O INCÊNDIO DE ROMA E A PERSEGUIÇÃO AOS CRISTÃOS
Públio Cornélio Tácito (†120)
Fontes: (1) Cornelio Tacito, Opere, p. 493–494. Giulio Einaudi Editore, 1968. (2) Azelia Arici (ed.), Tacito, Annali, p. 559–560. UTET, 1959. (3) Cornelio Tácito, Anales, p. 243–244. Gredos, 1980.
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: Um dos relatos extra-bíblicos mais importantes sobre o cristianismo primitivo. Tácito atesta a existência de Jesus Cristo e descreve como, após o incêndio de Roma, Nero (37–68 d.C.) tentou afastar de si a suspeita, atribuindo a culpa aos cristãos e submetendo-os a suplícios cruéis e espetaculares. As execuções incluíram crucificações, exposição a feras e queima noturna para iluminar os jardins imperiais. Embora considerados culpados, os condenados despertavam compaixão, pois sua morte parecia servir mais à crueldade do príncipe do que ao bem público.
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ANAIS
Livro XV
44. Feitas essas diligências humanas, recorreu-se às divinas, com o desejo de aplacar a ira dos deuses e purificar-se do pecado que havia sido a causa de tão grande desgraça. Consultaram-se, para isso, os livros sibilinos,[1] por cujo conselho fizeram-se preces públicas a Vulcano, a Ceres e a Prosérpina; e as matronas aplacaram Juno com sacrifícios, primeiro no Capitólio e, depois, no mar próximo à cidade,[2] e tirando dele água, aspergiram o templo e a imagem da deusa. Ofereceram-se, por fim, banquetes místicos às divindades femininas,[3] e vigílias foram celebradas pelas mulheres casadas.
Mas nem os recursos humanos, nem os donativos e as liberalidades do príncipe, nem os sacrifícios aos deuses eram suficientes para dissipar o boato infamatório de que o incêndio havia sido ordenado. Nero, então, para pôr termo à suspeita e desviar-se da culpa, deu por culpados e começou a castigar com requintados gêneros de tormentos certos homens que, já dantes odiados por seus crimes, o vulgo chamava cristãos. O autor desse seu nome foi Cristo,[4]o qual, sob o império de Tibério, havia sido executado por ordem de Pôncio Pilatos, procurador da Judéia;[5]e, embora então se houvesse reprimido por algum tempo[6]aquela perniciosa superstição,[7]tornava ela a reverdecer, não somente na Judéia, origem desse mal, mas também em Roma,[8]onde afluem e se celebram todas as coisas atrozes e vergonhosas que há nas demais partes.
Foram, pois, castigados a princípio os que professavam publicamente essa religião;[9] depois, por denúncia daqueles, uma multidão imensa, não tanto pelo delito do incêndio que se lhes imputava, mas por seu ódio geral à raça humana.[10][11] Acrescentou-se à execução da justiça a burla e o escárnio com que lhes davam a morte:[12] a uns vestiam com peles de feras, para que dessa maneira fossem dilacerados pelos cães;[13] a outros pregavam em cruzes; a outros lançavam sobre grandes pilhas de lenha às quais, ao findar o dia, ateavam fogo, para que, ardendo com eles, servissem de iluminação nas trevas da noite. Nero havia cedido seus próprios jardins para esse espetáculo,[14] e ali celebrava festas circenses; e, em trajes de cocheiro, misturava-se às vezes com o vulgo para observar o regozijo, outras vezes punha-se a guiar seu carro para participar das corridas.
E assim, embora esses homens fossem considerados culpados e merecedores do último suplício, despertavam grande compaixão e piedade, como pessoas a quem se tirava a vida de modo tão miserável, não por utilidade pública, mas para satisfazer a crueldade de um só.[15]
[1] Cf. Livro I, cap. 76; IV, cap. 12.
[2] Em Óstia. (Nota ed. Einaudi 1968).
[3] As imagens das divindades femininas eram colocadas sobre o leito do banquete não reclinadas, mas sentadas; assim como se sentavam à mesa as mulheres nos tempos antigos (cf. cap. 23). (Nota ed. UTET 1959). Eram as chamadas selistérnias: rito processional no qual se colocavam as imagens das deusas sobre sellae (cadeiras/assentos), simétrico ao dos lectisternia, nos quais as imagens dos deuses eram dispostas sobre divãs. (Nota ed. Gredos 1980).
