REASSUNÇÃO DO PRINCÍPIO HIPERBÓREO
Carlos Alberto Disandro (†1994)
Fonte: Ciudad de los Césares, nº 23, p. 11–15. Santiago, Chile, março-abril de 1992.
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: O autor diagnostica que a América Românica padece de um vazio ontológico decorrente do reducionismo moderno e do isolamento em relação às fontes clássicas originárias. Para superar esse estado e enfrentar a degradação espiritual e as forças ctônicas, Disandro propõe a rinascita do principial mediante a restauração do princípio hiperbóreo e teândrico. Essa renovação fundamenta-se na assimilação viva da língua e da metafísica gregas, que perpassam desde a intuição arcaica de Homero e Píndaro até a mística patrística de São João Damasceno. A via regeneradora articula-se na tríade lírica do poder do canto, da ação heróica e da contemplação monástica comunitária. Dessa forma, erige-se uma paideia sacra capaz de restituir à América seu pleno destino espiritual.
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1
Debate-se, pela proximidade do quinto centenário da América, um campo histórico confundido, seja pelo reducionismo de um pretérito cancelado, embora reassumido como fonte indígena pré-hispânica; seja pelo reducionismo de uma cristandade já obsoleta por causas mais complexas e difíceis de resumir neste breve ensaio.[1]
Delimitar campos precisamente nebulosos por uma confusão inextricável, pela imperícia e pela insipiência americanas, arrastadas por correntes contraditórias, não é tarefa fácil, certamente. De qualquer maneira, o caminho da América é outro em relação ao da Europa pós-moderna (1950–1990), ou àquela que insinua, nesse período, uma suposta pós-modernidade libertadora e galáctica, planetária, mundialista e ecumênica, para além de toda fonte e de toda raiz, atenta somente aos signos de um poder; este manipula, nega e/ou concede, como a única arkhé, que, sem esgotar o tempo, projeta-o numa multívoca concentração de força e destino. Mas essa seria outra questão, embora implícita nos substratos da real ou suposta pós-modernidade.
De qualquer modo, a Europa que a precede, dos séculos XV–XX, nascida do humanismo erasmiano e cardinalício (Cisneros) e de Roma, e a Europa Oriental, em todo caso afetada por Bizâncio, parecem naturalmente inseridas na Tradição Clássica; enquanto a extrema modernidade e a pós-modernidade, por sua vez, dão por canceladas e caducadas as instâncias outrora orientadoras daquela Tradição.
Assim, pois, para a Europa Ocidental românico-germânica, é necessário, como dizia Uvo Hölscher, reconhecer uma “chance” de regeneração clássica, com todo o peso da Filologia desde o século XVII; para a Europa Oriental bizantino-eslava, é necessário reler Fiódor Dostoiévski, Vladimir Soloviov, Sergei Bulgákov, etc., para citar nomes indicativos, mas que reassumem um saber diferente (para além da filologia erasmiana), bebido na experiência da espiritualidade patrística greco-bizantino-russa. Outros parâmetros, portanto, outra semântica, outra habitação do mundo do espírito no âmbito da cultura e da paideia filosófico-teológica.
Mas para a América, sobretudo a América Românica, o quê? Esclareço que esta denominação pretende encerrar uma disputa nominalista, verdadeiro labirinto de interpretações que aqui não discuto, transformada, entretanto, num pélago de fantasmagorias inúteis. A presença da Antiguidade é decisiva na lírica contemporânea (1900–1950), mas não apenas por estímulo da filologia reconstrutiva da cultura antiga, e sim sobretudo por uma experiência que entra em contato com as raízes do mundo hiperbóreo. Aquilo que Rilke chamou de das Offene (o Aberto).
2
Segundo este breve prólogo, interponho minha tese do “rinascita do principial”. Uso um vocabulário italiano, que propõe uma semântica complexa: Rinascimento-rinascita. Convenhamos em permanecer dentro de tais parâmetros.
