AS GLÓRIAS DA CONQUISTA DO MÉXICO: EXCERTOS DAS CARTAS DE HERNÁN CORTÉS AO IMPERADOR CARLOS V
Hernán Cortés (†1547)
Fonte: A Conquista do México. Coleção L&PM Pocket, 2008.
Descrição: Os excertos documentam o processo de invasão e dominação do Império Asteca narrado por Hernán Cortés (1485–1547) ao monarca espanhol Carlos V (1500–1558). O relato expõe as batalhas iniciais e a formação de alianças militares estratégicas com povos nativos dissidentes. Cortés descreve o ingresso em Tenochtitlán, o aprisionamento de Montezuma e o confronto civil interno que culminou na derrota da Noche Triste. Em seguida, detalha a reorganização das tropas, o cerco naval e terrestre, e a conquista final de Tenochtitlán após intensa destruição. Por fim, registra os primeiros passos da administração colonial, a busca pelo Mar do Sul (Oceano Pacífico) e a repartição dos tributos e territórios conquistados.
Nota d’O Recolhedor: Como você verá, caro leitor, durante a conquista espanhola das Américas quem mais matou índio foi outro índio.
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EXCERTOS DAS PRIMEIRAS TRÊS CARTAS DE RELAÇÃO DE HERNÁN CORTÉS AO IMPERADOR CARLOS V

“Depois de haver requerido por três vezes permissão para descer, o capitão rogou o testemunho do escrivão de vossas altezas reais que consigo levava, dizendo que não queria a guerra, mas diante da determinada vontade dos índios mandava soltar os tiros de artilharia. Com a proteção dos disparos de fogo saltamos a terra e prendemos alguns índios, embora tenham ferido alguns dos nossos. E com o ataque pela retaguarda do batalhão que Cortez mandou pelo caminho que levava ao povoado, dominamos a situação. Os índios fugiram e nós tomamos o povoado, tendo nos instalado na parte que parecia mais forte. No outro dia, como acontecera na véspera, vieram dois índios, trazendo algumas jóias de ouro, muito delgadas e de pouco valor, e disseram que fôssemos embora, deixando-os em sua terra como antes estavam, sem fazer-lhes mal. O capitão lhes respondeu que, quanto a não lhes fazer mal algum, isto o deixava muito contente, porém, quanto ao deixar a terra, deveriam saber que dali em diante tinham por senhores aos maiores príncipes do mundo, dos quais se tornavam vassalos e aos quais deveriam servir. E se fizessem isto, vossas majestades lhes prestariam muitos favores, amparando-os e ajudando-os a se defenderem de seus inimigos. Eles ficaram muito contentes com isto, mas insistiram em que deixássemos a terra. E assim nos tornamos todos amigos. Concertada a amizade, o capitão disse que a gente espanhola que estava com ele estava com fome e não tinha o que comer, rogando que durante o tempo em que permanecêssemos em terra nos trouxessem comida. Eles responderam que no outro dia trariam e se foram. Passou aquele dia e o outro e não veio comida nenhuma. Estávamos com muita necessidade de mantimentos e ao terceiro dia, vendo que os índios não vinham, o capitão enviou duzentos homens, sob quatro comandos, para saírem pelos lugares ao redor em busca do que comer. Ao saírem, nossos homens toparam com muitos índios que os atacaram com arco e flecha, ferindo a vinte espanhóis. E se não fosse o capitão imediatamente avisado para sair em seu socorro, metade deles teria morrido. Vendo que os índios, em vez de nos trazerem comida, haviam nos flechado, o capitão mandou buscar dez cavalos nos navios. Enviou para o local onde se dera a batalha um pelotão com trezentos homens e logo atrás mais outro de cem. O próprio Cortez seguiu depois com os dez cavalos. Os que iam na frente logo toparam com grande quantidade de guerreiros indígenas, que vinham atacar o nosso acampamento. Se por acaso não tivéssemos saído ao seu encalço, teriam nos surpreendido. O capitão que ia na frente disse aos índios que não queríamos guerra com eles, mas apenas paz. Eles responderam não com palavras mas com flechas muito grossas que começaram a atirar. E estando assim lutando com os índios os dianteiros, chegou o segundo batalhão. Havia duas horas de luta quando chegou o capitão Cortez com os cavalos, atacando a uma parte do monte onde os índios começavam a cercar os espanhóis. O capitão lutou com os índios por cerca de uma hora, e eram tantos os nativos que os que estavam lutando a cavalo não se viam uns aos outros. Porém, quando o capitão resolveu organizar seu grupo e arremeter os cavalos contra eles, começaram a fugir em disparada. O capitão ainda os seguiu por cerca de meia légua, mas vendo que a situação estava dominada e sua gente muito cansada, mandou que cessassem o combate e se recolhessem a umas casas que havia por ali. Tínhamos vinte feridos mas nenhum morto, e depois de tratá-los voltamos ao acampamento, trazendo junto dois índios que prendemos, os quais o capitão libertou com uma mensagem aos seus caciques, dizendo que, se quisessem vir aonde estava, lhes perdoaria os erros que haviam cometido e se tornariam amigos. Neste mesmo dia pela tarde, vieram dois índios que pareciam principais e disseram que sentiam muito o que havia ocorrido e rogavam que lhes perdoassem e não lhes fizessem mais danos e que não lhes matassem mais gente, pois foram duzentos e vinte os seus mortos nos combates. Dali em diante, queriam ser vassalos de vossas majestades, dispondo-se a prestar-lhes todos os serviços. Depois de acertada a paz, o capitão lhes perguntou de onde viera toda aquela gente que participara da batalha. E eles disseram que vieram de oito províncias, que se haviam juntado para combater o invasor, e que no total somariam quarenta mil homens. Acreditem vossas altezas que esta batalha foi vencida muito mais pela vontade de Deus do que por nossas forças, pois, para quarenta mil homens de guerra, quatrocentos, como éramos, se tornava um número insignificante.” (Cortez, 2008, p. 24–27).
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“Estes ídolos, feitos de pedra, de madeira ou de barro, são muito bem guardados com plumagens e tecidos finamente desenhados. Não começam nenhuma atividade do dia sem antes queimar incenso nas ditas mesquitas, e algumas vezes sacrificam seus próprios corpos, cortando a língua, a orelha ou fincando punhal pelo corpo. Todo o sangue que corre oferecem àqueles ídolos, espalhando-o por todas as partes daqueles oratórios ou elevam-no para o céu. Todavia, praticam uma outra coisa horrível e abominável, digna de ser punida, jamais vista em qualquer outra parte e que é a seguinte: toda vez que pedem a seus ídolos alguma coisa que muito desejam, tomam meninos e meninas ou até mesmo adultos, colocam diante destes ídolos e abrem seus peitos, arrancando o coração e queimando-o em oferenda. Alguns dos nossos que viram isto disseram que é a coisa mais horripilante de se ver. Estes índios realizam estas oferendas com freqüência, não havendo ano em que não matem pelo menos cinqüenta pessoas nessas circunstâncias. A mesma cerimônia é realizada com animais também, sendo mortos anualmente de três a quatro mil. Vejam vossas altezas reais que se deve evitar tão grande mal e que Deus Nosso Senhor será servido pela mão de vossas majestades se estas pessoas forem instruídas e introduzidas em nossa santa fé católica. É certo que se servissem a Deus com tanta fé e dedicação, muitos milagres obteriam e é certo também que esta gente veria mais facilmente o verdadeiro caminho da fé porque vivem politicamente melhor que qualquer outra gente que por estas partes temos visto.” (Cortez, 2008, p. 30–31).
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“No outro relato, mui excelentíssimo príncipe, falei a vossa majestade sobre as cidades e vilas até então conquistadas e que haviam se oferecido a seus reais serviços. E disse que tinha conhecimento de um grande senhor que se chamava Montezuma e que segundo os nativos morava a umas noventa ou cem léguas do porto onde desembarquei. Confiando na grandeza de Deus e com o ânimo do real nome de vossa alteza, me determinei ir aonde quer que estivesse este senhor e me lembro de que me dispus a fazer muito mais do que a mim era possível. Porque certifiquei a vossa alteza que o tornaria, preso ou morto, súdito da coroa de vossa majestade. E com este propósito parti da cidade de Cempoal, que eu intitulei Sevilha, a 16 de agosto, com quinze homens a cavalo e trezentos peões preparados o melhor possível para a guerra. E deixei na vila de Vera Cruz cento e cinqüenta homens construindo uma fortaleza, que já está quase pronta. Esta província de Cempoal é formada de cinqüenta vilas e fortalezas, tendo até cinqüenta mil homens de guerra, os quais ficaram muito seguros e pacificados, como leais vassalos de vossa majestade como agora são, porque eles eram súditos daquele senhor Montezuma. E segundo fui informado, o eram pela força e de pouco tempo para cá, e como por mim tiveram notícia de vossa alteza e de seu real e grande poder, disseram que queriam ser vassalos de vossa majestade e meus amigos, e que rogavam que os defendesse daquele grande senhor que os mantinha pela força e tirania e que tomava seus filhos para matar e sacrificar a seus ídolos.” (Cortez, 2008, p. 34–35).
(…)
“Depois de ter andado quatro léguas, dois cavaleiros que iam à frente vieram me avisar que viram índios com suas plumagens de guerra. Eu me aproximei deles e tentei conversar através do intérprete, mas eles começaram a atirar lanças e a gritar por outros que vieram se juntar a eles, chegando a somar quatro ou cinco mil índios. Eles lutaram conosco, matando dois cavalos, ferindo outros três e mais três pessoas. Nós matamos cinqüenta ou sessenta deles e quando chegaram os outros nossos que vinham a cavalo mais atrás eles bateram em retirada. Depois que se foram, vieram certos mensageiros de outros senhores, que não dos que haviam lutado contra nós. Disseram que pagariam os cavalos mortos e que queriam ser nossos amigos e nos receber em seu povoado. Naquela noite, fui forçado a dormir à margem de um arroio, uma légua adiante do local do combate, pois já era tarde e minha gente estava muito cansada da batalha. No outro dia, saí com a dianteira e a retaguarda bem protegidas e logo adiante encontrei dois mensageiros que mandara ao povoado. Vinham chorando, dizendo que os haviam amarrado para matá-los e que conseguiram escapar durante a noite. Enquanto nos faziam o relato, éramos atacados por grande quantidade de pedras, lançadas por também grande quantidade de índios que nos cercavam. Tentamos conversar com eles com o testemunho do escrivão, mas como não paravam de nos atacar, tratamos de nos defender como podíamos. Eram mais de cem mil índios que lutaram conosco até uma hora antes do pôr-do-sol. Com seis escopetas, quarenta balistas e uma meia dezena de outros tiros, além de treze cavalos, consegui fazer muitos danos neles sem sofrer nada além do cansaço da luta e da fome. Até parece que foi Deus que lutou por nós, tamanha era a multidão que nos cercava e sua disposição para a luta.
Àquela noite, estabeleci meu forte junto a uma pequena torre de seus ídolos, no topo de um monte. No dia seguinte, deixei ali duzentos homens e toda a artilharia, saindo com a cavalaria e mais cem peões, quatrocentos índios que trouxera de Cempoal e trezentos de Iztacmestiran. Antes que os nativos pudessem se juntar, queimei seis pequenos povoados e prendi e levei para o acampamento quatrocentas pessoas, entre homens e mulheres, sem que me fizessem qualquer dano. No amanhecer do outro dia, nosso acampamento real estava cercado por cento e cinqüenta mil índios, que cobriam toda a terra em volta. Estavam tão determinados para a luta que chegaram a entrar dentro do acampamento e lutar com punhais contra os espanhóis. Mas quis Deus Nosso Senhor que em questão de quatro horas tivéssemos a situação dominada, tendo os índios se retirado, embora ainda realizando algumas arremetidas.
Antes do amanhecer do dia seguinte, tornei a sair com cavalos, peões e índios e queimei dez povoados, onde havia mais de três mil casas. Como trazíamos a bandeira da cruz e lutávamos por nossa fé e por serviços de vossa sacra majestade, em sua real ventura nos deu Deus tanta vitória, visto que matamos muita gente sem que nenhum dos nossos sofresse dano. Pouco depois do meio-dia, estávamos de volta ao nosso acampamento com a vitória obtida. No outro dia, vieram mensageiros dos senhores, dizendo que eles queriam ser vassalos de vossa alteza e meus amigos e que rogavam lhes perdoasse os erros do passado. Trouxeram-me de comer e algumas coisas de plumagens que eles estimam. Eu respondi que eles haviam errado e feito o mal, mas que eu ficava contente em ser seu amigo e perdoar-lhes o que haviam feito. No outro dia, vieram cerca de cinqüenta índios que traziam comida e começaram a olhar as entradas e saídas de nosso acampamento, bem como as cabanas onde dormíamos. Os de Cempoal vieram até mim e alertaram-me para olhar aqueles homens, que eram maus e vinham espionar. Dissimuladamente prendi um deles sem que os outros vissem. Com os intérpretes e amedrontando-o, fiz com que dissesse a verdade. Ele confessou que Sicutengal, que é o capitão geral desta província, estava atrás de uns montes próximos com enorme quantidade de gente para nos atacar naquela noite e que eles haviam vindo para observar as partes de nosso acampamento por onde poderiam nos atacar. Depois tomei mais outros cinco ou seis e todos confessaram a mesma coisa. Em vista disto, mandei prender todos os cinqüenta e cortar-lhes as mãos e os enviei a seu senhor para que dissessem a ele que quando ele viesse saberia quem éramos. Tratei de fortalecer o acampamento real, colocando gente nos pontos que me pareciam convenientes. Ao anoitecer, eles começaram a descer das montanhas e se aproximar, pensando que nós não os víamos. Para evitar que chegassem muito perto, podendo colocar em risco nosso acampamento, decidi sair ao seu encontro com todos os cavalos. Quando eles perceberam que íamos a cavalo, bateram em retirada e nós ficamos seguros. Depois de passado isso, permanecemos alguns dias sem sair do acampamento, indo apenas até os seus arredores para afastar alguns índios que vinham gritar e fazer escaramuças.