[4] Acreditava-se caluniosamente que praticavam uma religião que incentivava a imoralidade e o crime, e a sua reserva, que suscitava perplexidade e antipatia, reforçava tal crença (cf. Livro XIII, cap. 32). Essa é, depois da de Plínio (Epist. X, 96–97) e aproximadamente contemporânea à (incerta) de Suetônio (Claudio, 25,4), a mais antiga alusão de escritores latinos ao cristianismo nascente. Recentemente, E. Köstermann, em Un errore tacitiano (Ann. XV, 44,2–5) gravido di conseguenze?, na «Critica Storica», nº 6 de 30 de novembro de 1967, p. 745–759 (cf. «Historia», XVI, 1967, p. 456–469), observa que o texto do cuidadoso códice Mediceu I traz Chrestianos, não Christianos, e que, portanto, os acusados do incêndio teriam sido não os cristãos, mas o grupo de judeus que já sob Cláudio, impulsores Chresto (Suetônio, Claudio, 25,4), e por isso chamados Chrestiani, haviam provocado tumultos, merecendo a expulsão de Roma. Tácito teria confundido a questão, inserindo na notícia de sua fonte — mal compreendida quanto à atribuição — a sua própria explicação sobre a origem do cristianismo e o seu severo juízo a respeito dele. A questão é, contudo, muito complexa: seria necessário resolver antes, com certeza (o que é impossível no estado atual dos conhecimentos), o problema da identificação do misterioso Chrestus mencionado por Suetônio. (Nota ed. Einaudi 1968). Esta menção de Cristo e dos cristãos foi objeto da maior atenção e de numerosos estudos, em razão da importância do autor em que ela aparece e de sua cronologia relativamente precoce; além disso, o texto apresenta problemas ainda não totalmente esclarecidos. Com efeito, a maior parte da tradição manuscrita traz a leitura Chrestianos, e não a esperada Christianos, o que parece levar a pensar que Tácito os confunde com os seguidores do agitador judeu Chrestus mencionado por Suetônio em Cláudio 25,4 (segundo Koestermann), embora haja quem sustente que tal Chrestus seja realmente o próprio Cristo; a deformação do nome dever-se-ia a um processo de etimologia popular que o interpretaria não como «o ungido», mas como «o benéfico», o que não seria estranho com uma pronúncia itacista do eta grego. Por outro lado, surpreende a forma Christus, documentada na tradição manuscrita de Tácito com a mesma segurança que Chrestianos; contudo, essa incoerência, mais do que motivo para duvidar da historicidade da notícia, parece antes um traço de autenticidade. Não nos é possível saber se Tácito fazia menção da morte de Cristo no lugar cronológico correspondente da obra, pois tal trecho pertenceria à parte perdida do livro V; ainda assim, o fato de que, ao mencioná-lo agora, não faça referência a uma passagem anterior parece indicar que esta é a primeira e única menção da personagem nos Annales. (Nota ed. Gredos 1980).
[5] Governador da Judéia entre os anos 26 e 36. As escavações de Cesaréia trouxeram à luz o seu nome em inscrição epigráfica, com o título de praefectus Iudaeae (“prefeito dos judeus”) (cf. Livro XII, cap. 23) (Nota ed. Einaudi 1968). Quanto a Pôncio Pilatos, uma descoberta epigráfica recente veio fornecer notícia nova e muito direta (cf. L’Année Épigraphique 1963, n. 104, e 1971, n. 477); ele teria sido prefectus da Judeia entre os anos 27 e 37 d.C., e sofreu desterro sob Calígula, segundo Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas XVIII, 88 e seguintes. (Nota ed. Gredos 1980).
[6] Na verdade, por uma menção de Suetônio (Claudio, 25,4), parece que já houvera um despertar sob Cláudio, o qual tratou de reprimi-lo. (Nota ed. UTET 1959).
[7] A definição indica qual era o grau de conhecimento que o mundo oficial romano tinha do cristianismo. (Nota ed. Einaudi 1968).
[8] Já haviam chegado ali os apóstolos Pedro e Paulo, depois martirizados nos desdobramentos da execução em massa do ano 64. (Nota ed. Einaudi 1968).
[9] Não foram presos porque existisse uma lei que os tornasse passíveis de perseguição por serem cristãos, mas porque Nero os procurava precisamente para acusá-los do incêndio. (Nota ed. Einaudi 1968).
[10] De fato, como se diz adiante, Nero não conseguiu convencer ninguém de sua culpa quanto ao incêndio; mas o ódio popular anterior acabou sendo-lhes igualmente fatal. (Nota ed. Einaudi 1968).
[11] A acusação pode ter nascido de certas palavras de Cristo que se encontram em Mateus 10,34–36.
[12] No texto: ludibria = “ultrajes, motivo de divertimento”. (Nota ed. Einaudi 1968).
[13] Como se estivesse simulando uma venatio, a caça do anfiteatro. (Nota ed. Einaudi 1968).
[14] Os jardins já haviam sido abertos ao povo como abrigo por ocasião do incêndio (cf. cap. 39). Eram os jardins situados entre o Tibre e o monte Vaticano, pertencentes outrora a Agripina Maior e depois a Calígula, que ali mandara construir o circus Gai et Neronis (cf. Libro XIV, cap. 14) (Nota ed. Einaudi 1968).
[15] Tácito, portanto, não acredita na culpabilidade dos cristãos como incendiários; e sua consciência honesta, embora os julgue segundo a opinião comum e o conhecimento insuficiente da época, indigna-se ao vê-los expiar a culpa específica que a voz pública atribuía, com razão ou sem ela (o historiador não se pronuncia, cf. cap. 38), ao príncipe perverso. (Nota ed. Einaudi 1968).
