VOCAVIT NOS PIUS
Papa Pio II (†1464)
Fonte: Michael von Cotta-Schönberg (ed.), Collected Orations of Pope Pius II, vol. VII, Orations 29-42 (1458–1459), p. 33–47. Copenhagen, 2025. Link: https://www.academia.edu/125820864/Collected_Orations_of_Pope_Pius_II_Edited_and_translated_by_Michael_von_Cotta_Sch%C3%B6nberg_Vol_7_Orations_29_42_1458_1459_Final_Version_2025
Tradutor do texto latino: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: Bula de convocação do Concílio de Mântua, cuja finalidade era organizar uma cruzada contra os turcos otomanos, após a queda de Constantinopla (1453). A certa altura de seu discurso, Pio II afirma que os povos orientais, ao aderirem ao islamismo, abandonaram o culto ao verdadeiro Deus, sentença contrária à definição do Concílio Vaticano II.
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Pio, Bispo, servo dos servos de Deus, a todos e a cada um dos fiéis cristãos que verão esta nossa carta, saúde e bênção apostólica.
O piedoso e misericordioso Senhor chamou-nos à sagrada Sé do bem-aventurado Pedro e confiou aos nossos débeis ombros, na terra, as vezes do seu diletíssimo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo. Confiou-nos o pastoreio do seu rebanho e ordenou que governássemos no mar fortemente agitado o barco do povo fiel. Na verdade, este é um fardo pesado para nós, e nossas forças não bastam para suportar o peso de tão grande responsabilidade. O mar por que temos de navegar é tempestuoso e hostil, a quilha em que somos conduzidos oscila e se fende, os remadores tremem e desfalecem, os ventos são contrários e somos sacudidos por uma horrível tempestade.
Pois, depois que a paz foi concedida às igrejas na época do imperador Constantino, nunca houve uma opressão do rebanho do Senhor como a que vemos agora. Nunca a época anterior viu tão restringidos os limites da fé católica. Outrora, a voz dos Apóstolos ressoou por toda a terra, e suas palavras até aos confins do orbe. Quase todos os reis da terra, todas as tribos, todos os povos sujeitaram seu pescoço a Cristo Senhor e, instruídos nos sacramentos da fé salvífica, aclamaram a glória de Deus nas alturas, por seu Filho Unigênito, e a paz na terra aos homens de boa vontade. Porém, há mais de oitocentos anos, levantou-se o falso profeta Maomé, que, blasfemando contra a Santíssima Trindade, desviou não só seus conterrâneos, mas também os egípcios e toda a Síria da verdadeira e ortodoxa religião. Um inimigo bárbaro invadiu o santuário da nossa salvação, onde nosso Deus derramou seu precioso sangue para nossa redenção. Aquele leito purpúreo, embalsamado pelos mais suaves aromas, onde a nossa vida adormeceu no Senhor por amor de nós, foi profanado e continua a sê-lo pelas mãos imundas dos sarracenos, que o mostram aos cristãos apenas para lucro e comércio.
Tempos depois, a virtude cristã recuperou aqueles santos lugares, outrora poderosa pelo zelo da fé e pelas armas, mas logo os perdeu por indolência e fraqueza. Depois, gradualmente, perdeu-se toda a Ásia, e os povos da Líbia desertaram. Igrejas belíssimas, que invocavam o nosso Senhor Jesus Cristo e lhe entoavam salmos dia e noite, agora invocam o horrendo e abominável nome de Maomé e, abandonado o culto do verdadeiro Deus, imbuídas de sacrifícios nefandos, servem a ritos repugnantes. O estreito de Gibraltar foi transposto e o veneno de Maomé chegou até a Espanha. Grande parte da Bética — onde os sarracenos mantêm o reino de Granada — está fora de nosso domínio e é ferozmente inimiga do nome cristão.