E depois de estar algo descansado, saí uma noite, depois de rendida a guarda da prima,[1] com os peões, índios e cavalos, e antes que amanhecesse dei com dois povoados onde matei muita gente, mas não ateei fogo às casas para não chamar a atenção de povoados vizinhos. Como os tomei de surpresa, saíam desarmados e as mulheres e crianças desnudas pelas ruas. Quando amanhecia, dei com um outro povoado que tinha mais de vinte mil casas. Como não tinham resistência, vieram a mim certos principais que rogaram para que não lhes fizesse mal, porque queriam ser vassalos de vossa alteza e meus amigos. E que reconheciam que tinham culpa em não ter acreditado em mim, mas que, de agora em diante, fariam tudo que eu determinasse em nome de vossa majestade. Depois me levaram a um lugar muito agradável que tinha uma fonte e me deram de comer. E assim os deixei pacificados e retornei a nosso acampamento. Isto foi motivo de muita alegria, porque não havia entre nós quem não estivesse com muito temor, por estarmos tão dentro daquela terra, entre tanta e tão má gente, e tão sem esperança de socorro de parte alguma. Ainda mais que tínhamos algumas pessoas querendo desistir da tarefa, só não fazendo porque eu lhes disse que, como cristãos, éramos obrigados a lutar contra os inimigos de nossa fé, e além disso havíamos conseguido no outro mundo a maior glória e honra que até nossos tempos nenhuma geração conquistou.” (Cortez, 2008, p. 40–43)
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“Na cidade, falei com alguns mensageiros de Montezuma, mas não me disseram coisa alguma. Passaram-se três dias e nenhum chefe veio falar comigo, enquanto que as provisões que nos davam começavam a escassear. Uma índia que trazia comigo como intérprete soube por uma outra nativa que eles haviam retirado todas as mulheres e crianças da cidade e que pretendiam matar todos nós. Peguei secretamente um nativo da cidade e este confessou o mesmo que a índia havia dito, e que o pessoal de Tascaltecal havia me alertado. Resolvi agir antes de ser atacado. Chamei alguns senhores da cidade, dizendo que queria falar-lhes, e tranquei-os em uma sala, com o aviso aos nossos para que quando ouvissem um tiro de escopeta caíssem sobre a maior quantidade de índios possível. E assim foi feito. Em duas horas matamos mais de três mil índios e prendemos na sala todos os chefes. Depois saímos pela cidade e deparamos com a enorme quantidade de gente de guerra que iria nos atacar, mas como eles estavam desprevenidos e sem os seus comandantes, nós os desbaratamos facilmente, ainda mais que tínhamos a ajuda dos cinco mil índios de Tascaltecal que ficaram conosco e mais quatrocentos de Cempoal. Dominada a situação, voltei a falar com os chefes presos. Disseram que não tinham culpa do ocorrido, que foram forçados a isso pelos habitantes de Culúa, que fica légua e meia de distância, e que são vassalos de Montezuma, o qual reunira ali cinqüenta mil homens. Mas que reconheciam como haviam errado e pediam que soltasse um deles, que fariam todas as mulheres e crianças retornarem à cidade. Rogavam que lhes perdoasse o erro e que dali em diante seriam leais vassalos de vossa alteza e meus fiéis amigos. Depois de ter falado muitas coisas, soltei dois deles e no dia seguinte a cidade estava toda povoada, como se nada tivesse acontecido. Logo soltei os outros senhores. Em questão de quinze dias que ali fiquei a cidade permaneceu pacífica, sem que nada faltasse em seus mercados. E eu fiz com que os moradores desta cidade de Churultecal e os de Tascaltecal voltassem a ser amigos como eram antes, pois fazia pouco tempo que Montezuma havia atraído os últimos com suas dádivas e os tornado inimigos.” (Cortez, 2008, p. 47–48)
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“Já junto à cidade há uma ponte de madeira de dez passos de largura, passada a qual veio nos receber o senhor Montezuma com até duzentos senhores, todos descalços e vestidos de uma maneira diferente daqueles que nos receberam antes, mas também ricamente. Vinham em duas procissões através de uma rua muito larga e muito bonita, com as paredes das casas todas ornamentadas. Montezuma vinha pelo meio da rua, ladeado por dois senhores, um que viera me falar nas montanhas e o outro que era seu irmão, que também já se encontrara comigo. Aproximei-me para abraçar Montezuma mas os dois me impediram, mesmo assim todos os três fizeram a cerimônia de beijar o solo. Ele pediu ao senhor que o acompanhava que me tomasse pelo braço, para que seguíssemos caminhando. Antes disso, coloquei em seu pescoço um colar de diamantes. Enquanto seguíamos caminhando, um dos seus servidores trouxe-lhe um colar com oito camarões de ouro, feitos com muita perfeição, que ele colocou em meu pescoço. Seguimos caminhando até chegar a uma casa muito grande e formosa. Ali me tomou pela mão e me levou até uma grande sala fronteira a um pátio, onde me fez sentar em um estrado muito rico que para ele havia mandado fazer, pedindo que esperasse um pouco. Voltou em seguida com diversas jóias de ouro e prata, muitas plumagens e de cinco a seis mil peças de roupas de algodão, todas muito finas e bem trabalhadas. Depois sentou em um outro estrado, que logo fizeram junto ao que eu estava, e sentenciou o seguinte:
‘Muitos dias há que, pelas escrituras que temos de nossos antepassados, tomamos conhecimento que nem eu nem todos que nesta terra habitamos somos naturais dela, senão que somos estrangeiros, vindos a ela de partes muito estranhas. E soubemos que nossa geração foi trazida a esta parte por um senhor, de quem todos eram vassalos, o qual voltou à sua terra e depois tornou a vir, desde muito tempo, tanto que os que haviam deixado já estavam casados com as mulheres nativas da terra, havendo muitas gerações e muitos povoados. E sempre soubemos que os que dele descendessem haveriam de vir a subjugar a esta terra e a nós, como seus vassalos. E de acordo com a parte que vós dizeis que vens, que é a de onde nasce o sol, e segundo as coisas que dizeis deste grande senhor e rei que aqui vos enviou, cremos e temos por certo ser ele o nosso senhor natural. Especialmente porque nos diz que há muito têm notícias de nós. Portanto, estejais certo de que obedeceremos, podendo o mesmo mandar à vontade em toda a terra que é de meu domínio. Desta maneira, estais em vossa natureza e em vossa casa, podendo descansar do trabalho, da caminhada e das guerras que haveis enfrentado. E certo que os que lhes têm prestado serviços de Putunchan até aqui, especialmente os de Cempoal e de Tascaltecal, têm falado muitas coisas ruins de mim, porém não deveis acreditar além daquilo que vossos olhos vêem. Muitos dos que agora são meus inimigos eram meus vassalos e se rebelaram aproveitando a vossa chegada. Espalharam eles que minhas casas tinham paredes de ouro, que meus estrados e outras coisas de meus serviços eram de ouro e que eu me fazia de Deus. As casas, podeis ver, são de pedra, cal e terra’. E tirando suas roupas me mostrou o corpo dizendo: ‘Vede que sou de carne e osso como vós e como qualquer um, que sou mortal e palpável. Vede como vos mentiram. É verdade que tenho algumas coisas de ouro que herdei de meus avós. E tudo que tenho podeis dispor toda vez que quiserdes. Eu irei para outras casas onde vivo, mas aqui sereis provido de todas as coisas necessárias para vossa gente e não vos molestais com nada, pois estais em vossa casa e natureza’. Eu lhe respondi tudo que perguntou, satisfazendo aquilo que convinha, em especial fazendo-lhe crer que vossa majestade era quem eles esperavam. E com isso se despediu, não sem antes nos prover de muitas galinhas, pão, frutas e outras coisas necessárias ao serviço dos aposentos. Assim, permaneci seis dias muito bem provido de tudo o necessário e sendo visitado por aqueles senhores.” (Cortez, 2008, p. 53–55)

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“Qualpopoca chegou em um andor, como eram carregados os senhores, o que de fato ele era. Entregaram todos eles a mim e eu os interroguei. Perguntei ao cacique se era vassalo de Montezuma e ele indagou se era possível ser vassalo de outro senhor. Perguntei se o que ali havia se passado fôra mandado por Montezuma e eles confirmaram que sim. Mandei então queimar todos vivos, o que foi feito em uma praça, sem alvoroço nenhum. Depois mandei colocar algemas em Montezuma, o que ele recebeu sem espanto. Todavia, depois de ter conversado muito com ele, tirei-lhe as algemas, o que o deixou muito contente. Dali em diante procurei sempre agradá-lo e atendê-lo no que me pedia. E tanto ele como os demais senhores se alegravam muito em se manter como súditos de vossa majestade.” (Cortez, 2008, p. 56)
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“Passados alguns dias, Montezuma fez uma conclamação aos senhores de terras e cidades da região, tendo, em minha presença, dito o seguinte: ‘Irmãos e amigos meus; já sabeis que de muito para cá vós e vossos pais e avós têm sido súditos e vassalos de meus antecessores e meus. E sempre por eles e por mim têm sido muito bem tratados e honrados. De sua parte, vós também têm feito o que bons e leais vassalos são obrigados a fazer a seus senhores naturais. E também creio que, como nós, tendes memória, por vossos antecessores, de que não somos naturais desta terra. Que nossos antecessores aqui foram trazidos e deixados por um senhor, o qual, quando voltou mais tarde, viu que nossos avós já tinham povoado esta terra, casando com as mulheres daqui. E como tinham muita multiplicação de filhos, não quiseram voltar com ele. Mas ele veio e disse que um dia voltaria ou mandaria alguém com tal poder para nos levar a seu serviço. E bem sabeis que sempre o temos esperado. E segundo as coisas que o capitão nos tem dito daquele rei e senhor que o enviou aqui, tenho certeza, e vós também deveis ter, de que aquele é o senhor que esperávamos. E como nossos predecessores não fizeram o que deviam a seu senhor, façamos nós e demos graças aos nossos deuses por ter vindo em nossos tempos o que aqueles tanto esperavam. E por tudo isso que é notório, rogo-lhes que, assim como até agora me haveis tido e obedecido como senhor, de agora em diante tenhais e obedeceis a este grande rei, pois ele é o vosso senhor natural, e em seu lugar tenhais este seu capitão. Todos os tributos e serviços que até aqui me eram prestados, passarão a ser prestados a ele. Eu mesmo tenho que servir e contribuir com tudo que me mandar. Se fizerdes o que deveis e sois obrigados a fazer, a mim estareis dando muito prazer’. Disse tudo isto em meio a lágrimas e suspiros, de maneira tão emocionante que aqueles senhores que ali estavam ouvindo também chegaram às lágrimas e não conseguiram responder uma só palavra. Somente depois de algum tempo, quando aliviaram as lágrimas, é que conseguiram dizer que cumpririam tudo o estabelecido, dando-se por vassalos de vossa majestade.” (Cortez, 2008, p. 60–61)
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“Dentro da grande mesquita há três salas onde estão os ídolos principais, todas de maravilhosa grandeza e belos trabalhos em cantarias, madeiramento e figuras esculpidas. Dentro dessas salas estão pequenos compartimentos, sem claridade nenhuma, onde ficam alguns religiosos. Ali dentro é que ficam seus ídolos. Os principais desses ídolos e nos quais eles tinham mais fé eu derrubei de seus assentos e os fiz descer escada abaixo. Fiz também com que limpassem aquelas capelas, pois estavam cheias de sangue dos sacrifícios que faziam. Em lugar dos ídolos mandei colocar imagens de Nossa Senhora e de outros santos, apesar da resistência de Montezuma e de outros nativos, por entenderem que as comunidades se levantariam contra mim. Eu os fiz entender quão enganados estavam em ter esperanças naqueles ídolos, e que deveriam saber que existe um só Deus, senhor universal de todos, o qual havia criado o céu, a terra e todas as coisas e fez a eles e nós, sendo imortal, e que a este é que deveriam adorar. Insisti para que não matassem mais criaturas em sacrifícios para seus ídolos e providenciei a limpeza das capelas e colocação de nossos santos. As estátuas desses ídolos são tão grandes quanto um homem. São feitas de sementes e legumes que comem, moídos e amassados com sangue de coração de corpos humanos, os quais arrancam do peito vivo. Cada coisa tem seu ídolo. Assim, há, por exemplo, um ídolo para a guerra, outro para a colheita e assim por diante.” (Cortez, 2008, p. 63)
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“Antes de partir, fiz muitas observações a Montezuma, alertando-o de que agora era vassalo de vossa alteza, de quem deveria receber muitas graças pelos serviços que havia prestado. E pedi-lhe que cuidasse de toda jóia e ouro que me havia dado para ser enviado a vossa alteza. Ele prometeu cuidar de tudo e enviar gente para lutar a meu lado se aqueles espanhóis com quem eu ia falar fossem gente má. No caminho encontrei o religioso que havia enviado ao porto para saber que gente estava lá.[2] Ele me trazia uma carta de Narváez[3] em que dizia que recebera poderes de Diego Velásquez[4] para tomar estas terras. E disse-me como haviam feito alarde da artilharia que trouxeram,[5] mostrando a ele e aos nativos como poderiam dominar quem quisessem, já tendo inclusive conquistado um senhor vassalo de Montezuma, a quem tinham por governador dos portos ao longo de toda a costa. Este já havia dado jóias e ouro a Narváez. Soube também que Narváez havia enviado mensagens a Montezuma, dizendo-lhe que iria soltá-lo e prender a mim e aos de minha companhia, devendo em seguida ir-se daqui. Sentindo o desserviço que ele preparara contra vossa majestade, resolvi seguir meu caminho e tentar demovê-lo de suas intenções. Quinze léguas antes de chegar à cidade de Cempoal, onde Narváez estava alojado, chegaram a mim dois clérigos deles, para um dos quais eu havia enviado a mesma carta que mandara ao licenciado Ayllón, e mais um tal de Andrés de Duero, vizinho da Ilha Fernandina. Disseram-me, de parte de Narváez, que eu deveria obedecê-lo, pois de outra maneira me faria grandes danos, visto que tinha grande poder em armas e gente e que a maioria dos nativos da terra estava a seu favor. E que se eu quisesse deixar aquela terra me daria navios e tudo o necessário para os que me acompanhassem. Eu respondi que não via documento de vossa majestade determinando que eu deveria entregar as terras e que se alguém o trazia que apresentasse a mim e ao cabildo de Vera Cruz, segundo ordem e costume de Espanha. Se me apresentassem o documento, eu o acataria imediatamente, mas, se não o fizessem, eu e os que estavam comigo estávamos dispostos a morrer em defesa destas terras, pois as havíamos conquistado e pacificado para vossa majestade e não poderíamos ser traidores e desleais para com nosso rei. Usaram ainda outros argumentos, mas não conseguiram me demover. Por fim, acertamos um encontro de Narváez, com dez homens, e eu com outros dez, para que ele me apresentasse a procuração que trazia, se é que trazia, e para que eu lhe respondesse. Todavia, antes que se procedesse o encontro descobri que ele pretendia se valer do mesmo para me matar, pois sentia que, uma vez que eu estivesse morto, todos iriam obedecê-lo. Mandei então uma carta a Narváez e outra ao religioso, dizendo que sabia de suas intenções e que não me encontraria com ele da forma como ficara acertado. E pedi a todas as pessoas que estavam com Narváez para que não o obedecessem e que deveriam comparecer ante mim para que eu lhes dissesse o que deveriam fazer em nome de vossa alteza, caso contrário estariam desobedecendo e traindo a seu rei e senhor. E que, se não fizessem isso, eu iria prendê-los e castigá-los. A resposta de Narváez foi prender o escrivão e as demais pessoas que eu enviei, até que chegassem outros emissários que mandei para me indagar dos primeiros. Voltou a fazer alarde de suas armas para estes, ameaçando matar toda minha gente se não entregássemos as terras. Visto que por nenhuma maneira eu conseguia evitar tão grande dano, encomendei-me a Deus e decidi correr o risco de morrer a serviço de meu rei, para defender e amparar suas terras e minha companhia. Assim, dei ordens a Gonzalo de Sandoval, aguazil maior, para prender Narváez e aos que se intitulavam alcaides e regedores. Dei-lhe oitenta homens e segui atrás com cento e cinqüenta — pois ao todo éramos duzentos e cinqüenta sem tiro de pólvora nem cavalo, para ajudá-lo no caso de Narváez e os outros resistirem à prisão.
No dia em que o aguazil maior e eu chegamos às cercanias da cidade de Cempoal, Narváez saiu a campo com quinhentos peões e oitenta a cavalo, deixando seu acampamento que era na mesquita maior da cidade, onde montara uma fortaleza. Chegou até uma légua perto de nós mas não nos encontrou. E como as informações que tinha sobre nossa ida eram dadas por índios, achou que estivessem sendo enganados e retornou. Como eu queria evitar maiores estragos, pareceu-me que o mais prático seria sair à noite, ir até os aposentos de Narváez e prendê-lo, pois com ele detido não haveria maiores problemas, visto que os demais queriam obedecer à justiça. Foi assim que no dia da Páscoa do Espírito Santo, à meia-noite, cheguei ao seu aposento, prendi um vigia mas o outro me escapou. Tratei de agir o mais rápido possível para chegar até Narváez antes do vigia que escapara, mas não foi possível. Quando cheguei, Narváez e os da sua companhia já estavam armados e com os cavalos encilhados. Para cada duzentos homens havia quatro vigias. Chegamos tão sem ruído que quando fomos percebidos eu já entrava pelo pátio do aposento e já tínhamos tomado três ou quatro torres da mesquita. Em uma delas Narváez estava abrigado e nos esperava com cinqüenta homens. Depois de muita luta o aguazil maior conseguiu prender Narváez, enquanto eu ficava defendendo a entrada das torres. Assim, com a morte de apenas dois homens, em cerca de uma hora eram presos todos os homens que deviam ser detidos. Todos os principais assessores de Narváez prometeram ser obedientes à justiça de vossa majestade, dizendo que até ali haviam sido enganados, pois lhes disseram que tinham mandato de vossa alteza e que eu era traidor e havia me alçado junto com os nativos. E como finalmente conheceram a verdade e as más intenções de Diego Velásquez e de Narváez, todos ficaram muito contentes, pois assim Deus havia determinado. Certifico a vossa alteza que se Deus, misericordiosamente, não nos tivesse dado a vitória, teríamos presenciado o maior confronto entre espanhóis e o maior dano que se poderia causar ao vosso reino, pois em vinte anos não teriam dominado esta terra que já estava conquistada e pacificada.
