O ANTÍKHRISTOS: RESPOSTA AO “CARDEAL” PRIMAZ JUAN C. ARAMBURU
Carlos Alberto Disandro (†1994)
Fonte: https://archive.org/details/el-pampero-americano_202603
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: O texto é uma longa carta polêmica e teológica que denuncia a apostasia e a traição à fé católica por parte da alta hierarquia eclesiástica. O autor defende que a atual hierarquia romana, ao adotar o ecumenismo e o diálogo com o judaísmo, atua como precursora do Anticristo. Através de uma análise filológica do termo grego Antíkhristos, ele sustenta que o verdadeiro perigo reside na “dissolução do Cristo” dentro da própria Igreja. Conclui que, embora a estrutura visível esteja eclipsada e ocupada por poderes satânicos, a verdadeira Fé permanece imutável através de sua semântica sagrada.
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1
Eminência:
Atribuo-lhe este título tradicional do cardinalato, ao menos desde o século XVI, a fim de afastar qualquer presunção de agravo neste texto, sucinto e essencialmente teológico, embora o senhor, por força da bula do Papa Paulo IV, do direito canônico secular etc., ou simplesmente por imperativo da Fé, seja um “cardeal” deposto, despojado de todos os seus graus, dignidades, ofícios, funções e prerrogativas, subordinado ao seu “mestre”, o antipapa ocupante, como um anticristo da cátedra romana, como um precursor inconfundível do Antíkhristos.
Assim, importa primordialmente a substância da Fé e a doutrina congruente; depois, as dignidades, ofícios e funções que na Ecclesia operam segundo essa Fé e para a custódia e exaltação dessa Fé na Sagrada Tradição. Consequentemente, em última instância, delineia-se a situação pessoal — a consciência, como hoje se diz — cuja solidez e destino só são julgados pela ilibada sapiência divina, à qual, evidentemente, também está submetido, e gravemente submetido, quem escreve estas linhas, por mandato do meu mestre São João Apóstolo, autor do Evangelho que vós, dignidades canônicas depostas, vilipendiais, esvaziais e crucificais; desse Evangelho, incriminado e escarnecido por Karol Wojtyła, Joseph Ratzinger, Jean-Marie Lustiger, Juan Carlos Aramburu, Raúl Primatesta e tutti quanti. E, embora limitado e indigno em muitos pormenores, em muitos aspectos ostensivos e dolorosos, minha força e autoridade procedem dessa Ecclesia e dessa Fé intemerata e sublime, que vós traís e entregais, como novos fariseus e saduceus, aos negadores do Senhor, e da qual apostatastes juntamente com João XXIII, Paulo VI, João Paulo I e João Paulo II, o theríon-pontifex, descrito no capítulo XIII, 11–12, do Apocalipse.
Essa é a primeira clareza que desejo estabelecer sem rodeios num texto seguramente insólito para a sua credulidade de apóstata convicto: a saber, que, se o chamo “eminência”, é por não querer confundir tudo no emocionalismo pseudo-místico e adulterado que manejais, e por exigência objetiva do seu perfil no “episcopado” e do meu na atribulada e atormentada grei, para a qual vós apenas perseguis a Fé. Mas, ao mesmo tempo, para marcar, acima de todo emocionalismo e de humildades regressivas e farisaicas, que minha autoridade na Fé é superior à sua, pois um apóstata não pode reivindicar autoridade alguma, que é o que é pela Fé, e não pela burocracia dos saduceus, apoderada da Ecclesia. Isto é claro, inquestionável, absoluto.
