AS CITAÇÕES DE DOM MARCEL LEFEBVRE EM FAVOR DO SEDEVACANTISMO
John S. Daly, Four Marks, 2006
Fonte: https://www.fathercekada.com/2012/09/04/pro-sedevacantism-quotes-from-abp-lefebvre/
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: O texto reúne citações e fatos históricos para contestar a visão de que Dom Marcel Lefebvre (1905–1991) sempre foi categoricamente avesso à tese sedevacantista. John Daly demonstra que, embora o arcebispo nunca tenha formalizado essa posição, ele via a vacância da Sé como uma hipótese teológica plausível e tolerava a discussão em torno dela. O ensaio expõe as constantes oscilações e incertezas teológicas de Lefebvre diante da crise pós-conciliar, confrontando-as com o pragmatismo posterior da FSSPX. Aponta-se que a imposição institucional de uma linha moderada e a falta de solidez eclesiológica geraram deserções, crises internas e perda de força no debate doutrinário. Por fim, defende-se a abertura para um diálogo honesto com o sedevacantismo e a superação de posturas conciliadoras com Roma em prol da verdade teológica.
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Nota do Padre Anthony Cekada (4 de setembro de 2012): Em discussões travadas em vários fóruns, tenho observado que muitos partidários da FSSPX simplesmente não conseguem admitir que Dom Lefebvre tenha ALGUMA VEZ dito QUALQUER COISA favorável ao sedevacantismo, insinuando de quebra que antigos sedevacantistas egressos da FSSPX, como eu, são mentirosos ou iludidos.
Segue abaixo um artigo de John Daly que apresenta uma boa seleção de declarações “pró-sedevacantistas” do Arcebispo. Penso que é a hora de os adeptos da FSSPX deixarem de lado as falsas idéias que lhes foram inculcadas a respeito de Dom Lefebvre como o grande adversário do sedevacantismo.
Uma vez que este artigo é um tanto longo, tomei a liberdade de destacar em negrito algumas passagens das citações de Dom Lefebvre.
DOM LEFEBVRE E O SEDEVACANTISMO
John S. Daly, Four Marks, 2006
Até onde sabemos, Dom Lefebvre nunca chegou a formar um juízo definitivo de que João Paulo II não era um verdadeiro papa. Portanto, se dividirmos o espectro eclesiástico em duas categorias — aqueles para os quais a Sé está legalmente vacante e aqueles para os quais ela está legalmente ocupada —, Dom Lefebvre estará no campo não-sedevacantista.
Entretanto, tais divisões nem sempre são úteis. Se dividirmos o reino animal entre bípedes e todos os demais, acabaremos por nos encontrar, de maneira enganosa, muito próximos dos perus. Existem outros critérios de avaliação. Dom Lefebvre admitiu que os sedevacantistas poderiam muito bem estar com a razão? Considerava-os membros íntegros da Igreja? Confessou que sua persistente aceitação de João Paulo II se devia mais a uma hesitação heroicamente prudente do que a qualquer convicção sólida? Cogitou declarar a vacância da Santa Sé caso a situação permanecesse inalterada? Insistia em que resolver a questão de saber se os “papas” do Vaticano II eram ou não verdadeiros papas constituía um dever importante, do qual não se deveria esquivar? Sustentava que o Vaticano II era inequivocamente cismático? Sustentava que o Vaticano II era inequivocamente herético? Julgava impossível interpretar o Vaticano II num sentido ortodoxo? Rejeitava categoricamente todas as reformas conciliares? Declarou que o Vaticano II fundara uma religião nova, falsa e cismática? Negava que os membros da nova Igreja do Vaticano II fossem católicos? Duvidava da validade dos novos ritos da Missa, da ordenação sacerdotal e da consagração episcopal? Sustentava que João Paulo II e seus sequazes já estavam excomungados? Alegrava-se por estar separado da Igreja de João Paulo II? Empregou conscientemente professores sedevacantistas no seminário de Écône, ordenou e atribuiu ministérios a clérigos sedevacantistas e enviou seus seminaristas para adquirir experiência pastoral junto a um sacerdote sedevacantista?