Dois dias depois da prisão de Narváez, enviei dois capitães, com duzentos homens cada um, para estabelecer o povoado no porto de Cucicacalco, que já me referi a vossa alteza, e outro para aquele rio que teria sido visto pelos navios de Francisco de Garay. Mandei ainda outros duzentos à vila de Vera Cruz para deter os navios de Narváez, ao passo que eu me detive em Cempoal para atender aos serviços de vossa majestade. Despachei ainda um mensageiro a Tenochtitlán para contar o que me havia sucedido. Ele voltou ao final de doze dias me trazendo uma carta do alcaide que ali havia deixado, contando que os índios haviam atacado a fortaleza, colocando fogo e fazendo armadilhas e que se viram em grande perigo e teriam sido mortos se Montezuma não mandasse parar o combate. Tinham ficado sem nenhuma provisão e sem os quatro bergantins, estando a passar muita necessidade. Em vista da necessidade dos espanhóis, que, se eu não socorresse, morreriam e com isso perderíamos todas as jóias, todo o ouro e toda a prata que havíamos conquistado, bem como aquela cidade maravilhosa, que era a maior e mais nobre que havíamos tomado, decidi mandar mensageiros a chamar os capitães que eu havia enviado para outros lugares. Pedi que todos se juntassem a mim na província de Tascaltecal. Ali conseguimos reunir quinhentos homens e setenta cavalos e com eles partimos com toda pressa para Tenochtitlán. No caminho, nenhuma pessoa de Montezuma veio me encontrar como acontecia antes, e toda a terra estava alvoroçada e quase despovoada, o que me provocou más suspeitas. Segui com todo o cuidado, temendo que os espanhóis tivessem sido mortos e que nos preparavam uma cilada. Cheguei até a cidade de Tescanan que, como já relatei a vossa alteza, fica na beira daquela grande lagoa. Ali perguntei a alguns nativos sobre os espanhóis que haviam ficado na grande cidade e estes me responderam que estavam vivos.
Quando eu me preparava para mandar emissários até Tenochtitlán, chegou pelo mar uma canoa com um espanhol vindo de lá, o qual contou que estavam vivos, com exceção de uns cinco ou seis que os nativos haviam matado, mas que eles estavam cercados na fortaleza, carecendo dos mantimentos essenciais, que os nativos só concordaram em entregar mediante um alto resgate. E que Montezuma dizia que esperava apenas pelo meu retorno para que todos pudessem voltar a andar pela cidade como antes. Junto com o espanhol veio também um emissário de Montezuma, o qual mandava me dizer que acreditava que eu já soubesse o que havia acontecido na grande cidade e, portanto, deveria estar revoltado e com intenção de represália, mas que ele pedia a mim que aplacasse a ira, porque tudo o que ocorrera fôra sem seu consentimento e que ele sentia muito por tudo isso. Pedia que eu fosse me hospedar na cidade e que ali só se faria o que eu mandasse. Eu mandei dizer-lhe que não trazia raiva nenhuma contra ele, porque conhecia sua boa vontade e que assim como ele dizia eu iria fazer.
No dia seguinte, que era véspera de São João Batista, parti e dormi no caminho a três léguas da grande cidade. Segui caminho no outro dia, depois de ouvida a missa, e ao meio-dia entrei na cidade, tendo visto pouca gente nas ruas, o que me deixou preocupado. Dirigi-me logo para a fortaleza e os que ali estavam nos receberam com enorme alegria, como se estivéssemos lhes devolvendo a vida. Ali permanecemos aquele dia e noite, acreditando que estava tudo tranqüilo. No outro dia, depois da missa, mandei um emissário a Vera Cruz para dar as boas novas de que os cristãos estavam vivos, que eu estava na cidade e que esta estava segura. Este mensageiro, no entanto, voltou meia-hora depois, todo ferido e esfarrapado, dizendo que os índios estavam em guerra e que haviam erguido todas as pontes. Logo atrás dele vinha uma multidão de nativos, que cobriu todas as ruas e terraços de casas. Era tamanha a gritaria que faziam que quase nos ensurdeciam e logo passaram a nos arremessar uma chuva de flechas e pedras que inundou o pátio da fortaleza. Eu saí da fortaleza, tendo mandado para um outro lado um capitão com duzentos homens. Este, no entanto, teve que se recolher logo, pois mataram quatro de seus homens e feriram muitos deles, inclusive ele próprio. Eu e meus homens também sofremos muitos ferimentos e conseguimos matar muito poucos índios, pois estes se protegiam nos terraços e dali nos lançavam as flechas e pedras. Na fortaleza ofereceram tão intenso combate e colocaram fogo em diversas partes que por pouco não foi toda consumida. Não fosse a guarda de escopeteiros, balisteiros e outros tiros de pólvora não teríamos conseguido resistir. Assim permanecemos lutando até a noite e mesmo quando esta já se fazia alta ainda se ouvia os gritos de alguns índios que tentavam voltar a atacar. Aproveitei a noite para reparar os estragos da fortaleza, principalmente os causados pelo fogo, e para tratar dos feridos, que eram mais de oitenta.
Logo que clareou o dia, os inimigos começaram a nos combater novamente, com tanta intensidade que, embora cada tiro dos nossos derrubasse doze ou quinze deles, não se percebia diferença, pois logo aquele espaço era ocupado por outros tantos. Eu deixei a fortaleza e saí às ruas, conseguindo tomar-lhes algumas pontes e algumas casas, matando muita gente nestas. Mas eram tantos que por mais que matássemos pouca diferença fazia. Também feriram neste dia cinqüenta ou sessenta espanhóis, embora não tenha morrido nenhum dos nossos. Vendo o grande dano que o inimigo nos causava e vendo também que embora matássemos um bom número deles não fazia diferença, passamos aquela noite e o outro dia preparando três engenhos de madeira. Consistiam em grandes coberturas de madeira, onde iam dentro até vinte escopeteiros e balisteiros, os quais ficavam a salvo das pedras e flechas. Enquanto esta artilharia ia afastando e matando os índios, outros dos nossos homens iam avançando com machados e picaretas e destruindo as casas e barricadas que eles haviam montado nas ruas. Mas à medida que os nossos saíam da fortaleza os índios tentavam nela entrar, e tivemos muita dificuldade em protegê-la. Montezuma, que ainda estava preso com um filho seu e alguns senhores, pediu-me para deixá-lo subir até o terraço da fortaleza de onde falaria aos capitães daquela gente, pedindo-lhes que parassem a guerra. Eu concordei, mas bastou ele começar a falar para ser atingido por uma pedra, que provocou sua morte três dias depois. Estando ele morto, mandei levá-lo à sua gente e não sei o que fizeram com ele, salvo que a guerra não cessou, pelo contrário, continuou ainda mais intensa.

Neste dia, pediram-me que fosse conversar com certos capitães. Assim o fiz e trocamos muitas opiniões. Roguei-lhes que não lutassem comigo e que olhassem as obras que de mim haviam recebido e vissem como eu sempre os tinha tratado bem. A resposta deles era que eu fosse embora e deixasse a sua terra, que logo pararia a guerra. De outra maneira, continuariam lutando até terminar conosco ou morrerem todos eles. A mim pareceu que insistiam nisso para que eu deixasse a fortaleza com todos meus homens e eles nos matassem a todos. Respondi-lhes que não lhes rogava a paz por temor, mas por pena do dano que eu lhes causava e por me ver obrigado a destruir aquela cidade tão boa e bonita. Todavia me respondiam que não cessariam de me me guerrear enquanto não saísse da cidade.
Utilizando aqueles engenhos,[6] saí no outro dia para lhes tomar alguns terraços e pontes, levando junto três mil índios de Tascaltecal. Chegando a uma ponte, colocamos o engenho sobre uma sacada próxima, mas tantas eram as pedras que nos arremessavam que desconsertaram o engenho e mataram um espanhol e feriram muitos outros, sem que perdessem nenhum passo. Lutamos desde a manhã até o meio-dia e tivemos que nos recolher à fortaleza. Isto lhes deu tanto ânimo que chegaram quase até a nossa porta. Tomaram uma mesquita grande que ficava próxima e levaram para lá grande quantidade de alimentos e água, tendo colocado até quinhentos índios nas torres, com muitas lanças com ponta de ferro semelhantes às que usávamos, porém menos agudas na ponta. Dali conseguiram fazer muito dano à gente da fortaleza, pois estavam muito perto dela. Um grupo de espanhóis tentou tomar a torre da mesquita onde os índios se estabeleceram, mas estes eram tantos e lutavam com tanta bravura que à medida que os nossos tentavam subir a escada iam sendo jogados para baixo. Esta ação deu muito ânimo para os demais índios, o que nos fazia sentir que se não tomássemos aquela torre eles iriam tomar nossa fortaleza. Mesmo estando ferido na mão esquerda, decidi reunir um grupo para atacar a torre da mesquita. Nossa primeira ação foi cercar a base da torre, onde, apesar de manter isolados os que estavam dentro, éramos atacados por todos os lados. Comecei a subir a escada sendo seguido pelos espanhóis. Eles conseguiram abater três ou quatro dos nossos, mas com a ajuda de Deus e de sua gloriosa mãe, cuja imagem havíamos colocado naquela torre, conseguimos subir até o primeiro dos vários terraços que possuía a torre ao longo de sua altura. Lutamos ali mais de três horas, até que conseguimos derrubar os índios, que eram mortos pelos espanhóis que estavam na base. Mandei colocar fogo naquela torre e nas demais da mesquita, de onde já havíamos retirado as imagens que havíamos posto. Perderam muito de seu orgulho ao tomarmos a fortaleza. Aproveitei para subir ao terraço e falar aos capitães, com quem antes conversara, e que já estavam muito desanimados. Disse para eles que olhassem como não podiam acabar conosco, pois continuávamos a lhes fazer grandes danos e todos os dias morriam muitos deles. E que continuaríamos a queimar e destruir suas casas e cidades até que não sobrasse coisa alguma. Eles me responderam que percebiam o grande dano que sofriam e que morriam muitos dos seus, porém, permaneciam determinados a lutar até acabar conosco ou morrerem todos. E que eu olhasse por aquelas ruas, praças e terraços e verificasse quão cheias estavam e que eles já haviam feito a conta, que podiam morrer vinte e cinco mil deles para um dos nossos que assim mesmo acabariam conosco, pois éramos poucos e eles muitos. Fizeram-me saber mais, que haviam destruído todas as passagens de saída da cidade, exceto uma. Que não poderíamos sair a não ser por água e que sabiam que tínhamos poucos mantimentos e pouca água doce, o que faria com que, mesmo que não nos matassem, viéssemos a morrer de fome e sede. Na verdade, eles tinham razão, pois, mesmo que não tivéssemos mais guerra, bastaria a fome e a sede para morrermos em breve tempo. Passamos muito tempo argumentando uns para os outros sem que chegássemos a um acordo. Quando chegou a noite, saí com alguns espanhóis e, tomando-os descuidados, conquistei-lhes uma rua, onde queimamos mais de trezentas casas e alguns terraços que estavam situados próximos à fortaleza e de onde nos causavam danos. Com a ação desta noite conseguimos causar-lhes grande temor. Aproveitei a mesma noite para mandar consertar os engenhos que eles haviam danificado.
Para seguir a vitória que Deus nos dava, saí ao amanhecer por aquela rua que conquistáramos, que era a única em que estava intacta a calçada que levava à terra firme, embora para chegar até lá houvesse oito pontes muito grandes e muitas torres e terraços ao longo do caminho. Com muita determinação, ânimo e ajuda de Nosso Senhor, ganhamos aquele dia quatro das pontes e colocamos fogo em todas as torres e terraços ao longo do caminho. Isso apesar de, na noite anterior, eles terem feito junto às pontes barricadas de tijolo e barro, de modo a se protegerem de nossos tiros de balista. Tomei todas as precauções na noite seguinte de colocar guardas protegendo aquelas pontes conquistadas. No outro dia, tornei a sair e Deus mais uma vez nos deu boa sorte e vitória, tendo conquistado todas as outras pontes que faltavam. Estando eu preparando aquelas pontes para serem destruídas, chegaram alguns dos nossos a cavalo informando que os que estavam na fortaleza estavam sendo combatidos, mas que os capitães dos índios pediam paz e me esperavam para conversar. Deixando ali toda a gente, segui com apenas mais dois a cavalo para ver o que aquela gente queria. Eles me disseram que, se eu lhes assegurasse que não seriam punidos, mandariam levantar o cerco, reconstruir as pontes destruídas e voltariam a servir a vossa majestade como faziam antes. Pediram-me que fizesse chegar até ali um religioso seu que eu prendera e que era como um general daquela região. Este veio e conseguiu a mediação entre eles e eu. E logo, assim pareceu, enviou mensageiros aos capitães de outras estâncias pedindo que cessassem a guerra. Com isso nos despedimos e eu fui para a fortaleza comer. Mal havia começado a refeição e chegaram espanhóis a muita pressa dizendo que os índios haviam tornado a ganhar as pontes, matando alguns dos nossos. Só Deus sabe com quanta revolta recebi a notícia. Cavalguei com a maior pressa que pude, com outros a cavalo me seguindo, e sem deter-me em nada irrompi entre os índios e tornei a conquistar-lhes as pontes, indo ao encalço deles até terra firme. Como os peões estavam cansados, feridos e atemorizados, nenhum me seguiu. Em vista disto, quando quis voltar depois de passar as pontes, encontrei todas cheias de índios. Da mesma forma estavam repletas as ruas e a água, onde ficavam nas canoas. Todos passaram a apedrejar a mim e aos poucos que me acompanharam a cavalo desde a fortaleza e só Deus misericordioso pôde me salvar, mas quando cheguei à cidade encontrei caídos todos os que iam a cavalo comigo. De modo que não pude passar e tive que ir só contra todos meus inimigos. Todavia, consegui abrir uma brecha e passar, embora tivesse que dar um grande salto com o cavalo.
Assim, terminaram aquela noite com vitória, tendo reconquistado aquelas quatro pontes, embora eu mantivesse o controle sobre outras quatro. Mas vendo o perigo que corríamos e a possibilidade de os índios destruírem a única passagem que ainda restava para terra firme, e ainda pelo fato de os nossos estarem já muito esgotados pelos combates, mandei construir uma ponte de madeira que deveria ser carregada por quarenta homens. Reuni todo o ouro e jóias destinados a vossa majestade em uma sala e os entreguei aos cuidados dos oficiais de vossa alteza. E em seu real nome, roguei a todos os alcaides e regentes que ali estavam que me ajudassem a salvar este tesouro. Destaquei alguns criados meus para ajudarem a carregar o ouro e jóias. Assim, deixamos desamparada a fortaleza com muitas riquezas, tanto vossa como dos nossos espanhóis e minha. Saí o mais secretamente que pude, levando comigo um filho e duas filhas de Montezuma, além de Cacamacín, senhor de Aculuacan, um outro seu irmão que eu havia posto em seu lugar, bem como outros senhores de províncias e cidades que eu mantinha presos. Ao chegar à primeira das pontes que os índios haviam destruído, colocamos a que havíamos feito e passamos sem dificuldades. Mas na segunda já encontramos uma multidão pela frente e tivemos que lutar. Para não perdermos tempo, eu passava pela água, a nado, juntamente com a maior parte dos meus, ao passo que os cavalos e cargas iam pela ponte. Apesar dos combates, conseguimos chegar a terra firme. Voltei então à retaguarda e vi que ali ainda se travava grande combate e que os espanhóis e os índios de Tascaltecal que nos acompanhavam estavam levando a pior. Havíamos perdido todo o ouro, jóias, roupas, a artilharia e muitas outras coisas que trazíamos. Mandei recolher os feridos e com três ou quatro a cavalo e vinte peões que ousaram ficar comigo, saí ao encalço dos índios, até chegar à cidade de Tacuba. Em umas lavouras nos arredores dessa cidade fiquei esperando pelos nossos, que tiveram que continuar lutando até chegar ali, ficando pelo caminho o restante do ouro que trazíamos. Dali resolvemos tomar um morro onde existia uma torre e um local próprio para acampar com segurança. Mas só Deus sabe o sofrimento que foi para cumprir esta tarefa, porque não havia cavalo, dos vinte e quatro que nos restavam, que pudesse correr, nem cavaleiro que pudesse levantar o braço, nem peões que pudessem manear. Mesmo assim chegamos ao topo do morro, nos estabelecemos, mas os índios nos cercaram e não nos deixaram descansar uma hora sequer até a noite. Depois de cessados os combates, resolvemos fazer o levantamento de nossas perdas e constatamos que morreram cento e cinquenta espanhóis, quarenta e cinco cavalos e mais de dois mil índios que serviam aos espanhóis, entre eles o filho e as filhas de Montezuma e os demais senhores que trazíamos junto. Naquela mesma noite, à meia-noite, saímos do acampamento silenciosamente, para não sermos percebidos, deixando algumas fogueiras acesas. Todavia, não sabíamos para onde íamos, a não ser pelas indicações de um índio de Tascaltecal, que prometeu nos guiar até suas terras se não nos impedissem o caminho. Os índios, porém, haviam colocado guardas para nos vigiar e estes perceberam que saímos. Eles nos seguiram até a alva, quando cinco dos nossos que iam a cavalo pela frente deram com um batalhão de índios que os atacou. Como vi que por todas as partes apareciam índios, resolvi distribuir nossa gente em quatro batalhões, um na frente, um atrás e um em cada lado, ficando os feridos no meio. Lutamos o dia todo e quis Nosso Senhor que a noite caísse e os combates cessassem e nós avistássemos um outro morro com uma torre e um lugar ótimo para acampar.