Feita essa delimitação imprescindível e objetiva, vejamos o conteúdo e o rigor da minha resposta, pois já me encontro totalmente desligado da sua “autoridade” irrita e corrupta. Essa resposta leva em conta primordialmente o seu discurso da Quinta-Feira Santa, 23 de março de 1989 (La Prensa, 25.III.89, p. 6), e o texto que “institucionaliza” o “diálogo” entre o catolicismo argentino e a religião judaica (ibidem, p. 6, com as informações ulteriores sobre esse mesmo “evento”), em tudo o qual o senhor, como “cardeal primaz”, ordena, impulsiona, favorece e protege, segundo a já mencionada apostasia, sob a condução do antipapa, tirano da Igreja perseguida, e a semântica de certos textos do concílio e de várias comissões, que não são senão a traição à Fé, por força de acordos com a loja B’nai B’rith. Sobre esse ponto, desde já, antes de prosseguir, assinalo:
- Que a edição abominável de Juan Pablo II y el judaísmo, 1979–1987, Edições Paulinas, Buenos Aires, 1987, foi realizada com o patrocínio e promoção do Distrito XXVI Argentina da referida loja judaica de mais alto nível iniciático e operativo;
- Que, para sua instrução, convém revisar cuidadosamente e o capítulo La plus grande force organisée des temps modernes, no livro de Yann Moncomble, Les Professionnels de l’antiracisme, Paris, 1987, p. 231–279. A Argentina é, ao que parece, um “distrito” desse poder, que o senhor acata e serve.
É desnecessário acrescentar que examinei inúmeros “discursos” e “atitudes” do senhor, que não tenho por que analisar aqui. Considero simplesmente um contexto total, uma curva explícita que apostata da Tradição. Devo esclarecer-lhe que, no meu livro La herejía judeo-cristiana (“A heresia judeu-cristã”), Buenos Aires, 1983, e no opúsculo La crisis de la Fe y la ruina de la Iglesia Romana: Respuesta al Cardenal Joseph Ratzinger (“A crise da Fé e a ruína da Igreja Romana: Resposta ao Cardeal Joseph Ratzinger”), Buenos Aires, 1986, o senhor encontrará outras precisões relativas a referências indispensáveis que ora omito. Esses trabalhos meus, entre 1964 e 1986, cobrem um período de singular agonia da Fé vivente; a eles devo acrescentar minhas Proclamações doutrinais 1–10 (entre 1977 e 1989), e os opúsculos El mensaje de la Santísima Virgen en la Montaña de La Salette (“A mensagem da Santíssima Virgem na Montanha de La Salette”) (1987), El enigma de Monseñor Lefebvre (“O enigma de Monsenhor Lefebvre”) (1989), La Tradición en la perspectiva trinitaria y teándrica (“A Tradição na perspectiva trinitária e teândrica”) (1989). São apenas marcos para que o senhor perceba o sentido do combate que empreendo livremente no estilo de Santo Atanásio (cf. “San Atanasio y el combate de la Fe”, capítulo do meu livro Filología e Teología, Buenos Aires, 1973).
Pois bem, distingo, em primeiro lugar, em suas alocuções e nesta em particular uma série de generalidades que, ao menos no discurso e na mensagem concretos, confundem constantemente a realidade teândrica de Cristo e a realidade teândrica do que o senhor chama “a obra de Jesus”, sem esclarecer devidamente a sua semântica inconfundível; e, em seguida, as ditas distinções pastorais e seus fundamentos ecumênicos e sociomórficos com que a “igreja romana” encobre sua apostasia e sua inadmissível conivência com a sinagoga de Satanás. Esses dois planos, habilmente manipulados pelos herdeiros dos falsos papas João XXIII e Paulo VI, parecem adquirir traços de “página sagrada” deste Neo-Novo Testamento, e de “doutrina sagrada infalível” para a mistificação religiosa promovida pelo grande heresiarca Karol Wojtyła. Essa mistificação, com sua imponente massa de textos contrários à simplicidade e à Verdade do Evangelho e da Igreja, converge, desde o concílio até hoje, com os poderes mundialistas que submeteram os povos cristãos à tirania dos saduceus e fariseus, precisamente em nome de um Evangelho vilipendiado e adulterado. Contudo, no primeiro plano de suas generalidades obsoletas, gastas e estéreis, o senhor esquece “o Antíkhristos”, sobre o qual nos adverte precisamente São João; e, no segundo plano, o senhor pretende, como todos os vaticanistas, cismáticos e hereges incuráveis, confundir a Fé com autoridade (a vossa, entenda-se bem). Donde se segue: como poderia advir o anticristo numa “igreja” e numa cátedra romana tão “magnífica e segura”, embora seja agora, com o polaco, a Babilônia, ébria do sangue dos mártires e dos justos? Impossível. Resta apenas a solução de Martin Buber e Edmond Fleg, impulsionada pelas lojas judaicas: o “messias” por vir seria o único messias judaico, o único “messias” crível; o único aceitável (para vós, não para mim), precisamente o Antíkhristos, cujo poder mundial vós preparais, fomentais e idolatrais sob o manto do cristianismo. Pois o Khristós (verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, o único Senhor) já veio e ressuscitou, e devemos discernir o “reino do Antíkhristos”, emergente da “igreja apóstata”. E isto destrói todo o seu discurso já mencionado e toda a dialética do theríon-pontifex.