Talvez vos pareça surpreendente, ou até desconcertante, mas a resposta a todas as perguntas acima é “sim”, como veremos em breve. Antes, porém, deve-se salientar que não estamos estudando as convicções de Dom Lefebvre para aceitá-las como necessariamente sólidas e criteriosas em todos os aspectos. Tampouco negamos que, sobre muitos desses pontos, se possam citar outros textos seus aparentemente contraditórios. O interesse da atitude do falecido prelado perante a Igreja Conciliar reside em outra parte. Voltaremos a esse assunto depois de demonstrarmos que o Arcebispo efetivamente expressou as opiniões que lhe atribuímos. Para tanto, repetiremos as perguntas acima, deixando que as próprias palavras e ações do Arcebispo as respondam.
Dom Lefebvre admitiu que os sedevacantistas poderiam muito bem estar com a razão?
1. “Sabeis que, há algum tempo, muitas pessoas, os sedevacantistas, vêm dizendo: ‘não há mais papa’. Mas penso que, para mim, ainda não era o momento de dizer isso, porque não era certo, não era evidente.” — Conferências de 30 de março e 18 de abril de 1986; texto publicado em The Angelus, julho de 1986).
2. “A questão, portanto, é definitiva: Paulo VI é (ou alguma vez foi) sucessor de Pedro? Se a resposta for negativa — Paulo VI nunca foi (ou já não é) papa —, nossa atitude será a própria dos períodos de sede vacante, o que simplificaria o problema. Alguns teólogos dizem que esse é o caso, apoiando-se em declarações de teólogos do passado, aprovados pela Igreja, que estudaram o problema do papa herético, do papa cismático ou do papa que, na prática, abandona seu encargo de Pastor supremo. Não é impossível que essa hipótese venha um dia a ser confirmada pela Igreja.” — Respostas a várias questões candentes. Écône, 24 de fevereiro de 1977.
Dom Lefebvre fez referências frequentes e respeitosas à explicação sedevacantista da crise?
1. “Na medida em que o papa se afastasse da… Tradição, tornar-se-ia cismático, romperia com a Igreja. Teólogos como São Roberto Belarmino, Caetano, o Cardeal Journet e muitos outros estudaram essa possibilidade. Portanto, não se trata de algo inconcebível.” — Le Figaro, 4 de agosto de 1976.
2. “Heresia, cisma, excomunhão ipso facto e invalidade da eleição são outras tantas razões pelas quais um papa poderia, de fato, nunca ter sido papa ou já não o ser. Nesse caso, evidentemente excepcional, a Igreja encontrar-se-ia numa situação semelhante àquela que vigora após a morte de um Pontífice.” — Le Figaro, 4 de agosto de 1976.
3. “(…) esses atos recentes do Papa e dos bispos, juntamente com protestantes, animistas e judeus, não constituem uma participação ativa num culto não-católico, conforme explica o Cônego Raoul Naz em seu comentário ao cânon 1.258, §1? Nesse caso, não vejo como seja possível afirmar que o papa não é suspeito de heresia; e, se ele continuar, é um herege, um herege público. Essa é a doutrina da Igreja.” — Conferências de 30 de março e 18 de abril de 1986; texto publicado em The Angelus, julho de 1986.
4. “Parece inconcebível que um sucessor de Pedro possa falhar de algum modo em transmitir a Verdade que deve transmitir, pois ele não pode — sem, por assim dizer, desaparecer da linhagem pontifícia — deixar de transmitir aquilo que os papas sempre transmitiram.” — Homilia, Écône, 18 de setembro de 1977.
5. “Se acontecesse de o papa não ser maiso servidor da verdade, ele já não seria papa.” — Homilia pronunciada em Lille, em 29 de agosto de 1976, diante de uma multidão de aproximadamente 12 mil pessoas.
Dom Lefebvre considerava os sedevacantistas membros íntegros da Igreja?
Sem dúvida. Ele repreendeu certos padres excessivamente zelosos da Fraternidade que recusavam os sacramentos a sedevacantistas. Colaborou com Dom Antonio de Castro Mayer depois de o prelado brasileiro ter deixado bastante claro o seu sedevacantismo. Aceitou numerosos seminaristas provenientes de famílias, paróquias ou grupos sedevacantistas. Patrocinou o “Ordo” de Le Trévoux, com seu guia dos locais de culto tradicional em todo o mundo, o qual sempre incluiu — e ainda inclui — certos centros de Missa reconhecidamente sedevacantistas. Sempre esteve plenamente ciente da presença de sedevacantistas entre os sacerdotes da Fraternidade.
Dom Lefebvre confessou que sua persistente aceitação de Paulo VI e João Paulo II se devia mais a uma hesitação heroicamente prudente do que a qualquer convicção sólida?
