SOBRE PROTESTANTISMO E HUMANISMO
Juan Ginés de Sepúlveda (†1573)
Fonte: Angel Losada (ed.), Epistolario, p. 63–66, 140–147. Ediciones Cultura Hispanica, 1966.
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: Nas duas cartas reunidas, Juan Ginés de Sepúlveda (1490–1573) reflete sobre a crise moral e religiosa de seu tempo e defende o valor formativo das letras clássicas. Ao Cardeal Gaspar Contarini (1483–1542), adverte que a ira divina, visível nas guerras e cismas, exige não decretos vazios, mas uma autêntica conversão do clero pelo exemplo e retorno à disciplina patrística. Na missiva ao Inquisidor Martín de Oliva, refuta as censuras dos romanos Catão, o Velho (234–149 a.C.) e Caio Mário (157–86 a.C.) às letras gregas, demonstrando que o saber e a filosofia antiga constituem sólidos instrumentos para a virtude. Argumenta que a corrupção moral em Roma e na Alemanha não decorreu do helenismo, mas sim do abuso da paz, da liberdade e dos dons naturais desviados para a heresia. Por fim, ressalta a utilidade da cultura clássica como sustentáculo da sã teologia cristã e exalta a Inquisição espanhola como barreira eficaz à desagregação religiosa.
_______________

CARTA 12 (27)
Juan Ginés de Sepúlveda a
Gaspar Contarini, Cardeal da Santa Igreja Romana[1]
Quando penso no estado em que se encontra a nossa moral, no abandono do culto de Cristo e de sua religião, quando volto os olhos para estes tempos tão calamitosos, que tu deploras em poucas, mas acertadíssimas palavras, tenho a mesma convicção que tu de que Deus está irado conosco.
Pois Deus, do alto dos céus, manifesta justamente a sua ira contra aqueles ímpios que injustamente colocam entraves à marcha da verdade divina.
É doloroso confessar que podemos aplicar à moralidade de nossa classe sacerdotal as mesmas palavras que São Paulo outrora dirigiu contra os filósofos pagãos.
Nós, sacerdotes, que nos gloriamos de ser mestres da vida moral e religiosa e de possuir um conhecimento de Deus mais profundo do que todos os demais, apesar disso nos esquecemos de glorificar a Deus e de lhe render graças como Ele merece, e a vanglória torna-se o único objeto de nossos pensamentos. Nosso coração insensato se endurece, e trocamos a sabedoria pela insensatez.
Deus, continuamente generoso e paciente, induz-nos à penitência; nós, em retribuição, abusamos de sua benignidade e, por causa da dureza de nosso coração, que se recusa a arrepender-se, estamos acumulando para nós mesmos a sua ira, como diz São Paulo.
Até agora não sentimos o seu peso cair sobre nós senão muito levemente; mas é muito de temer, como dizes em tua carta, que, se não nos arrependermos, faça cair sobre nós o peso de sua justíssima ira por causa de nossos muitos e horríveis pecados.
Sinais manifestos e provas inequívocas da ira divina, como tu mesmo assinalas, são os cismas, a heresia, as dissensões entre os príncipes cristãos e as guerras civis que há muito afligem a Igreja e nas quais se acha envolvida toda a Cristandade.
Por isso, como dizes, devemos preocupar-nos cada vez mais, nós que fomos chamados a ser os pastores do mundo cristão, em aplacar a Deus, para nosso próprio bem e para o do povo fiel que nos foi confiado.
Nossas armas devem ser, mais do que as palavras e as súplicas, a piedade e a virtude.
Seria vergonhoso e inútil exigi-las dos outros se nós mesmos não as tivéssemos.
Por isso, antes de nos dedicarmos a corrigir a imoralidade pública, devemos procurar levar uma vida de santidade e piedade, se quisermos conferir autoridade e crédito às nossas palavras ao pregarmos as virtudes e corrigirmos os vícios. É por isso que São Paulo exorta a todos nós, sacerdotes, na pessoa de Tito, dizendo-nos: “Procura, em todos os momentos de tua vida, dar exemplo de uma conduta irrepreensível, fruto de tuas boas obras, de tua doutrina, de tua integridade e de tua austeridade”.