2
Por isso, com a minha resposta, mais do que esmiuçar seus lamentáveis conceitos e palavras, nessa e em outras ocasiões, ou comentar a incrível e nefasta pressão judaizante, prefiro enfrentar a quaestio fundamental: é verdade que “o Antí-khristos” não pode destruir a essência da Igreja, a Ecclesia do credo de Nicéia; mas pode, sim, recrutar para a apostasia toda a hierarquia, com papas, cardeais e colégios episcopais; recrutar também os poderes mundanos, os judeus e os sectários; enfim, pode apoderar-se das cátedras da Fé — episcopi — e, como um Lustiger qualquer, destruir a piedade, a vigência do Mysterium Eucarístico, em suma, a cultura do Mistério Agapístico. Em outras palavras, pode adulterar, falsificar, substituir a semântica da Fé, e negar in totum essa semântica, dando-a por abolida — mas não “fora” da Igreja, e sim “dentro” e “desde de dentro” da Igreja. Pode, e o faz; prova disso são seus atos e suas palavras, que, embora mitrados, acumulam e fomentam a apostasia. Prova-o também a incomensurável ruína da Igreja Romana, cuja voz não é mestra da Fé, mas, ao contrário, treva da apostasia. Essa treva já cobre toda a dimensão do que convencionamos continuar chamando “igreja católica romana”, esvaziada de sua Fé, carente do Logos da Fé; joguete das forças satânicas que a ocupam no lugar do Paráclito.
Não é que o senhor tenha se referido aos antíkhristoi ou ao Antíkhristos em seu discurso da Quinta-Feira Santa; ao contrário, seguindo a inspiração judaizante onipresente e soberba que escraviza todo o colégio episcopal e purpurado romano, o senhor o omite, como sempre; nega-o, desconhece-o, escamoteia-o como dado incontestável da Fé. Todas as suas palavras, argumentações e sua adocicada eclesiologia repousam neste pressuposto: não há antíkhristoi, nem o Antíkhristos — e assim o senhor contravém o ensinamento explícito de São João Apóstolo e da verdadeira Ecclesia, precisamente em tempos de ostensivo poder do Antíkhristos.
Então, se repetimos a sentença “vã é a nossa Fé sem a Ressurreição do Khristós”, seu corolário teológico, absoluto, não meramente epocal ou de “revelações privadas”, como dizeis, rezaria: se não afirmamos que é de Fé o advento histórico-concreto do Antíkhristos, a Ressurreição carece de entidade escatológica, torna-se um flatus vocis do poder clerical ou do confusionismo sectário dos protestantes, e volta a ser um eixo de manipulação judaica diante de todo o cristianismo, com todas as suas confissões e seitas. É precisamente a Ressurreição que provoca a história intramundana, desde o seu centro até o seu telos, cujo ápice é “o Antíkhristos”.
