DOIS COMENTÁRIOS SOBRE A RECENTE ENTREVISTA DE DOM TISSIER DE MALLERAIS
Padre Anthony Cekada (†2020), 30 de abril de 2006
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: Padre Cekada contesta Dom Tissier de Mallerais (1945–2024) afirmando que Dom Marcel Lefebvre (1905–1991) considerava inválido o novo rito de consagração episcopal, embora ressalte que a teologia sacramental sobrepõe-se a opiniões pessoais. Em seguida, critica a postura da FSSPX de denunciar as heresias de Joseph Ratzinger (1927–2022) enquanto insiste em sua legitimidade papal, apontando nisso uma contradição eclesiológica. Conclui que a postura de “reconhecer e resistir” adota inadvertidamente erros modernistas, defendendo a conclusão lógica de que um herege público não pode ser um verdadeiro papa.
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Dois pontos da entrevista de Dom Bernard Tissier de Mallerais concedida a Stephen Heiner (The Remnant, 30 de abril de 2006) merecem alguns comentários adicionais.
1. Dom Lefebvre e o novo rito de consagração episcopal
Dom Tissier nega enfaticamente que Dom Marcel Lefebvre tenha alguma vez estudado, negado, posto em dúvida ou sequer discutido a validade do novo rito de consagração episcopal.
Tudo o que posso dizer é que Dom Tissier não estava na sala quando Dom Lefebvre me disse pessoalmente que a forma do novo rito havia sido completamente alterada e que ele a considerava inválida.
Talvez questões desse tipo não preocupassem Dom Tissier e, por isso, ele não tenha perguntado. Mas com certeza preocupavam a mim.
Mantenho o relato de minha conversa com Dom Lefebvre que apresentei em meu artigo “Absolutely Null and Utterly Void” (“Absolutamente Nulo e Totalmente Vão”). O Arcebispo me disse que o rito era inválido.
Mas, de qualquer modo, isso é uma questão secundária. A validade do rito não é determinada pelas opiniões de um arcebispo falecido, mas pela aplicação dos princípios da teologia sacramental católica.
2. As heresias de Bento XVI
A linguagem contundente empregada por Dom Tissier a respeito de Joseph Ratzinger parecerá a muitos tradicionalistas uma espécie de mudança fundamental de posição.
Receio que não seja esse o caso.
A insistência de Dom Tissier de que as heresias de Ratzinger não têm qualquer efeito sobre a questão de saber se ele é ou não um verdadeiro papa é, em si mesma, notavelmente semelhante às próprias heresias de Ratzinger acerca da Igreja: a saber, que (1) a negação do ensinamento católico por meio da heresia não coloca alguém verdadeiramente fora da Igreja de Cristo, e que (2) alguém pode ser membro da Igreja de Cristo sem estar sujeito ao Romano Pontífice.
Quanto ao item (1), segundo Dom Tissier, Ratzinger “professou heresias no passado… nunca se retratou de seus erros… publicou um livro repleto de heresias”.
Mas nada disso, ao que parece, afeta o pertencimento de Ratzinger à Igreja ou sua capacidade de tornar-se e permanecer Vigário de Cristo: “Não, não, não, não. Ele é o Papa”. A heresia, no sistema de Dom Tissier, simplesmente não tem consequências para o indivíduo que a professa.
Quanto ao item (2), embora Dom Tissier diga a respeito de Ratzinger: “Ele é o Papa, agora, sim, ele é o Papa”, a FSSPX se recusa a estar sujeita ao “Papa”, ao mesmo tempo que se considera parte da Igreja. A submissão ao Romano Pontífice, tanto no sistema de Dom Tissier quanto no de Ratzinger, já não é necessária para o pertencimento à Igreja de Cristo.
É irônico que, ao combinar uma denúncia das heresias de Ratzinger com a insistência de que isso não produz qualquer efeito nem sobre o pertencimento de Ratzinger à Igreja nem sobre sua capacidade de ser um verdadeiro papa, Dom Tissier abrace inadvertidamente a grande heresia de Ratzinger acerca da “Igreja como comunhão”.
Obviamente, essa não é a intenção de Dom Tissier.
Pode-se sempre rezar, contudo, para que, tendo reconhecido que Ratzinger ensinou heresias, Dom Tissier e os demais membros da FSSPX logo apliquem a esse fato os princípios teológicos apropriados e, então, reconheçam sem hesitação as consequências lógicas: o herege Ratzinger não pode ser um verdadeiro papa.
Enquanto isso, denunciar as heresias de Ratzinger e, ao mesmo tempo, insistir que ele é papa simplesmente cristaliza a incoerência da eclesiologia do tipo “reconhecer e resistir” da FSSPX.