Assim se cumprirá aquilo que Cristo disse no Evangelho: que a nossa luz, isto é, o esplendor de sua doutrina, que é a tocha que nos guia no magistério e na formação moral dos demais, brilhe de tal modo diante dos homens que estes vejam as nossas boas obras e, assim, glorifiquem nosso Pai que está nos céus. Pois, quando as palavras de uma pessoa não estão de acordo com a moralidade de sua vida, esta as desacredita por completo, podendo-se muito bem aplicar-lhe a frase de teu Filósofo predileto: “Palavras, nada mais que palavras”, ou, o que vem a dar no mesmo, jactância e vaidade.
Talvez eu tenha me estendido mais do que devia sobre o assunto. Não o fiz para te dar uma lição — quem teria a ousadia de dar lições a Minerva? — nem para te dar conselhos, pois sei muito bem que puseste todo o teu empenho a serviço da Cristandade; em tudo e para tudo és um verdadeiro modelo de religiosidade e virtude, e tenho a certeza de que, em tuas orações, cuidados e vigílias, estás inteiramente consagrado ao serviço da Igreja. Se te falo desse modo é, como se costuma dizer, para “esporear aquele que já se lançou espontaneamente à corrida” e, ao mesmo tempo, passar um momento agradável conversando contigo.
Devo dizer-te que, para mim, é um grande prazer manter correspondência contigo, pois reconheço em ti uma sabedoria, uma virtude e uma seriedade comprovadas no exercício de uma missão pastoral nada comum.
Por isso, já que não me é possível conversar contigo pessoalmente, escrevo-te neste estilo epistolar, expondo-te idéias que considero salutares para o bem de todos. Do mesmo modo, agrada-me comunicar-te minhas opiniões, os remédios que me ocorrem para evitar qualquer falta e meus mais ardentes desejos. Estes podem resumir-se assim: “a conversão e o retorno à vida virtuosa, pública e privada, dos sacerdotes, os quais, por sua vida depravada, têm sido causa de tantas desgraças e ocasião das heresias e calúnias que, nestes últimos tempos, se levantaram contra a Igreja de Cristo”.
Para alcançar esse objetivo, vós, hierarcas eclesiásticos, não vos contenteis em promulgar decretos corretivos sobre a imodéstia no vestir e coisas semelhantes. O que deveis fazer é ressuscitar da morte do esquecimento a disciplina moral de nossos Santos Padres e apoiar-vos em sua autoridade, pois foram eles que varreram da Igreja os costumes licenciosos de seu tempo.
Uma empresa como essa deveis levá-la a cabo não por meio de novos preceitos e decretos — dos quais já temos em demasia —, mas dando a todos o exemplo por meio de vossas obras e de uma vida virtuosa, para que todo o mundo perceba que a Igreja se rege pelas instituições de nossos Santos Padres, e não pelo capricho — para não dizer pela luxúria — de alguns sacerdotes, como há quem, jactanciosamente, ande propalando por aí.
Tenho motivos mais do que suficientes para assegurar que precisamente agora é o momento de pôr remédio a tais males.
Confio, sobretudo, na sabedoria e nos desvelos de nosso Sumo Pontífice, o qual, como tu mesmo asseguras, deu provas claríssimas de empregar todos os meios possíveis para promover o bem da Cristandade. Em primeiro lugar, por ter-se rodeado de um Colégio Cardinalício composto de homens tão sábios, religiosos e virtuosos como tu e muitos outros semelhantes a ti, todos tão dignos de estima que, ao mesmo tempo que sois merecedores de todo louvor, também ele o é por vos haver escolhido. Além disso, por ter anunciado a celebração de um Concílio Universal de sacerdotes, sumamente necessário nos tempos em que vivemos. E, por último, por seu trabalho de conciliação e pacificação entre os reis cristãos, sem se preocupar em absoluto com os incômodos que viagens tão longas poderiam ocasionar-lhe, nem com os transtornos e perigos aos quais sua saúde poderia ficar exposta em idade tão avançada como a sua.
Por tudo isso, eu, e comigo muitos cristãos, nutrimos a firme esperança de que esta situação há de melhorar.
Vós, continuai como até agora; e, já que vedes o Sumo Pontífice disposto a pôr remédio ao vício e à corrupção, não deixeis de encorajá-lo em seu propósito de governar a Igreja da melhor maneira possível. Por Deus! Não percais ocasião tão propícia para solucionar esses males.
