VOX IN RAMA
Papa Gregório IX
Fonte: Carl Rodenberg, Epistolae saeculi XIII e regestis pontificum Romanorum selectae, p. 432s. MGH, Berlim, Weidmann, 1883.
Tradutor do texto latino: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: Bula endereçada ao arcebispo de Mainz, Siegfried III von Eppstein, ao bispo de Hildesheim, Konrad II de Riesenberg, e ao inquisidor Conrad de Marbourg, a respeito de uma seita luciferiana da Alemanha.
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“Uma voz foi ouvida em Ramá, choro e grande lamento: é Raquel a chorar seus filhos” (Mt 2,18), ou seja, a piedosa mãe Igreja chora os filhos que o demônio mata e destrói, e quase não recebe consolo, porque os filhos, como víboras que dilaceram as entranhas da própria mãe, esforçam-se por matá-la. A multidão de dores urgentes que a cercam, como uma mãe em trabalho de parto, fazem-na clamar e dizer: “Minha entranha dói, minha entranha dói!” (Jr 4,19), como a obriga o profeta. Pois, como toda criatura ainda geme e sofre dores de parto (cf. Rm 8,22), o sagrado ventre da Igreja, mãe geradora, é perturbado pela dor de suas entranhas, dilaceradas por mordidas quase mortais. De fato, aquela serpente tortuosa (cf. Gn 3,1), que, pela mão parturiente do Senhor, foi arrancada de suas cavernas — isto é, dos corações carnais dos homens —, e que já não reina no interior daqueles contra quem luta exteriormente, pois perdeu seu domínio interno, agora move guerra externamente. Ela instiga uma nova perseguição contra a Igreja, esposa de Cristo, ou melhor, contra o próprio Cristo, por meio de seus ministros, operários da iniquidade. Ele (o Diabo), que desde o princípio não permaneceu na verdade (cf. Jo 8,44), esforça-se por transformar a verdade em mentira, para espalhar mais amplamente o veneno de seu engano. Ele trabalha para destruir as almas grávidas, impedindo que o fruto da fé, concebido pelo amor divino, chegue ao parto da obra consumada.
Por isso, Nós, que estamos obrigados a zelar por sua fecundidade, somos dilacerados pelo gume da perfídia cortante, enquanto nos vemos atingidos pelas setas venenosas dos novos erros e da inaudita confusão, lançadas contra as entranhas da Igreja pelos hereges que rasgam seu ventre. Todo o nosso espírito se dissolve em amargura; nosso fígado se derrama pela terra; nossa alma está profundamente turbada, e nosso ventre cheio de dores; nossos olhos desfizeram-se em lágrimas e nossos rins tremeram diante de tão nefandas abominações; todas as nossas entranhas se comoveram; não conseguimos reprimir as lágrimas nem conter os suspiros.
Como de fato vossas cartas, cheias de grande pesar e imensa dor, nos fizeram saber, entre as diversas espécies de heresias que, por conta de nossos pecados, infestaram a Alemanha, uma se destaca como a mais detestável e generalizada, horrorizando não só quem a conta, mas até quem a ouve. Ela já brotou nos membros nobres da Igreja, e nos muito poderosos. Essa heresia é dissonante de toda razão, oposta a toda piedade, odiosa a todo coração, inimiga de tudo o que é celestial e terreno. Contra ela, não só os homens dotados de razão, mas até mesmo os seres desprovidos de razão (pois essa peste supera sua loucura) deveriam insurgir-se e armar-se — sim, até os próprios elementos da natureza!
Diz-se que os rituais dessa peste são assim: Quando um noviço é recebido nela e introduzido nas escolas desses perdidos, aparece-lhe a figura de uma rã (alguns a chamam de “sapo”). Este sapo, sendo beijado por alguns nas partes traseiras e por outros na boca, tem sua língua e saliva acolhidas na boca dos iniciandos. Essa criatura aparece por vezes em tamanho desproporcional, às vezes como um ganso ou um pato, ou mesmo com o tamanho de um forno.
Depois, ao prosseguir o rito, surge diante do noviço um homem de palidez extrema, com olhos negríssimos, tão consumido e macilento que parece ter apenas pele sobre os ossos. O noviço o beija e sente frio como gelo. Após esse beijo, toda memória da fé católica desaparece de seu coração.
Em seguida, há um banquete. Ao fim da refeição, de uma estátua que costuma estar presente nessas escolas, desce de costas, como um cão de porte médio, um gato negro de cauda retorcida. O noviço beija-o primeiro na parte traseira,[1] depois o mestre, e por fim, sucessivamente, todos os que são considerados dignos e perfeitos. Os imperfeitos, que não se julgam dignos, recebem a “paz” do mestre. Então, colocados em seus lugares, recitam certos cantos e versos, inclinando-se para o gato. O mestre diz: “Perdoa-nos”, e cada um repete. O terceiro responde: “Sabemos, mestre”, e o quarto diz: “E devemos obedecer”. Feito isso, as velas são apagadas e se passa à mais fétida obra de luxúria, sem nenhuma distinção entre estranhos e parentes. E se porventura houver mais homens que mulheres, entregam-se às paixões da ignomínia, ardendo mutuamente em seus desejos, homens com homens praticando a torpeza; de modo semelhante, as mulheres também pervertem o uso natural, agindo contra a natureza.
