A “MAÇONARIA DE MARIA”
Padre Antônio Miranda, S.D.N. (†2021)
Fonte: Padre Júlio Maria, sua Vida e sua Missão, p. 156–160. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1957.
Descrição: Sobre a criação de uma sociedade secreta pelo Padre Júlio Maria de Lombaerde, M.S.F. (1878–1944).
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O livro dos livros para De Lombaerde, em Wacken, foi, depois do Evangelho, o Tratado da verdadeira devoção, escrito pelo Beato de Montfort.
Seu entusiasmo por este livrinho era tanto, que o decorou literalmente. Revelou mais tarde a um de seus padres saber de cor, em francês, o TRATADO, mais o SEGREDO DE MARIA, escrito pelo mesmo Montfort.
Com efeito, os livros que compôs, naquele tempo sobretudo, resumem citações de Montfort a cada página, e são, na doutrina e no espírito, o pensamento do grande Apóstolo de Maria Santíssima. Haja vista os Princípios da vida de intimidade, também elaborados na oficina de amor que foi Wacken.
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Mas o que mais revela o amor apaixonado de De Lombaerde à Santíssima Virgem é, sem dúvida alguma, a associação que fundou em Wacken com o nome de MAÇONARIA DE MARIA, segundo informações de um sacerdote seu colega. Ao menos era este o nome que deram familiarmente ao sodalício.
Reuniu o Pe. De Lombaerde os principais devotos de Nossa Senhora para pronunciarem solenemente uma consagração à celestial Rainha e se imporem particulares obrigações, além das pedidas pela santa escravidão de Montfort.
As obrigações mais gerais eram as seguintes: fazer sob voto a Consagração a Maria, segundo a doutrina de Montfort; acrescentar a este voto o de APÓSTOLOS e MÁRTIRES de Maria Santíssima; fazer mortificações especiais em honra de Nossa Senhora.
Foi o próprio De Lombaerde quem preparou seus colegas, uns sacerdotes e estudantes outros, exortou-os, encheu-os de entusiasmo.
Ele próprio chamou a esta associação MAÇONARIA DE MARIA por causa do aspecto de sociedade secreta que lhe deu. A filiação à sociedade não era permitida a todos, mas somente aos que se distinguissem por especial afeto à santa escravidão e que houvessem dado provas de heróico espírito de sacrifício.
Doze foram os primeiros a se consagrar a Nossa Senhora. O Pe. Júlio Maria descreveu mais tarde a seus filhos espirituais a cena da consagração marcada por um sacrifício especial: o de fazer-se insculpir no peito, a ferro em brasa, os nomes de Jesus e Maria!
Eis como êle narra o acontecimento:[1]
“Eu e meus companheiros éramos homens de espírito de sacrifício. Quisemos amar a Nossa Senhora — era quase uma pretensão nossa — como nunca fôra Ela amada.
“Determinamos consagrar-nos a Ela no espírito de escravidão do Beato de Montfort. Levantamo-nos à meia noite, e fomos, todos juntos, aos pés de sua imagem, pronunciar nosso ato de consagração.
“Éramos doze. Não fizemos somente um ato. Dando-nos à querida Mãe do céu, quisemos dar-nos completamente e em definitivo, obrigando-nos sob voto.
“Direi mais… devia calar muitas cousas… mas para exemplo as direi… Chegamos ao heroísmo: fizemo-nos marcar, uns pelos outros, a ferro em brasa, com os nomes de JESUS e MARIA!
Foi um espetáculo comovente este produzido pela nossa generosidade. Viam-se os mais fracos estremecerem ao contacto daquela brasa viva que lhes devorava as carnes. Gemiam de dor, mas, enérgicos, suportavam aquele martírio de amor!”
O fato foi confirmado por ilustre sacerdote holandês, colega do Pe. De Lombaerde em Wacken.