Se eu estivesse entre vós, ajudar-vos-ia em vossas deliberações e empreendimentos com meus conselhos, talvez sem valor algum, mas nascidos de uma alma fiel e profundamente preocupada com o bem da humanidade.
Adeus, eminentíssimo Padre. Tem a firme certeza de que nutro verdadeira devoção por tuas virtudes.
CARTA 39 (67)
Juan Ginés de Sepúlveda a Martín de Oliva, Inquisidor Apostólico
Pediste-me em tua carta minha opinião sobre aquela passagem do austero e sábio Marco Catão, na qual ele condena severamente as letras gregas ao advertir seu filho Marco: “Tem presente, meu filho, o que disse o Vate: por onde quer que essa gente propague suas letras, tudo se corromperá”.[2]
Esse presságio, segundo dizes, pode muito bem aplicar-se tanto aos romanos quanto, modernamente, aos alemães, pois são manifestos os prejuízos que, para ambos os povos, acarretaram o estudo e o gosto pelas letras gregas. Com razão, dizes, aquela célebre recriminação recobra modernamente sua atualidade. Reforças a tese catoniana com a conhecida frase do discurso de Caio Mário contra os Optimates,[3] na qual aquele célebre e íntegro varão se declara abertamente inimigo das letras gregas.[4]
Tal é, pouco mais ou menos, o resumo não propriamente de tua opinião, mas de tua consulta.
Referir-me-ei primeiramente à diatribe de Catão.
Desde logo, não posso admitir a idéia de que um homem de tanta erudição e conhecimentos como tu aprove a invectiva tão disparatada quanto injusta de Catão contra as letras gregas; não obstante, por outro lado, em nada me admira que tu e, contigo, homens de letras tão beneméritos tenhais dado atenção a opinião tão desprovida de autoridade e suspeitado que pudesse ser verdadeira.
Crê-me: semelhante recriminação é injusta, e sua origem encontra-se, sem dúvida, na opinião errônea de Catão acerca dos gregos e no ódio mortal que nutria por eles.
Costuma acontecer que aqueles que se distinguem pela rigidez e austeridade de vida, quando odeiam alguém por seus vícios, fiquem de tal maneira cegos que já não consigam apreciar as boas qualidades que semelhante inimigo possa possuir; mais ainda, essas próprias qualidades convertem-se, a seus olhos, em defeitos.
Tal é, na realidade, o caso de Catão: odiava os gregos com toda a sua alma por causa de sua proverbial leviandade e vaidade; daí que considerasse suspeita e censurável, sem exceção alguma, toda a ciência deles.
Sirva de exemplo a medicina, ciência evidentemente útil e necessária. Pois bem: Catão desacreditou por completo todos os médicos gregos, sem levar em consideração os profundos conhecimentos que alguns deles possuíam; e, em contrapartida, gabava-se ele próprio de possuir uma perfeita ciência da cura, que aplicava a si mesmo, ao filho, aos escravos e aos parentes.[5]
Diz São Jerônimo que há muitos que preferem desprezar as maravilhas da ciência a aprendê-las. Assim, pode muito bem acontecer que mais de um, completamente destituído de conhecimentos das letras gregas, aceite como correta a opinião de Catão. Contra tais pessoas, porém, apresento em meu favor, como testemunho, a conduta de um homem que de modo algum pode ser considerado suspeito neste ponto: o próprio Catão. Este, em sua velhice, abjurou de seu erro e dedicou-se ao estudo das letras gregas que tão injustificadamente odiara em sua juventude; e fê-lo com tamanho empenho que, segundo ele, todo aquele que se prezasse de sábio deveria dedicar boa parte de seu tempo e trabalho ao estudo e conhecimento delas.
Tal conduta indica-nos claramente qual foi o verdadeiro pensamento de Catão sobre esse ponto. Em primeiro lugar, porque, quando adotou semelhante mudança de atitude, já se encontrava na plenitude da vida; e, em segundo lugar, porque é de todos conhecida a regra seguida pelos filósofos para determinar qual seja a verdadeira opinião de um homem virtuoso acerca desta ou daquela matéria: para isso, dizem eles, deve-se levar em consideração não tanto suas palavras quanto sua conduta, caso, porventura, esta não coincida com aquelas.
