquisas do Dr. Gerhard Reichling, estatístico e especialista em perdas populacionais, diretor da seção alemã da área de pesquisa da Sociedade de Estudos do Problema Mundial de Refugiados. Segundo os dados do Dr. Reichling, cerca de 100.000 estupros ocorreram em Berlim, 500.000 na Zona de Ocupação Soviética, e 1,4 milhão nas regiões da Prússia Oriental, Pomerânia, Brandemburgo Oriental e Silésia, áreas que foram desmembradas da Alemanha e donde a população alemã foi expulsa sob inacreditáveis formas de violência. Não se incluiu aí a região dos Sudetos e da Boêmia na República Checa, de população predominantemente alemã, desterrada com intensa brutalidade. Outros estudos nos dizem que na zona de ocupação soviética da Áustria ocorreram 200.000 casos de violações de mulheres.

A violência sexual não foi, segundo Sander/Johr, privilégio do Exército Vermelho. Quando as tropas francesas, compostas principalmente por soldados coloniais, ocuparam Estugarda (Stuttgart), a polícia local registrou 1198 casos de estupro de mulheres entre 14 e 74 anos.[1] O estupro em massa foi um dos aspectos e das consequências trágicas das guerras. Na Idade Média a liberdade de praticá-lo, bem como a pilhagem das cidades ocupadas, eram uma forma de pagamento dos mercenários. Um incentivo redescoberto pelo propagandista soviético Ilya Ehrenburg, que não se cansou de incentivar os seus soldados com promessas dos prazeres que os esperavam. O Prof. Lew Kopelew, oficial das forças soviéticas, tentou conter seus comandados, e [por isso mesmo] foi condenado a dez anos de gulag por compaixão [para] com o inimigo.
Neste ponto alguém pode ser tentado a perguntar: “E o soldado alemão não teria feito o mesmo? Afinal, guerra é guerra”. A historiadora suíça Birgit Beck estudou um milhão e meio de sentenças das cortes marciais alemãs e constatou que os 5.000 casos desta natureza (apenas 0,33% do total) foram julgados com severidade.[2]
Infelizmente todo esse esforço para se trazer luz e esclarecimento sobre o que realmente aconteceu na Segunda Guerra Mundial esbarra nos efeitos da lavagem cerebral que mantém seu domínio sobre o que pensa o mundo. O documentário de Sander/Johr acima citado não mereceu cobertura da mídia alemã, nem da mundial. O jornal austríaco Profil, em sua edição de 13 de março de 2005, chegou ao cúmulo de dizer que os soldados soviéticos não cometeram estupros em Viena: “É que as mulheres vienenses estavam tão carentes de sexo, que os russos foram recebidos de braços abertos” (!). É a mesma lavagem cerebral que eternizou o número de 6.000.000, citado pela primeira vez em 4 de janeiro de 1945 (muito antes de o Exército Vermelho ocupar Auschwitz) pelo mesmo Ilya Ehrenburg acima mencionado.
[1] Tampouco a violência se restringiu às mulheres alemãs. Cf. https://archive.org/details/youtube-2BsaiXVWz9Y (N.E.)
[2] Cf. Wehrmacht und sexuelle Gewalt: Sexualverbrechen vor deutschen Gerichten, 1939–1945. Paderborn: Ferdinand Schöningh, 2004. Veja também o meu artigo “Livro de Soldo”, de 28/11/2006 (in O que é a verdade? O outro lado da história, p. 35–36).
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Retirado de: O que é a verdade? O outro lado da história. Curitiba: Editora e Livraria do Chain, 2009, p. 105–108.
