CARTAS A ERASMO DE ROTERDÃ
Juan Ginés de Sepúlveda (†1573)
Fonte: Angel Losada (ed.), Epistolario, p. 29–38, 57–59. Ediciones Cultura Hispanica, 1966.
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: O conjunto epistolar registra as tensões teológicas e literárias decorrentes da publicação da Antapologia de Juan Ginés de Sepúlveda (1490–1573) contra Erasmo de Roterdã (c. 1466–1536). A obra era uma resposta ou defesa escrita em favor de Alberto III Pio di Savoia, conde de Carpi (1475–1531) em sua disputa teológica e literária contra o grande humanista. Alberto Pio havia criticado duramente o humanismo de Erasmo por considerá-lo inclinado a idéias heréticas ou subversivas que abriam caminho para a Reforma Protestante. Sepúlveda, embora respeitasse a erudição de Erasmo, alinhou-se com a defesa da ortodoxia defendida pelo conde de Carpi. Inicialmente, Sepúlveda envia o texto expurgado e oferece manuscritos de Diego López de Stúñiga para as edições de São Jerônimo preparadas pelo humanista holandês. Erasmo responde lamentando a controvérsia gerada por obras polêmicas, mas acolhe a colaboração filológica para o aprimoramento de seus trabalhos textuais. Na sequência, Sepúlveda propõe a Erasmo uma leitura exegética inédita sobre a passagem do “Corban” em São Marcos, buscando seu parecer crítico abalizado. Por fim, Sepúlveda rebate as repreensões de Alfonso de Valdés, negando qualquer afã de notoriedade e justificando sua obra como leal defesa a Alberto Pio.
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CARTA 1
Juan Ginés de Sepúlveda a Desidério Erasmo de Roterdã[1]
Com esta carta envio-te um exemplar de minha Antapologia em defesa de Alberto Pio, obra publicada há pouco tempo em Roma.[2]
Minha primeira intenção foi enviá-la a ti imediatamente após sua publicação, para que fosse precisamente eu, e não outra pessoa, quem te fizesse chegar o livro, já que me dei ao trabalho de compô-lo movido não por motivos de inimizade para contigo, mas seguindo os imperativos de minha consciência. Preferia ser eu a enviá-lo, digo, para que não fosses pensar que pretendia aproveitar-me de teu desconhecimento da obra, dando assim tempo para que o livro se difundisse sem nenhuma dificuldade.
Amigos teus e, ao mesmo tempo, meus, levados talvez por excessiva cautela, opuseram-se ao meu propósito e puseram obstáculos à minha decisão. O desejo de eliminar todo motivo de inimizade que pudesse surgir entre nós foi a causa das advertências que me fizeram depois de lerem meu livro. Segundo eles, eu deveria suprimir algumas passagens e corrigir outras, pois, a seu juízo, se não o fizesse, o resultado não seria outro senão tornar-me teu inimigo. Eu não partilhava da mesma opinião, pois, em toda a minha obra, procurei tratar-te com toda espécie de consideração.
Reconheço que, em mais de uma ocasião, fui um tanto exagerado, sobretudo para acompanhar a indignação dos italianos, pois tinha a certeza de que, se não seguisse semelhante linha de conduta, a ira deles se voltaria contra mim. A intervenção de nossos amigos surtiu efeito, como verás. Pois, embora minha Antapologia já estivesse impressa, não foi posta à venda antes de ser expurgada segundo o critério deles.
Quero que estejas informado de tudo isso para que não te causem estranheza as modificações feitas durante a correção da obra, pois é perfeitamente possível que já tenha chegado anteriormente às tuas mãos algum exemplar dos editados em Paris, que são os que contêm integralmente o texto original primitivo.
Em minha Antapologia, como verás, faço alusão às “Observações”, de Stúñiga;[3] esta obra encontra-se em poder de Francisco Quiñones, Cardeal da Santa Cruz,[4] que pretende dar cumprimento à última vontade manifestada pelo autor no momento de sua morte: que te fossem enviados não o livro completo, que ficou inacabado e sem revisão, mas somente alguns capítulos selecionados.
O Cardeal sugeriu-me que eu mesmo fizesse a seleção e a enviasse a ti. Se não pesassem sobre mim ocupações tão absorventes, de bom grado teria cumprido seu desejo. Não obstante, se tens grande interesse nisso, estou disposto a prestar-te esse favor, ainda que para tanto tenha de abandonar meu trabalho, a fim de enviar-te quanto antes uma cópia.