1. “Embora estejamos certos de que a fé ensinada pela Igreja durante vinte séculos não pode conter erro, estamos muito mais longe de possuir certeza absoluta de que o papa seja verdadeiramente papa.” — Le Figaro, 4 de agosto de 1976.
2. “É possível que sejamos obrigados a crer que este papa não é papa. Durante vinte anos, Dom Antonio de Castro Mayer e eu preferimos esperar… Penso que estamos aguardando o famoso encontro de Assis, se Deus o permitir.” —Conferências de 30 de março e 18 de abril de 1986, publicada em The Angelus, julho de 1986.
3. “Não sei se chegou o momento de dizer que o papa é um herege. (…) Talvez depois desse famoso encontro de Assis, talvez tenhamos de dizer que o papa é um herege, é apóstata. Por ora, ainda não desejo dizê-lo formal e solenemente, mas parece, à primeira vista, que é impossível que um papa seja formal e publicamente herético. (…) Portanto, é possível que sejamos obrigados a acreditar que este papa não é papa.” — Conferências de 30 de março e 18 de abril de 1986, publicada em The Angelus, julho de 1986.
Dom Lefebvre cogitou declarar a vacância da Santa Sé caso a situação permanecesse inalterada?
1. “É por isso que suplico a Vossa Eminência que… faça tudo o que estiver ao seu alcance para nos dar um Papa, um verdadeiro Papa, sucessor de Pedro, em continuidade com seus predecessores, firme e vigilante guardião do depósito da fé. Os… cardeais de oitenta anos têm o estrito direito de comparecer ao Conclave, e sua ausência forçada suscitará necessariamente a questão da validade da eleição.” — Carta a um cardeal não identificado, 8 de agosto de 1978.
2. “É impossível que Roma permaneça indefinidamente fora da Tradição. É impossível… No momento, eles estão em ruptura com seus predecessores. Isso é impossível. Eles já não estão na Igreja Católica.” — Conferência de retiro. Écône, 4 de setembro de 1987.
Dom Lefebvre insistia em que resolver a questão de saber se os “papas” do Vaticano II eram ou não verdadeiros papas constituía um dever importante, do qual não se deveria esquivar?
1. “(…) um grave problema se apresenta à consciência e à fé de todos os católicos desde o início do pontificado de Paulo VI: como pode um papa que seja verdadeiramente sucessor de Pedro, a quem foi prometida a assistência do Espírito Santo, presidir à mais radical e abrangente destruição da Igreja jamais conhecida, em tão curto espaço de tempo, ultrapassando aquilo que qualquer heresiarca jamais conseguiu realizar? Esta questão deverá ser respondida um dia…” — Le Figaro, 4 de agosto de 1976.
2. “Ora, alguns sacerdotes (até mesmo alguns sacerdotes da Fraternidade) dizem que nós, católicos, não precisamos nos preocupar com o que está acontecendo no Vaticano; temos os verdadeiros sacramentos, a verdadeira Missa, a verdadeira doutrina; logo, por que nos preocuparmos em saber se o papa é herege, impostor ou o que quer que seja? Isso não teria importância para nós. Mas penso que isso não é verdade. Se há algum homem importante na Igreja, esse homem é o papa.” — Conferências de 30 de março e 18 de abril de 1986, publicada em The Angelus, julho de 1986.
Dom Lefebvre sustentava que o Vaticano II era inequivocamente cismático?
“Julgamos poder afirmar, mediante uma crítica puramente interna e externa do Vaticano II, isto é, analisando os textos e estudando todos os meandros do Concílio, que, ao voltar as costas à Tradição e romper com a Igreja do passado, ele é um concílio cismático.” — Le Figaro, 4 de agosto de 1976.
Dom Lefebvre sustentava que o Vaticano II era inequivocamente herético?
Em uma entrevista concedida ao Catholic Crusader, do Sr. Tom Chapman, em 1984, o Arcebispo caracterizou expressamente o decreto sobre o ecumenismo (Unitatis Redintegratio) como “herético”.
Dom Lefebvre julgava impossível interpretar o Vaticano II num sentido ortodoxo?