Estas são, Eminência, esclarecimentos forçosos para não confundir a quaestio com uma disputa interessante acerca de textos (filológica), com um recrudescimento de finitismo místico e sectário, ou com formulações de reducionismo doutrinal ad usum indigenarum, revestidas de lamentáveis taparrabos (a teologia jesuíta, do século XVI até hoje, ao menos na América); nem tampouco confundi-la com um emocionalismo místico ou pseudomístico, questionável e substituível por outros pormenores da piedade conformadora, como poderia ser a respeitável devoção da Via Crucis. Não. A Ecclesia, na medida em que renega Cristo, na medida da apostasia, conhecerá o poder do Antíkhristos; e, reciprocamente, na medida em que oculta a realidade escatológica do Antíkhristos, corromperá a Fé e provocará seu advento e seu poder. Portanto, se o judaísmo é a negação de Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, sua infiltração — larvada, oculta ou ostensiva — e sua expansão na Ecclesia, desde o “papa” até os “descamisados” do mundo, desde os “bispos” até os poderes da terra e as potências temporais, definirá a hora (kairós) do Anticristo, e este se aproximará fisicamente, historicamente. Disso estamos advertidos, e essa advertência torna-se sinal da Fé, íntegra e vivida. Não se trata, pois, de propaganda sectária, à maneira de tantos hereges antigos e modernos, que representam uma invasão do apocalipse judaico, distinto por natureza da Revelação (apokalypsis) mistérica, teândrica e cristã. Não confundamos, portanto, as coisas com as perspectivas de tantas e tantas seitas, criaturas prefiguradas do Anticristo.
Eminência, resumo, pois, estes preliminares, antes de entrar no coração da quaestio, propriamente dita:
1º) Todo João Paulo II e todo Juan Carlos Aramburu, “cardeal” primaz (deposto) da Argentina, presumem facilitar o poder da sinagoga de Satanás, descrita por São João no capítulo VIII de seu Evangelho; e, por conseguinte, velam a revelação autêntica e certa sobre o Antíkhristos e minam a Fé.
2º) Em nada se menciona a realidade física, histórica, teológica e política do Antíkhristos (nem o poder de seus predecessores, os antíkhristoi), dado, todavia, inescusável da Fé íntegra e verdadeira. Portanto, trabalham pelo seu advento, não pelo “reino” do Senhor.
3º) A “igreja” do Vaticano II, regida sempre por um Antíkhristos — culminando agora neste, poderoso como theríon-pontifex, que usurpa manifestamente a cátedra de Roma —, essa “igreja” pretende, de modo tirânico, aprofundar, expandir e consolidar a apostasia consumada de toda a congregação dos fiéis. Prepara, pois, com seu poder ecumênico, o reino de “o” Antíkhristos, conforme definido por São João. Isso é tudo. Proponho-me, por isso, na resposta, retemperar a doutrina acerca do Anticristo, para distinguir Ecclesia et Synagoga Satanae e para reassumir, em minhas modestas palavras, a vigência secular de uma autoridade venerável, a de São João Teólogo, meu mestre na ciência do Logos. E também para testemunhar, ainda que com toda a precariedade, que o Mistério da Fé é invulnerável aos antíkhristoi ou a “o” Antíkhristos.
3
Antíkhristos: eis aqui uma palavra, um título, uma semântica, portanto uma “função” e um “perfil” histórico. Comecemos, pois, por ela. Por isso, como sinal da já latente apostasia, sabemos que Mélanie — que devia recordar, na literalidade da mensagem de La Salette, a palavra Anticristo, repetida em três ou quatro parágrafos distintos —, surpreendida, perguntou: “O que é o Anticristo?”. E também como sinal, para toda a Ecclesia romana à beira da apostasia, São Pio X inicia sua primeira encíclica E Supremi Apostolatus (1903), sublinhando a doutrina acerca do Anticristo (parágrafo 4, “Os homens contra Deus”, em São Pio X, Escritos Doctrinales, Ed. Palabra, Madri, 1975, texto bilíngue): Tanta scilicet audacia, eo furore religionis pietas ubique impetitur, revelatae fidei documenta oppugnantur, quaeque homini cum Deo officia intercedunt tollere delere prorsus praefracte contenditur! E contra, quae, secundum Apostolum eundem, propria est Antichristi nota, homo ipse, temeritate summa in Dei locum invasit, extollens se supra omne quod dicitur Deus (…). In templo Dei sedeat, ostendens se tamquam sit Deus (p. 18–20 da ed. cit.). Sua tradução literal é a seguinte: “E, com efeito, com desmedida audácia, e com esse ódio, ataca-se por toda parte a piedade da nossa religião, combatem-se as doutrinas da fé revelada, procura-se suprimir todo vínculo sagrado entre o homem e Deus e luta-se obstinadamente para apagá-los; e, ao contrário, o que se ergue, segundo o mesmo Apóstolo, como nota própria do Anticristo, é o próprio homem, que, com suma temeridade, invadiu o lugar de Deus, exaltando-se acima de tudo o que recebe o nome de Deus, (…) de modo que se assenta no templo de Deus, mostrando-se como se fosse Deus”. E, no parágrafo anterior, havia assinalado cauta, mas firmemente: “O prólogo dos males que devemos esperar no fim dos tempos, neve filius perditionis (…) iam in hisce terris versetur” (“ou que o filho da perdição […] já more nestas terras”).