Por outro lado, a crise da Filologia Latina na Europa, e a crise da Filologia Grega, menos ostensiva, nada têm a ver com nossa situação desértica, infecunda, inviável, pré-quaternária e em dimensões cosmogônicas, quando ainda não adveio — digo — “o reino das Musas”, para falar em linguagem simbólica. Em suma, pretender um rinascimento na América Românica, fazendo do século XXI um século XV, é um disparate, uma rota inviável.
Ao primeiro giro que desobstrui os limites inescusáveis segue-se um segundo giro: o latim na América e a crise da Igreja Romana, questão que não se coloca do mesmo modo para a Europa Ocidental e muito menos, pelo que acontece nesta década, para a Europa Oriental. Pois a história do latim na América é absolutamente incompatível com uma arkhé, sobretudo entre os “latinistas”, frequentemente paralisados pela Górgona na concepção escolástica. De maneira mais clara, arrastamos uma sobrecarga funesta, por causa da ratio studiorum, que esterilizou a América hispânica em muitos sentidos incompatíveis com a vida do espírito.[2]
Tudo isso é certamente uma demarcação provisória para minha concepção de “rinascita do principial”, antes de sermos submergidos nas convulsões que se preparam, inevitavelmente adscritas a novas utopias, mas que de qualquer modo comportam a “revolução semântica totalitária”.
O que é, pois, a “rinascita do principial”?
3
Explico primeiro, como sempre, a semântica da frase, a suppositio analítica e composta. Rinascita, em seu sentido forte românico-itálico, diverso de rinascimento, rinascimentale. Principial (neologismo castiço); não confundir, naturalmente, com “principal”. Lamentavelmente, o castelhano tende a misturar e igualar, sobretudo no castelhano falado na América, os dois epítetos, que nascem, é verdade, da mesma raiz latina, mas não significam a mesma coisa. Principial é a essência do Principium, considerado metafisicamente. Principal torna a converter em cabeça da série histórica aquela essência semântica absoluta, ou então destaca como epíteto uma identidade sobressalente da série. Finalmente, torna-se quase um expletivo de comodidade descritiva: reforça uma frase ou um giro nominal complexo. Insisto: principial recupera, como epíteto, a onticidade absoluta, imutável, articulada também na manifestação. Principal resulta num giro congruente em uma referência semântica maior.
A “rinascita do principial” é, pois, dimensão do principium, que é “vida e luz”, deidade inconcussa e plena. É preciso, então, reler o Prólogo de nosso mestre São João Evangelista, verdadeiro tractatus teológico acerca da arkhé. A “rinascita do principial” é, portanto, ôntico-teândrica, segundo o meu vocabulário teológico, cuja história se desenvolve na patrística grega com bastante clareza designativa e semântica. A América não comportou nem comporta tal “enxerto” hiperbóreo, assim como não o comportava o sul da Itália antes de Pitágoras, Xenófanes, Parmênides ou outros; ou, de forma mais geral, antes da presença espiritual e linguística do noein dórico-jônico, isto é, seguramente antes do século VIII a.C. Esse noein resulta conatural à estirpe e à língua indo-européias e encontra-se excluído da estirpe mediterrânea anteriormente ao ano 2000 a.C. O conflito entre o “princípio” hiperbóreo e seu noein conatural e divino, ou melhor, teândrico, remonta, portanto, às origens da cultura profunda e à consciência de uma cisão com “as forças aquerônticas”, tão ostensivas, por exemplo, na história dos cartagineses e púnicos ou tírios, suas tensões obscuras, semelhantes às que encontraremos na América pré-colombiana.
A “rinascita do principial” tem duas vertentes: 1) a emersão do principium; este é objetivo, ôntico, mas não necessariamente histórico; 2) a inteligibilidade do principium; e esta é a nossa vertente, a da humanitas que se faz principial pelo noein, o enxerto hiperbóreo que regenera, em um espaço e em um dialeto, a virtude desveladora da arkhé. Daí as origens de toda língua poética, que, no espaço indo-europeu, é sempre hiperbórea. Por isso aludo ao “nosso lado”, quoad Americam, segundo um giro epocal que poderia ser agora apocatastático e regenerativo em relação ao noein mentado e entrevisto, enquanto noein absoluto.