“— O senhor concorda em aceitar o Concílio em sua totalidade? — Ah, a liberdade religiosa não, isso não é possível!” — Conferência de retiro, 4 de setembro de 1987, Écône. As palavras do Arcebispo imaginam o tipo de interrogatório a que seus seminaristas teriam sido submetidos caso ele tivesse aceitado os termos do acordo que João Paulo II lhe propunha, o qual previa um Cardeal-Visitador com poderes para conceder ou negar a ordenação dos seminaristas. A resposta é aquela que ele presume que seus seminaristas teriam de dar, e ele prossegue explicando que tal resposta permitiria ao Cardeal-Visitador recusar a ordenação do seminarista — razão pela qual recusava o acordo.
Dom Lefebvre rejeitava categoricamente todas as reformas conciliares?
“Consideramos nulas… todas as reformas pós-conciliares e todos os atos de Roma realizados nessa impiedade.” — Declaração conjunta com Dom de Castro Mayer após Assis, 2 de dezembro de 1986.
Dom Lefebvre declarou que o Vaticano II fundara uma religião nova, falsa e cismática?
1. “Não somos nós que estamos em cisma, mas a Igreja Conciliar.” — Homilia pregada em Lille, 29 de agosto de 1976, diante de uma multidão de cerca de 12.000 pessoas (essas palavras aparecem na versão original, não corrigida, do sermão, tal como foi gravado e noticiado pela imprensa).
2. “Roma perdeu a Fé, meus caros amigos. Roma está em apostasia. Estas não são palavras lançadas ao vento. É a verdade. Roma está em apostasia… Eles deixaram a Igreja… Isso é certo, certo, certo.” — Conferência de retiro. Écône, 4 de setembro de 1987.
3. João Paulo II “difunde agora continuamente os princípios de uma falsa religião, cujo resultado é uma apostasia geral.” — Prefácio a L’Osservatore Romano 1990 de Giulio Tam, escrito pelo Arcebispo apenas três semanas antes de sua morte.
Dom Lefebvre afirmava categoricamente que a Igreja Conciliar não é a Igreja Católica?
1. “Este Concílio representa, a nosso ver e também a juízo das autoridades romanas, uma nova Igreja, à qual eles denominam Igreja Conciliar.” — Le Figaro, 4 de agosto de 1976.
2. “A Igreja que afirma tais erros é ao mesmo tempo cismática e herética. Esta Igreja Conciliar, portanto, não é católica.” — Reflexões sobre a suspensão a divinis, 29 de julho de 1976.
Dom Lefebvre negava que os membros da nova Igreja do Vaticano II fossem católicos?
1. “Na medida em que o papa, os bispos, os sacerdotes ou os fiéis aderem a esta nova Igreja, eles se separam da Igreja Católica.” — Reflexões sobre a suspensão a divinis, 29 de julho de 1976.
2. “Estar publicamente associado à sanção [de excomunhão] seria uma marca de honra e um sinal de ortodoxia perante os fiéis, os quais têm o estrito direito de saber que os sacerdotes a quem recorrem não estão em comunhão com uma Igreja falsificada.” — Carta aberta ao Cardeal Gantin, 6 de julho de 1988, assinada por 24 superiores da FSSPX, sem dúvida com a aprovação de Dom Lefebvre.
Dom Lefebvre duvidava da validade dos novos ritos da Missa, da ordenação sacerdotal e da consagração episcopal?
1. “Esta união que os católicos liberais desejam entre a Igreja e a Revolução é uma união adúltera — adúltera. Essa união adúltera só pode gerar bastardos. Onde estão esses bastardos? São os [novos] ritos. O [novo] rito da Missa é um rito bastardo. Os sacramentos são sacramentos bastardos. Já não sabemos se são sacramentos que conferem a graça. Já não sabemos se esta Missa nos dá o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. (…) Os sacerdotes que saem dos seminários são sacerdotes bastardos.” — Homilia pregada em Lille, 29 de agosto de 1976, diante de uma multidão de cerca de 12.000 pessoas.
2. “Se julgamos que esta liturgia reformada é herética e inválida, seja por causa das alterações feitas na matéria e na forma, seja por causa da intenção dos reformadores expressa no novo rito em oposição à intenção da Igreja Católica, evidentemente não podemos participar desses ritos reformados, pois estaríamos tomando parte em um ato sacrílego. Esta opinião funda-se em razões graves.” — Respostas a várias questões candentes. Écône, 24 de fevereiro de 1977.
3. “As mudanças radicais e extensas efetuadas no Rito Romano do Santo Sacrifício da Missa e sua semelhança com as alterações feitas por Lutero obrigam os católicos que permanecem fiéis à sua fé a questionar a validade deste novo rito. Quem melhor do que o Reverendo Padre Guérard des Lauriers para oferecer uma contribuição abalizada à solução deste problema?” — Prefácio escrito para um livro favorável à tese da invalidade, do Pe. Guérard des Lauriers. Écône, 2 de fevereiro de 1977.