Parti no outro dia, uma hora depois de clarear, levando a dianteira e a retaguarda bem protegidas. Os índios nos seguiam e nos atacavam. Mas a cada arremetida que fazíamos com os cavalos eles se afastavam. Seguimos aquele dia algumas léguas até encontrar um povoado, cujos habitantes haviam se afastado. Ali pudemos descansar, comer algum milho e levar um pouco cozido ou tostado para comer no caminho. No outro dia, seguimos o caminho ditado pelo índio de Tascaltecal, mas sempre acompanhados pelos nativos, que com freqüência nos davam combate. Assim seguimos mais alguns dias e noites, até que nos mataram outro cavalo, o que foi muito sentido pois, depois de Deus, era a maior segurança que tínhamos. Todavia, pudemos aproveitar sua carne para saciar nossa fome e não deixamos para trás nem o couro. Vendo que a cada dia aparecia mais gente para nos atacar e nós sofríamos mais perdas, determinei a feitura de muletas para os feridos andarem, deixando livres os cavalos e homens que os conduziam em macas, para que pudessem também lutar. E parece que o Espírito Santo me dera um aviso com a idéia que tive, pois no outro dia foram tantos os índios que nos cercaram por todos os lados como nunca tínhamos visto antes. Mas quis Nosso Senhor mostrar seu grande poder e misericórdia para conosco, pois com toda sua grandeza conseguimos reunir forças e quebrar sua resistência, embora eles fossem tantos que chegavam a bater uns nos outros, a ponto de se estorvarem mutuamente. E assim fomos batalhando e quis Deus que morresse uma pessoa deles que devia ser a principal, pois logo cessaram os combates.
Assim seguimos mais descansados até uma pequena casa onde nos estabelecemos, junto a uma colina. Dali divisamos algumas serras da província de Tascaltecal, o que causou enorme alegria em nossos corações, pois já conhecíamos aquela terra e sabíamos por onde deveríamos sair. Permanecia, contudo, o temor de que os nativos daquelas terras, nos vendo tão debilitados, quisessem nos matar e adquirir a liberdade que antes tinham. No clarear do dia seguinte, seguimos nosso caminho, e agora já éramos seguidos por muito poucos dos nossos inimigos, embora houvesse inúmeras povoações deles pelas proximidades. E assim neste dia, que era um domingo, 8 de julho, saímos das terras de Culúa e chegamos à província de Tascaltecal, num povoado desta chamado Gualipán, de três ou quatro mil índios, onde fomos muito bem recebidos. Ali conseguimos descansar e matar a fome, embora tudo que adquiríamos tivesse que ser pago com ouro. Permaneci três dias neste povoado e ali vieram me ver Magiscacin e Sicutengal e todos os senhores daquela província e da de Guasucingo, os quais mostraram muita pena pelo que nos havia acontecido, e trataram de me consolar dizendo que muitas vezes haviam alertado que os de Culúa eram traidores, mas que eu deveria me alegrar por estar vivo. E disseram que me ajudariam até morrer para me recuperar do dano sofrido, porque, além de obrigar aqueles a serem vassalos de vossa alteza, lhes doía muito o grande número de seus irmãos que morreram lutando em minha companhia, bem como pesavam as injúrias de tempos passados que haviam recebido daquela gente. Disseram ainda que, como vínhamos com muitos feridos e todos muito cansados de guerra, que fôssemos até uma cidade que dista quatro léguas que ali poderíamos descansar e nos recuperar em boas condições. Eu aceitei o convite e lhes presenteei com algumas jóias que haviam escapado às perdas que sofremos, com o que ficaram muito contentes. Fomos para a cidade e recebemos cama, roupa e comida farta. Quando havíamos passado anteriormente por esta cidade, rumo a Tenochtitlán, eu havia deixado ali alguns criados e alguns enfermos, com roupas minhas, prata e sete mil pesos em ouro fundido. Soube que depois disto vieram outros criados meus de Vera Cruz e haviam levado estes para lá, porém, no caminho, foram atacados e mortos pelos índios de Culúa. Soube também que morreram muitos espanhóis que se dirigiam para Tenochtitlán achando que eu estava pacificamente na cidade. Fiquei vinte dias nesta província de Tascaltecal tratando dos enfermos, mesmo assim alguns morreram, outros resultaram mancos e eu mesmo fiquei manco dos dedos da mão esquerda.
Apesar de todo o desgaste da guerra, eu não queria demonstrar fraqueza aos de Tascaltecal, que poderiam se confederar com os inimigos para nos me liquidar. Procurando mostrar força e confiando na grandíssima bondade e misericórdia de Deus, que não permitiria que perdêssemos tão maravilhosa terra que havíamos conquistado para vossa majestade, resolvemos voltar a atacar os de Culúa numa província próxima chamada Tepeaca. E assim lutamos e derrotamos os inimigos dessa província, fazendo com que os principais senhores dela viessem se oferecer como vassalos de vossa alteza, deixando em nós a convicção de que, com a ajuda de Nosso Senhor, as demais províncias em breve estarão submetidas ao real domínio de vossa majestade. Fiz muitos escravos nestas províncias — dos quais dei o quinto para os oficiais de vossa majestade — para provocar medo nos de Culúa e porque há gente que, se não provocarmos grande e cruel castigo, não se emenda jamais. Para manter a segurança, fiz estabelecer nessa província um povoado ao qual dei o nome de Vila Segura da Fronteira, nomeei alcaides, regedores e outros oficiais e providenciei a vinda de material para fazer uma fortaleza.
Estando a escrever este relato, chegaram a mim certos mensageiros do senhor de uma cidade situada a cinco léguas desta província e que se chama Guacachula e que é a entrada de uma passagem para entrar na província do México. Disseram-me que vinham comunicar a obediência de seu senhor a vossa majestade, me fazendo saber também que nas suas terras estavam estabelecidos alguns capitães de Culúa. E que a uma légua dali estavam trinta mil homens em guarnição, prontos para evitar a minha passagem por ali e para impedir que os nativos da cidade prestassem serviços a vossa alteza. Vinham, portanto, me alertar e pedir minha ajuda para se livrarem daquela gente que lhes maltratava e roubava suas mulheres e suas fazendas. Depois de agradecer seu aviso e oferecimento, dei-lhes treze homens a cavalo, duzentos peões e trinta mil índios de nossos amigos, combinando que chegariam à cidade e prenderiam os capitães antes que a gente desses pudesse se aperceber. No caminho, os espanhóis passaram pela cidade de Churultecal e por uma parte da província de Guasucingo que divisa com as terras de Guacachula, estando a quatro léguas da cidade. Em algum povoado da província de Guasucingo os espanhóis ficaram sabendo que os nativos desta província estavam confederados com os de Guacachula e com os de Culúa, tendo planejado arrastar os espanhóis até suas terras para os matar. Como ainda não havia passado o pavor que os de Culúa impuseram aos espanhóis, esta informação causou grande pavor, fazendo com que logo prendessem aqueles senhores de Guasucingo que iam com eles, bem como os mensageiros de Guacachula. Voltaram até a cidade de Churultecal e dali me enviaram todos os presos, juntamente com os que iam a cavalo e os peões. Escreveu-me ainda o capitão que os nossos estavam muito temerosos, que aquela jornada lhes parecia muito dificultosa.
Chegados os presos, falei-lhes através dos intérpretes que tinha e me pareceu que o capitão não os havia entendido bem. Mandei soltá-los e os satisfiz dizendo-lhes acreditar que eram leais vassalos de vossa alteza e que eu queria ir em passos desbaratar aqueles de Culúa. E para demonstrar força, tanto aos meus amigos como aos meus inimigos, parti naquele momento e naquele mesmo dia cheguei à cidade de Churultecal, que está a oito léguas de distância. No dia seguinte, fui dormir na cidade de Guasucingo e, depois de ter acertado com os mensageiros de Guacachula como deveríamos entrar na cidade, parti para ela uma hora antes do amanhecer. Cheguei lá quase às dez da manhã. Meia légua antes da chegada vieram certos mensageiros da cidade e me disseram como estava tudo bem preparado, sendo que os de Culúa não sabiam nada de nossa vinda, pois tiveram o cuidado de prender os espiões que aqueles haviam deixado para detectar qualquer presença de espanhol. Procurei então apressar, pois íamos por um plano e poderíamos ser vistos. Quando estava a tiro de balista da cidade já vieram me trazer cerca de quarenta capitães de Culúa que haviam prendido. Mas por toda a cidade ainda continuavam lutando e caçando os capitães de Culúa, não tendo sobrado quase nenhum vivo para que me informasse quem havia assumido o comando depois da morte de Montezuma. Alguns, no entanto, conseguiram fugir e avisar os trinta mil que estavam em guarnição nas cercanias da cidade, os quais logo vieram para lutar, começando por incendiar a cidade pela parte por onde entravam. Era a gente mais bem vestida que havia por aqui, pois traziam muitas plumagens e jóias de ouro e prata. Saí contra eles apenas com os cavalos, já que os peões estavam muito cansados, e os fizemos recuar, encurralados contra uma serra. Logo em seguida vieram em nosso auxílio os índios da cidade que estavam descansados, com o que conseguimos provocar enormes danos no inimigo. Voltamos à cidade e fomos muito bem recebidos, tendo passado três dias ali.
Neste meio tempo, vieram se oferecer ao real serviço de vossa majestade os nativos de uma população situada duas léguas acima da serra onde combatemos nossos inimigos. Disseram que o seu senhor havia se ido com os de Culúa, temendo que não parássemos até invadir seu povoado, que se chama Ocupatuyo. Disseram que há muito que queriam vir se oferecer como vassalos de vossa majestade, mas que aquele senhor não os deixava. Todavia, agora haviam colocado no comando um irmão daquele senhor que concordava com a sua proposição. Como tal, me rogavam que, mesmo que o outro voltasse, não o aceitasse como senhor daquele povoado. Eu lhes disse que, como sempre estavam aliados aos de Culúa, eu pensava eliminar suas pessoas e fazendas, mas, diante desta mudança, em nome de vossa majestade eu lhes perdoava o erro passado e os admitia ao real serviço do soberano de Espanha.
Depois de ter repousado três dias nesta cidade, fomos para outra chamada Izzucan e distante quatro léguas, porque fui informado que ali havia muita gente de Culúa em guarnição e que o senhor dela era parente de Montezuma. Seguiu tanta gente dos nativos em minha companhia, todos que haviam se tornado súditos de vossa alteza, que quase cobriam os campos e serras por onde nos alcançava a vista. Na verdade, eram mais de cento e vinte mil homens. Quando chegamos, encontramos a cidade despovoada de mulheres e crianças, havendo a defendê-la uns cinco ou seis mil homens de guerra muito bem apetrechados. Porém em pouco tempo os desbaratamos e entramos na cidade. Mandei dois nativos falarem com os senhores principais, porque o senhor principal dela havia se ido com os de Culúa. Prometi-lhes que se se tornassem vassalos de vossa majestade seriam muito bem tratados. Três dias depois, vieram algumas pessoas principais e pediram perdão, dizendo que haviam feito o que o seu senhor lhes determinara, mas que dali em diante passavam a servir a vossa majestade muito lealmente. Pedi-lhes então que fizessem voltar à cidade as mulheres e crianças, para que a vida normal se restabelecesse. E assim foi feito. Em dois dias tudo se normalizou, voltando a se povoar a cidade de Izzucan, e seus habitantes passaram a ser confederados com os de Guacachula. A cidade de Guacachula era cercada por um muro muito forte de cal e canto, sendo que por fora este muro era tão alto como quatro estados [antiga medida correspondendo à altura de um homem], enquanto que por dentro estava quase que ao nível do solo. Por toda sua volta havia grande quantidade de pedras, com o que lutavam. A cidade tinha quatro entradas e havia de cinco a seis mil vizinhos. Já Izzucan tinha de três a quatro mil vizinhos e mais de cem mesquitas e oratórios, todos muito fortes, com suas torres que foram queimadas. Está situada em um plano, à beira de um morro onde há uma fortaleza muito segura, enquanto que do outro lado corre um rio muito profundo. Tem um vale fértil em frutas e algodão.
Fiquei em Izzucan até deixá-la povoada e pacificada, tendo recebido ali a visita de senhores de outras cidades e províncias, que vieram se oferecer como vassalos de vossa alteza. Veio o senhor da cidade de Guasucingo, que está a dez léguas, na fronteira das terras do México. Também vieram os senhores de oito povoados da província de Coastoaca, a qual está a quarenta léguas de Izzucan. Disseram que outros quatro também viriam, pois todos queriam se tornar vassalos de vossa alteza, não o fazendo antes por temor dos índios de Culúa. Desta maneira pode vossa alteza estar certa de que, sendo Nosso Senhor servido em sua real ventura, em muito breve tempo se tornará a ganhar tudo o que havíamos perdido, pois todos os dias vêm novas pessoas se oferecer como vassalos de vossa alteza.
Dos que foram presos na cidade de Guacachula consegui saber as novidades sobre a grande cidade de Tenochtitlán e como depois da morte de Montezuma se tornara senhor um seu irmão chamado Cuetravacin, e que este estava fortalecendo a cidade, construindo muitas cercas e covas com lanças pontiagudas para servirem de armadilhas para os cavalos. Também preparavam lanças para atirar contra os cavalos. Além disso, soube depois que ele havia comunicado a todos os senhores de cidades e províncias que lhes concederia um indulto de um ano em tributos e serviços que deveriam prestar, caso se dispusessem a lutar contra os cristãos até nos matar a todos.
Tenho muita confiança em Nosso Senhor para afirmar que em nada prevalecerão suas intenções. De minha parte, estou me preparando para voltar àquela cidade de Tenochtitlán. Enviei à Ilha Espanhola quatro navios para que logo voltem carregados de cavalos e gente para nosso socorro. Enviei outros quatro à mesma Ilha Espanhola e cidade de Santo Domingo a comprar cavalos, armas e pólvora, porque isso é o mais necessário por estas partes. Ao mesmo tempo, estou construindo doze bergantins para entrar pela lagoa e reconquistar Tenochtitlán. Certifico a vossa majestade de que até conseguir este fim não terei descanso, mesmo que tenha que enfrentar o maior perigo e o mais difícil trabalho. Para isso esperamos que Nosso Senhor venha a suprir nossas forças e que chegue o socorro que peço à Ilha Espanhola.
Pelo que tenho visto, existe muita similaridade entre esta terra e a Espanha, tanto em grandeza, fertilidade e frio, além de outras coisas. Por isso me pareceu conveniente dar o nome a esta terra de Nova Espanha do mar oceano. Assim, em nome de vossa majestade coloquei este nome e peço humildemente que o aceite. Também torno a suplicar para que dê crédito ao que relato e escrevo, pois tenho procurado ser o mais fiel possível aos acontecimentos.