Do outro lado, onde a Europa se estende para o oriente, o mar não pôde proteger a religião cristã. A bárbara nação dos turcos, odiosa a Deus e aos homens, partindo da Cítia oriental, ocupou a Capadócia, o Ponto, a Bitínia, a Tróade, a Pisídia, a Cilícia e toda a chamada Ásia Menor. E não contente com isso, confiando na impotência e discórdia dos gregos, atravessou o Helesponto e ocupou quase todas as cidades gregas da Ática, da Beócia, da Fócida, da Acaia, da Macedônia e da Trácia. Restava apenas a cidade régia de Constantinopla, coluna e cabeça de todo o oriente, sede patriarcal e imperial, única morada da sabedoria grega, onde outrora houve tantos magníficos templos, tantos santuários, tantos palácios principescos, tantas nobilíssimas casas de cidadãos, tantas obras públicas e privadas construídas com enorme custo e singular engenho, de modo que os estrangeiros que para lá iam, admirados com o esplendor da cidade, diziam não ser pátria de seres mortais, mas celestiais. Também essa, nos nossos dias, enquanto os latinos, divididos entre si, abandonam os gregos, a nação cruelíssima dos turcos invadiu, espoliou e triunfou, cidade que outrora ditava as leis de todo o Oriente. Vencida essa cidade, o Peloponeso também foi tomado pelas armas, e o povo cristão foi reduzido à servidão. Agora eles devastam a Acarnânia, e o Epiro e a Sérvia — outrora chamada Mésia Superior —, à exceção de poucos, caiu no poder dos inimigos. Os bósnios (ou ilírios), os dárdanos e os peônios agora pagam tributo aos turcos.
Mas nem por isso cessa a fúria desenfreada dos turcos. O senhor dessa nação ímpia — que mais convém chamar besta hedionda do que rei, mais dragão imundo do que imperador —, sedento de sangue humano, reúne imensos exércitos e ameaça os húngaros; de outro lado, oprime epirotas e albaneses; e, soberbo de si mesmo, jacta-se de que destruirá o Evangelho e toda a lei de Cristo, ameaçando os cristãos em toda parte com prisões, açoites, mortes e cruéis tormentos. O inimigo do gênero humano não dorme: ronda buscando a quem devorar. De um lado nos comprimem os turcos, de outro nos insultam os sarracenos.
Entre si divididos, os príncipes cristãos — a quem os turcos não poderiam resistir de modo algum — buscam antes vingar injúrias particulares do que as afrontas feitas a Cristo, e preferem o proveito privado ao bem comum. Uns são corroídos pelo ócio, outros se entregam aos prazeres, e outros ainda anseiam por acumular riquezas. Nem os sacerdotes, nem os leigos cumprem bem seus deveres. Por toda parte o culto divino está em declínio; os superiores não seguem a senda da justiça, nem os inferiores curvam o pescoço à obediência. Tudo está confuso e perturbado. A piedade divina é blasfemada, e Deus é desprezado em seus mandamentos. Não há temor, não há reverência às leis. Por isso o Céu, irritado contra nós, permite que prosperem as armas dos turcos, e os cristãos, que costumavam dominar as outras nações, tornaram-se tributários e servos de bárbaros infiéis.
Para estes tempos fomos chamados. Para enfrentar esses males, Deus nos colocou no sólio romano. Dificílima tarefa nos foi confiada. Conhecemos nossa fraqueza e trememos sob o grande peso dessa dignidade. Todavia, não desesperamos, nem desconfiamos da misericórdia de Cristo. Quanto menor é a força humana a quem se confia a dignidade, tanto maior auxílio esperamos do Alto. Pois, ainda que os juízos de Deus sejam insondáveis, e seus caminhos, impenetráveis (nem a curiosidade humana pode atingir os seus segredos), sabemos com certeza que a Verdade, que é Cristo, não pode mentir. Temos seus oráculos e suas promessas no santo Evangelho, onde o Senhor declarou que estará com o seu rebanho até a consumação dos séculos. Confiamos em seu poder, pois Ele não faltará aos que caminham retamente. O céu e a terra passarão, mas suas palavras não passarão, nem da sua lei passará um ápice. A nau apostólica é frequentemente sacudida, mas não nunca submergida; é abalada, mas nunca rompida; atacada, mas nunca conquistada. Deus permite que os seus eleitos sejam provados, mas não derrotados.
Por essa razão, embora tenhamos encontrado a Igreja em estado turbulento, e o mar em volta da fiel nave seja demasiado naufragante, não nos falta a confiança de que, com o auxílio d’Aquele que comanda ventos e mares, possamos alcançar o porto da salvação. Não podemos prometer certezas sobre o futuro, pois a majestade divina o escondeu em densa escuridão, mas nos é lícito prometer e pregar abertamente que Deus não abandona os que nele esperam. Nas Sagradas Escrituras há inumeráveis exemplos que nos dão a melhor esperança. Deixemos de lado os feitos admiráveis de Moisés e seu sucessor Josué, e passemos a Gedeão, Jefté, Sansão e os que os livros dos Juízes recordam: com pequena força muitas vezes puseram em fuga inumeráveis [inimigos], quando haviam recorrido ao auxílio divino. A mão divina de modo algum abandonou o adolescente Davi contra o feroz Golias. Ao rei Ezequias, que suportava os males do cerco, não faltou o anjo do Senhor, que trucidou o exército do potentíssimo rei Senaqueribe. Na pequena cidade de Betúlia, o Senhor protegeu os judeus contra Holofernes pela mão de uma pobrezinha viúva. E os Macabeus, ainda que fossem eles próprios muito poucos e inermes, várias vezes destruíram as hostes numerosas de Antíoco.