4. Além disso, Dom Lefebvre pessoalmente reordenou sob condição muitos padres que haviam sido ordenados segundo o rito de 1968 e crismou sob condição aqueles alegadamente crismados segundo o novo rito ou pelos novos bispos.
Dom Lefebvre sustentava que João Paulo II e seus sequazes eram “anticristos” excomungados?
1. “Então seremos [excomungados] por modernistas, por pessoas que foram condenadas pelos papas anteriores… Que efeito isso realmente pode ter? Somos condenados por homens que já estão eles mesmos condenados.” — Conferência de imprensa, Écône, 15 de junho de 1988.
2. Declaração posterior às consagrações (verão de 1988), na escola da FSSPX em Bitche, Alsácia-Lorena: “O Arcebispo afirmou, indo ainda além do que dissera em sua conferência de imprensa de 15 de junho, que aqueles que o haviam excomungado já estavam eles próprios excomungados havia muito tempo.” — Resumo publicado no boletim News and Views da Counter-Reformation Association, Candelária de 1996.
3. “Estando a Sé de Pedro e os postos de autoridade em Roma ocupados por anticristos, a destruição do Reino de Nosso Senhor está sendo rapidamente levada a cabo até mesmo no interior de Seu Corpo Místico aqui na terra. (…) Foi isso que fez cair sobre nossas cabeças a perseguição da Roma dos anticristos.” — Carta aos futuros bispos, 29 de agosto de 1987.
Dom Lefebvre alegrava-se por estar separado da Igreja de João Paulo II?
1. “Fomos suspensos a divinis pela Igreja Conciliar e da Igreja Conciliar, à qual não temos nenhum desejo de pertencer.” — Reflexões sobre a suspensão a divinis, 29 de julho de 1976.
2. “(…) não pertencemos a esta religião. Não aceitamos esta nova religião. Pertencemos à antiga religião, à religião católica, e não a esta religião universal, como é chamada hoje. Ela já não é a religião católica.” — Sermão, 29 de junho de 1976.
3. “Eu ficaria muito feliz em ser excomungado desta Igreja Conciliar… É uma Igreja que não reconheço. Eu pertenço à Igreja Católica.” — Entrevista de 30 de julho de 1976, publicada em Minute, n.º 747.
4. “Jamais quisemos pertencer a este sistema que a si mesmo se denomina Igreja Conciliar. Sermos excomungados por um decreto de Vossa Eminência… seria a prova irrefutável de que não pertencemos a ele. Nada desejamos mais do que ser declarados “ex communione”… excluídos da comunhão ímpia com os infiéis.” — Carta aberta ao Cardeal Gantin, 6 de julho de 1988, assinada por 24 sacerdotes de destaque da FSSPX, sem dúvida com a aprovação de Dom Lefebvre.
Dom Lefebvre empregou conscientemente em Écône um professor de seminário sedevacantista, ordenou e confiou ministérios a clérigos sedevacantistas e enviou seus seminaristas para adquirir experiência pastoral junto a um sacerdote sedevacantista em sua colônia de férias anual, com duração de um mês?
De fato, assim o fez. Não correremos o risco de lançar os perseguidores no encalço dos envolvidos nomeando pessoas que, em muitos casos, continuam sedevacantistas e permanecem como membros da FSSPX ou em colaboração com ela. Qualquer sacerdote que tenha estado em Écône nos tempos do Arcebispo confirmará nossa resposta.
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As citações e os fatos acima apontam para um Lefebvre de linha dura, muito próximo do sedevacantismo, que rejeitava categoricamente o Vaticano II, os novos sacramentos e doutrinas e a comunhão com os dirigentes da nova religião pseudocatólica. Mas, por honestidade, é justo admitir que isso constitui apenas metade da história. Outras palavras e atitudes do Arcebispo produziriam uma impressão surpreendentemente diferente.