Mas, enfim, comecemos por essa palavra, como convém a todo bom filólogo e teólogo, cujo exemplo nos dão os Padres e os bons comentadores e místicos até hoje. Se a palavra, o título com que Khristós se entrega aos homens não é indiferente, tampouco poderia sê-lo outra palavra ou variatio semântica que existe precisamente por referência ao centro contundente e explícito de toda significação. A relação também é verdadeira, sobretudo neste caso que, como veremos, desvenda o profundo mistério de uma história que pende do poder do Antíkhristos. Por isso, a rabinização da Ecclesia romana — e nela a adulteração do credo atanasiano — manifesta-se pela extinção da luz semântica de Antíkhristos, extinção que implica a extinção de Khristós, como querem os fariseus e saduceus, antigos e modernos. E, nessa dupla sentença, resumi já a obscuridade da igreja hodierna — a de sua suposta autoridade e primado, que, de minha parte, nego resolutamente — e a obscuridade em que vive a Fé. Mas já o advertira a Mensagem de La Salette (questão privada para vós, como sublinhei; não para mim, que considero os “sinais” como manda o Senhor e o Evangelho). Pois, justamente, como já disse, a Mensagem da Montanha de La Salette fala do Anticristo em um século carnal e estúpido, que lança os fundamentos desse desprezo pela Fé e pela semântica da Fé. Transcrevo-lhe um parágrafo pertinente, que diz, em tradução literal: “Tendo sido esquecida a santa fé de Deus, cada indivíduo quererá guiar-se por si mesmo. (…) Durante esse tempo nascerá o Anticristo, de uma religiosa hebréia, de uma falsa virgem, que terá comunicação com a antiga serpente; seu pai será ‘bispo’. (…) Roma perderá a fé e se tornará sede do Anticristo. (…) A Igreja será eclipsada. (…) Só a fé viverá” (op. cit., p. 21–28).
Por certo, Eminência, ao estúpido século XIX, sob a condução da “ciência”, das “lojas” e da “revolução”, seguiu-se este estupidíssimo século XX, que, todavia, teve sua luz em Pio X e Pio XII, aos quais ninguém deu crédito nem obedeceu, e menos ainda, obviamente, o estamento da alta clerezia, e a ignorância de um clero desinformado e dócil. Essa clerezia esgrime a teologia da obediência, se convém a seus desígnios de mistificação e adulteração ou ocultamento; ou a teologia da subversão, se convém à sua apostasia e à sua aliança com as forças obscuras que governam o mundo e aos seus desígnios de poder. Pela primeira dizem: “Já não se fala do Antíkhristos, fala-se do ecumenismo e da aliança com a sinagoga”; pela segunda, instalam na cátedra romana “um” antíkhristos, que corrói e destrói a Fé. E continuam a chamá-lo Santo Padre, a quem se deve obedecer, logicamente! O tempora, o mores! E dizem: — É melhor obedecer-lhe, ainda que erremos com ele. Sabemos que é “Antíkhristos”, mas deveis acatá-lo e segui-lo, porque a cátedra de Roma o purifica. — Anathema sit!