Caso te interesse, adianto-te que se trata de um total de oitenta “Observações” aos teus Comentários sobre São Jerônimo (2.ª edição) e de mais de cem à tua Tradução e Comentário do Novo Testamento (4.ª edição).
Adeus.
Roma, 1.º de abril de 1532.
CARTA 2
Desidério Erasmo de Roterdã a Ginés de Sepúlveda
Muito antes de me teres enviado o exemplar da edição de Roma (de tua Antapologia), eu já possuía outro da edição de Paris. Admiro em tua obra tanto a erudição e o talento quanto a elegância de seu estilo; contudo, experimentei profunda decepção ao ver que colocas teu valor a serviço de semelhante causa. É lamentável que um talento como o teu, que deveria pertencer exclusivamente a Cristo e às musas, se deixe arrastar por uma minoria melindrosa.
Não sei que benefícios nos podem trazer as polêmicas originadas por esse gênero de publicações, senão o de fomentar novas discórdias; bastante farto delas já está o mundo; por isso, prefiro calar.
Deste-me uma notícia agradável ao falares das “Observações”, de Stúñiga, obra que eu já conhecia por outro meio.
Há já muito tempo estou ocupado em preparar uma terceira edição de São Jerônimo, trabalho que me está sendo extremamente custoso. Eu próprio fiz muito mais correções à obra de São Jerônimo do que Stúñiga; não obstante, ele faz certas observações que me haviam escapado. Ser-te-ei eternamente grato, amigo Ginés, se te encarregares de fazer e enviar-me uma seleção da obra dele.
Teria escrito ao Cardeal Quiñones, mas não o fiz porque, em razão de sua próxima viagem, talvez o encontre aqui. Podes enviar tranquilamente tudo quanto quiseres a Luxemburgo, em nome de Antonio Fuggerus, com a certeza de que chegará às minhas mãos.
Adeus.
Friburgo, dia seguinte à Festa da Assunção da Virgem, ano de 1532 (16 de agosto de 1532).
CARTA 3
Juan Ginés de Sepúlveda a Erasmo de Roterdã
Recebi tua carta no dia 12 de outubro, escrita em Friburgo em 16 de agosto; não me admira, portanto, que meu livro tenha demorado tanto a chegar às tuas mãos.
Dizes-me que, antes de suscitar a menor discórdia entre nós, preferes calar-te; semelhante determinação põe em evidência tua delicadeza e extraordinária sabedoria, ao não quereres desperdiçar lamentavelmente o tempo em discussões incômodas, quando tanta falta ele nos faz para a solução de assuntos de verdadeira transcendência, que tanto acabam prejudicados por esse gênero de polêmicas. A sinceridade e a franqueza com que me expões tua decisão causaram-me imensa alegria. Confesso-te sinceramente que qualquer discussão que eu me visse obrigado a travar contigo seria a coisa mais desagradável e penosa que me poderia acontecer, pois vejo em tua pessoa um luminar da ciência de nosso século.
Quanto a mim, posso dizer-te que tinha absoluta certeza de que, no presente caso, darias provas dessa equanimidade que te caracteriza; em primeiro lugar, porque à tua proverbial prudência repugnaria por completo uma falsa interpretação do cumprimento de meu dever; e, além disso, porque chegou ao meu conhecimento uma carta que escreveste ao Cardeal Tomás de Vio Caetano, na qual lhe manifestas tua decisão espontânea de iniciar imediatamente a correção de tuas obras. Para isso, apoias-te diretamente em sua autoridade e pretendes, assim, mediante recurso tão pacífico, fazer cessar os protestos de teus leitores timoratos.
Embora não te falte ânimo para semelhante empresa, não obstante, como amigo íntimo, suplico-te mais uma vez e exorto-te a iniciares quanto antes esse trabalho. Desse modo, acredita-me, ao mesmo tempo que imporás silêncio aos teus caluniadores, conquistarás a simpatia das pessoas virtuosas e, pessoalmente, darás um passo gigantesco no caminho da virtude, com o que tua alma sairá mais fortalecida para suportar as fraquezas dos outros, segundo o preceito de São Paulo.
Quanto às “Observações” de Stúñiga, por ordem do Cardeal Íñigo de Mendoza,[5] fiz a seleção e enviei-a a ti; suponho que já esteja em teu poder.