Seria inútil discutir qual deles era o verdadeiro Dom Lefebvre. O fato puro e simples é que o Arcebispo oscilava. Inabalável quanto ao fato de que uma religião nova e falsa havia sido fundada, hesitava quanto à questão de saber se o papa dessa nova religião poderia ser também o chefe da Igreja Católica. Certos ultrajes específicos provocavam de sua parte uma forte reação: a suspensão de 1976, o Sínodo de 1985, a balbúrdia de falsas religiões em Assis, em 1986, a excomunhão de 1988 — tudo isso o levava até o limiar da afirmação explícita de que os responsáveis por tais atos não poderiam ser papas. O contato estreito com homens como o Padre Guérard des Lauriers e Dom Antonio de Castro Mayer, bem como com livros como o de Arnaldo Xavier da Silveira, encorajava-o a fazer semelhante declaração. Prestes a dar o passo decisivo, ele hesitava… e recuava.
Não podemos, com justiça, forçar os fatos a fim de transformar Dom Lefebvre num sedevacantista, pois ele não o era; podemos, porém, justa e respeitosamente, extrair várias conclusões interessantes de nossos textos e de outros demasiadamente extensos para serem citados neste artigo.
1. De 1975 a 1978, e novamente de 1985 até sua morte, Dom Lefebvre não foi hostil ao sedevacantismo enquanto tal e parece ter-lhe atribuído o estatuto daquilo que os teólogos chamariam de “opinião provável”. Muitas vezes esteve próximo de compartilhar dessa opinião, jamais pretendeu ser capaz de refutá-la categoricamente e reconheceu que poderia muito bem chegar o dia em que a questão se tornasse suficientemente clara para que ele a aceitasse firmemente.
2. Nem mesmo os admiradores mais fervorosos do Arcebispo poderiam sustentar que suas declarações a respeito dos recentes pretendentes ao papado fossem sempre claras, firmes e coerentes, ou que revelassem um conhecimento minucioso da teologia e do direito canônico pertinentes à questão.
3. Embora estivesse ciente da clássica controvérsia do “papa herético” entre os teólogos, o Arcebispo não parece, em momento algum, ter realizado um estudo sério acerca da natureza da heresia, de seus efeitos e de seu reconhecimento. Chegou até mesmo a pensar que o liberalismo extremo de Paulo VI e João Paulo II constituía, em certo sentido, uma defesa contra a acusação de heresia. Queria dizer com isso que suas mentes estavam tão impregnadas de ideias heréticas que eles não poderiam ser insinceros ao julgarem ortodoxas essas idéias. Não parece ter-lhe ocorrido que tal “defesa” serviria igualmente para homens como Lamennais e Loisy.
4. Ele estava seguro de sua competência para reconhecer e denunciar as heresias do modernismo e do liberalismo, mas tinha consciência de que lhe faltava a formação teológica necessária para avaliar o estatuto dos Joões e dos Paulos, bem como a dificuldade que a crise apresentava no tocante à indefectibilidade da Igreja e à infalibilidade do Magistério Ordinário e Universal.
5. Sua formação no seminário do Colégio Francês de Roma, sob o célebre Padre Le Floch, havia-o vacinado para sempre contra o liberalismo sob todas as suas formas. Sua carreira eclesiástica havia-o preparado para a organização e a diplomacia. Mas nenhuma dessas coisas fizera dele um teólogo especialista, nem lhe dera qualquer pretensão de sê-lo. Isso fica evidente em seu papel de defensor da Tradição durante o Concílio e depois dele: organiza e negocia com habilidade, mas se mostra incerto na avaliação teológica de acontecimentos até então inimagináveis. Ele havia se apoiado consideravelmente — e com excelentes razões — em seu profundíssimo e santo conselheiro teológico, o Padre Victor-Alain Berto, responsável por muitas das intervenções do Arcebispo no Vaticano II; Berto, porém, morrera em 1968, sucumbindo à angústia provocada pela apostasia do Vaticano II. Lefebvre jamais voltaria a encontrar um conselheiro em quem pudesse confiar tão plenamente, justamente quando mais necessitava de um.
6. O reconhecimento nominal de Paulo VI e de seus sucessores por Dom Lefebvre foi explicitamente apresentado como uma posição provisória. Aqueles que a transformaram em um dogma imutável são, portanto, infiéis ao próprio Arcebispo.
7. Dom Lefebvre mostrou-se extremamente otimista nos primeiros anos de João Paulo II, e foi precisamente nesses anos que suas palavras e atitudes anti-sedevacantistas foram mais incisivas. Ainda assim, mesmo nessa altura, jamais expulsou sacerdote algum de sua Fraternidade por professar privadamente o sedevacantismo, e somente em duas ocasiões o fez por sedevacantismo público quando não havia outras questões envolvidas. Sua política geral consistia em persuadir os sacerdotes sedevacantistas a permanecer. E, com o Sínodo de 1985 e Assis em 1986, desfez-se sua ilusão de que “Pole” [polonês] pudesse rimar com “Pope” [papa].