Mui alto e mui excelentíssimo príncipe: que Deus Nosso Senhor conserve e aumente por longos anos a vida de vossa sacra majestade e real pessoa, com o acréscimo de muitos e maiores reinos conforme vosso sacro coração deseja.” (Cortez, 2008, p. 69–89)
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“Esta cidade de Iztapalapa tem cerca de dez mil vizinhos e está com a metade ou até duas terças partes dentro d’água. O senhor dela era irmão de Montezuma, a quem os índios haviam eleito depois da morte daquele, por ser quem se tornara nosso principal combatente e quem nos lançara para fora da cidade. Duas léguas antes de chegar à cidade, no entanto, já começamos a lutar com os inimigos que nos esperavam pelo caminho. Alguns por terra e outros em canoas pela água. Fomos lutando até chegar à cidade. Dois terços de légua antes da cidade, eles haviam rompido uma barragem que separava a lagoa de água doce da de água salgada. Aberta a dita barragem, começou com muito ímpeto a correr a água da lagoa salgada para a doce, embora estejam distantes uma da outra mais de meia légua. Não percebendo aquela estratégia, segui meu caminho com a cobiça da vitória. Como estavam de sobreaviso, quando chegamos todas as casas estavam abandonadas e toda a gente recolhida às casas da lagoa. Lutaram conosco bravamente, mas quis Nosso Senhor dar tanta força aos seus que entramos pela água até o peito e fomos conquistando a vitória. Matamos mais de seis mil índios entre homens, mulheres e crianças, número que se tornou considerável em vista da ação dos índios nossos amigos, os quais, vendo como íamos conquistando a vitória, iam matando a torto e a direito. Quando chegou a noite, recolhi a minha gente e pus fogo em algumas casas. Enquanto estas queimavam, parece que Deus me inspirou e me trouxe a lembrança da barragem que fôra rompida no caminho, fazendo com que eu percebesse o grande perigo que corria. Reuni imediatamente todo o pessoal e o mais depressa procurei sair da cidade, embora já fosse noite escura. Quando cheguei àquela água já deveria ser umas nove horas. Corria tanta água e com tanta força que passamos nadando, tendo se afogado muitos índios nossos amigos e tendo se perdido tudo o que havíamos trazido da cidade. Certifico a vossa majestade de que, se tivéssemos esperado três horas mais, ninguém de nós teria escapado, pois ficaríamos tomados pela água e sem passagem nenhuma. Quando amanheceu, vimos como a água havia tomado conta de tudo.” (Cortez, 2008, p. 100–101)
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“Ao saber que em três dias os treze bergantins estariam prontos, enviei a buscá-los Gonzalo de Sandoval com quinze a cavalo e duzentos peões. E mandei que no caminho eles destruíssem um grande povoado subjugado à cidade de Tezcuco e limitando com a província de Tascaltecal, porque os nativos dali me haviam matado cinco cavaleiros e seus cavalos e mais quarenta e cinco peões, que vinham de Vera Cruz para Tenochtitlán, quando eu estava cercado naquela grande cidade. Em outra ocasião, quando voltamos a Tezcuco, encontramos naquele povoado, em seus adoratórios e mesquitas, o couro de nossos cavalos, as roupas e as coisas de nossos espanhóis e o sangue destes derramado em homenagem aos ídolos daquele povo. Quando o aguazil maior chegou ao povoado, os índios se puseram em fuga, pois conheciam muito bem sua mão de ferro. Ele perseguiu e matou muitos, só não fazendo um número maior por compaixão. Prendeu muitas mulheres e crianças, que transformou em escravos. Hoje o povoado está novamente habitado e tranqüilo. Dali o aguazil foi adiante umas cinco ou seis léguas, a um povoado de Tascaltecal, que é o mais próximo aos limites de Culúa, onde encontrou os espanhóis que traziam os bergantins.” (Cortez, 2008, p. 105–106)
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“Enquanto isso, o aguazil maior soube que em um povoado mais distante chamado Acapichtla havia muita gente de guerra dos inimigos e resolveu ir até lá. O povoado era situado num lugar alto, o que os deixava fora do alcance dos cavalos. Logo que os espanhóis chegaram, os do povoado começaram a pelejar com eles, lançando pedras e flechas. Sentiu o aguazil maior que só lhe restava tentar subir ao povoado ou morrer. E quis Deus dar-lhes tanta força que apesar da grande resistência conseguiram chegar até lá, embora tivessem muitos feridos. E como os índios nossos amigos os seguiram, foi tanta a matança que provocaram, que um pequeno rio que margeava aquele povoado ficou por mais de uma hora tingido de sangue, impedindo que as pessoas pudessem ali beber água, o que foi terrível pois fazia muito calor. Concluindo sua tarefa, deixando estes dois povoados em paz, embora bem castigados, o aguazil maior retomou para Tezcuco. Creia vossa católica majestade que esta foi uma vitória digna de ser assinalada, onde os espanhóis mostraram singularmente seu esforço. Depois disso, o aguazil maior voltou ainda outras vezes a lutar ao lado dos de Calco contra os de Tenochtitlán e de México, o que deixo de relatar para não ser prolixo.” (Cortez, 2008, p. 109–110)
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“Dali passei a um povoado chamado Yautepeque, onde nos esperava muita gente de guerra, a qual fugiu com a nossa chegada. Perseguimos esses nativos até um outro povoado, Gilutepeque, onde os alcançamos e matamos muitos. Estive dois dias nesse povoado, esperando que o senhor dele viesse se dar por vassalo, mas, como não veio, coloquei fogo nas casas e fomos embora.” (Cortez, 2008, p. 113)
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“No outro dia, sabendo que já estávamos em Suchimilco, os nativos de Tenochtitlán e México decidiram vir sobre nós com grande poder por terra e água. Subi em uma torre de seus ídolos para observá-los e decidi sair ao seu encontro. Por água vinham com uma frota de mais de duas mil canoas e doze mil homens de guerra, enquanto que pela terra vinham com tanta gente que cobriram todo o campo. Os capitães deles, que vinham na frente, brandiam as espadas que haviam tirado de nós em Tenochtitlán, quando de nossa derrota anterior. Vinham todos gritando: ‘México, México; Tenochtitlán, Tenochtitlán’, além de muitas injúrias e ameaças para nós. Determinei a todos os nossos por onde deveríamos atacar e saí com vinte a cavalo e quinhentos índios de Tascaltecal. Como nos dividimos, cada esquadrão atacou o inimigo por um flanco, e conseguimos desbaratá-los, matar muitos deles e nos reunimos ao pé de um morro muito íngreme. Mandei que uma guarnição o escalasse pela parte mais difícil, enquanto fui pelo outro lado com os cavalos. Quando o inimigo viu a subida dos nossos, tentou fugir pelo outro lado e deu de cara conosco. Em pouco tempo matamos mais de quinhentos deles, enquanto os outros fugiram para a serra. Pelas dez horas voltamos para Suchimilco, onde encontramos os espanhóis ansiando por nossa volta, pois tiveram que enfrentar muitos inimigos em nossa ausência. Quando chegávamos na cidade, vieram nos receber e me entregar duas espadas nossas que haviam retomado aos de Tenochtitlán. Neste meio tempo, surgiu sobre nós, de repente, uma enorme quantidade de inimigos fazendo grande alarido. Apesar da surpresa, conseguimos derrotá-los e entramos na cidade para descansar. Mandei queimar todas as casas, com exceção daquelas onde ficaríamos. Permanecemos ali três dias e durante todos eles tivemos combate. Depois de destruirmos o restante da cidade, fomos embora.
Quando partimos, os nativos de Suchimilco entenderam que o fazíamos por medo deles e vieram ao nosso encalço, nos atacando pela retaguarda. Mas bastou dez a cavalo saírem sobre eles para fazê-los recuar e nos deixar seguir o caminho. Às dez horas, chegamos à cidade de Cuyoacán, que está a duas léguas de Suchimilco e a duas léguas de Tenochtitlán, bem como de uma série de outras cidades que também estão sobre o lago. Nos estabelecemos em Cuyoacán e fui a Tenochtitlán observar as posições da cidade para a entrada dos bergantins. Vimos ali um número infinito de canoas e de gente de guerra e fomos forçados a entrar em combate com eles, o qual foi muito difícil, pois, embora tenhamos vencido, tivemos dez homens feridos, ao passo que os balisteiros e escopeteiros ficaram sem pólvora e sem flechas. Dali conseguimos ver como era uma das calçadas que iam direto pela água até chegar a Tenochtitlán, o que dava bem uma légua e meia. Também observamos a outra que ia dar em Iztapalapa, todas elas completamente cheias de gente. Como meu objetivo era só fazer observação naquele momento, nos retiramos. Mas tendo ainda que enfrentar o inimigo, o que se deu no plano, sendo, portanto, bem fácil para a ação dos nossos cavalos, isso não nos causou maiores problemas, a não ser o seqüestro de dois criados meus, o que me deixou preocupado porque, além de cristãos, eram muito valentes soldados e só Deus sabe o tipo de morte que eles dão aos seus inimigos. Saídos desta cidade, começamos a seguir nosso caminho até encontrar nossa gente, quando fiquei sabendo com detalhes como haviam levado os dois mancebos. Para vingar suas mortes e porque nos seguiam com o maior orgulho do mundo, me coloquei em cilada com vinte a cavalo atrás de umas casas. Como os índios não faziam outra coisa do que seguir nossa gente, deixei-os passar e depois de me invocar o nome do apóstolo São Tiago caímos em cima deles e, antes que pudessem se estruturar, matamos mais de cem principais e os mais lúcidos deles, com o que deixaram de nos seguir.” (Cortez, 2008, p. 115–117)
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“A outra etapa do que fôra planejado foi cumprida pelo aguazil maior, Gonzalo de Sandoval, que tomou a cidade de Iztapalapa, fazendo com que a população se recolhesse à água com suas canoas. Ao mesmo tempo em que o aguazil maior combatia em Iztapalapa me meti nos bergantins, com a força de velas e remos. No caminho, chegamos à vista de um morro muito alto, situado próximo da cidade, e que estava cheio de gente dos povoados que rodeavam a lagoa, bem como de Tenochtitlán. De cima do morro davam muitos gritos e faziam fogueiras para avisar os da cidade sobre a nossa chegada. Embora meu objetivo fosse chegar até a cidade, resolvi ir combatê-los. Levei cento e cinqüenta homens e, embora com muita dificuldade, subimos o morro e os matamos a todos, exceto mulheres e crianças. Neste combate me feriram vinte e cinco espanhóis, mas foi uma bela vitória.
Como os de Iztapalapa haviam dado o aviso, os de Tenochtitlán logo se lançaram à água à espera da chegada de nossos bergantins. Juntaram uma frota tão grande que tinha seguramente mais de quinhentas canoas. Como os bergantins eram a chave de toda a guerra que iríamos travar, necessitava conquistar uma vitória contundente de início. E quis Nosso Senhor nos dar a maior e melhor vitória que poderíamos obter, fazendo soprar um vento forte e favorável que ajudou o movimento dos bergantins, que se meteram por entre as canoas, com o que quebramos e viramos muitas delas, matando a tiros e afogamento os inimigos e fazendo com que os demais se refugiassem na cidade. Era das coisas mais raras do mundo para se ver. A ação dos treze bergantins provocou enorme contentamento nas guarnições que estavam em Tacuba e Cuyoacán, pois estas ansiavam pela minha chegada, pois estavam cercadas pelos inimigos.
Vendo que os bergantins seguiam os inimigos até a cidade, a guarnição de Cuyoacán tomou o caminho pelas calçadas e foi se defrontando com os de Tenochtitlán e lhes tomando a passagem. Nisso, mandei encostar os bergantins e desci pela calçada com trinta homens para ganhar algumas torres dos seus ídolos. Coloquei em terra três tiros grossos de ferro. Como restava daquele ponto da calçada até a cidade apenas meia légua, estava tudo repleto de gente. Mandei então disparar os tiros, fazendo muito dano no inimigo. Resolvi me estabelecer ali naquele ponto, tendo mandado uma embarcação a Cuyoacán buscar mais pólvora. À meia-noite veio contra nós uma multidão pelas calçadas e por água, mas como estávamos atentos os combatemos, embora surpresos, pois eles nunca haviam lutado durante a noite. Com o poder de fogo dos bergantins conseguimos desbaratá-los e evitar que chegassem perto de nós.
Durante os seis dias seguintes, continuamos lutando contra aquela multidão que vinha ao nosso encontro. Como os bergantins estavam de um lado da calçada e o outro estava repleto de canoas, fizemos uma brecha na calçada para servir de passagem, próximo ao nosso acampamento. Com isso, quatro bergantins foram lutar do outro lado, chegando até à orla da cidade. Neste mesmo período, o aguazil maior saiu de Iztapalapa para ir se estabelecer em Cuyoacán, tendo sido ferido no pé, por uma flecha, durante a luta travada ao longo de seu deslocamento. Como Pedro de Alvarado me falou sobre uma passagem que os de Tenochtitlán usavam para sair a terra firme, mandei que o aguazil maior se estabelecesse em um povoado que ficava perto daquela saída, para que eu tivesse a cidade cercada por todos os lados.
Eu tinha, mui poderoso senhor, no acampamento real da calçada, duzentos peões espanhóis, sendo vinte e cinco escopeteiros ou balisteiros, sem contar os duzentos dos bergantins. Com isso me determinei a entrar na cidade o mais que pudesse, contando com o apoio dos barcos. Deixei dez a cavalo na retaguarda para evitar a vinda dos nativos das cidades de Suchimilco, Culuacán, Iztapalapa, Chilobusco, Mexicalcingo, Guitaguaca e Mizquique que ficam na água. Mandei também que Gonzalo de Sandoval e Pedro de Alvarado atacassem a cidade ao mesmo tempo, porque com isso eu teria que me defrontar com menor número de inimigos e poderia penetrar mais profundamente na cidade. Assim, fui avançando com a ajuda dos bergantins e de oitenta mil homens de guerra de Tascaltecal, Guasucingo, Calco e Tezcuco. Para bloquear nossa passagem, o inimigo bloqueara pontes, erguera trincheiras e se estabelecera nos terraços das casas. Fomos avançando, tomando as pontes, sendo que para isso os espanhóis tiveram muitas vezes que ir pela água, ao passo que com os tiros de balistas e escopeta íamos fazendo o inimigo recuar para a calçada e ir abandonando suas posições. Conseguimos chegar até uma ponte que está junto à praça dos aposentos principais da cidade. Não haviam bloqueado aquela ponte nem feito trincheiras, porque não pensavam que fôssemos lhes ganhar alguma coisa aquele dia. Tampouco nós pensávamos que conseguiríamos avançar a metade do que avançamos.
Na entrada da praça colocamos um tiro que ia provocando muito dano no inimigo e dando ânimo para que os nossos avançassem com determinação para tomar a praça, o que foi feito, embora com grande dificuldade. Como os da cidade viram a grande determinação dos nossos e o grande número de índios que nos auxiliavam, recuaram para o lugar onde tinham seus ídolos que, como já relatei anteriormente, era um grande circuito como uma vila de quatrocentos vizinhos. E este foi logo tomado também pelos espanhóis. Mas como os da cidade viram que a nossa gente não levava cavalos, voltaram-se contra os espanhóis e os fizeram recuar para a praça, sob grande desvantagem e perigo. Agiam de tal maneira que fizeram recuar até o canhão que havíamos colocado na entrada da praça. Teríamos sofrido ali uma grande derrota se não fosse a providência de Deus Nosso Senhor, fazendo com que chegassem naquele momento três a cavalo, que logo atacaram o inimigo, fazendo com que este recuasse acreditando que fosse muito maior o número dos que estavam a cavalo. Os espanhóis voltaram a tomar a praça e o circuito, sendo que uns doze índios principais ficaram resistindo na torre mais importante do circuito e que tinha uma escada de cento e tantos degraus. Todavia, uns cinco ou seis espanhóis conseguiram subir e desalojá-los, matando-os todos. Depois disso, colocamos fogo nas casas para que não pudessem mais nos atacar desde os terraços e nos retiramos para o acampamento real. Neste mesmo dia, Gonzalo de Sandoval e Pedro de Alvarado também lutaram muito intensamente com os inimigos a uma distância de légua e meia de onde estávamos, sem receber nenhum dano.