O Cardeal Quiñones, com a chegada do Cardeal Mendoza a Roma, entregou-lhe os “Comentários às Observações”, conservando ele próprio um exemplar, juntamente com os demais livros em latim que Stúñiga lhe havia legado.
Grande foi o interesse que o Cardeal Mendoza demonstrou por ti neste assunto ao patrocinar meu trabalho e dar-me conselhos acertados. Não obstante, eu pessoalmente o teria concluído sem a ajuda de ninguém, unicamente para comprazer-te.
Ao despedir-me de ti, amigo Erasmo, ao mesmo tempo que te manifesto a elevada consideração em que te tenho, ponho incondicionalmente à tua disposição toda a minha diligência, meus estudos e meu trabalho.
Adeus.
Roma, 15 de outubro do ano de 1532.
CARTA 4
Juan Ginés de Sepúlveda a Erasmo de Roterdã
Nossa correspondência epistolar causa-me grande satisfação, por encontrar nela matéria para discussão, sobretudo acerca de questões literárias; tu mesmo podes estar certo disso pela leitura de minhas cartas e podes ver como, da questão mais insignificante, extraio matéria para escrevê-las — se é que se pode chamar questão de pouca importância o esclarecimento de uma passagem obscura e confusa da Sagrada Escritura.
Bem sei que, fazendo jus à tua piedade e sabedoria, puseste todo o teu esforço em realizar uma nova tradução da Bíblia, anotada e comentada com verdadeiro acerto; trabalho que continuamente estás retocando, suprimindo algumas coisas e acrescentando outras novas, para o que te serves de tuas novas investigações e das sugestões de teus amigos, selecionando unicamente aquilo que julgas poder ser verdadeiramente útil.
Já te apresentei, em uma de minhas cartas anteriores, a interpretação que eu julgava exata para a passagem da Epístola de São Paulo aos Gálatas em que ele se referia ao Monte Sinai e a Jerusalém. Ao responder-me, deste-me razão e expuseste minha opinião na nova edição de teus comentários, antepondo-a às demais, o que, na verdade, muito me satisfez.
O que, porém, não consigo compreender é por que, depois de te haveres dignado a expor minha opinião em teus Comentários, ao fazeres a tradução do texto grego para o latim, não lhe dás esse sentido e preferes tua tradução anfibológica, tanto mais que não costumas ser excessivamente escrupuloso em afastar-te da interpretação tradicional; sobretudo quando, em teu comentário, manifestas abertamente teu desacordo com a tradução que depois fazes do texto.
Até agora, a passagem de São Paulo forneceu-me matéria para minhas cartas. Hoje dedicarei minha atenção a algumas palavras do Evangelho de São Marcos, acerca das quais me ocorre uma interpretação nova e inteiramente oposta à de todos os comentadores antigos e modernos que conheço; rogo-te que a examines e me dês tua opinião com toda a precisão.
A passagem encontra-se no capítulo 7.º do Evangelho de São Marcos, onde se diz: “Moyses dixit: honora patrem tuum et matrem tuam, et qui maledixerit patri vel matri morte moriatur. Vos autem dicitis: si dixerit homo patri, vel matri Corban (quod est donum) quodcumque ex me tibi proderit” (“Moisés disse: honra teu pai e tua mãe; e aquele que amaldiçoar o pai ou a mãe seja punido de morte. Vós, porém, dizeis: se um homem disser ao pai ou à mãe: Corban (isto é, oferta), tudo aquilo que de mim te poderia aproveitar”).
Cristo, com essas palavras, censura a avareza dos fariseus, porque eles adulteravam o preceito divino, dando-lhe uma interpretação adequada aos seus sentimentos de avareza.
A passagem, como se pode ver, é tão obscura e difícil de compreender que eminentes comentadores das Sagradas Letras, como São Jerônimo, Santo Agostinho, Teofilacto e muitos outros, forçaram seu intelecto em busca do verdadeiro sentido, obtendo como resultado as mais díspares e engenhosas interpretações, fruto, sem dúvida, de sua reta intenção, mas a maior parte delas em clara desconformidade com o texto evangélico.
Não me parece oportuno estender-me agora na exposição de seus comentários; em primeiro lugar, porque não te são desconhecidos e, em segundo, porque tu, muito acertadamente, dizes em teus Comentários que, antes de fazer essa espécie de elucubração acerca do significado evangélico, é necessário restituir o termo legítimo e principal do texto.