8. Ninguém pode ter certeza de que, se Dom Lefebvre estivesse vivo hoje, não seria sedevacantista. Tampouco alguém pode ter certeza de que o seria. Mas uma coisa que parece altamente improvável é que ele tivesse adotado o estilo anódino de Dom Bernard Fellay e da ala esquerda dirigente da Fraternidade, para os quais, em nossos dias, expressões como “anticristos excomungados” são mais provavelmente uma alusão aos sedevacantistas do que ao aparente ocupante da Sé Romana. E outra idéia igualmente improvável é a de que ele tivesse se deixado enganar a ponto de tomar Josef Ratzinger, a quem detestava cordialmente, por um amigo sincero do catolicismo tradicional.
9. É possível compreender a difícil situação do Arcebispo ao contemplar, sozinho, o gravíssimo aspecto eclesiológico da crise — justamente aquele aspecto sobre o qual se sentia incapaz de formar um juízo definitivo; na verdade, seria desumano não ter compreensão por ele. Defender a fé, assegurar a continuidade do sacerdócio e a disponibilidade dos sacramentos aos fiéis, deixando, porém, “em suspenso” a difícil questão do estatuto dos assassinos de almas instalados no Vaticano: por mais que possamos lamentá-la, essa é, ao menos, uma política compreensível. Certos jovens sedevacantistas loquazes de nossos dias, sem o benefício da visão retrospectiva e prontos a atribuir culpas, evidentemente não conseguem imaginar o peso da responsabilidade sentido pelo Arcebispo enquanto contemplava, trêmulo, a enormidade das implicações do sedevacantismo.
[Nota d’O Recolhedor: Com esse tipo de pensamento, não nos causa surpresa o fim a que levou Daly.]
10. O que parece muito mais difícil de admitir é a subsequente política de pragmatismo pela qual uma posição da qual o próprio Arcebispo não estava seguro tornou-se oficialmente obrigatória dentro da Fraternidade, a fim de manter a unidade e racionalizar o apostolado da instituição. Como todos os homens, os sacerdotes precisam poder conversar livremente com seus pares sobre suas preocupações e dúvidas, sem receio de serem denunciados por “crime de pensamento” e de sofrerem possíveis sanções. O Arcebispo falhou em proporcionar essa possibilidade, e ela continua a não existir na FSSPX. Uma consequência disso é a fraqueza de caráter de muitos sacerdotes da FSSPX — resultado inevitável de uma formação sectária. Outra é a enorme taxa de deserção da Fraternidade: alguns tornaram-se sedevacantistas; alguns aceitaram o indulto; alguns seguiram de modo independente; alguns abandonaram tudo para “casar-se”; e alguns sucumbiram a colapsos nervosos — todos testemunham o problema do estresse interno da Fraternidade.
Vimos, portanto, que não há verdade alguma na mitologia segundo a qual Dom Lefebvre teria mantido uma política firme e coerente de reconhecimento dos papas do Vaticano II, rejeitando severa e consistentemente o sedevacantismo como um erro solidamente refutado. Pelo contrário, o Arcebispo frequentemente expressou opiniões tão duras que, hoje em dia, nenhum sacerdote ou seminarista da FSSPX ousaria dizer algo semelhante, por medo de ser expulso! Essa mitologia deve-se ao fato de que o Arcebispo oscilava e hesitava, deixando registradas palavras e atitudes que permitem que sua autoridade seja invocada tanto pela ala liberal quanto pela ala dura. De fato, suas oscilações e hesitações atingiram uma escala tal que só pôde ser tolerada em razão da grande veneração pessoal que a massa dos fiéis católicos tradicionais nutria pelo próprio Arcebispo. Hoje, porém, a Fraternidade já não possui nenhum membro proeminente cuja personalidade ou posição eclesiástica sejam comparáveis às do Arcebispo. Assim, a necessidade de credibilidade da Fraternidade exige que ela demonstre maior coerência do que o próprio Arcebispo demonstrou, ao mesmo tempo que continua a invocar sua autoridade para justificar decisões que ninguém pode afirmar com segurança que ele teria aprovado.