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Foi nesta ocasião, certamente, que o nosso biografado escreveu e assinou com o próprio sangue o ato seguinte:[2]
“Em presença de Nosso Senhor, de toda a côrte celeste, pelas mãos e em honra da Bem-aventurada Virgem Maria, eu juro e faço votos, para sempre, de ser escravo submisso da Santíssima Virgem — de ceder-lhe, nesta qualidade, meu corpo e minha alma, meus bens interiores e exteriores, e o próprio valor de minhas boas ações passadas, presentes e futuras, a fim de que Ela disponha de mim e de tudo o que me pertence segundo bem quiser e para a maior glória de Deus.
“Outrossim, juro e faço votos para sempre de me fazer Apóstolo da Bem-aventurada Virgem e, como tal, de defender seus direitos e privilégios e isto ainda a preço de meu sangue se for necessário — de fazê-la conhecida e amada quanto estiver em meu poder — segundo os meios e na medida que aprouver a Deus nos outorgar — conformando plenamente todos os meus esforços às observações e indicações de meus superiores legítimos.
“Este voto sagrado de ser vosso ESCRAVO, e vosso APÓSTOLO, e vosso MÁRTIR se for necessário, ó Beatíssima Virgem Maria, deponho-o em vosso coração, pedindo-vos a graça de nunca violá-lo e de chegar, por vosso intermédio, a uma união íntima com o Coração de Jesus.
“Como lembrança deste contrato, trarei gravados em meu peito os nomes de Jesus e de Maria, uma cópia deste ato, transcrito, e assinado com meu próprio sangue, assim como uma cruz de pontas agudas.
“Em fé do que assino este ato sobre o altar da Bem-aventurada Virgem, na festa de sua Assunção gloriosa, em Wacken, no ano da graça de 1911.
“JÚLIO-MARIA DE LOMBAERDE, filho, escravo, apóstolo e mártir de Maria.”[3]
Quando uma alma chega a tais promessas heróicas, sem dúvida alguma, pode dizer-se realmente apaixonada por Maria Santíssima.
O Pe. De Lombaerde atingiu este cume do amor a Nossa Senhora.
[1] Pe. Júlio-Maria — fatos de sua vida narrados por êle mesmo — Op. cit.
[2] Este texto da consagração parece que foi copiado e subscrito pelos demais companheiros de De Lombaerde, e a sociedade secreta, com licença dos superiores maiores da Sagrada Família, sujeitou a estes os votos. É o que se depreende das obrigações rigorosas apostas no verso da consagração. Transcrevamo-las.
OBRIGAÇÕES RIGOROSAS:
1) Praticar e propagar a verdadeira devoção, cada um na medida de seu poder e estado.
2) Defender os direitos e os privilégios de Maria por toda a parte onde forem atacados, contraditos e diminuídos.
3) Fazer Maria conhecida e amada, cada um segundo seu poder, pelo exemplo, pelos escritos, pela palavra (cartas, sermões, conversas).
4) Dirigir as almas que por ventura estejam a nosso cargo, pelo caminho da verdadeira devoção.
5) Faltar seriamente a estes pontos, seja por relaxamento, respeito humano, ou esquecimento voluntário prolongado, constitui pecado grave.
6) Haveria pecado venial na negligência destes meios e práticas sem razão suficiente ditada pela prudência ou pela obediência.
7) As práticas exteriores de trazer a cruz e o contrato obrigam sob pena de falta venial.
8) A dispensa deste voto ficará reservada ao superior-geral do Instituto.
O modo de falar no contexto das presentes obrigações indica serem elas impostas a vários associados. Vejamos, por exemplo, a 1ª, 3ª e 4ª obrigações, onde os termos CADA UM e NOSSO são a estender obrigações coletivas.
[3] Observa-se no texto de seu juramento — é curioso notá-lo — uma semelhança de terminologia com os juramentos maçônicos. Igualmente as solenidades que cercavam o ato, quais foram de subscrever o juramento com o próprio sangue e gravar no peito os nomes de Jesus e de Maria — tudo lembra rituais da seita de Hiram. Temos então o grande inimigo da seita perversa santificando para o bem quanto ela realiza diabolicamente para o mal.
