SEFER HA-ZIKUK (“O LIVRO DA EXPURGAÇÃO”)
Domenico Gerosolomitano (†1622)
Fonte: Sefer ha-Zikuk, 23a–24b. Mantua, 1596. Link: https://www.posenlibrary.com/entry/sefer-ha-zikuk-book-expurgation
Tradutor do texto: Elvira Mattoso (a partir da versão inglesa de Avi Steinhart).
Descrição: O Sefer ha-Zikuk (em hebraico: ספר הזיקוק), traduzido como “O Livro da Expurgação” ou “O Livro da Purificação”, foi uma espécie de manual para a censura de livros hebraicos. Escrito por Domenico Gerosolimitano (originalmente um rabino chamado Samuel Vivas que se converteu ao cristianismo) e concluído em Mântua, Itália, no dia 1º de agosto de 1596, o manual listava 336 livros hebraicos e identificava as seções ofensivas em cada um, e também fornecia instruções detalhadas sobre como limpar textos judaicos de passagens consideradas ofensivas aos cristãos. A tradução abaixo é o excerto contendo as diretrizes para o expurgo.
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Este é o Livro da Expurgação que compus em Mântua e que concluí no dia 1º de agosto de 1596, em nome de Deus.
- Sempre que aparecer o termo “idólatras”, e não estiver claramente se referindo à idolatria dos tempos antigos, deverá ser substituído pela expressão akum, que significa “adoradores dos astros e constelações”. Contudo, se se referir manifestamente à idolatria existente antes da vinda de Nosso Senhor, não há problema.
- Quanto a qualquer menção de “imagens fundidas” e semelhantes, deve-se acrescentar a expressão “de akum”.
- No que diz respeito a qualquer menção de “um gentio” ou “gentios” ou “homem estrangeiro” ou “mulher estrangeira”, se o contexto indicar alguma desonra, vergonha ou defeito nesse gentio, deverá ser apagado e substituído por akum. No entanto, se tratar de uma das leis dos hebreus, como as leis do sábado, dos alimentos proibidos, ou do vinho tocado por um gentio e semelhantes, não há problema.
- Todavia, a exceção acima aplica-se apenas se não houver menção de idolatria, como em “a intenção do gentio é para idolatria”, ou “um gentio certamente derrama libações para a idolatria”, e exemplos semelhantes, caso em que tudo deve ser inteiramente apagado.
- Todas as menções de “herege” e “heréticos” devem ser totalmente apagadas.
- Qualquer menção a “apóstata”, se não for usada de modo depreciativo, não deverá ser apagada, mas substituída por akum; porém, se tiver conotação depreciativa, deverá ser completamente apagada.
- Quanto a qualquer menção de “nação” ou “nações”, deve-se escrever ao lado o termo akum.
- Contudo, se for entendido que se trata de um nome geral para todas as nações do mundo na época presente, ou que se refere especificamente à nossa nação [cristã] nesta geração, então todo o trecho deve ser apagado, pois é pior adaptá-lo para akum.
- Com relação a qualquer louvor à nação israelita que implicitamente nos desonre [a nós, cristãos], e que possa ser entendido como referindo-se aos nossos tempos, todo o trecho deve ser completamente apagado.
- Sempre que o estado de incircuncisão for censurado, deve-se especificar que isso se refere a tempos passados. Por exemplo, a expressão “o estado de incircuncisão é repugnante” deverá ser substituída por “o estado de incircuncisão era repugnante”.
- Em qualquer lugar da Bíblia em que haja disputa entre a nossa fé [cristã] e a deles, se for levantada explicitamente alguma dificuldade contra a nossa posição, ou se for apresentada alguma prova em favor da deles, todo o trecho deve ser completamente apagado, mesmo que o nome dos cristãos e de seus estudiosos não seja expressamente mencionado. Contudo, se o assunto for explicado de acordo com a opinião deles, sem que se levante dificuldade contra a nossa, não há problema.
- Sempre que um trecho condenar alguma das leis da nossa crença ou da nossa Bíblia, ou algum dos nossos costumes, ou se um rei, sacerdote ou bispo do nosso santo sacerdócio for desprezado, todo o trecho deve ser completamente apagado.
- Sempre que for afirmada alguma idéia totalmente herética e erro grave, como a noção de reencarnação, ou que todas as almas foram formadas nos seis dias da criação, ou que o Santo, bendito seja Ele, chora,[1] ou que as almas dos ímpios são espíritos nocivos e demônios, ou que os espíritos malignos que entram nos corpos das pessoas são as almas dos ímpios já falecidos, e outros exemplos semelhantes, todo o trecho deve ser apagado.
- Em qualquer lugar onde apareça o nome Edom, Roma ou Itália de modo depreciativo, deve ser apagado.
- Em qualquer lugar onde se diga que o Santo, bendito seja Ele, se entristece pela perda de Israel, deve ser totalmente apagado.
- Onde quer que se mencione o caso daqueles poucos que morreram por sua fé, como ocorreu com vários deles que faleceram em Portugal e na Espanha, se se disser que, por isso, santificaram a Deus, ou se forem chamados justos ou santos, deve ser totalmente apagado.
- Onde quer que se mencionem as nossas festas, tempos determinados e dias santos de modo depreciativo, como “antes das suas festas etc.” [ver m. Avodah Zarah 2:1], ou se se disser que é proibido aos judeus negociar com eles nesses dias, tudo deve ser completamente apagado.
- Também é necessário apagar o nome da festa se ela for mencionada explicitamente, como Calendas, Saturnais e semelhantes [ver b. Avodah Zarah 6a].
- Sempre que houver menção ao nome de sacerdotes, bispos, oficiais, duques ou papas, se não estiver claramente se referindo a indivíduos que viveram antes da vinda de Nosso Senhor, deve ser totalmente apagado.
- Sempre que se qualifique como santo e justo qualquer um deles que tenha vivido após a vinda de Nosso Senhor, ou se se chamar uma congregação de “santa congregação” ou “assembléia de Deus”, tudo isso deve ser apagado.
Em todos esses casos, é necessário muito estudo, com auxílio de discernimento e conhecimento, especialmente quando se menciona o nome da idolatria.
Rezo a Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, que me assista em minha zelosa defesa da fé em Jesus, nosso bravo Messias. Que Ele ilumine os olhos do povo que caminha nas trevas — o povo dos filhos de Israel — para que vejam o bom caminho, o caminho da vida eterna, o caminho de Nosso Senhor, Jesus, o Messias de Deus.
[1] Essa é uma tradução direta da expressão hebraica “Ha-Kadosh Baruch Hu” (הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא). No judaísmo, esse é um dos nomes ou títulos mais comuns para se referir a Deus. Os judeus utilizam essa fórmula para falar da divindade, enfatizando tanto sua transcendência (Santo/Separado) quanto a gratidão da criação (Bendito seja Ele). Na literatura rabínica (como o Talmude e o Midrash), Deus é frequentemente descrito com características humanas para ilustrar conceitos teológicos — como “chorar” pela destruição do Templo ou pelo sofrimento de Israel. Para a Igreja, essas descrições antropomórficas são vistas como heréticas ou erros graves. (N.T.)