Esclareço, contudo, para não confundir a verdadeira perspectiva semântica, que o principium a que me refiro não é precisamente uma espécie de arkhé pré-socrática, pré-parmenídica, ou mesmo pré-anaxagórica, como se a América fizesse a descoberta de Sócrates quando desvendou o peri physeos de Anaxágoras. Tampouco é o einai parmenídico, tomista ou heideggeriano, por onde caminham outros peregrinos do noein irrestrito. Aqui devemos interpor e reinterpretar a doutrina de Dionísio Areopagita: ela é, na teologia, a expressão do principium hiperbóreo, como o foi em Parmênides, Empédocles e Anaxágoras. É Dionísio quem forja a semântica da theandriké enérgeia, com a qual nós agora definimos de modo absoluto a essência hiperbórea e sua radicação na existência hiperbórea, mítica, lírica, cultual, teológica, heróica, festiva, celebrante e operativa nos signos promotores, Gestalt proto-histórica de todos os gestos históricos. Nada de evolutivo comporta essa visão. Ao contrário, ela enfrenta a curva involutiva, na busca de uma regeneratio. Pois devemos reatualizar uma asserção sem fronteiras de divisões dialéticas, a saber: a theandriké enérgeia do Areopagita é realíssima na deidade Trinitária e no Kosmos, incluída a Terra, onde nos movemos, vivemos e somos. Trata-se, pois, deste principium ou arkhé, o qual investiu quinze séculos de pensamento trinitário cristão greco-romano-germânico, com consequências históricas, espirituais, culturais, linguísticas, semânticas e estéticas, cujas ondas tardias chegam à América, num ricorso já extinto. Esse ricorso apagado, por sua vez, extinguiu-se no século XVII, ou talvez antes. É indiferente precisar um limite nítido, pois, de qualquer modo, nós padecemos da extinção, da carência ou do vazio. É uma América de cinco séculos depopulata do princípio hiperbóreo. O princípio teândrico retraiu-se objetivamente, realiter; e os remanescentes, secos pelo desmembramento consequente, cairão. Mas também anima aquilo que chamo de regeneratio ou rinascita, a partir da vertente entitativa, não apenas da vertente do noein historificado ou patente no tempo. A primeira é enérgeia independente e livre, raiz de cada éon, com seus incognoscíveis desdobramentos. A segunda é enérgeia do pensar, como dimensão absoluta, transformada em caminho regenerativo, enxerto apocatastático, experiência comunicativa do ente.
Ora, o kairós aqui denotado representa uma conjuntura de desvelamento reinserido pela manifestação do principium — como se fosse outro éon, próprio da América — e pela reassunção do manifestante em um noein (pensar) histórico, que deve dispor-se, preparar-se, abrigar-se para a América — refúgio, para a América —, maturidade de outra via cosmogônica, intentando erigir precisamente a América teândrica. Ela esperaria, na manifestação do pensar, a “rinascita do principial”, aqui aduzida como termo do hodós e travessia do pórtico (segundo a imagem eleática).