Poder-se-á objetar-me que o vaticínio de Catão se cumpriu ao pé da letra. Com efeito, a introdução das artes e das letras gregas em Roma coincidiu com uma invasão de imoralidade que acabou por assenhorear-se do Império. Mas não se deve esquecer que semelhante invasão coincidiu também com o restabelecimento da paz, tão ansiada por todos, como consequência da derrota dos inimigos de Roma e da expansão das fronteiras do Império Romano. O labor e a guerra não proporcionam ocasião para dedicar-se às letras; semelhante dedicação requer ócio e paz. Portanto, seguindo essa lógica, seria antes a paz a causa da imoralidade, pela ocasião que oferece para ela ao povo que dela desfruta.
Nem a paz, com suas consequências, nem as letras podem ser consideradas a causa última da depravação de um povo. Pelo contrário, aquela oferece ao homem uma boa ocasião para dedicar-se aos estudos de sua preferência, e estas lhe proporcionam uma excelente arma para abrir caminho pela senda da virtude.
A causa da imoralidade deve antes ser procurada no mau uso que o homem faz da paz e da liberdade.
Em épocas de dificuldades e perigos, como as guerras, o homem não tem outro remédio senão suportar pacientemente todos os incômodos, privações e desgraças, o que lhe proporciona ocasião para desenvolver certo gênero de virtudes; mas, uma vez restabelecida a paz, o temor e a necessidade, que antes constituíam a norma da vida, desaparecem com ela e são substituídos por uma liberdade de agir isenta de toda restrição. Assim acontece que muitos, desaparecidos tais estímulos à vida virtuosa, entregam-se por completo à inatividade e a uma vida licenciosa; e somente uns poucos, naturalmente inclinados ao bem, consagram-se à virtude, apoiando-se na boa educação recebida e, sobretudo, na graça de Deus, que prodigaliza liberalmente seu auxílio àqueles que se propõem levar semelhante vida virtuosa, a qual, na realidade, é o caminho mais curto que conduz à verdadeira felicidade.
A sociedade, por meio de sua legislação, deve velar por essas duas classes de homens, levando especialmente em consideração as circunstâncias, sejam elas de tempos de paz ou de guerra.
Assim, é opinião comum de todos os sábios que o homem, desde a infância, deve receber uma educação tal que inculque em sua alma o amor e o apego à virtude; pois é lei natural, confirmada não somente pelos filósofos, mas também pelos fatos, que o homem, quando pode viver segundo a própria vontade, dedica-se àquelas atividades que mais se harmonizam com sua maneira de ser e que mais lhe agradam. Não obstante, nem todos tomam o mesmo caminho: os bons tomam o da virtude; os maus, o do vício.
De resto, conforme as circunstâncias da vida, certas virtudes são mais adequadas a umas situações, e outras, a outras.
Assim, em tempos de guerra e calamidades, segundo os filósofos, são convenientes a fortaleza e a paciência; em tempos de paz, o estudo e a filosofia; e, em todos os tempos, a justiça e a temperança, virtudes estas que, além disso, em épocas de paz constituem magnífico sustentáculo para a moralidade dos homens.
Ora, a ciência e a filosofia são inseparáveis das letras gregas, nas quais quase inteiramente se acham contidas; por isso, a condenação de Catão contra estas dirige-se implicitamente também contra aquelas, as quais, como dissemos, longe de constituírem obstáculo à virtude, são seu mais sólido arrimo em tempos de paz para alcançar a felicidade, que é resultado de uma boa conduta.
O estudo é tão necessário ao homem quanto o célebre brinquedo de Arquitas o é às crianças;[6] para os virtuosos, é a melhor maneira de empregar o tempo. A filosofia, de modo especial, é o melhor incentivo que se lhes possa apresentar para levar uma vida virtuosa e feliz; pois a filosofia não somente ensina a moralidade da conduta humana, mas também faz brotar, na alma daquele que a ela se entrega inteiramente — e que não se serve dela exclusivamente como meio de lucro ou ostentação —, uma inclinação natural à virtude.