Mas existe um termo — Antíkhristos — que até uma criança de catecismo poderia compreender sem muitos livros, que, quanto à sua compreensão e extensão lógicas, quanto à sua suppositio, como diria João de Santo Tomás, ou quanto à sua semântica, como ensino há mais de quarenta anos, depende de Khristós. Mas, Eminência, devo reafirmar numa única sentença aquilo que separei por conveniência expositiva: nem em Khristós nem em Antíkhristos credes vós, ensinados por esse teósofo, antropósofo e gnóstico polaco, que exerce com autoridade usurpada e caduca, isto é, inválida e sem qualquer efeito canônico. O “antropósofo” Karol Wojtyła permite-se, então, vilipendiar a Igreja perseguida com seu sexualismo e feminismo, horrenda alquimia de um anticristo. Eis, pois, reunidas a “teologia da obediência” e a “teologia da subversão”, unidas numa só Roma apóstata.
Avancemos, porém, na via que lhe proponho, se é que o senhor não destrói com ira este papel ardente — ardente com as chagas de Cristo —, de cujo discípulo, repito, tenho mandato explícito de repetir palavras que são o núcleo ou cifra desta imperita resposta a um cardeal primaz deposto, eo ipso ou ipso facto, como diz Papa Paulo IV, há quase quatro séculos e meio. “Dizei-lhes — ordena o Theólogo — que recordem ‘os’ antíkhristoi, em função de ‘o’ Antíkhristos. Dizei-lhes, enfim, que perecerão juntamente com o seu ‘mestre’ polonês, satânico na destruição da Igreja Crucificada, a cujo pé choro inconsolável e busco que me acompanheis na América com vossa palavra de fogo”. Fico estupefato e medito — e esta é a minha meditação. Quisera calar-me e não escrever, mas non possum. A voz de São João Apóstolo urge e lacera, e a horrenda treva, pletórica de rostos infernais — essa treva espessa de mentiras, adulterações e concupiscências — cerca, como uma muralha sinistra, o mundo e a Igreja; treva consolidada, cultivada e constantemente regenerada pela apostasia. Ali cresce o poder do Antíkhristos, contra o qual nos previne São João.
4
No Novo Testamento, o termo ἀντίχριστος é exclusivo de São João, e mais concretamente de suas epístolas I e II. Anoto-lhe os lugares específicos, para que suas doutas comissões — que estudam de tudo, menos o que concerne à Fé — e para que seus doutos helenistas retomem o ensino que devem ao povo cristão, sem falsificações nem manipulações semânticas, às quais a América foi acostumada para a mistificação, disseminada e reforçada pela Companhia de Jesus. Pois é desnecessário dizer que, por não saber grego, a estéril igreja argentina não pode compreender São João, e menos ainda agora na ignóbil mescla ecumênica e sua fraude constitutiva e corruptora. De todo modo, os lugares são, em suma: I Jo 2,18 e 22; II Jo 7 e I Jo 4,3, este último muito importante pelo que seria a variante mais antiga do texto — e a de maior autoridade segundo a tradição manuscrita —, pelo que poderíamos chamar a definição do Anticristo. Quem impôs na Igreja romana uma opção pela Vulgata, e quem impediu, em todo caso, o conhecimento do texto do Apóstolo? Aí começa a sutileza do “reino do Anticristo”, que oculta seu perfil semântico inconfundível nas polêmicas judaizantes da Igreja primitiva, talvez inclusive ainda em vida do próprio São João.