Neste meio tempo, dom Fernando, senhor da cidade de Tezcuco e província de Aculuacán, de quem já fiz relato a vossa majestade, procurava atrair todos os nativos sob seu domínio à nossa amizade, especialmente os principais, porque ainda não estavam tão conformados com esta nossa amizade como depois estiveram. Como dom Fernando era muito jovem, tendo apenas vinte e três ou vinte e quatro anos, e conhecia a graça que em nome de vossa majestade lhe concedi em dar-lhe tão grande poder, fazia de tudo para ajudar os espanhóis. E conseguiu convencer seis ou sete de seus irmãos nativos a formarem batalhões para me ajudarem. Mandou por capitão a seu irmão Istrisuchil, que chegou ao acampamento real da calçada com trinta mil homens muito bem armados, ao passo que para os outros dois acampamentos iriam outros vinte mil. Bem pode dimensionar vossa cesárea majestade a alegria que nós sentíamos em receber esta ajuda e, ao mesmo tempo, o abalo que causava aos de Tenochtitlán o fato de vir contra eles um povo que eles consideravam seu amigo e irmão. Com a chegada desta gente, os nativos da cidade de Suchimilco, que está na água, e de Utumíes, que é gente serrana, vieram se oferecer por vassalos de vossa majestade, pedindo que lhes perdoasse a demora. Alegrei-me muito com a sua vinda, principalmente pelo fato de que estes eram os únicos que poderiam molestar os nossos que estavam em Cuyoacán.
Com essa valiosa ajuda, resolvi ficar com sete bergantins junto ao acampamento real da calçada, mandando três para onde estava Gonzalo de Sandoval e três para Pedro de Alvarado. Feito isso, resolvi reunir toda a gente e dizer-lhes como pretendia, dentro de dois dias, entrar na cidade. Assim, na manhã combinada, depois de ouvir a missa, iniciamos nossa ação. Saí pela calçada com vinte a cavalo, trezentos espanhóis e uma infinidade de nativos nossos amigos, ao passo que os bergantins iam pela beira da calçada, passando bem próximo dos inimigos e fazendo neles grandes danos, pois ficavam ao alcance dos tiros de balista e escopeta. Apesar de eles terem chegado novamente às pontes que levam à praça central, conseguimos retomá-las e chegar até os aposentos grandes da cidade, que eram casas enormes que poderiam muito bem receber a um príncipe com mais de seiscentas pessoas. Minha determinação era fazer com que aquela gente se entregasse, mas eu percebia que preferiam lutar até morrer. Para atemorizá-los mandei pôr fogo nas suas casas e templos, embora isso me causasse grande pesar, pois em algumas dessas casas Montezuma cultivava todas as espécies de aves. Feito isso, porque já era tarde, mandei minha gente se recolher para o acampamento real. Enquanto nos retirávamos eles nos atacavam pela retaguarda, fazendo com que os nossos a cavalo saíssem ao seu encalço, matando muitos dos deles. Neste dia, os inimigos demonstraram muito desgosto, especialmente por estarem lutando contra eles gente de Tezcuco, Calco, Suchimilco, os otumíes, além dos de Tascaltecal. Ao lutar, estes gritavam o nome de suas cidades e diziam para os inimigos que os haveriam de jantar naquela noite ou almoçar no outro dia, e efetivamente o faziam.
Às oito horas do dia seguinte, já estávamos combatendo de novo, pois nossa intenção era não lhes dar tempo de fazer trincheiras ou destruir as pontes. Todavia, parecia que cada vez eles tinham mais gente, pois todos os caminhos estavam repletos de guerreiros. O combate durou até uma hora depois do meio-dia e gastamos quase toda a munição que os balisteiros e escopeteiros levavam. E creia vossa majestade que era sem comparação o perigo que corríamos cada vez que tomávamos estas pontes, porque para isso os espanhóis tinham que passar a nado, em meio às chuvas de flechas, pedras e lanças. Parecerá a nossa majestade que era desnecessário correr esse perigo todas as vezes, pois deveríamos guardar aquilo que já havíamos conquistado. Todavia, isso era impossível de ser feito, porque requeria uma destas duas coisas: que mudássemos o acampamento para a praça ou que mantivéssemos gente guardando as pontes. As duas coisas eram muito perigosas e nos ofereciam grandes riscos, visto que podíamos ficar cercados pelos inimigos e sem maior segurança.
A ação dos nativos de Calco nos possibilitou receber a adesão dos povos de Iztapalapa, Chilobusco, Mexicalcingo, Culuacán, Mizquique e Cuitaguaca que, como já disse antes, são povoados situados na lagoa doce e que nunca quiseram vir em paz. Os seus principais vieram até onde eu estava, dizendo que se entregavam por vassalos de vossa majestade para que os de Calco parassem de lhes fazer dano. Eu disse que lhes perdoava e lhes tomava por amigos e pedi que trouxessem todas suas canoas para nos ajudar na tomada da cidade. Como era tempo de chuva, também lhes pedi que trouxessem material e construíssem no acampamento real cabanas para os nossos. Eles disseram que todas suas canoas e sua gente de guerra estavam prontas para sair em nossa ajuda e logo começaram a construir as casas e fizeram tantas que desde a primeira até a última havia bem três tiros de balista. Veja vossa majestade quão larga era esta calçada que foi possível construir as casas sobre ela e sobrar muito espaço para transitarmos a pé ou a cavalo sem problema nenhum.
Visto que por mais duas ou três vezes havíamos entrado na cidade e provocado muito dano nos nativos com os tiros de balista e escopeta, esperávamos que eles viessem a qualquer momento a pedir a paz, que era o que mais desejávamos. No entanto, isso não acontecia e eu resolvi atacar por três partes da cidade, contando com a ajuda de toda aquela gente que recém havia passado para o nosso lado. Assim, em uma manhã, consegui reunir em nosso acampamento mais de cem mil homens. Mandei que os quatro bergantins com a metade das canoas, que seriam mil e quinhentas, atacassem por uma parte e que os outros três, com outras tantas canoas, fossem por outro lado e provocassem na cidade todo o dano possível, matando e queimando as casas. Eu entrei pela rua principal e passei adiante sem maior problema, indo até a rua que vai sair em Tacuba, em que havia umas seis ou sete pontes. Eu desejava muito conquistar aquela rua, pois com isso estaria estabelecendo a ligação com a gente do acampamento real de Pedro de Alvarado. Este dia foi de muita vitória, tanto por água como por terra, e voltamos ao acampamento com muita alegria. Todavia, não víamos qualquer sinal de se entregarem, o que nos dava muito pesar na alma, por ver os da cidade tão determinados a morrer.
Por estes dias Pedro de Alvarado havia conquistado muitas pontes e para sustentá-las colocava vigias a pé e a cavalo, enquanto o restante da gente se recolhia ao acampamento real a três quartos de légua dali. Com essas conquistas resolvi ir adiante e tomar o mercado de Tenochtitlán, que é uma praça maior que a de Salamanca, toda cercada de portais. Para isso precisava ganhar apenas duas ou três pontes mais. A sua gente insistia em fazer esta tentativa, pois entendia que, perdendo o seu mercado, os de Tenochtitlán perderiam também o ânimo para continuar a guerra. Por isso Alvarado se apressou em ganhar uma ponte que tinha mais de sessenta passos da calçada desfeitos. Precisava conquistá-la logo para dar passagem aos cavalos. Mas como os índios viram que não havia ali mais do que quarenta ou cinqüenta espanhóis e que os cavalos não podiam ainda passar, resolveram atacá-los de súbito. Os nossos tiveram que se lançar à água e três espanhóis foram capturados e logo sacrificados, o mesmo ocorrendo com alguns de nossos amigos. Por fim, Pedro de Alvarado se retirou para o seu acampamento. O fato me entristeceu muito, pois servia para dar força a nosso inimigo. O pessoal de Pedro de Alvarado insistia com ele em ganhar o mercado da cidade porque eles estavam mais próximos dele do que eu e consideravam uma questão de honra conquistá-lo. Por isso insistiam muito com o seu capitão para realizarem o ataque.
Depois disso, continuamos a fazer nossos constantes ataques à cidade, sempre provocando muito dano e matando muita gente. Há uns vinte dias que vínhamos fazendo esse tipo de ação, quando os nossos começaram a insistir comigo, dizendo que era preciso tomar o mercado. Eu me escusava argumentando que só o faria quando tivesse plenas condições. Até o tesoureiro de vossa majestade veio me dizer que todo o acampamento queria que eu tomasse logo o mercado, pois assim os inimigos perderiam o seu ponto de abastecimento e morreriam de fome e de sede, pois só lhes sobraria a água salgada da lagoa. Tanto insistiram que eu resolvi desencadear o ataque até o mercado.
Juntei algumas pessoas principais de nosso acampamento e combinei com elas a forma de ataque, mandando comunicar em seguida a Gonzalo de Sandoval e a Pedro de Alvarado como deveriam proceder. Eles deveriam ganhar aquele caminho em que Alvarado fôra derrotado. E alertei para que não procurassem ganhar qualquer passagem sem primeiro deixá-la completamente plana para o acesso dos cavalos. Dada a ordem de partida no outro dia, depois de ouvirmos a missa, saíram de nosso acampamento sete bergantins com mais de três mil canoas de nossos amigos. Eu segui com vinte e cinco a cavalo, setenta espanhóis do acampamento de Tacuba que eu mandara buscar e mais uma grande quantidade de índios nossos amigos. Chegando à cidade, reparti a gente por três ruas que iam até o mercado, que os índios chamam Tianguizco, que está situado num lugar que eles denominam Tlatelulco. Mandei ao tesoureiro e contador de vossa majestade que entrassem pela rua principal com quinze ou vinte amigos nossos, deixando na retaguarda sete a cavalo. Por outra rua, mandei a dois capitães que entrassem com oitenta homens e mais de dez mil índios amigos, tendo deixado no princípio da rua a dois tiros grossos e oito a cavalo com cem peões. E eu, com oito a cavalo, cem peões, sendo vinte e cinco balisteiros ou escopeteiros, e um infinito número de nossos amigos, segui pela rua mais estreita. Logo fomos ganhando algumas pontes e avançando. Eu desci do cavalo e me detive numa pequena ilha para observar a ação dos nossos. Voltei a mandar dizer a Pedro de Alvarado e Gonzalo de Sandoval para que não dessem passagens enquanto as pontes tomadas não estivessem bem reconstruídas, seguras e planas, para que se tivessem necessidade de recuar não encontrassem água pelas costas. Eles me asseguraram que tudo que haviam conquistado estava bem seguro. Mas eu, com receio, resolvi verificar como estavam procedendo. E percebi que uma das pontes por onde haviam passado fôra reconstruída apenas com madeira e bambu, de forma muito frágil, pois embebidos pela vitória nossos soldados não cuidaram em solidificá-la e foram adiante. Justo quando cheguei ali vi que muitos espanhóis e índios nossos amigos batiam em retirada, com os inimigos perseguindo-os como cachorros bravos. E quando os espanhóis começaram a cruzar a ponte em desbaratada corrida ela começou a ruir. E os índios, como cães ferozes, caíam na água sobre os espanhóis e os nossos amigos. Além dos que atacavam pela rua, vieram em seguida muitos outros em canoas pela água. Nós tentávamos salvar os homens que caíam na água e com isso eu não percebia o perigo que estava correndo. E eu teria sido levado, se não fosse um capitão com cento e cinqüenta homens que eu trazia sempre comigo e por um mancebo de sua companhia, o qual, depois de Deus, me salvou a vida. E para me salvar deu sua própria vida. Neste meio tempo, os espanhóis fugiam por aquela calçada estreita que os cachorros assim a haviam construído. E tardavam tanto em andar que os inimigos conseguiam chegar por água de um lado e outro e matar quantos queriam. Aquele capitão que estava comigo, que se chama Antônio de Quiñones, me disse: ‘Vamos daqui e salvemos vossa pessoa, pois sabeis que sem ela nenhum de nós pode escapar’. Embora naquele momento eu folgasse mais com a morte do que com a vida, por imposição daquele capitão e de outros que estavam ali começamos a recuar, lutando com nossas espadas e escudos. Nisso chegou um criado meu a cavalo, e consegui fazer um pouquinho de lugar para ele, porém, em seguida, uma lança arremessada desde uma sacada o acertou na garganta, fazendo-o dar uma volta e cair do cavalo. Estando naquele conflito à espera de que nossa gente conseguisse cruzar aquele estreito caminho, chegou um outro moço trazendo um cavalo para mim. Mas era tanto o lodo que quase não se podia cavalgar por ali. Depois de muito trabalho e enorme perigo conseguimos chegar até a rua de Tacuba, que era muito larga, mas que também estava cheia de inimigos, os quais vinham contra nós com ar de grandes vitoriosos. O que não era sem motivo, pois também as forças sob o comando do tesoureiro e contador de vossa majestade batiam em retirada, o mesmo ocorrendo com outros grupos que havíamos espalhado, inclusive os de Pedro de Alvarado e do aguazil maior. Enquanto todos nos retirávamos para nossos acampamentos, eles faziam grande alarido e queimavam incenso para seus ídolos. Neste desbaratamento em que nos envolvemos, os inimigos mataram trinta e cinco ou quarenta espanhóis, mais de mil índios nossos amigos e feriram mais de vinte cristãos, inclusive eu que saí ferido em uma perna. Também perdeu-se o tiro pequeno de campo que havíamos levado e muitas balistas, escopetas e outras armas. Todos os espanhóis que pegaram, vivos ou mortos, levaram para Tatebulco, que é o mercado. Ali os penduraram desnudos, abriram o peito e arrancaram o coração, que ofereceram a seus ídolos. Os de Pedro de Alvarado puderam ver bem de perto o sacrifício dos corpos desnudos e brancos dos cristãos, tendo mergulhado em grande tristeza e desânimo e se retraído ao seu acampamento real, apesar de terem lutado muito bem aquele dia e quase conquistado o mercado, só não o conseguindo por vontade de Deus, que quis nos castigar por nossos pecados. Neste dia, voltamos para o acampamento bem mais cedo do que de costume, com muita tristeza pela derrota, que aumentava pela informação de que havíamos também perdido os bergantins, o que felizmente não se confirmou. Eles voltaram depois junto com as canoas dos nossos amigos, e a perda maior que tivemos foi do capitão de um dos navios que foi ferido e morreu oito dias depois. Durante dois dias e duas noites os nativos passaram festejando sua vitória, com muitas buzinas e atabales, tendo aberto todas as ruas e pontes como antes as tinham. Como estávamos muito esgotados e sem armas, tínhamos necessidade de descansar para nos recuperarmos. Apenas para não demonstrarmos fraqueza fazíamos algumas incursões com cavalos e alguns peões, mas não ganhávamos mais que algumas pontes da primeira rua.