Não nos esqueçamos de que a ética, parte da filosofia, não é uma ciência meramente teórica que investiga a natureza da virtude, mas uma ciência essencialmente prática, cuja finalidade não é outra senão apresentar ao homem uma norma de vida filosófica.
A filosofia, enquanto ciência universal, abrange todas as disciplinas liberais. Ela é o melhor instrumento para arrancar do coração do homem os vícios mais arraigados e as convicções mais depravadas; uma vez alcançado isso, o homem chega a familiarizar-se de tal modo com ela e encontra tamanho deleite na contemplação e no estudo profundo da verdade que ela lhe oferece, que não encontra bem-estar senão quando está inteiramente entregue às suas especulações filosóficas.
E, se assim é no que se refere à filosofia em geral, que não se poderá dizer no que diz respeito à filosofia cristã? Com razão podemos assegurar que aquele que a ela se dedica e leva uma vida de acordo com sua doutrina alcança a felicidade não somente no mundo celestial, mas já antecipadamente aqui na terra. Que diferença entre esses homens e os demais, que têm de atravessar momentos tão difíceis, tantas desgraças e calamidades, para alcançar, depois da morte, a felicidade eterna!
Muitos são, na verdade, os caminhos que nos conduzem à meta final de nossa salvação. Já o disse São Paulo: “Cada qual recebe de Deus um dom próprio, uns de uma maneira e outros de outra”. Isto é: a virtude floresce tanto na prosperidade quanto na adversidade e, em ambos os casos, merece sempre a aprovação das pessoas de reta conduta e, da parte de Deus, o galardão da felicidade eterna.
Terminarei resumindo e ilustrando minha exposição com um exemplo.
Que dirias daquele homem que, num ano próspero e de magníficas colheitas, quando as ervas daninhas crescem exuberantemente e, se não forem arrancadas, acabam tornando estéreis as videiras e as árvores e sufocando os brotos das sementes; que dirias, pergunto, se, diante da prosperidade que se anuncia, ele se deixasse levar pela incúria e pela indolência e abandonasse o cultivo imprescindível de seu campo?
Sem dúvida, dirias que semelhante homem estava louco.
Pois caso idêntico é culpar a paz e a ciência pela depravação e pelos vícios dos homens, quando, na realidade, a origem destes reside exclusivamente no abuso que eles fazem de sua liberdade.
Com isso ponho fim à minha exposição acerca do caso do Império Romano; creio ter dado uma boa resposta a todos quantos deram ouvidos à injusta censura formulada por Catão contra as letras gregas.
Referir-me-ei agora à desgraça que se abateu sobre a Alemanha com a heresia.
Existe acerca desse assunto certa confusão que é necessário esclarecer.
É certo, sem dúvida alguma, que todos os principais chefes da heresia na Alemanha foram homens de extraordinária cultura no campo das letras gregas. Mas que consequência lógica se pode tirar disso? Acaso uma condenação fulminante da cultura helênica pelo fato de, em determinada ocasião, ter-se feito mau uso dela? Que erro! Seguindo esse raciocínio, a força, a beleza, o poder, a glória, a habilidade e os demais hábitos que, quando exercidos por uma pessoa boa, chamamos de prudência e, de maneira geral, de “virtude”, teriam igualmente de ser condenados.[7]
Tais qualidades, consideradas em si mesmas, são excelentes, pois constituem graças extraordinárias que Deus concede ao homem para sua salvação. O que acontece é que, às vezes, o homem as desvia do fim para o qual Deus lhas concedeu. Quão bem se aplicam aqui as palavras de Aristóteles! (Política, Livro I): “O homem bom e virtuoso sobressai entre todos os animais; não obstante, rebaixa-se ao último de todos quando se torna joguete do vício e da injustiça. A injustiça armada torna-se extremamente perniciosa; ora, se o homem se arma de prudência e virtude, estas serão para ele o melhor instrumento em sua luta contra o vício”.[8]
Fica, pois, suficientemente demonstrado que as letras clássicas ocupam um lugar elevado no campo da cultura e que, consideradas em si mesmas, não trazem senão vantagens ao homem.
Exemplos temos aos montes: entre os gregos, São Gregório Nazianzeno, São João Crisóstomo e São Basílio; e, entre os latinos, São Gregório, São Jerônimo, Santo Ambrósio, Santo Agostinho e tantos outros homens de virtude e ciência que utilizaram esta última como arma em benefício da Igreja.
