ENTREVISTA COM O PADRE OLIVIER RIOULT SOBRE O LIVRO “A CHAVE DAS ESCRITURAS”
Johan Livernette (1973–), 19 de junho de 2022
Fontes: (1) https://johanlivernette.wordpress.com/2022/06/19/entretien-avec-labbe-rioult-sur-la-clef-des-ecritures/ (2) https://archive.ph/o5xry
Tradutor do texto: Lúcio Guimarães.
Descrição: Nessa entrevista, o Padre Olivier Rioult apresenta seu livro La Clef des Écritures (“A Chave das Escrituras”), argumentando que o Antigo Testamento foi concebido como uma prefiguração provisória cumprida e aperfeiçoada pela Nova Aliança. Apoiando-se na exegese tradicional, ele distingue o judaísmo mosaico do talmúdico, defendendo que a correta interpretação espiritual das Escrituras refuta tanto heresias históricas quanto leituras literais. Por fim, detalha escolhas práticas de publicação, reflete sobre o papel pedagógico de sua obra para diferentes públicos e antecipa seus próximos projetos teológicos e apologéticos.
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Havíamos tratado do Padre Rioult na última vez em sua excelente síntese sobre a questão judaica. Nós o reencontramos com um estudo aprofundado sobre os dois Testamentos. Em La Clef des Écritures, trata-se de teologia e de história. Através de várias refutações, seu livro dá chaves de compreensão do Antigo Testamento e, mais amplamente, da Sagrada Escritura.
A idéia fundamental é a seguinte: o Antigo Testamento prefigura o novo. Ele anuncia a chegada do messias Jesus. Pois “a lei mosaica conduz ao Cristo”. Seu livro trata precisamente da complementaridade e da harmonia entre a antiga e a nova Aliança. Sendo uma imperfeita e provisória, enquanto a outra lhe é qualitativamente superior; sendo o Filho de Deus o legislador da Nova Aliança e Moisés o da antiga. Ao longo das páginas, o autor analisa e argumenta apoiando-se nos evangelhos e nos Padres da Igreja, a fim de que o leitor capte melhor em qual espírito a Sagrada Escritura deve ser compreendida.
Livernette: Bom dia, Sr. Padre Rioult, por que ter escrito este livro? De onde lhe vieram a idéia e a vontade de escrevê-lo?
Padre Rioult: Meu primeiro livro, De la Question Juive: Synthèse (2018), trata da impostura judaica através de “dois mil anos de história caótica que resultaram ʽno século judaicoʼ” para a desgraça e o castigo de um mundo ímpio, auto-idolátrico e adorador de Mamon.

O segundo livro sobre a questão judaica publicado pelas Éditions Saint Agobard foi escrito por Juda le Prince: Talmud, Voyage au Bout de la Nuit (2020). O Talmude, que foi “o molde da alma judaica, o criador da raça”, repleto de “fábulas vergonhosas” e “de puerilidades ridículas”, exaltando o orgulho e o ódio, realizou um trabalho formidável de subversão ao desnaturar o judaísmo mosaico. Pois a lei mosaica conduzia ao Cristo, enquanto a lei talmúdica é anticrística. Com o Talmude, o judaísmo tornou-se, portanto, um termo equívoco que recobre duas realidades opostas e contraditórias: um judaísmo provisório, hoje desaparecido por ter sido derrogado, que preparava a missão de Cristo, e um judaísmo deicida e impostor que trabalha para destruir a obra de Cristo.
Estes dois livros trataram, portanto, do judaísmo pós-crístico (talmúdico). Faltava um livro que tratasse apenas do judaísmo pré-crístico (mosaico). Convinha, portanto, responder a numerosos erros sobre a antiga Aliança, colmatando a grande ignorância que reina a esse respeito. Assim, a fim de encerrar a questão judaica, um terceiro livro era necessário para mostrar não apenas a inferioridade do judaísmo mosaico, mas também a sua harmonia com a Nova Aliança. Daí o meu tratado: La Clef des Écritures (2022). Pois o mosaísmo bem compreendido, e não a sua traição talmúdica, fôra tão-somente uma preparação para o cristianismo. Os Padres demonstraram contra os heréticos a divindade da lei mosaica, e contra os judeus a sua ab-rogação ou o seu cumprimento. Onde os heréticos imaginam uma antítese, há perfeita harmonia; e onde os judeus sonham com um messias por vir, ou melhor, com a sua caricatura tribal, há a obra universal e espiritual de Cristo, já realizada conforme anunciada pelas profecias.
Livernette: Por que ter escolhido este formato interior com duas colunas por página?
Padre Rioult: Por diversas razões práticas: facilitar a leitura dos parágrafos, evitar um volume demasiado espesso de modo a reduzir os custos de envio e permitir uma grande capa que possibilite uma síntese visual da mensagem principal do livro.