Estando há dois dias neste desbaratamento, chegaram até nós nativos de Cuarnaguacar, que se haviam dado por nossos amigos, dizendo que os da província de Cuisco, que é terra muito grande, queriam ir sobre eles, destruí-los e depois virem sobre nós. Nós tínhamos mais necessidade de sermos socorridos do que de darmos socorro, mas como eles insistiam muito e como se haviam dado por vassalos de vossa majestade, não os podia deixar desamparados. Despachei com eles oitenta peões e dez a cavalo sob o comando de Andrés de Tapia e pedi que desse o máximo nessa luta e que voltassem dentro de dez dias. Ao chegar a um pequeno povoado situado entre Malinalco e Coadnoacad, encontrou o inimigo esperando. Lutaram tão bem os nossos que fizeram os inimigos se refugiarem em Malinalco, que fica sobre uma colina muito alta, o que não permitia o acesso dos cavalos. Depois de destruírem tudo que encontraram no plano, os nossos voltaram para o acampamento, tendo feito tudo dentro do prazo de dez dias. Apenas dois dias depois de sua chegada, vieram até nosso acampamento dez índios otumíes, povo que também se havia dado por vassalo de vossa majestade, pedindo a nossa ajuda para combater os de Matalcingo, que não cessavam de lhes fazer guerra e que também queriam vir contra nós. Embora o povoado dos otumíes ficasse a vinte e duas léguas de distância e nós estivéssemos muito abatidos, eu não podia deixar de ajudar nossos aliados nem tampouco demonstrar fraqueza. Determinei a Gonzalo de Sandoval que fosse com cem peões e quinze a cavalo, mas apenas um balisteiro. Três léguas antes de Matalcingo, Sandoval começou a enfrentar os inimigos, fazendo-os recuar para o pé de um morro. Em seguida vieram os nossos amigos otumíes, que eram mais de sessenta mil, com o que os inimigos passaram a sofrer grandes danos, se refugiando no alto do morro. No outro dia, apesar do perigo, Sandoval resolveu subir para caçar o inimigo. Mas ao chegar ao alto não encontrou ninguém. De repente, do outro lado do morro surgiu uma multidão de índios, que eram os otumíes que haviam ido pelo outro lado para cercar o inimigo. Como os espanhóis não os reconhecessem, investiram contra eles e chegaram a matar uns três ou quatro antes que os intérpretes conseguissem esclarecer o engano. Com o inimigo em fuga, Sandoval resolveu ir ajudar um outro povoado a que também havia pedido nosso auxílio, tendo dominado os de Malinalco que se deram por vassalos de vossa majestade e prometeram tentar convencer os de Matalcingo a também se tornarem nossos amigos. Com essas vitórias, Sandoval retornou ao acampamento.
Quatro dias depois da chegada de Gonzalo de Sandoval, os senhores das províncias de Matalcingo, Malinalco e de Cuisco vieram até nosso acampamento para pedir perdão pelo passado e se oferecer ao serviço de vossa majestade.
Neste meio tempo, conseguimos recuperar nossas energias e nossos feridos, ao passo que chegava ao porto da Vila Rica de Vera Cruz um navio de Juan Ponce de León, que havia descoberto a terra ou Ilha da Flórida, o qual me deixou pólvora e balistas, de que tínhamos muita necessidade. Como tínhamos todas as terras ao redor a nosso favor e nova determinação de atacar, não consegui entender como estes da cidade permaneciam irredutíveis em seu desejo de lutar até a morte, nos obrigando a ter que destruir aquela cidade que era a coisa mais bela do mundo. Mesmo que lhes fizéssemos ver tudo isso e mais ainda, que ficariam sem milho, sem carne, sem frutas ou qualquer outro alimento, não davam compras de mudar de opinião. Pelo contrário, mais se dispunham a lutar. De minha parte, vendo que já mantínhamos o cerco à cidade há quarenta e cinco dias, resolvi tomar medidas para apertar mais ainda o inimigo. Decidi então que, à medida que fôssemos ganhando caminho pela rua da cidade, iríamos destruindo tudo que houvesse de ambos os lados, de modo a não irmos adiante sem deixar tudo assolado. Para isso, chamei todos os senhores nossos amigos, mostrei-lhes o que havia planejado e pedi-lhes que trouxessem seus ‘coas’, que são uns paus que usam para lavrar a terra.[7] Eles me responderam que de boa maneira fariam isso, pois parecia ser a única maneira da cidade se entregar, que era o que eles mais desejavam, pois sempre haviam sido explorados pelos de Tenochtitlán.
Passaram-se três ou quatro dias nos preparativos, tanto de nossa parte para o ataque como dos da cidade para a defesa. No dia marcado, como sempre fazíamos, ouvimos a missa e partimos. Logo que tomávamos as primeiras casas grandes da praça, aqueles dali disseram que parássemos de lutar porque os da cidade queriam a paz. E dizendo-me que já haviam ido chamar os seus senhores, me detiveram ali. Mas isso não foi mais que uma cilada para nos retardar, pois logo passaram a nos atacar com suas flechas, lanças e pedras.
Vendo isso, tratamos de ganhar-lhes a trincheira que haviam feito, o que logo conseguimos. Mas ao chegarmos à praça encontramos a mesma cheia de pedras para que os cavalos não pudessem correr. Tratamos então de interromper aquela via de água que saía da praça, de tal modo que os índios nunca mais a abriram. Dali em diante começamos a derrubar pouco a pouco as casas e a bloquear e cegar muito bem o que havíamos conquistado de água.[8] Como naquele dia levamos mais de cento e cinquenta mil homens de guerra, além dos bergantins e canoas de nossos amigos, fizemo-lhes muitos estragos antes de retornarmos para nossos acampamentos.
Com a mesma determinação voltamos a entrar nos dias seguintes pela cidade, procurando sempre bloquear os caminhos de água e aplainar as passagens que havíamos conquistado. Tratei também de ganhar um templo dos ídolos e me colocar no alto de sua torre, para dali comandar nossos ataques, pois sabia que a minha presença ali em cima se constituía num grande abalo moral para os índios. Mandei também buscar mais quarenta cavalos de Pedro de Alvarado e do aguazil maior para ajudar a retrair o inimigo enquanto os nossos iam queimando as casas e destruindo tudo o que encontravam pela frente. Como sempre que batíamos em retirada ao final do dia os índios vinham atrás de nossos cavalos em grande alarido, resolvi preparar-lhes uma cilada. Deixei uns trinta a cavalo escondidos num determinado ponto da rua que dava ao nosso acampamento. Depois que os nossos passaram por ali no retorno de fim de tarde, os de cavalo caíram sobre os inimigos que vinham logo atrás fazendo seu constante alarido. Foi uma cilada muito bem feita e conseguimos matar uns quinhentos dos índios mais bravos e mais corajosos. Naquela noite, não fizeram a gritaria que faziam todas as noites, nem subiram nos terraços para nos fazer ameaça. Também tiveram que jantar os índios nossos amigos que mataram, pois os recolheram e levaram como peças de comer. Foi tão grande o efeito desta derrota para eles que nunca mais ousaram sair além da praça atrás de nós. Graças a esta vitória que Deus Nosso Senhor nos concedeu neste dia, se tornou mais próximo o momento de se ganhar toda a cidade, porque os nativos sofreram um grande abalo, enquanto que nossos amigos dobravam seu ânimo. A única perda lamentável que tivemos naquele dia foi uma égua, cujo cavaleiro caiu, e que saiu em corrida sem rumo, indo parar no meio dos nossos inimigos, que a flecharam. Mesmo ferida ela veio até nosso acampamento, mas acabou morrendo, o que nos deu grande tristeza, pois os cavalos e éguas eram o grande sustentáculo de nossas vitórias.
Como deixávamos os índios cada vez mais isolados, soubemos por dois deles que à noite eles saíam à cata de alimento, pois estavam morrendo de fome. Iam pescar por entre as casas ou arrancar raízes, ervas e tudo o mais com que pudessem se alimentar. Como já tínhamos muitas vias de água bloqueadas e muitos caminhos aplainados, decidi atacar ao quarto da alba e fazer todo o dano possível. E logo que entramos na cidade encontramos infinita quantidade de gente que saía em busca de alimento. Eram, todavia, os mais miseráveis, na maioria mulheres e adolescentes que andavam desarmados. Fizemos tanto dano neles e em tudo que podíamos que entre mortos e presos passaram de seiscentas pessoas. Os bergantins também provocaram grandes estragos nas canoas que andavam pescando e mataram muita gente. Os capitães principais ficaram tão apavorados que não ousaram sair para nos combater. E assim retornamos para nosso acampamento com farta presa e manjar para nossos amigos.
Ao voltarmos a entrar na cidade, no outro dia, era tamanho o ânimo dos índios nossos amigos pelos estragos que fazíamos que parecia que tínhamos uma multidão cada vez maior a nos acompanhar. Naquele dia, acabamos de ganhar toda a estrada que leva a Tacuba, de tal maneira que os do acampamento de Pedro de Alvarado podiam se comunicar conosco através da cidade. Também da rua principal que leva ao mercado se ganhou muitas pontes e se bloqueou muitas vias d’água, enquanto queimamos as casas do senhor da cidade, que era um rapaz de dezoito anos chamado Guatimucín e que era o segundo senhor depois de Montezuma. Nestas casas os índios tinham grandes fortalezas. Também ganhamos muitas outras passagens, de maneira que das quatro partes da cidade três estavam sob o nosso controle e os índios não faziam outra coisa que se retrair para a parte mais forte que era a das casas que estavam metidas na água.
Continuamos com os ataques por mais dois dias seguidos, visando a tomar uma via de água que era muito larga. No terceiro dia, antes de sairmos do acampamento, vimos uma grande fumaça que vinha da direção do mercado e percebemos que não era a fumaça comum que os índios costumavam fazer. Julgamos que só podia ser Pedro de Alvarado que ali já havia chegado, o que de fato se confirmou. Como ele havia visto que por nosso lado íamos apertando o cerco, lutou bravamente por chegar até o mercado, pois sabia que ali eles tinham sua força máxima. Todavia, conseguiu ganhar apenas algumas torres e provocar dano considerável, tendo que se retrair para o acampamento, resultando ainda com três cavalos feridos. Mas no outro dia ele voltou e deu apoio para os nossos que tomavam uma travessia de água, que era a única que faltava a ser conquistada no caminho até o mercado. Foi sem comparação o prazer que tomou conta de todos naquele momento, pois sentíamos que estava mais próximo o fim da guerra. Como logo se aplainou a passagem e Pedro de Alvarado dava proteção por todos os lados, resolvi ir com alguns a cavalo até o mercado. Enquanto passeávamos pela praça, os inimigos nos olhavam desde os terraços, onde se encontravam em grande número. Mas a praça era muito grande, estávamos a cavalo e não ousavam vir nos combater. Subi na torre principal situada junto ao mercado e tanto nela como nas outras encontramos cabeças de cristãos que haviam oferecido em sacrifício a seus ídolos. Eu observei desde aquela torre o que havíamos conquistado da cidade e pude constatar que de oito partes já tínhamos ganho sete. Vendo tanto número de pessoas, percebia que não poderiam sobreviver em tão pequeno espaço, principalmente porque as casas que lhes restavam eram as menores, situadas sobre a água, e além disso tinham o grande problema da fome, o que era evidente pelo fato de todas as árvores em volta estarem com suas raízes e cascas arrancadas. Em vista disto, decidi parar de combatê-los e mais uma vez acenar com a paz, mas a resposta deles era sempre a mesma, dizendo que lutariam enquanto sobrasse um deles e que não levaríamos nada de suas riquezas, pois iriam queimá-las ou jogar na água. Dava-me muita pena ter que matar toda aquela gente, mas não havia outra alternativa.

Passamos três dias sem combatê-los e quando voltamos à cidade encontramos a praça repleta de mulheres e crianças que saíam em busca de comida. Os homens armados estavam refugiados nos terraços. Mandei a nossos amigos que lhes fizessem algum dano para que os guerreiros saíssem ao nosso encontro. Eles mandaram dizer que queriam a paz, mas eu repliquei dizendo que queria ver o seu senhor com quem pudesse tratar a respeito desta paz. Na verdade era só uma artimanha deles para ganhar tempo, pois logo estavam prontos para nos combater. Mandei Pedro de Alvarado entrar com toda sua gente pela parte de um bairro que eles tinham onde havia mais de mil casas, ao passo que eu fui com gente a pé por outro lado. Conseguimos ganhar todo aquele bairro e foi tão grande a mortandade que se fez em nossos inimigos que entre mortos e presos passavam dos doze mil. Os índios nossos amigos usavam para com os adversários tanta crueldade, que não diminuía nem com nossas ameaças de castigo.
Voltamos no outro dia com uma grande multidão a cercar os inimigos, mas determinei que não guerreassem. Vendo-se cercados, eles perguntavam por que nós não terminávamos de matá-los. Por fim, disseram que queriam falar comigo. Alguns espanhóis vieram muito contentes me chamar, pensando que havia chegado o fim. Com muita relutância eu fui até eles, embora soubesse que deveria ser mais uma de suas artimanhas. Chegando lá, disseram que me tinham por filho do Sol. E como o Sol com muita brevidade dava a volta ao mundo entre o dia e a noite, perguntaram por que eu não acabava com eles, pois assim iriam subir ao céu e se encontrar com Ochilobus, que os estava esperando. Este é o ídolo pelo qual eles têm mais veneração. Procurei falar-lhes muito tempo, tentando convencer-lhes a estabelecer a paz que oferecíamos de uma maneira como jamais havíamos feito a algum vencido.
Como nada lhes convencia, resolvi falar com um de seus principais que havíamos prendido e pedi-lhe que fosse até Guatimucín, senhor principal de Tenochtitlán, interceder pela paz. Soube depois que, quando ele chegou à presença de Guatimucín e começou a falar em paz, este o mandou matar e sacrificar. A resposta que nos deram foi atacarem com grande alarido, atirando flechas, lanças e pedras e dizendo que lutariam até a morte. Chegaram a matar um de nossos cavalos com a espada tirada de um dos soldados, o que lhes custou muito caro, pois logo liquidamos muitos deles.
Nosso domínio sobre a cidade passou a se estabelecer de tal maneira que muitos dos índios nossos amigos nem voltavam mais para o acampamento. Dormiam lá mesmo. Nós procurávamos não combater mais, apenas ficávamos passeando pela praça. Numa dessas ocasiões chamei até nós alguns líderes que eu conhecia e pedi-lhes que fossem comunicar a Guatimucín que eu queria conversar com ele e prometia não lhe fazer mal algum. Mostrei-lhes toda nossa intenção de acabar com a guerra e eles partiram chorando. Voltaram me dizendo que Guatimucín não viria naquele dia porque já era muito tarde, mas que no outro dia, ao meio-dia, se encontraria comigo. Mandei então preparar um tablado para a conferência, ao estilo do que eles faziam, preparando também muita comida e bebida para Guatimucín e seus acompanhantes. Mas tomei também a precaução de deixar Pedro de Alvarado bem alerta para qualquer possível traição. No outro dia, vieram seis senhores principais, dizendo que Guatimucín não viria porque tinha muito temor de comparecer à minha presença e também porque estava um pouco doente. Recebi-lhes muito alegremente, dei-lhes de comer e beber, no que mostraram bem a necessidade que atravessavam. Embora o chefe principal não tivesse vindo, fiquei muito feliz com a vinda daqueles emissários, os quais disseram que seu senhor pedia-me que os perdoasse pelos erros cometidos. Eu falei-lhes que nossa intenção era apenas a de conseguir a paz e eles se foram, voltando duas horas depois com mantas de algodão muito boas, do estilo que usavam, para me dar de presente. Tornei a insistir em falar com Guatimucín, assegurando que nada lhe aconteceria.
No outro dia, vieram de novo aqueles representantes dizendo que Guatimucín concordara em falar comigo, mas o faria na praça principal, devendo os guerreiros ficar a uma légua de distância. Eu concordei e fui até lá no horário marcado. Todavia, esperei quase quatro horas e ele não apareceu. Percebendo a burla, mandei que os nossos amigos entrassem na cidade e passamos a tomar o que faltava. Mandei que Gonzalo de Sandoval entrasse com os bergantins pelo lado das casas em que os índios ainda permaneciam fortes, de maneira que os tivéssemos cercados. Os inimigos estavam em tão má situação que não possuíam nem mais flechas e lanças para combater e tinham que caminhar por sobre os corpos de seus mortos. Foi tanta a mortandade que causamos que entre mortos e presos somou-se mais de quarenta mil almas. Era tanto o choro de mulheres e crianças que não havia a quem não ferisse o coração. Nossa preocupação passou a ser a de conter nossos aliados para que não cometessem tanta crueldade com os índios inimigos. Aliás, em nenhuma parte do mundo vi tanta maldade como entre os nativos desta região. Os índios nossos amigos fizeram tão grande despojo que não podíamos lhes conter, pois éramos apenas novecentos espanhóis e eles mais de cento e cinquenta mil. Minha preocupação era também com o fato de que tomando suas riquezas pela força eles haveriam de atirar na água tudo que pudessem e com isto não sobraria nada para vossa majestade. Como já era tarde e não podíamos mais suportar o cheiro dos mortos que havia pelas ruas, que era das coisas mais pestilentas do mundo, nos recolhemos a nosso acampamento. Decidi que no outro dia traria três tiros grossos para atacar os índios que estavam concentrados num mesmo lugar, ao passo que os bergantins iam à parte da lagoa onde estavam todas as canoas, inclusive o senhor principal deles que, por já não ter mais casa, andava metido em uma canoa com alguns principais.