Se, portanto, o caso da Alemanha parece contradizer-nos, tenhamos presente que a culpa disso não deve ser atribuída precisamente à cultura clássica, mas à nefasta impiedade daqueles que abusaram do talento natural que Deus lhes concedeu para minar traiçoeiramente sua santa religião.
Nós contamos com uma instituição, a Inquisição, diretamente apoiada por nossos monarcas e pelo Estado, cuja missão consiste em desbaratar a heresia onde quer que ela se apresente; para isso, dispõe de representantes em todas as cidades, escolhidos dentre as pessoas que mais se distinguem por sua ciência e virtude, número no qual tu te encontras, desempenhando tão acertadamente o cargo que te foi confiado. Ora, na Alemanha faltou uma instituição desse gênero, que teria sido capaz, por si só, de sufocar pela raiz os primeiros brotos da heresia.
Passemos agora a falar de Caio Mário. Para formular um juízo exato acerca de sua personalidade, devemos situar-nos no campo de suas atividades: o militar. Distinguiu-se precisamente pela tolerância e por um grande conhecimento da ciência militar; não foram, pois, nem a inocência de vida nem a justiça as virtudes que mais nele sobressaíram, como seria lógico exigir de um homem virtuoso como ele se sua vida tivesse transcorrido num ambiente de paz.
Como é sabido, Caio Mário, em certa ocasião, dirigindo-se à assembléia popular, falou depreciativamente da nobreza de linhagem e das letras gregas; suas palavras cativaram a plebe e, por voto unânime, foi proclamado cônsul.
Desse fato, a única conclusão que se pode tirar é que pessoas incultas e plebéias não consideram nem a nobreza de linhagem nem a cultura como méritos capazes de enaltecer uma pessoa; antes, precisam que lhes entrem pelos olhos feitos palpáveis que exijam extraordinário valor físico.
Ora, não cabe a menor dúvida de que as pessoas virtuosas encontram grande estímulo para sua conduta tanto na nobreza de linhagem quanto na cultura: esta lhes indica o caminho da virtude; aquela lhes apresenta, dentro da própria família, exemplos a imitar.
Mário, inteiramente desprovido de tais requintes, preferiu desprezar esses valores a reconhecê-los, para assim lisonjear aquela plebe inculta.
Tais são as considerações que me ocorreram para responder, ao mesmo tempo, aos detratores das letras gregas e à tua consulta.
Se aprovas meu parecer, já terei avançado bastante no caminho de confundir as calúnias de quantos fazem ostentação de uma austeridade mal compreendida; no fundo, semelhante atitude é ditada unicamente pela inveja.
Se, pelo contrário, desaprovas meu parecer, refuta-o imediatamente, pois sabes muito bem que não sou de modo algum apegado às minhas teorias e estou sempre disposto a ouvir teus conselhos e a fiar-me em tua autoridade.
Pessoalmente, dir-te-ei que não ter qualquer queixa a opor às letras gregas. Desde menino dediquei-me ao seu estudo e, pelo contrário, devo-lhes profunda gratidão, pois o domínio do grego foi para mim a arma com que abri caminho pelo campo geral da filosofia e, particularmente, pelo âmbito cristão do Novo Testamento, visto que, graças a semelhante instrumento, pude beber diretamente nas fontes originais, sem ter de contentar-me com os resultados dos tradutores, como sucede a tantos outros.
Não obstante, se me convenceres de que devo abandonar esses estudos, estou disposto a atender-te: abandoná-los-ei por completo; e, se não puder extirpar inteiramente minha afeição por eles, tão continuamente cultivada, dedicar-me-ei a eles o mínimo possível.
Adeus. Não te esqueças de mim.
Do meu retiro de inverno em Pozoblanco, 13 de dezembro de 1547.
[1] Sobre o Cardeal Contarini, ver J. G. S., pp. 38, 90, 92–93, 138, 144, 160, 169 e 317. Como vemos — e veremos em outras cartas —, a idéia da convocação do Concílio, que viria a ser posteriormente o de Trento, constituía uma verdadeira obsessão para Sepúlveda. Por sua intervenção nas mais altas esferas, podemos muito bem dizer que contribuiu ativamente, em grau elevadíssimo, para a sua convocação.