Livernette: A quem se destinam prioritariamente os seus escritos? Aos heréticos que o senhor rebate nos primeiros capítulos? A todos os católicos e discípulos de Cristo?
Padre Rioult: A todos. Para a confusão de uns e a instrução de outros. São Paulo escreve: “Somos para Deus o bom odor de Cristo entre os que se salvam e entre os que se perdem: para uns, um odor de morte, que conduz à morte; para os outros, um odor de vida, que conduz à vida” (II Cor 2,15–16).
Livernette: Em quais teólogos e Padres da Igreja o senhor se apoiou para desenvolver sua argumentação?
Padre Rioult: Apoiamo-nos mais particularmente nos seguintes Padres: Tertuliano, Orígenes, Santo Irineu, Santo Hilário e Santo Agostinho. Não podendo citar todos os Padres, todos testemunhas da doutrina apostólica, escolhemos estes Padres em razão do seu gênio particular: Tertuliano, teólogo latino de Cartago do século II; Orígenes, padre grego de Alexandria do século III; Santo Irineu, bispo de Lyon em 177; Santo Hilário, bispo de Poitiers por volta de 350, e Santo Agostinho, bispo de Hipona no século IV. Estes três últimos Padres são também doutores da Igreja. Notemos que “na época de Tertuliano, de Santo Irineu e de Santo Justino, estava-se separado dos apóstolos apenas por um pequeno número de anos: São Justino pôde ter nascido enquanto ainda vivia São João Evangelista; Santo Ireneu viveu com Policarpo e Papias, discípulos de São João; e Tertuliano é contemporâneo de Santo Irineu”. A concordância deles na interpretação de tal passagem da Escritura permite afirmar que tal era a exegese tradicional da Igreja.
Padre Olivier Rioult, La Clef des Écritures – Traité: https://www.youtube.com/watch?v=LGrSZy2Yc-Y
Livernette: Orígenes fala de “rejeitar totalmente a letra que mata e procurar o espírito que vivifica”. O senhor acrescenta que “Deus não quer a letra sem o espírito”. Não é essa uma noção fundamental de seu estudo?
Padre Rioult: De fato, para compreender as Sagradas Escrituras, é necessário superar a inteligência da letra e apreender o espírito. “A Sagrada Escritura”, diz São Gregório Magno, “pela maneira mesma com que se expressa, supera todas as ciências; pois, num único e mesmo discurso, ao mesmo tempo que relata um fato, entrega um mistério”.
Livernette: “A lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade são obra de Jesus Cristo” (João 1,17). É esse o versículo do Evangelho que melhor reflete a temática de sua obra?
Padre Rioult: Trata-se de uma sentença que lança uma grande luz sobre a hierarquia que existe entre a antiga e a nova Aliança. Mas outras sentenças manifestam melhor o mistério das Escrituras ao indicarem que os livros antigos da lei e dos profetas anunciavam o Cristo em figura: “Todas estas coisas aconteciam aos judeus em figuras” (I Cor 10,10), ou ainda: “Todas estas coisas eram outras tantas figuras para nós” (Gl 4,24).
Livernette: A rejeição do Antigo Testamento e sua interpretação ao pé da letra não estão na origem de diversas heresias e falsas religiões?
Padre Rioult: Na Antiguidade, hereges como Marcião, Celso, Manes, Fausto… estão na origem de diversas correntes desviantes. Celso era apenas um pagão negador e racionalista. Os outros eram falsos cristãos que deram origem ao marcionismo e ao maniqueísmo. Do lado judeu, a leitura farisaica foi codificada pelos talmudistas e assumida hoje de maneira mítica pelos sionistas.
Livernette: Segundo o senhor, a exegese da Escritura é tão importante quanto a própria Escritura?
Padre Rioult: Sem a chave das Escrituras, isto é, sem a exegese das Escrituras dada pelo Cristo e pelos Apóstolos, o homem se assemelha a uma criança diante de um texto composto de letras de uma escrita que lhe é desconhecida. Fica desde logo incapaz de decompô-la e de compreender o sentido do texto. As antigas Escrituras são, portanto, em parte inacessíveis aos meros mortais enquanto estes não tiverem a fé em Cristo, pois foram escritas por Ele e para Ele a fim de serem um testemunho de sua missão ao longo do tempo.
Livernette: O senhor tem projetos de escrita para os próximos anos?
Padre Rioult: Sim. Nomeadamente sobre as origens do fanatismo da heresia protestante, sobre o mistério da graça e da predestinação, sobre o farisaísmo, e também uma antologia dos textos do magistério da Igreja, a fim de mostrar que aquilo a que se chama vulgarmente e impropriamente antissemitismo não é de modo algum um pecado, mas, muito pelo contrário, uma reação sã e vital de legítima defesa praticada pela Igreja durante quase quinze séculos.
Declarações recolhidas por Johan Livernette em 19 de junho de 2022