É como um itinerário místico: a via catártica, a via iluminativa e a via consumativa e unitiva. Estamos, quoad Americam discernitur (no que se pode vislumbrar para a América), na possibilidade da primeira. Caveant Helladis filii, ne quid detrimenti res publica philologica americana capiat (“Que os filhos da Hélade cuidem para que a comunidade da filologia americana não sofra nenhum dano”).[3] Tal seria a divisa para transcorrer da primeira à segunda e produzir certo desvelamento do ato de “pensar”, sem reducionismo. Ao contrário, a via catártica implica a Aufbau (construção) de uma nova filologia no noein: aduzo-a, pois, apesar de tudo, como vertente subsistente na condição precária do desmembramento e no retraimento do Principium. Filologia é aqui, no contexto de minha meditação, a reassunção originária semântica que faz da lectio rerum litterarumque (leitura das coisas e dos textos) uma experiência lírica hiperbórea, como foi a de Píndaro em seu momento, a de Virgílio no seu, a de Petrarca, Darío, Rilke, em cada perfil linguístico e em cada ostensão da anima mundi. Aquilo que Rilke chama das Offene, Píndaro chama to thaumastón. Pelo “aberto” e pelo “maravilhoso” resplandecem precisamente os hiperbóreos para os homens “áureos”, subsistentes em meio às idades decaídas como a que atravessamos. Até que ponto a América ignorou o fulgor hiperbóreo seria difícil precisar. Talvez lute para desocultar-se na emersão da “utopia”. Mas não está claro se a “utopia” não é, na realidade, uma regressão cosmogônica e, portanto, aquém de todas as idades hesiódicas ou misturada com o sangue impuro de sacrifícios mágicos. Pois os hiperbóreos são divinos, mas não mágicos. A diferença comporta, sem dúvida, uma distinção importante entre a Europa hiperbórea e a América atlântida. Este seria outro tema digno de ser revisto com maior cautela. A Europa é mítico-teândrica. A América é utópico-atlântida, isto é, sede de um obscuro poder aquerôntico, vigente também hoje por misteriosos trâmites geo-históricos.
Eis, pois, nossa situação ambivalente, ou, como se diz agora, “de alternativa” (diante da Europa, Ocidental e Oriental). Eis aqui um destino possível, que forja o “princípio” de uma vontade heróica e coloca a América num âmbito mítico incoativo, mas regenerativamente “principial”.
4
Tudo isso, contudo, implica a ascese no grego, no grego helenístico, no grego patrístico. Quando digo “grego”, não me refiro à exangue existência que às vezes nós, “professores” de grego, lhe damos, com a morfossintaxe reducionista, sinóptica, mas à sua vida real, linguístico-histórico-textual, cultural, mística, teológica — em uma palavra, teândrica. Pois o grego é per se uma proferição teândrica, uma enérgeia ou sopro que investe a divino-humanidade, não o logos separado — atenção —, tal como o concebeu a filologia positivista de século e meio. Não. O princípio teândrico inserido visceralmente na linguagem histórica, isso é o “grego”, a theandriké enérgeia de que fala Dionísio Areopagita e que a teologia de São João Damasceno desenvolve segundo uma elaboração sistemática de substratos agapísticos, cultuais, litúrgicos e místicos.
Mas há um só grego, do qual estou falando: de Homero a Simeão, o Novo Teólogo, para estabelecer marcos contrastantes. Dionísio, Simeão e muitos outros estão em Homero, e Homero regenera-se neles. São marcos, como digo: podemos escolher outros meramente indicativos ou recapitulatórios, vislumbrar homens e obras, tempestades e remansos, habitações e desocultamentos complexos. Esse itinerário concreto jamais afetou a América, nem a América percorreu, de modo algum, tais penetrais ou tais obumbrações e claridades semânticas, de cujas raízes poderia advir-lhe ein stärkeres Dasein.[4] É disso que se trata, em definitivo. Dito agora em termos ônticos, o princípio teândrico jamais habitou nela. E a Ekklesía? Este é um tema que devo desmembrar, para consagrar-lhe um breve Excursus neste Tractatus, ou, se se quiser, para redigir um Tractatum americanum ad usum argentinorum.
Por isso, chamemos Homero em lugar de Inácio de Loyola (1491–1991); Parmênides em lugar de Descartes (c’est la même chose qu’Ignace,[5] seja dito isto no quinto centenário da América e no quinto centenário do nascimento do moderníssimo Inácio);[6] Píndaro em lugar de Neruda e Octavio Paz; Plotino em lugar de Marx; Sólon em lugar de Lenin. Uma geração americana criada e renascida no noein pela livre dispensação do grego fará cair a crosta que ainda subsiste e que, como ressecamentos de uma ferida profunda e de um sangue impuro, incuba outras catástrofes terríveis.