Depois de tão nefando crime consumado, reacendem-se as velas, e, com todos de volta a seus lugares, surge de um canto escuro um homem que da cintura para cima brilha com fulgor maior que o sol, como dizem, e da cintura para baixo é peludo como um gato. Seu esplendor ilumina todo o lugar. Então o mestre, tirando um pedaço das vestes do noviço, diz ao ser fulgurante: “Mestre, dou-te o que me foi dado”. Ao que aquele fulgurante responde: “Serviste-me bem muitas vezes e me servirás melhor ainda; confio à tua guarda o que me deste”. E, ditas essas palavras, desaparece imediatamente.
Além disso, todos os anos, na Páscoa, recebem o Corpo do Senhor das mãos de um sacerdote e, levando-o para suas casas, atiram-no na latrina, em desprezo ao Redentor.
Esses miseráveis, os mais infelizes de todos, blasfemam contra o Governante dos céus, afirmando delirantemente que o Senhor, injusta e violentamente, lançou Lúcifer no inferno. Eles acreditam que Lúcifer é o verdadeiro criador dos céus e que, um dia, voltará em glória, após a queda do Senhor. Esperam obter a bem-aventurança eterna por meio dele, não antes. Confessam que tudo o que agrada a Deus não deve ser feito e que, ao contrário, devem praticar o que Ele odeia.
Ó dor! Quem já ouviu tal coisa? Quem poderia conceber algo tão nefando? Quem não abominará tamanha perfídia? Quem não se irará contra tão grande maldade? Quem não se inflamará contra tais filhos da perdição e da traição? Onde está o zelo de Moisés, que matou 23 mil idólatras em um dia? Onde está o zelo de Fineias, que traspassou o judeu com a midianita? Onde está o zelo de Elias, que matou 450 profetas de Baal junto ao rio Quison? Onde está o zelo de Matatias, que, em fúria justa, matou o judeu que sacrificava aos ídolos? Onde está a autoridade de Pedro, que fulminou Ananias e Safira por mentirem ao Espírito Santo?
Certamente, se a terra se levantasse contra tais e os céus revelassem suas iniquidades, e seus crimes fossem manifestos a todo o mundo, de tal modo que não só os homens, mas também os elementos conspirassem para sua ruína e os apagassem da face da terra, sem poupar sexo nem idade, para que fossem opróbrio eterno a todas as nações, nem assim seria suficiente ou digna a vingança sobre eles.
No entanto, embora a corrupção desses pestíferos seja grande como o mar, sabendo, porém, que a mão do Senhor não está encolhida para não poder salvar (cf. Is 59,1), e para purificar a escória deles e tirar todo o estanho, compadecendo-nos de coração por sua profunda ruína — para que não nos seja imputado termos negligenciado envolvê-los com as faixas da correção e ungir suas feridas com o óleo da mansidão —, e esperando também que Aquele que, mesmo irado, não cessa de ter misericórdia, não contenha para sempre as entranhas de sua piedade para com eles, mas transfira da mão deles o cálice de sua ira, cuidamos de prover com diligência à sua correção.
Visto que a palavra do Senhor não está presa em vossa boca — vós que, por sua graça, que a todos concede abundantemente, sois poderosos em obras e palavras —, rogamos, exortamos e admoestamos em nome do Senhor, e vos impomos como penitência, para remissão de vossos pecados, que tomeis resina para mitigar sua dor e curar suas feridas. Ide, como anjos da paz, oferecer-lhes remédio para suas chagas, e com diligente solicitude trabalhai em sua correção. Mas, se porventura, para arrancar-lhes o ferro da ferida por vossa advertência, não lhes for concedida graça do alto, e suas cicatrizes tiverem apodrecido de tal modo que, como que desesperando da ferida, não quiserem retornar de coração humilde ao seio da mãe Igreja, expondo garantia firme de sua conversão e perseverança, tal que não haja mais temor de recaída — pois em tão grave e grande mal são necessários remédios mais fortes onde os leves não aproveitam —, e é preciso aplicar ferro e fogo às feridas que não sentem o bálsamo, amputando a carne podre para que não contamine a sã, convocai contra eles, seus receptadores, defensores e fautores, o poder do gládio espiritual e material. Exortai com insistência todos os fiéis de Cristo e levai-os eficazmente a se erguerem como auxílio do Cristo deles, e armem-se varonilmente contra esses hereges.
Nós, confiando na misericórdia do Onipotente e na autoridade dos bem-aventurados apóstolos Pedro e Paulo, pela potestade de ligar e desligar que Deus nos conferiu — embora indignos —, concedemos a todos os verdadeiramente penitentes e confessados que tomarem o sinal da cruz e se dispuserem ao extermínio desses hereges, a mesma indulgência e privilégio que se dá àqueles que partem em auxílio à Terra Santa.
Dado no Latrão, aos idos de junho, no sétimo ano de Nosso pontificado.
[Dado no Latrão, dia 13 de junho de 1233.]
[1] Sim, ali mesmo naquele lugar. Só de pensar nessa abominação, qualquer um sente asco. (N.T.)