Sejamos francos quanto às origens dessa situação. O apostolado tradicionalista independente da FSSPX foi originalmente concebido apenas como um socorro provisório para uma necessidade temporária. É compreensível que ninguém previsse a duração da crise. Medidas de emergência às vezes precisam ser tomadas antes que haja tempo para uma avaliação teológica completa da necessidade que as exige. Mas não pode haver apostolado duradouro e eficaz que não esteja firmemente fundado na teologia. Isso não significa apenas que apóstolos eficazes devam possuir uma formação teológica adequada, embora isso seja verdade. Significa que a própria base, natureza, atuação e finalidade de seu apostolado também devem ser teologicamente determinadas. Isso não ocorre, nem jamais ocorreu, no caso da FSSPX, porque o legado deixado pelo Arcebispo à Fraternidade por ele fundada não incluiu nenhuma eclesiologia acerca da relação entre a Igreja Conciliar e a Igreja Católica. O mal-estar da FSSPX continuará enquanto essa omissão não for plenamente sanada, se é que isso é possível.
E esse mal-estar não pode ser negado. Há um quarto de século, a FSSPX era inundada de vocações, gozava de um elevado grau de fidelidade sacerdotal e se encontrava em posição de contrastar seu êxito com o estado manifestamente miserável dos seminários e do clero modernistas. Todos sabem que os motivos para vangloriar-se cessaram. Menos vocações, índices elevadíssimos de desistência e expulsão nos seminários, numerosas deserções sacerdotais em todas as direções, poucos sinais da existência de uma elite teológica entre o clero da Fraternidade, tolerância para com sacerdotes contaminados pelo prurido novidadeiro, taxas elevadas de abandono da prática religiosa entre os leigos da segunda geração, mesmo entre aqueles educados nas próprias escolas da Fraternidade — esse triste quadro é inegável, e as coisas não estão a melhorar. Enquanto isso, a Fraternidade vai perdendo o debate teológico não apenas para o sedevacantismo, mas também para os grupos do indulto, que demonstraram uma notável capacidade de atração e uma surpreendente aptidão para formar um clero erudito e ponderado.
Para que a FSSPX declarasse pública e formalmente a vacância da Santa Sé, seria necessário um milagre; e mesmo fazê-lo não bastaria para curar o mal-estar que apontamos.
Talvez, porém, não seja inteiramente irrealista cogitar se as autoridades da Fraternidade não poderiam algum dia admitir explicitamente que o sedevacantismo é, ao menos, uma opinião teologicamente provável e incentivar um debate cortês e aberto sobre a tese sedevacantista entre sacerdotes e fiéis, tanto dentro quanto fora da Fraternidade. Talvez não seja um otimismo incurável esperar que os sacerdotes e colaboradores sedevacantistas da Fraternidade possam ter a liberdade de falar francamente sobre suas convicções. Poder-se-ia fazer uma declaração salientando que, em quaisquer discussões com a Roma ocupada, Bento XVI nada pode colocar de valioso sobre seu lado da mesa de negociações, exceto a remota perspectiva de sua própria conversão à fé católica — fé que passou a maior parte de sua vida destruindo. Já que estamos sonhando acordados, poderíamos imaginar uma colaboração entre sacerdotes da FSSPX e aqueles sacerdotes sedevacantistas que se mostrassem adequados e dispostos a tanto. Poderíamos acrescentar a expulsão da quinta-coluna ultraliberal da Fraternidade, a começar pelo Padre Grégoire Célier. E que tal repudiar publicamente o panfleto anti-sedevacantista absurdamente ignorante do Padre Boulet, que julgou necessário citar história e teologia falsificadas, extraídas de um livro incluído no Índice dos Livros Proibidos, para defender aquilo que seu autor acredita ser a linha oficial do partido? Tampouco poderia alguém opor-se razoavelmente ao estudo formal do De Romano Pontifice de Belarmino na grade curricular de teologia dogmática.
Não se pode seriamente duvidar de que tais medidas seriam teologicamente sólidas, constituiriam um alívio para muitos sacerdotes e fiéis da Fraternidade e fortaleceriam a capacidade da FSSPX de responder às objeções que lhe são dirigidas pelos meios conciliares. Tampouco haveria qualquer dificuldade em invocar a autoridade de Dom Lefebvre em favor de tais iniciativas. Acima de tudo, deveria prevalecer a consideração de que a verdade é mais importante do que o pragmatismo e de que sua profissão corajosa atrai a bênção de Deus.