O princípio teândrico operará per se, se nós ouvirmos: parate vias Domini, parate vias Spiritus Paracliti et Deihominis; parate per graecam linguam aut semanticam, intelligibilitatem perfectam, id est, Musarum hymnein.[7] Pois é o retorno cosmogônico-histórico à arkhé, ao logos teândrico, à hymnein(celebração) pindárica dos hiperbóreos na vastidão americana.
A América será curada e frutificará na santidade, na mística, no noein e no legein; a res publica regenerará a justiça, e haverá homens, pois estaremos, enfim, no quaternário ou no quinquenário. A grande instauratio pedagógica que entrevejo é possível somente com o grego, o grego cujo phylum biogenético realiza aquilo que diz nosso mestre São João, benedictus sit! A comunicação da semântica grega alimenta “o pensar”, regenera-o em suas raízes parmenídicas e pindáricas, incorpora-o como tensão criadora e heróica para um “dizer” originário, que faça recuar a fantasmagoria do barro genésico e os poderes aquerônticos que o manejam para a emulsão do homem nesse barro pré-noético.
5
Restaria a ressonância hiperbórea, que coloco no último epíteto da frase designativa: “de regenerante princípio hiperbóreo”, na qual emprego com inteira intenção sintática e metafísica o particípio presente.[8] Trata-se de uma manifestação criadora da arkhé, a qual historicamente é hiperbórea. O Principium ou a Arkhé, mencionados no selo significante da minha expressão, convêm ao caráter ôntico includente; o particípio presente latino evoca num único termo a “rinascita do principial” no sentido teândrico ou histórico-mítico. Ora, essas condições, por assim dizer, absolutas, mas concebidas como fundamento biogenético, no sentido joanino do insigne Prólogo, apresentam, pois, ao contexto de nosso saber e de nosso agir histórico, um viés mítico e mítico-histórico, que convém à própria expressão do Princípio teândrico. É essa ressonância hiperbórea a chave para a “alternativa” que proponho quoad Americam (isto é, quanto ao destino pós-moderno da América Românica e à sua nova incidência sobre a América anglófona).
A ressonância hiperbórea que aduzo comporta recuperar e renovar a via pindárica. Três são os seus constitutivos: o poder do canto, a existência do Herói e a convivência da festa teândrica. Esses três constitutivos foram sempre negados à América, ou ao menos ela não os compartilhou de modo regenerativo e apocatastático.
Quanto ao canto, ele se encontra reassumido em todos os poetas americanos de diversa densidade e significação, mas vigentes segundo o espírito da língua: no Norte, anglo-germânico e francófono; e no Sul, dentro da expressão românica, de incalculáveis consequências.
A existência do herói, não assumida ainda na promoção hiperbórea, acontece, contudo, na guerra da emancipação americana, ainda aberta pelos acontecimentos hodiernos, vigentes como regeneração fortuita de heróis imprevistos.
Por fim, a convivência da festa teândrica somente se tornará operativa e cognitiva ao mesmo tempo se se instaurar a contemplação no monacato americano. Este poderá vencer o deserto, a Tebaida inóspita e hostil, e regenerar, na contemplação, a arte da Aufbau (construção), como signo e diligência das mãos operosas e articulantes; a vida do coro, como instauração da diakósmesis purificativa; enfim, a lectio dos antigos e dos modernos como retorno, pelo caminho da meditatio, ao impulso lírico da anima mundi e ao pneuma que se faz letra, símbolo, imagem e desvelamento sistemático do ente.
Os três constitutivos ou existiram incoativamente na América, ou foram negados e retraídos pela subcultura reducionista da ratio infecunda e pelo poder aquerôntico, transformados em âmbitos devoradores ou petrificadores, obstáculo insuperável, por vezes, para o caminho hiperbóreo.