[2] Marco Pórcio Catão (234–149 a.C.), conhecido como Catão, o Velho ou o Censor, foi um estadista, general, orador e escritor romano da era republicana, celebrizado como o arquetípico defensor do mos maiorum (os costumes e tradições ancestrais de Roma). De origem plebéia (homo novus), galgou o cursus honorum — carreira política sequencial exercida pelos cidadãos da ordem senatorial na Roma Antiga, tanto na República quanto no início do Império — até o consulado (195 a.C.) e à censura (184 a.C.). Como censor, distinguiu-se pelo rigor implacável contra o luxo, o refinamento helenístico e o relaxamento dos costumes cívicos e marciais. Na política externa, notabilizou-se pela intransigência contra a reconstrução de Cartago, encerrando seus discursos com a célebre frase “Carthago delenda est” (“Cartago deve ser destruída”). Inicialmente, Catão hostilizou de forma veemente a penetração das letras, da retórica e dos filósofos gregos em Roma — expulsando embaixadas de filósofos atenienses e advertindo seu filho Marco sobre a decadência moral que a cultura helênica traria —, embora, ironicamente, em idade avançada tenha se dedicado ao aprendizado e leitura do grego clássico. (N.T.)
[3] Caio Mário (157–86 a.C.) foi um dos mais destacados generais e estadistas da República Romana tardia, eleito cônsul por sete vezes inéditas e aclamado como o “terceiro fundador de Roma”. Também um homo novus, nascido em Arpino, destacou-se pela brilhante conduta militar na Guerra de Jugurta (Numídia) e na vitória decisiva contra as invasões germânicas dos címbrios e teutões. Mário revolucionou as legiões romanas ao abrir o alistamento aos capite censi (os proletários sem posses de terra), profissionalizando as forças armadas e vinculando a lealdade dos soldados diretamente aos seus generais, o que transformou a dinâmica política e abriu caminho para a crise da República e as guerras civis contra seu rival Sula. De conduta rústica e pragmática, Mário apoiava-se na facção popular (populares) em oposição à nobreza senatorial tradicional (optimates). Em seus discursos à plebe — como o preservado por Salústio —, ostentava com orgulho suas cicatrizes de batalha e desdenhava explicitamente a erudição literária, a oratória refinada e a cultura grega, apresentando-as como afetações inúteis para um comandante romano. (N.T.)
[4] “Caio Mário atacou as letras gregas; veja-se, a esse respeito, Plutarco, no início da Vida de Caio Mário; veja-se também Plínio, onde diz que Marco Catão as detesta. Sobre o discurso de Mário, veja-se a Guerra de Jugurta, de Salústio, discurso aos Quirites” (Franco; tradução do texto latino, no qual, excepcionalmente, esta nota de Franco se encontra redigida).
[5] “Catão possuía um livro com o qual tratava as enfermidades de sua casa: de quo Plutarchus in Catone Censorio [‘sobre o qual fala Plutarco em seu Catão, o Censor’]” (Franco).
[6] A menção ao “célebre brinquedo de Arquitas” refere-se provavelmente à tradição segundo a qual Arquitas de Tarento, filósofo pitagórico, matemático e estadista do século IV a.C., teria inventado um brinquedo para crianças — tradição transmitida, entre outros, por Aulo Gélio. (N.T.)
[7] Martín de Oliva parece sugerir uma analogia: assim como a Graecia capta teria introduzido em Roma, juntamente com sua cultura, elementos de corrupção, o renascimento dos estudos gregos teria contribuído para as perturbações religiosas alemãs. Sepúlveda rejeita justamente essa associação entre humanismo grego e corrupção religiosa. Isso torna a carta especialmente interessante para compreender sua posição acerca das bonae litterae e do humanismo renascentista. (N.T.)
[8] Aristóteles, Política, I, 2 (1253a). A formulação original afirma, em substância, que o homem, quando aperfeiçoado, é o melhor dos animais, mas, separado da lei e da justiça, torna-se o pior; e acrescenta que “a injustiça armada é a mais perigosa”, porque o homem nasce dotado de armas que podem ser empregadas pela prudência e pela virtude, mas também para fins contrários. (N.T.)