Esses são os textos que vós — “cardeal primaz”, supostos papas, falecidos ou não, ou seja, Paulo VI em particular e, logicamente, o atual ocupante e usurpador da cátedra romana, Karol Wojtyla, que cumpre plenamente em seu “reino” a sentença de I Jo 4,3, sendo, portanto, “anticristo”, quase pleno — enfim, textos que vós ou desconheceis, ou escamoteais, como os judeus e judaizantes de todas as épocas; ou desfigurais e edulcorais, sobretudo como disse, por influência do pacto atual com a Synagoga Satanae e pela ação dos nefastos “doutores” da Companhia inaciana. Estes são, contudo, os textos que a Ecclesia nunca esqueceu em seu cativeiro, ao menos até São Pio X. Não ensinar essa semântica e essa doutrina de São João é desestabilizar, corromper e, finalmente, anular a Fé, como profissão da Fé in Ecclesia, a fim de constituir uma “igreja” e um ecumenismo anticrístico que “dissolveu o Salvador” (I Jo 4,3). Cumpre-se também aqui o que foi dito em La Salette: “a Igreja será eclipsada”, porque é eclipsada segundo a definição exata do “anticristo”. Não se trata de descrever catástrofes cósmicas — que existirão, por certo —; trata-se da catástrofe semântica que o “anticristo” provoca para substituir Cristo, isto é, “eclipsar o Salvador”, por qualquer manobra, manipulação ou tirania da “obediência” ou da “subversão”. E não é em vão que o lema que São Malaquias atribui a este pontificado confirma o texto de La Salette: de labore solis, que em bom latim, como expliquei desde 1978, significa “o eclipse do Sol”. E não é preciso ser muito erudito para saber que, na linguagem simbólica do culto, da mística e da tradição exegética, “sol” equivale a Khristós.
O composto grego ἀντίχριστος traz esse prefixo anti- que apresenta dificuldades ao leigo por sua densidade significativa, transferida à densidade semântica do composto. Pois o grego cristão conservou uma característica muito importante da língua grega desde suas origens, a saber, a possibilidade complexa de variações semânticas pelas raízes, sufixos e também pelas variações inesperadas dos compostos, que o latim não consegue combinar como o grego.
Duas linhas significativas comporta o prefixo:
- Semelhante à que se conserva no latim e nas línguas românicas, isto é, “contrário”, “adversário”, “oposto” etc. Mas no grego clássico, primeiro, e depois no grego cristão, derivado em grande parte do grego helenístico, essa acepção que anoto como número um não é suficiente. Pois, por exemplo, se os heróis são chamados antítheoi, seria imperdoável traduzir como “contra” ou “adversários dos deuses”. Não: os heróis ocupam, no mundo obscurecido, o lugar dos deuses — no mito, evidentemente, ou no paganismo, como dizem os rabinos judeus e eclesiásticos. Essa acepção de anti- corresponde, portanto, claramente ao grego clássico, e é muito importante para não confundir o que é inconfundível. Mas já disse que, mesmo no grego clássico e no helenístico-cristão, o prefixo comporta outros matizes que, sobretudo no grego cristão — tratando-se de sutis modulações semânticas, impostas ou elucubradas em geral pelos grandes heresiarcas — como Ário, Nestório, Montini, Wojtyla — devem ser considerados com cuidado, sabedoria e inspiração.
- A segunda linha seria, pois, “em lugar de”, “em substituição a” e, por consequência, contra, adversus etc. Nenhum heresiarca pretendeu “ser” em lugar do Filho de Deus; sempre estiveram contra. A característica do anticristo não é apenas estar contra, mas tramar com seu poder para ser no lugar de Cristo in Ecclesia e, naturalmente, no mundo. Mas São João, nas breves sentenças que apresenta em seu texto, orienta-nos para esse segundo sentido de anti-, que é, por outro lado, o especificamente grego e o especificamente conforme à Fé. Por isso falo de grego cristão, agapístico, não segundo os esquemas das histórias linguísticas apenas, mas segundo o que tantas vezes expliquei, ensinei e adverti: que a Fé, por sua condição teândrica, é proferição da Fé, ou seja, é semântica. Tudo o mais que posso mencionar resulta acessório, marginal ou complementar para o campo semântico do prefixo e, portanto, do composto.