O auxílio divino sempre esteve presente aos que confiaram no Senhor. A mão de Deus não está encolhida, embora nossos pecados tenham crescido e afastado d’Ele o olhar. Por causa dos nossos pecados sobrevêm-nos os males; nossos crimes nos tornaram odiosos; nossas iniquidades nos destruíram. A mão do Senhor pesa sobre o povo pecador, e a soberba cristã foi entregue aos flagelos. [Nisso] Deus age conosco segundo seu costume: corrige e castiga os que ama. Estes são golpes paternos, buscando emenda mais do que punição. Mas se voltarmos à sua clemência, corrigindo nossas obras e fazendo penitência com dor por nossas iniquidades, Ele mudará seu juízo e converterá sua ira em amor e graça, pois nunca nega sua misericórdia aos que a imploram; é pronto para perdoar, e não nos mede com a mesma balança que os turcos. Nós somos os filhos adotivos, eles são os rejeitados; nós somos cidadãos de sua cidade, eles são os seus inimigos; nós estamos dentro da Igreja, eles estão fora. Nós recebemos seus sacramentos, eles os desprezam. Não há nada que impeça [o nosso êxito], a não ser que, negligenciando a lei divina, sejamos vencidos pela fragilidade humana, e, inclinados ao pecado, frequentemente releguemos o temor de Deus a segundo plano, nem, como estamos obrigados, observemos os mandamentos divinos. Se, porém, nos convertermos e invocarmos com coração sincero a misericórdia de Deus, não há dúvida de que tudo nos será propício e o Senhor, reconciliado conosco, voltará sua fúria contra nossos inimigos.
Há pouco tempo tivemos prova disso: quando o comandante turco invadiu a Hungria com numeroso exército de cavaleiros e infantes, confiando na própria força e julgando poder destruir tudo, os cruzados, desarmados e nus, armados apenas da fé e protegidos pelo auxílio celeste, destruíram todo aquele exército. Que não se poderia esperar, então, se todos os príncipes cristãos, unidos, tomassem armas pela defesa da fé católica? Não é tão grande o poder dos turcos como vulgarmente se crê, nem suas forças se comparam às nossas. No número de soldados, na robustez, no brilho das armas e na arte da guerra, os cristãos sempre foram superiores. E, quando foram vencidos, foi mais por permissão divina — em castigo dos pecados — do que pela força dos inimigos, nem jamais tiveram os turcos vitória incruenta. E nossos exércitos, poucos em número, lutaram contra toda a força deles. Ainda assim, muitas vezes obtiveram bom êxito, como há pouco se verificou na Hungria.
Agora, pois, se elevarmos os olhos ao céu, se renunciarmos à malícia e empunharmos o escudo da fé para combater, com boa confiança, os inimigos da vivificante Cruz, o Senhor combaterá conosco, levantará seu estandarte em favor nosso e nos dará a vitória, nem mais permitirá que os turcos dominem os cristãos. Guiados e animados por essa esperança, decidimos prosseguir, com todas as forças, a obra que nossos predecessores começaram para a defesa da religião católica contra turcos e outros inimigos bárbaros do nome cristão; e, com o auxílio do Altíssimo, confiamos em completá-la. Pois, embora eles fossem mais prudentes e experientes, em zelo e ardor por tão grande empresa não lhes somos inferiores. Deus, que concede a boa vontade aos que agem bem, não nos negará o poder de executar. Nossos predecessores declararam guerra aos turcos por terra e mar; cumpre-nos agora levá-la a efeito. Não recusaremos esta tarefa, nem pretendemos evitar as despesas. Não há nada em nosso poder que não possamos usar nesta expedição santa, útil e necessária. As despesas não serão excessivas, nem onerosos os trabalhos.