Muito meditei sobre essa frase, inquirindo com ansiedade e com todo o esforço de minha mente seu verdadeiro significado; tenho algum motivo para acreditar que minha conjectura corresponde à verdade, pois minha interpretação concorda inteiramente com o texto precedente e com o sentido geral da passagem. Com efeito, admitida como correta minha interpretação, o contexto ficará claríssimo e minha tradução estará em perfeita conformidade com o fim que Cristo se propunha em sua exposição.
Exporei a seguir, brevemente, minha opinião.
A frase “si dixerit homo patri vel matri” pode ser interpretada atribuindo-lhe o seguinte sentido: “si dixerit homo in patrem vel in matrem”, ou, o que é o mesmo, “si maledixerit patri vel matri” (“se amaldiçoar seu pai ou sua mãe”). Por outro lado, esse modo de exprimir-se não é raro na língua hebraica. No Salmo 70 diz-se textualmente: “Quia dixerunt inimici mei mihi” (“porque meus inimigos falaram contra mim”), isto é, “maledixerunt” (“amaldiçoaram-me”).
Como se vê, essas palavras, “Si dixerit…”, nada mais são que a repetição da primeira parte do preceito divino adulterado pelos fariseus. Admitido isso, pode-se claramente aplicar o sentido das palavras seguintes à primeira parte do preceito.
Com efeito, os fariseus suprimiram a última parte, “morte moriatur” (“seja punido de morte”) e a substituíram por “Corban ex me tibi proderit”, isto é: “mediante a oferta de um dom no Templo, sob os auspícios de minha intercessão sacerdotal, conseguirás o favor de que Deus te perdoe os pecados que tenhas cometido contra teus pais”. Os fariseus, levados pela avareza, acreditavam que a pena capital estabelecida pela Lei Divina para esse pecado podia facilmente ser substituída por qualquer pequeno dom entregue aos sacerdotes. A palavra “Corban”, como o próprio São Marcos já traduz, significa “qualquer espécie de dom oferecido ao Templo ou aos sacerdotes”; ainda modernamente se emprega esse termo em hebraico com idêntico significado. Essa interpretação farisaica constituía a autoridade na qual os filhos perversos se apoiavam para se desligarem da Lei Divina e faltarem ao respeito e às obrigações que o amor filial lhes exigia. Por isso, São Marcos acrescenta depois, logicamente: “et ultra non dimittitis eum quidquam facere patri suo aut matri” (“e já não lhe permitis fazer coisa alguma por seu pai ou por sua mãe”).
Tudo isso é corroborado por São Mateus, no capítulo 15, quando diz, esclarecendo e explicando melhor esse sentido: “et non honorificabit patrem suum aut matrem suam” (“e não honrará seu pai ou sua mãe”).
Em resumo, o verdadeiro sentido da passagem é o seguinte: a Lei Divina estabelece a pena capital para todos aqueles delitos que atentam contra o amor filial; vós, porém, fariseus, adulterais esse preceito divino dizendo o seguinte: “Não tendes de preocupar-vos por falardes contra vosso pai ou vossa mãe, isto é, por os amaldiçoardes; basta que ofereçais um dom no Templo por nossa mediação, pois somos seus sacerdotes e intercedemos diante de Deus por todos, para que obtenhais o perdão de vossa culpa e esta fique, assim, livre de todo castigo.”
O amor filial foi um dos preceitos mais sagrados estabelecidos por Deus; por isso, àquele que pecava contra esse mandamento, além da pena temporal que lhe poderiam impor os juízes — aos quais, por serem homens, semelhante crime poderia permanecer oculto —, aguardava outra pena mais terrível, embora mais distante: a ira de Deus, a quem ninguém pode enganar. A Lei Divina, no capítulo XX do Êxodo, prometia uma vida longa como prêmio pelo bom comportamento dos filhos para com seus pais, assim como uma vida breve como justo castigo pelo mau comportamento.
Mediante a adulteração desse preceito, tão apropriado para conservar o amor filial, os fariseus pretendiam arrancar do coração dos filhos o temor do castigo por seu pecado.
Este é o comentário que julgo apropriado para dar sentido a essa frase tão complicada e obscura.
