O REI SÃO LUÍS E OS JUDEUS
Lúcio Guimarães, 23 de agosto de 2026

Ainda existe no Brasil uma forte influência do tradicionalismo francês pós-conciliar e, além da recente tradução do louvável livro do Padre Olivier Rioult sobre Joana d’Arc, feita pela Flos Carmeli, o livro do Prof. Lucas Lancaster, São Luís: O Rei da Coroa de Espinhos, é uma obra que tenta, à sua maneira neoconservadora e afrancesada, restaurar algum tipo de consciência católica no campo político.
Para nossa surpresa, porém, cremos que, talvez pela primeira vez, alguém do círculo conservador paulista tenha mencionado a relação do Rei São Luís com os judeus da maneira que o fez o Prof. Lancaster. Dizemos que nos surpreende porque o simples mencionar desses episódios já causa um gravíssimo desconforto aos membros da TFP, aos homens em geral do século XXI e às comunidades Ecclesia Dei tupiniquins, visto que a constatação da descontinuidade entre um santo como São Luís e o modernismo do Concílio Vaticano II pode gerar problemas nessas comunidades.
Por isso nos surpreendemos positivamente ao ver no livro do Prof. Lancaster os seguintes relatos históricos que normalmente são ocultados (especialmente na TFP):
“Rezava diariamente cinquenta Ave-Marias em honra da Virgem, ajoelhando-se após o término de cada uma delas, e recitava todos os dias seu Ofício. Colocou seu reino sob a proteção de Maria, combatia e castigava quaisquer ofensas ao seu nome e à sua honra, impondo, como se verá no capítulo 8, punições duríssimas aos que blasfemassem contra a Mãe de Deus, e mandando queimar Talmudes judaicos por conterem passagens blasfemas sobre ela. A este respeito registrou Joinville: ‘O rei amava tanto a Deus e sua doce Mãe que mandava punir gravemente todos aqueles que falavam coisas indecentes ou proferiam pragas vergonhosas contra Deus ou sua Mãe’. E o santo rei aconselhou seu filho e herdeiro, futuro Filipe III, a reprimir ‘tudo aquilo que se diga contra Deus ou Nossa Senhora’ e a pedir a Deus que o guardasse ‘por sua grande misericórdia e pelas orações e méritos de sua bem-aventurada Mãe, a Virgem Maria’.” (Lancaster, 2025, p. 369).
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“O pontífice do início de seu reinado foi o grande Papa Gregório IX (pp. 1227–1241). À exceção de duas questões, a atitude do jovem rei para com ele foi de estrita colaboração: assumiu com rigor a defesa da fé católica contra a heresia albigense, recebendo na França, como se verá, o Santo Ofício, instituído por aquele pontífice, e interditando, a pedido de Gregório IX, os Talmudes judaicos no reino.” (Lancaster, 2025, p. 539).
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“Guilherme de Chartres, capelão de São Luís, é muito enfático a respeito do seu sentimento para com os judeus: ‘Ele abominava os judeus, odiosos aos homens e a Deus’. Explica O’Connell que, para São Luís, o judeu era tanto um tipo de herege, que se recusa a aceitar a verdade, quanto um usurário, que não se sustenta com o trabalho de suas mãos. Certa vez, após narrar um debate ocorrido entre cristãos e judeus em Cluny, São Luís disse: ‘Ninguém deve discutir com os judeus, a menos que seja muito sábio: quanto aos leigos, se os ouvirem maldizer a lei cristã, não a devem defender senão enterrando-lhes a espada nas entranhas até onde puder ser penetrada’.” (Lancaster, 2025, p. 560).
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“Uma das mais notáveis políticas de São Luís contra o judaísmo diz respeito ao Talmude. Em 1239, o Papa Gregório IX tomara conhecimento, através de um judeu convertido à fé cristã, que o Talmude continha ataques e blasfêmias contra Cristo e a Virgem, razão pela qual ordenou que todos os reis da Cristandade embargassem, em seus respectivos reinos, os exemplares deste livro. Na França, após uma grande disputatio ao estilo universitário a respeito do Talmude entre mestres cristãos e rabinos, na presença do rei e dos teólogos parisienses, São Luís ordenou, em 24 de junho de 1240, que todos os Talmudes fossem buscados e queimados. Após dois anos confiscando os exemplares, em junho de 1242, vinte charretes carregadas de manuscritos foram trazidas, e os textos queimados em praça pública, em Paris, naquele que Cassard chama de ‘o primeiro auto de fé da história’. Após nova ordem do papa, desta vez Inocêncio IV, em 1244, outra fogueira foi acessa para os Talmudes em Paris e, na Ordenação de 1254, o rei renovou o apelo à destruição daquele livro.
“Mais enérgicas foram suas medidas no combate à usura, prática intrinsecamente ligada aos judeus (pois vedada aos cristãos) e através da qual eles conseguiam jogar multidões na penúria e enriquecer com uma facilidade assombrosa. A luta contra a usura na França começara no tempo do avô de São Luís, Filipe Augusto, e foi continuada por seu pai, Luís VIII, ambos reis muito severos para com os judeus. Durante a menoridade, Branca de Castela deu continuidade à política do sogro e do marido, editando duas ordenações reprimindo a usura, em 1230 e em 1234, política prosseguida por seu filho quando assumiu o poder de facto.” (Lancaster, 2025, p. 560–561).
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“Têm-se dito que São Luís foi ‘o rei da Coroa de Espinhos’, semelhante a um outro rei, que se apresenta como ‘manso e humilde de coração’ (Mt 11,29), declara ‘bem-aventurados os mansos’ (Mt 5,2) mas, quando necessário, faz um chicote de cordas, derruba mesas e expulsa homens maus aos berros e insultos (Jo 2,15–16). Deste rei também diremos que não cumpre os preceitos evangélicos?” (Lancaster, 2025, p. 564).
E este rei, São Luís, seguindo os passos de Cristo Rei, mereceu a glória da canonização, como nos confirma a bula Gloria Laus. Que insólito é vermos que muitos católicos se escandalizam com a santidade de São Luís IX e, invocando o Concílio Vaticano II contra o monarca francês, acusam-no de impiedade!
Apesar de nossa discordância teológica com o Prof. Lancaster, parece-nos que um primeiro passo dado por ele, independentemente do tamanho desse passo, abrirá o início de uma pequena trilha onde se poderá caminhar mais livremente em matéria histórica daqui em diante, porque os inimigos da Igreja odeiam de tal modo aquela época em que os Estados eram católicos, que a mera menção da união entre a Igreja e o Estado os enfurece, embora estes tenham que lidar doravante com o problema histórico de São Luís; e nisso o Prof. Lancaster tem mérito.