Tudo acertado, voltamos à cidade e eu subi em cima de um terraço e antes de iniciar o combate falei com alguns líderes, pedindo que trouxessem Guatimucín para conversar e acertar a paz, que este não precisava ter nenhum temor. Eles saíram e pouco depois voltaram com um dos principais senhores de todos eles, chamado Ciguacoacin, que era o capitão e governador de todos e por seu conselho se seguiam todas as coisas da guerra. Eu lhe mostrei boa vontade, mas ele me disse que seu senhor não viria ante mim e preferia antes disso morrer. Disse que a ele pesava muito isso, mas que eu fizesse o que bem entendesse. Como eu vi sua determinação, disse-lhe que voltasse e se preparasse que eu queria combatê-los e acabar de matar a todos se fosse necessário. E assim ele se foi para o meio dos seus, que andavam por cima dos mortos, outros nadavam também em meio aos mortos que boiavam na lagoa, e muitos se afogavam na tentativa de fugir pela água. Tudo isto em meio ao insuportável cheiro dos cadáveres. Era tanta a mortandade ali que se podia calcular o número de abatidos em cinqüenta mil.
Quando entramos naquela parte da cidade, não havia outra coisa para colocar os pés que não fosse o corpo de um morto. Mandei cercar todas as ruas, e vendo que os principais não saíam mandei disparar os tiros grossos, com o que logo tomamos aquele lugar, ao tempo em que muita gente se lançava na água, enquanto outros se entregavam. Os bergantins irromperam por entre a frota de canoas e a gente de guerra que nelas estava já não ousava lutar. Quis Deus que o capitão de um bergantim, chamado Garci Holguín, chegasse até uma canoa onde estava Guatimucín, aquele outro senhor principal que viera conversar comigo, o senhor de Tacuba e outros. Holguín prendeu a todos e os trouxe até onde eu me encontrava. Eu os fiz sentar, sem mostrar severidade. Guatimucín aproximou-se e disse que fizera o que era obrigado para defender a si e a seu povo, e que agora eu fizesse com ele o que bem entendesse. Sacou um punhal que trazia e pediu-me que o apunhalasse até matar. Eu o animei e disse que não tivesse temor nenhum.
E assim, preso este senhor, cessou a guerra a qual, graças a Deus Nosso Senhor, terminou na terça-feira, dia de Santo Hipólito, que foi 13 de agosto de 1521. De modo que desde o dia em que se pôs cerco à cidade, que foi 30 de maio do dito ano, até que se ganhou, passaram-se setenta e cinco dias, nos quais vossa majestade pode perceber os trabalhos, perigos e desventuras que estes seus vassalos padeceram. Mas em cujos trabalhos mostraram tanta dedicação que a obra que concluíram é testemunha disso. Em todos estes setenta e cinco dias não houve um só em que não se desse combate com os da cidade. Nesse dia da prisão de Guatimucín e tomada da cidade, depois de havermos recolhido o despojo que foi possível, nos recolhemos ao acampamento, dando graças a Deus Nosso Senhor pela imensa graça de tão desejada vitória.

Permanecemos no acampamento uns três ou quatro dias descansando, enquanto se fundia o ouro recolhido, o que deu mais de cento e trinta mil castelhanos, do que se entregou o quinto ao tesoureiro de vossa majestade, ao passo que o restante foi repartido entre eu e os espanhóis, de acordo com a qualificação e o serviço de cada um. Entre os despojos havia tantos discos de ouro, penachos e plumagens, coisas tão maravilhosas que por escrito não se pode fazer compreender sua beleza. Por serem tão maravilhosos, juntei todos os soldados e roguei que não fossem quintadas, mas enviadas todas a vossa majestade. Todos concordaram de muito boa vontade.
Alguns dias depois, chegaram a nosso acampamento enviados da província de Mechuacán, que fica a setenta léguas de Tenochtitlán. Disseram que haviam ficado sabendo que éramos vassalos de um grande senhor e que também queriam prestar serviços a esse senhor e serem nossos amigos. Eu respondi que em verdade éramos vassalos de um grande senhor, que folgava muito com sua amizade e aproveitei para saber deles se tinham conhecimento do mar do Sul. Eles disseram que sim e que poderiam nos mostrar como chegar até lá, só que teríamos que passar por terras de seus inimigos. Acertei em mandar dois espanhóis com eles para conhecerem o caminho, mas antes de irem fiz uma demonstração do poderio dos cavalos para que os conhecessem. Como tinha alguma notícia do mar do Sul, ansiava em conhecê-lo e descobri-lo para vossa majestade, especialmente porque todos que tinham alguma ciência e experiência em navegação das Índias tinham por certo que ali havia muitas ilhas ricas em ouro, pedras preciosas e especiarias, além do que se haveria de descobrir muitos outros segredos e coisas maravilhosas. E segundo as informações que tinha, estávamos a doze ou quatorze jornadas do dito mar. Como meu desejo era tão grande de servir vossa majestade, resolvi mandar quatro espanhóis em busca do dito mar. Dois foram por um caminho e outros dois por outro e mandei que não parassem até chegar ao mar. Dois deles andaram cento e trinta léguas por muitas e boas províncias sem receber nenhum estorvo e chegaram ao mar e tomaram posse em nome de vossa majestade. Para registro, colocaram cruzes ao longo da costa. Depois de alguns dias, chegaram de volta com o relato do acordo, tendo me trazido inclusive alguns nativos da região e também amostras de ouro das minas que encontraram por lá. Esta amostra estou enviando a vossa majestade. Os outros dois espanhóis levaram um pouco mais de tempo, porque andaram cento e cinquenta léguas por outros caminhos, mas chegaram ao mar, onde também tomaram posse e me trouxeram amostras e nativos.
Em outro relato que fizera, mui católico senhor, contei sobre o massacre de cem espanhóis pela gente de determinados povoados na primeira ocasião em que nos fizeram sair de Tenochtitlán. Retornados os espanhóis do mar do Sul, determinei a Gonzalo de Sandoval ir com trinta e cinco a cavalo, duzentos espanhóis e muita gente de nossos amigos contra aquelas províncias, que são Tlatactetelco, Tuxtepeque, Guatuxco e Aulicaba. Nesse meio tempo, veio à cidade de Cuyoacán, para onde havíamos ido depois de conquistar Tenochtitlán, um tenente de Vila Segura da Fronteira, para me informar dos danos que os naturais daquela província vinham sofrendo por parte da gente de Guaxacaque, que lhes fazia guerra porque eram nossos amigos. Destacou que era importante pacificar aquela província de Guaxacaque porque estava no caminho do mar do Sul. Dei a este tenente doze a cavalo, oitenta espanhóis e muitos índios nossos aliados para que fosse conquistar aquela província, tendo ele saído de Cuyoacán a 30 de outubro de 1521, juntamente com Gonzalo de Sandoval, cada um com sua missão específica. Quando chegaram em Tepeaca, cada um seguiu seu caminho.
Depois de vinte e cinco dias, recebi carta de Sandoval dizendo da tomada da primeira província. Mais quinze e escreveu de novo dizendo que tomara todas as províncias e enfatizava a necessidade de fundarmos povoados espanhóis ali para garantir a paz. Também recebi carta do tenente da Vila Segura da Fronteira dando conta do sucesso da sua missão e enviando uma amostra do ouro que havia em abundância naquela terra. Tendo já fundado três vilas a pedido dos capitães que enviara, decidi fundar algumas vilas de espanhóis também dentro da cidade de Tenochtitlán, pois esta era nossa mais importante conquista e não podia ficar desamparada. Distribuí os solares e nomeei alcaides e regedores em nome de vossa majestade. Decorridos quatro ou cinco meses, a cidade de Tenochtitlán já está se reerguendo e creia vossa majestade que já está ficando muito formosa e recuperando a nobreza que tinha anteriormente, quando foi a senhora de todas estas províncias.
Tendo resolvido mandar um capitão ao rio de Panuco para fundar um povoado e um porto ali, fiquei sabendo por um emissário deste que havia chegado um navio à Vila Rica de Vera Cruz trazendo Cristóbal de Tapia, inspetor das fundições da Ilha Espanhola. No outro dia, recebi uma carta deste dizendo que vinha assumir como governador destas terras por mandato de vossa majestade. Mandei ao tesoureiro de vossa majestade e ao frei Pedro Malgarejo de Urrea até Vera Cruz para verificarem a veracidade do documento. Eles mandaram me dizer que examinaram a documentação que Tapia lhes apresentou e que me constataram ser a mesma emitida por vossa majestade. Embora não me agradasse tal ingerência, eu determinei a todos que obedecessem o recém-chegado e me determinei ir ao seu encontro para conversarmos. Os procuradores dos conselhos desta Nova Espanha protestaram contra a minha saída das províncias de Tenochtitlán e México, por entenderem que a minha presença era fundamental para manter aquelas terras pacificadas e impedir qualquer levante dos nativos. Disseram que eles mesmos, procuradores, iriam a Vera Cruz examinar os papéis e conversar com Tapia. Sentindo sua determinação, resolvi deixá-los ir, porém mandei com eles uma carta a Tapia relatando o que se passava naquela região e dando poder a Gonzalo de Sandoval, Diego de Soto e a Diego de Valdenebro, para que em meu nome e junto com os procuradores fizessem o que fosse melhor para o serviço de vossa majestade. Embora constatando a veracidade dos documentos apresentados por Tapia, pediram que ele deixasse estas terras, pois senão os nativos daqui se alvorotariam e iríamos ter grande confusão, tendo que iniciar novamente um processo já concluído.
Diante do que lhe foi requerido, Tapia resolveu embarcar no seu navio e partir. Todavia, neste meio tempo vieram a mim alguns índios do México e de outras províncias para me dizer que havia uns vinte navios que andavam pela costa, com muita gente, mas que esta não descia à terra. E disseram que, se eu os quisesse enfrentar, que se vestiriam de guerra e viriam me ajudar. Procurei me certificar do que diziam e descobri que era uma cilada, pois ficaram sabendo que eu pretendia deixar a província e queriam se aproveitar disso. Eu dissimulei com eles e mandei prender alguns principais que haviam feito a trama. De maneira que só Deus poderia determinar o grande dano que causaria para o serviço de vossa majestade a presença do dito Tapia nestas terras, por não ter conhecimento da mesma, nem experiência em lidar com estes índios.
Contornada essa situação, mandei dizer ao capitão que havia conquistado a província de Guaxaca que fosse auxiliar Pedro de Alvarado, o qual desde janeiro tentava conquistar a província de Tututepeque, que se situa quarenta léguas além de Guaxaca, junto ao mar do Sul. Precisávamos conquistar aquela província para abrir o caminho para o mar do Sul. Além dessa tentativa por terra, também mandei aparelhar duas caravelas medianas e dois bergantins para saírem pela costa em busca do dito mar, pois a conquista dele será a coisa mais importante que resultará a serviço de vossa majestade depois que as Índias foram descobertas.
Em outra carta fiz saber a vossa majestade como próximo das províncias de Tascaltecal e Guasucingo havia uma serra redonda e muito alta da qual saía fumaça continuamente, como se fosse uma flecha atirada para cima. E porque os índios nos davam a entender que aquilo era coisa muito má e que morriam os que iam ali, mandei a certos espanhóis que subissem lá e verificassem do que se tratava. Depois de três tentativas, chegaram até a boca, que mede dois tiros de balista, e viram que a cova é tão funda que não puderam ver onde terminava. Enquanto estavam observando, ouviram o ruído que trazia a fumaça e trataram de escapar depressa, o que conseguiram com muita dificuldade, pois quando chegavam ao pé da montanha começaram a rolar as pedras montanha abaixo e a escorrer um material extremamente quente que vem junto com a fumaça.
Considerando que, depois de tanta guerra, todos os espanhóis têm muita necessidade das mais diversas coisas para se manterem e se estabelecerem nestas terras, determinei a cada senhor destas terras que dê a um determinado espanhol tudo o que ele precise para se sustentar e se manter. Disto, farão maior relato os procuradores que vão desta Nova Espanha.
Mui católico senhor: que Deus Nosso Senhor conserve sua vida, sua real pessoa e sua cesárea majestade aumentando seu poder com o acréscimo de muitos outros reinos e senhorios, como seu real coração deseja.
Da cidade de Cuyoacán, desta Nova Espanha do mar oceano, a 15 de maio de 1522 anos. Deste humilde servo e vassalo de vossa cesárea majestade que as mãos e os pés beija.
Hernan Cortez.” (Cortez, 2008, p. 121–148)
[1] A noite, na tradição militar e náutica castelhana da época, era dividida em três quartos ou vigílias de quatro horas: a prima (aproximadamente das 20h às 00h), a modorra (das 00h às 04h) e a diana ou alba (das 04h às 08h). “Rendida” significa que o primeiro turno de vigília havia acabado de ser rendido/trocado. Cortés realizou o ataque durante a madrugada profunda (na modorra), garantindo que apanhasse a população adormecida. (N.T.)
[2] Trata-se do frei mercedário Bartolomé de Olmedo (c. 1485–1524), capelão de confiança de Cortés, e que desempenhava com frequência o papel de diplomata, espião e negociador. (N.T.)
[3] Pánfilo de Narváez (1470–1528): Fidalgo e militar experiente enviado com uma enorme expedição armada (cerca de 800 a 1.400 homens, dezenas de cavalos e dezenas de canhões) para prender ou matar Cortés.
[4] Diego Velázquez de Cuéllar (1465–1524): Governador de Cuba. Em 1519, Velázquez autorizara Cortés a realizar apenas uma viagem de exploração e resgate comercial, revogando o comando antes da partida. Cortés partiu em desobediência e, ao fundar a Villa Rica de la Vera Cruz (primeiro assentamento europeu no México), declarou-se subordinado diretamente a Carlos V, contornando a autoridade de Velázquez. A chegada de Narváez representava a tentativa do governador de Cuba de reprimir o motim e recuperar o controle das terras recém-descobertas. (N.T.)
[5] No vocabulário militar castelhano da época, alarde significava uma revista militar formal ou uma demonstração de força bélica (tiros cerimoniais, desfile de infantaria e manobras de cavalaria). (N.T.)
[6] Eram estruturas móveis de madeira blindada, semelhantes a torres de cerco ou galerias de proteção medievais (mantas), montadas sobre rodas ou carregadas por homens. (N.T.)
[7] Instrumento agrícola tradicional mesoamericano, semelhante a uma enxada ou bastão de semeadura pontiagudo (às vezes com a extremidade achatada ou reforçada). Como os povos pré-colombianos não dispunham de tração animal ou arados de ferro, a coa era a ferramenta basilar do trabalho na terra. Cortés requisitou esses instrumentos não para combate direto, mas para trabalhos de demolição e aterro. As coas serviram para arrancar fundações de alvenaria e adobe das casas e desenterrar terra e entulho para cegar definitivamente os canais d’água da capital lacustre. Ele percebeu que só venceria se destruísse fisicamente o tecido urbano de Tenochtitlán. A nova ordem era arrasar cada quarteirão conquistado: jogar os escombros dos edifícios dentro dos canais, aterrando-os por completo para transformá-los em terra firme contínua, permitindo a livre movimentação da cavalaria e impedindo emboscadas por água e teto. (N.T.)
[8] No jargão da engenharia militar de cerco quinhentista (poliorcética), “cegar” uma vala, fosso ou via aquática significa entulhá-la, assoreá-la ou aterrá-la completamente com pedra, vigamento de madeira, lama e entulho até eliminá-la da paisagem. As paredes e pedras das casas demolidas eram jogadas imediatamente para dentro dos canais d’água adjacentes. Esse trabalho de sapa monumental dependia diretamente das ferramentas agrícolas (coas) e dos braços de dezenas de milhares de aliados nativos (tlaxcaltecas, texcocanos e outros povos rivais dos astecas). Essa prática de “cegar as águas” iniciou o processo de dessecação forçada e transformação geográfica da bacia lacustre do Vale do México, sobre a qual viria a ser erguida a Cidade do México colonial. (N.T.)