Resta agora que tu faças um exame detido da passagem, confrontes minha interpretação com a dos demais, dês-me tua opinião e me digas até que ponto ela merece tua aprovação.
Espero de tua amabilidade que me respondas, se isso não te for incômodo.
Consultei minha opinião com verdadeiras autoridades na matéria, e elas deram-lhe plena aprovação; não obstante, para mim tu serás a máxima autoridade neste caso, o sapientíssimo juiz cuja sentença deverá inclinar-me para um lado ou para o outro: seja para perseverar na doutrina anteriormente exposta, seja para retratar-me e buscar novos argumentos que resolvam satisfatoriamente esta questão.
Adeus.
Roma, 13 de fevereiro de 1536 (do Nascimento de Cristo).
CARTA 10
Juan Ginés de Sepúlveda a Alfonso de Valdés[6]
Recebi tua carta com bastante atraso, precisamente no momento em que esperava a resposta de Erasmo à minha Antapologia; nada há de estranho nisso, se levarmos em conta que Erasmo é uma verdadeira máquina de compor livros.
Pelo que vejo, meu livro te incomodou muitíssimo; tanto que ainda estás e continuarás irritado comigo.
Tuas invectivas dirigem-se contra aqueles a quem chamas de obstinados detratores de Erasmo, tão benemérito da Igreja. Qualifica-los de ingratos e inoportunos e dizes que seus escritos são completamente inúteis e não têm outra finalidade senão feri-lo pelas costas.
A culpa de tudo isso está nesse interesse tão exagerado que sentes por todas as coisas de Erasmo e que faz com que sintas profundamente qualquer contratempo que lhe possa acontecer.
É tamanha a preocupação que tens por Erasmo, tamanho o teu interesse por sua glória, que dás a impressão de ser mais erasmista que o próprio Erasmo.
Os detratores de Erasmo não o apedrejam — como diz o Evangelho — por causa de suas boas obras.
Por outro lado, se estás convencido de que eles incorrem em erro, eles, por sua vez, acreditam realizar um trabalho sumamente útil, interessante e até necessário, e prestar um benefício às Belas-Letras e à Religião, lema que todos nós de bom grado escolhemos para nossas empresas literárias.
Afirmas que não agi de boa-fé ao escrever minha Antapologia e que nela se deixa entrever um coração ingrato.
Ao julgares minha intenção com tão pouco fundamento neste assunto, enganaste-te completamente.
Isso, que por si mesmo deveria ser-me desagradável, não o é tanto, contudo, se se leva em consideração tua compreensão ao afirmares que não podes deixar de louvar minha conduta amistosa e leal para com um homem a quem devo tantas honras como o Príncipe de Carpi. Quanto me agrada essa confissão!
Dizes-me que falaste com Erasmo acerca de meu livro e tentaste convencê-lo a responder unicamente à minha carta, e não à Antapologia; receio que ele não te dê ouvidos.
Tua preocupação para que ele não rompa sua amizade comigo é prova manifesta do elevado conceito que tens do companheirismo, interessando-te lealmente em estabelecer a paz e a amizade mútua entre teus amigos e esgotando, para isso, todos os recursos ao teu alcance.
Deves saber que o principal motivo de minha obra foi a defesa da causa de Alberto Pio. Em minha exposição reflete-se claramente minha conduta. É a de um amigo que aconselha, não a de um inimigo que injuria. Minha conduta neste caso foi exatamente a mesma que o Príncipe teria observado, dados sua correção e seus sentimentos religiosos.
A polêmica não foi a finalidade de meu propósito. Seguirei teus conselhos e, se não me impelir uma necessidade semelhante a esta, podes ficar tranquilo de que não voltarei a remexer neste assunto. Serei fiel ao meu saudável costume de não causar dano a ninguém sem motivo justificado, como seria o caso da legítima defesa.
Também te obedecerei quanto a não dar ouvidos a suspeita alguma. Insistes muito nessa observação, sem dúvida para que eu não incorra no defeito de querer tornar-me famoso mediante uma inimizade com Erasmo.
A glória e a fama obtidas à custa da calúnia são a prova mais evidente de imoralidade e pusilanimidade. Aqueles que assim procedem são dignos discípulos daquele miserável que, para tornar-se famoso, ateou fogo ao templo de Diana em Éfeso.[7] Vê como sua lembrança nos é desagradável.