6
O itinerário humanístico grego que proponho não é um reducionismo de filólogo, gramático ou hermeneuta, confiado à mera cultura do livro, embora esta, evidentemente, não seja negada. É a possibilidade de integrar a América no mito heráclico,[9] nas raízes teândricas de São João Evangelista, na festa cultual hiperbórea, vigente segundo o substrato de tais instâncias. Simultaneamente, desmembramos a América, com relutância heráclica, no que diz respeito à ameaçadora corrupção híbrida do judeo-cristianismo pós-moderno; do reducionismo teológico jesuíta, expressão hodierna do arianismo;[10] do indigenismo marxista ou paramarxista, que tenta um caminho falso mediante a reassunção fantasmagórica da terra pela razão leninista.
O itinerário pelo grego, de Homero a Simeão, o Novo Teólogo, isto é, por dois milênios de língua e cultura gregas, facilita-nos o caminho do noein irrestrito e prepara-nos para a “rinascita do principial”, no sentido ôntico que propus.
A conjunção da América e do grego é a grande fundação da História Universal, quando parecem esgotados ciclos, instâncias, promoções e coroações semânticas; quando se exibem triunfantes as forças aquerônticas na ratio telúrica, videocrática e computadorizada; quando os bilhões de americanos entre os dois pólos se abrem ao abismo dei neri cherubini,[11] condutores da morte, da infracultura itifálica, da fome, do genocídio e do desespero incendiário.
A índole hiperbórea, mencionada como dado regenerativo nesta meditação, não é, portanto, um aditamento erudito, sem ancoragem na realidade profunda, encoberta por sobrecargas históricas inevitáveis, mas também por desvios conscientes, inscritos numa grande apostasia da Luz, contra o princípio hiperbóreo — apostasia concentrada na dilapidação cosmogônica da América, como se uma energia emergente do hekatonkheiros Briareos (o gigante monstruoso de cem braços),[12] como dizem os antigos poetas gregos, tentasse submeter o sistema planetário solar pela falência absoluta, musical e hínica, de uma América prisioneira no contraprincípio da dissolução, da obscuridade, da insetificação; energia manejada com perícia e soberba por esses mesmos poderes tifônicos (descritos por Hesíodo e Píndaro, entre outros).[13] A América hiperbórea, solar, do pensamento e do canto na festa hiperbórea é, pois, a grande novidade cosmogônico-histórica, linguística, estética e religiosa. É, no entanto, o horizonte de uma façanha heráclica, cuja ressonância poderia emergir da terceira guerra mundial que se aproxima. Ela concita contra a theandriké enérgeia de Dionísio, a contrahumanitas, vislumbrada com clareza visionária em espíritos como Virgílio, Dante, Dostoiévski, Merejkovski, Melville, etc. Define também o empenho humanístico delinear aquelas investidas da contraluz, da contramúsica, enfim, da contracultura que, sob o pretexto de dominar a terra vivente, difunde e consolida a morte, a corrupção e a deformidade espiritual entre os homens. De qualquer maneira, o princípio hiperbóreo, por natureza, vive incólume na incólume “idade de ouro” daquela festa que, segundo Píndaro, conviveu com Perseu. O “caminho maravilhoso” está aberto, mas oculto. Somente “heróis” poderiam reencontrá-lo e percorrê-lo. O humanismo de uma paideia grega para a América — de uma paideia hiperbórea, naturalmente — é a mais profunda e densa operatio aesthetica para uma estirpe americana que afirme, de uma vez por todas, o rumo de uma raça ideal americana, como último decoro de um homem inspirado e criador.
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Alta Gracia, 2 de fevereiro de 1991, isto é, na festa da Luz, multiplicante e multiplicada.
É preciso transitar, como diz a antiga Liturgia Romana, hujus saeculi caliginosa discrimina (“as tenebrosas confusões deste éon”).