Contudo, porque o empreendimento é grande e a causa é comum — trata-se da defesa da fé cristã, na qual todos renascemos e sem a qual não podemos ser salvos —, pareceu-nos necessário que o que deve ser feito com forças e recursos comuns seja também deliberado em comum. Assim, ponderando com cuidado como as forças cristãs poderiam unir-se para tão útil guerra, não encontramos via mais expedita do que convocar os príncipes e potências cristãs a um mesmo lugar, onde, presentes pessoalmente ou por seus embaixadores plenipotenciários, possamos juntos tratar dessa expedição e concluir algo digno do nome cristão.
Considerando o local do concílio, ocorreram-nos dois lugares, separados por apenas três dias de viagem e que nos pareceram convenientes segundo as circunstâncias: Mântua, junto ao rio Mincio, não longe do lago de Garda; e Údine, no Friuli. Mântua, próxima às montanhas que separam a Itália da Gália e da Germânia, é de fácil acesso aos príncipes transalpinos e às potências italianas. Além disso, é uma cidade grande e abundantemente provida de tudo o que é necessário para o consumo humano. Údine também é uma cidade notável, capaz de abrigar uma grande população e, devido à fertilidade do território circundante e à proximidade do mar, muito adequada para sediar assembleias, e ainda mais conveniente em relação ao assunto a ser discutido, pois os que marcharem por terra da Itália contra os turcos passam primeiro pelo Friuli. Da mesma forma, as nações da Gália, da Espanha e os teutões do Reno também podem facilmente por aí chegar. Além disso, os húngaros, cuja salvação é a principal causa deste concílio (pois são os principais que, no nosso tempo, são vexados pelas armas dos turcos, e constituem um baluarte para a nossa religião), não estão longe desta vila, e poderão facilmente expor as suas necessidades ao concílio dos cristãos aí celebrado, e daí receber mais oportuna e comodamente consolação e ajuda. Nem será difícil para o nosso caríssimo filho em Cristo, Frederico, sempre augusto imperador dos romanos, a passagem para aquele lugar, se, como confiamos da sua excelente disposição para o bem comum, quiser viajar para lá, pois os seus domínios paternos são contíguos ao território de Friuli.
Portanto, desejando, com o auxílio divino, como estamos obrigados pelo dever pastoral, cuidar da salvação do povo cristão e reunir em toda parte socorros e forças para a defesa de nossa religião, e com o conselho e assentimento de nossos veneráveis irmãos, os cardeais da Santa Igreja Romana, marcamos o dia das calendas de junho próximo [1º de junho de 1459] para a reunião em um dos dois lugares mencionados, a fim de deliberarmos em comum com todos os fiéis cristãos e príncipes de notável dignidade sobre a defesa da fé. Por esta carta o decretamos e estabelecemos. Exortamos, pedimos e admoestamos com todo o afeto, pelas entranhas da misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, a todos os caríssimos e diletos em Cristo — o imperador romano, os reis, príncipes eclesiásticos e seculares, duques, marqueses, bem como as repúblicas e comunidades que vivem sob suas próprias leis e podem contribuir algo para a defesa da fé — que façam todo o possível para estarem presentes na data supracitada em um dos dois locais designados, comparecendo pessoalmente ou, se de outro modo não puderem, por seus legados, homens graves e insignes, e munidos de pleno poder; que não permaneçam em casa, salvo por absoluta necessidade, mas sigam antes nosso exemplo.
Nós mesmos, para que nada falte de nossa parte, embora necessária seja nossa presença em Roma e não possamos, sem grande incômodo e perigo para as terras sujeitas à Igreja Romana, migrar para províncias alheias, todavia, porque estimamos mais a defesa da fé católica do que a tutela do patrimônio eclesiástico, e antepomos as coisas espirituais às temporais, decidimos deixar por algum tempo a amada Cidade de Roma, nossa sede e esposa caríssima, e no dia designado, com o auxílio do Altíssimo, ir a Mântua ou Údine. Não recusaremos suportar quaisquer fardos, por mais árduos que sejam, que pareçam convenientes à execução de tão santo e necessário empreendimento. Nem tememos gastos nem fadigas pela boa causa da Igreja, pela glória do nome de Cristo e pela salvação de seu povo. Rogamos apenas que a piedade divina não nos impeça de realizar este desejo, pois estamos firmemente decididos a desprezar todo incômodo e perigo, para prover às necessidades da fé ortodoxa, à honra de Deus e à segurança e paz do povo cristão.
Dado em Roma, junto de São Pedro, três dias antes dos idos de outubro, no primeiro ano do nosso pontificado, 1458.
[Dado em Roma, 13 de outubro de 1458]