Somente aos néscios, ociosos e pusilânimes poderia ocorrer coisa tão baixa como praticar qualquer façanha infame, contanto que com isso legassem seu nome à posteridade.
Antes de tudo, fique bem estabelecido que meu livro não foi escrito por vanglória. Ainda que assim fosse, não me considero tão néscio e incapaz — modéstia à parte — que precisasse dedicar-me a negócios indignos para conquistar um nome famoso.
Além disso, não sou daqueles que acreditam que, pelo simples fato de eu ser um dos personagens de uma polêmica na qual intervém Erasmo, hei de tornar-me famoso assim sem mais nem menos. És tu quem assim pensa, pois contemplas Erasmo como se fosse uma divindade semelhante a Diana ou Minerva; lês seus escritos e discursos como se fossem teus oráculos.
Deves saber que vivi durante muitos anos num país que é verdadeiro viveiro de sábios e oradores. É a fama destes que eu gostaria de igualar. Pois bem, observa: muitos deles falam de Erasmo de maneira muito diferente da tua e não lhe tributam tantos louvores. Esta é igualmente a opinião e o sentimento geral de boa parte de nosso povo.
Por isso, eu, que, longe de desprezar, louvo a obra de Erasmo, não penses — como pareces insinuar — que fico boquiaberto diante dele, a ponto de acreditar que iniciar uma polêmica com ele haverá de transformar-me num homem famoso.
Não te esqueças de que muitas de suas obras que tratam da “Filosofia Cristã” — matéria que entra diretamente no argumento de meu livro — são impugnadas, talvez não muito razoavelmente, por não poucos teólogos, cuja reprovação merecem. Tu mesmo não ignoras que, às vezes, ele defende teorias completamente inadmissíveis.
Fazes a Erasmo concessões acerca de certas coisas que ele próprio não se atreveria a admitir.
É possível que ele não repelisse as acusações que lhe são feitas tão brilhantemente como tu.
Isso se vê claramente no caso de meu livro, por ocasião da polêmica por mim suscitada — e que tanto te incomodou — para refutar as acusações infundadas lançadas por ele contra Alberto Pio.
Adeus.
[1] Sobre as relações e a correspondência entre Sepúlveda e Erasmo, veja-se nossa obra J. Ginés de Sepúlveda a través de su Epistolario, Madri, 1949, pp. 63–81 e 323–324. (Nas notas seguintes, esta obra será citada como “J. G. S.”, seguida do número da página.) Sobre a correspondência entre Sepúlveda e Erasmo, há uma saborosa nota de Franco que mostra até que ponto as menores questões de prestígio os tornavam suscetíveis: “Mostrou-me o senhor Doutor Sepúlveda, em Pozoblanco, esta epístola original de Erasmo, há muitos anos; tinha pouca margem na parte superior e nas laterais, o papel era muito grosso e escurecido, e fôra escrita com pena de cana; a letra era ruim e o papel não estava fechado. E o Doutor ofendeu-se com essa apresentação, porque, escrevendo-lhe Erasmo a ele, era justo que cuidasse daquilo que escrevia”.
[2] Sobre a inimizade de Alberto Pio com Erasmo e a intervenção de Sepúlveda, veja-se J. G. S., p. 75.
[3] Sobre Diego López de Stúñiga, sua inimizade com Erasmo, sua amizade com Sepúlveda e a intervenção deste na controvérsia em favor de Stúñiga, veja-se J. G. S., pp. 63–81.
[4] Sobre o Cardeal Quiñones (Cardeal da Santa Cruz) e suas relações com Sepúlveda, veja-se J. G. S., p. 64.
[5] “Dom Íñigo de Mendoza, cardeal de Burgos, ut infra epist. V., e nos breviários encontra-se este nome, ut in prima die Februarii patet.” (Franco).
[6] Sobre Alfonso de Valdés (e Juan de Valdés) e suas relações com Erasmo e Sepúlveda, veja-se J. G. S., pp. 26, 147, 323–325.
[7] A referência ao homem que incendiou o Templo de Ártemis (Diana) em Éfeso é a Heróstrato, que, segundo a tradição antiga, destruiu o templo em 356 a.C. justamente para perpetuar seu nome. Sepúlveda utiliza-o como paradigma da fama adquirida por meio de um ato infame, respondendo à suspeita de Valdés de que teria atacado Erasmo para adquirir notoriedade. (N.T.)