[1] Esta é a resenha do primeiro capítulo de um ensaio mais amplo que leva por título em latim Brevis Tractatus de Regenerante Principio Hyperbóreo quoad Americam, ou seja, “Breve Tratado sobre a Regeneração do Princípio Hiperbóreo no que diz respeito à América”. Constará de três (3) capítulos: o 1º, aqui resenhado e resumido para esta nota da revista Ciudad de los Césares (Santiago do Chile); o 2º, “O mito grego dos hiperbóreos: a escala ôntica de Belerofonte, Perseu e Héracles”; o 3º, “A América, reino dos hiperbóreos, ou reino tifônico e aquerôntico”. Seu título latino obedece a uma precisão semântica quanto aos fundamentos teológicos e filosóficos e à circunstância de ter iniciado e concluído parte de sua redação precisamente em latim. Mas, em definitivo, pareceu-me mais simples utilizar a língua românica da América.
[2] O modelo pedagógico jesuítico tradicional, a ratio studiorum, segundo Disandro, engessou a cultura hispano-americana em um formalismo estéril. Ao petrificar o latim como mera língua eclesiástica/instrumental, em vez de via de revelação da arkhé, a escolástica agiu como a Górgona, petrificando a vida do espírito. (N.T.)
[3] Disandro parafraseia a célebre fórmula de emergência do Senado romano: Caveant consules ne quid detrimenti res publica capiat (“Cuidem os cônsules para que a república não sofra nenhum dano”). (N.T.)
[4] Algo como “um existir mais forte” ou “uma presença mais densa”, expressão alemã com ressonâncias rilkeanas e heideggerianas (Dasein = “ser-aí”, “presença”). Disandro aponta que à América falta essa densidade ontológica e espiritual profunda por nunca ter participado da gênese teândrica. (N.T.)
[5] O pai do racionalismo moderno, René Descartes, ele próprio educado pelos jesuítas em La Flèche, é visto por Disandro como herdeiro direto do método voluntarista inaciano. Ambos personificam a ruptura com o logos parmenídico. (N.T.)
[6] De qualquer modo, Santo Inácio é importantíssimo para compreender a modernidade e a pós-modernidade, quiçá mais importante do que o próprio Lutero. É a melhor homenagem que posso render-lhe no quinto centenário do seu nascimento, e o melhor chamado para compreender a fundo o seu perfil e a sua obra histórico-religiosa e teológica de quatro séculos e meio.
[7] “Preparai os caminhos do Senhor, preparai os caminhos do Espírito Paráclito e do Deus-Homem; preparai pela língua grega e por sua semântica a inteligibilidade perfeita, isto é, a ‘celebração’ das Musas”. Paráfrase profética e litúrgica de Isaías 40,3 e dos Evangelhos. Disandro acrescenta a exigência filológica: preparar esse advento através da língua e semântica grega. (N.T.)
[8] Disandro enfatiza o aspecto gramatical ativo e contínuo do termo latino. Não se trata de uma regeneração consumada no passado nem de uma promessa estática, mas de uma ação viva, contínua e atuante no presente. (N.T.)
[9] Referência aos Doze Trabalhos de Héracles (Hércules), símbolo do herói solar indo-europeu que limpa os estábulos, doma feras ctônicas e enfrenta monstros telúricos. A via heráclica representa o esforço ativo e heróico de purificação cultural e espiritual. (N.T.)
[10] Disandro acusa a teologia voluntarista jesuítica de rebaixar a theandriké enérgeia a uma dimensão puramente mundana, psicológica, política, instrumental. (N.T.)
[11] Citação do Inferno de Dante (Canto XXVII, 113), onde um demônio se define como um querubim negro dotado de lógica implacável para arrastar as almas para o abismo. (N.T.)
[12] Os hecatonquiros, gigantes de cem braços e cinquenta cabeças da Teogonia de Hesíodo, personificam forças cegas, desmesuradas e caóticas da matéria primordial que ameaçam a ordem cósmica dos deuses do Olimpo. (N.T.)
[13] Alusão a Tífon, o monstro ctônico mais terrível da mitologia grega, associado a vulcões, trevas e tempestades destrutivas. Representa as potências terrenas que buscam destronar o princípio solar hiperbóreo. (N.T.)