E agora vem, segundo esse horizonte linguístico-semântico, a visão histórica e teológico-profética do Apóstolo, rememorada depois do Apocalipse e das epístolas de São Paulo. Delas não nos ocupamos agora. São João distingue entre antíkhristoi (no plural), os anticristos, isto é, aqueles que, ao longo do tempo, pretenderão estar contra Cristo, mas sobretudo ocupar o lugar de Cristo, de modo variável, inicial ou potencial, mas não absoluto. E “o Antíkhristos” (no singular com artigo), que é o ápice dessa longa série ou curva misteriosa que, iniciada na antiguidade cristã, prossegue sem interrupção até a culminação única e definitiva de “o anticristo”, ou “no anticristo”, dentro da Ecclesia, e mediante a apostasia ou adulteração da Fé, isto é, segundo minhas explicações, adulteração, manipulação e anulação da semântica da Fé.
Os textos fundamentais, como disse, correspondem às Epístolas I e II, e delas recuperamos a fisionomia fundamental que a tradição desenvolveu até nossos dias. E é isso que nega a igreja apóstata de sua “eminência”, juntamente com seu “papa” e “colégio de cardeais”, obsoleto, nulo, absolutamente nulo. Pois, ainda que de passagem, quero esclarecer este ponto: o colégio cardinalício deixou de existir entitativa e canonicamente. Logo, já não há mais “eminências”, como o senhor compreenderá. Mas isso, sendo questão muito grave, é agora um assunto marginal. E quanto ao seu “papa”, trata-se de um mero ocupante e usurpador da sede romana. Não é “vigário de Cristo”, porque, ao querer ser “no lugar de Cristo”, passa a integrar a diacronia dos antíkhristoi, conforme expliquei — ainda que mais próximo das notas essenciais do Anticristo.
- Um e outros (o e os) procedem de entre os fiéis, ou tidos por tais. Na eskhate hora (última hora), vem o antíkhristos, e já muitos antíkhristoi surgiram, com incidência variável nos preparativos, prolegômenos e prólogo imediato d’O Anticristo.
- Saíram de entre nós, mas não eram dos nossos. Estão e exercem funções na Igreja, mas não são da Igreja; e, embora ostentem títulos, dignidades, cargos e jurisdições, carecem de autoridade, repito, porque estão depostos ipso facto. Compreende-se então a intenção da bula de Paulo IV e do breve de São Pio V; compreende-se o intuito ilustrado e notável de Paulo IV ao enfrentar diretamente os estamentos da mais alta hierarquia, sem excluir a possibilidade de um papa não apenas devius a fide (desviado da fé), mas simplesmente nulo.
- O mentiroso, que não apenas mente sobre a fé e a doutrina, mas nega: “Jesus não é o Cristo”; esse mentiroso absoluto é, portanto, o Antíkhristos, aquele que nega o Pai e o Filho, nascido na carne mortal (I Jo 2,18–24).
- Mas depois, no capítulo 4,3-4, afirma enfaticamente o apóstolo: o antíkhristos é ὁ λύει τόν Ἰησοῦν (aquele que dissolve Jesus, isto é, o Salvador dos homens). Essa é a leitura original do texto grego, talvez manipulada desde muito cedo. Ou seja, dissolve seu vínculo teândrico, divino-humano (verdadeiro Deus e verdadeiro homem). Recordamos então a importância do Concílio de Calcedônia, que coroa o edifício da fé trinitária. Eis o que “o” anticristo ataca e dissolve. Karol está precisamente muito próximo disso, mais do que Nestório ou Lutero. Resulta, ao menos, um dos maiores heresiarcas da Igreja, e desde dentro dela. Mas nem Ário nem Nestório exerceram autoridade apostólica — não digo de papa, mas nem mesmo de arcebispo ou patriarca. E quanto a Lutero, era um monge sem jurisdição alguma, nem outra hierarquia além da de magister theologiae.
- Na epístola II,7, diz São João que “descobriram-se no mundo muitos impostores, que não confessam que Jesus Cristo veio em carne. Tal é um impostor e um anticristo” (tradução de Straubinger, que seria necessário confrontar com o grego, mas deixamos assim: é suficiente).
Temos, portanto, pelas epístolas I e II de São João, um perfil formidável de “os” “anticristos” e de “o” Anticristo. Por isso, de todo o contexto, em particular da sentença ho lyei ton Iesoun (“aquele que dissolve Jesus”), o Anticristo é a culminação daqueles que substituem Cristo dentro da Igreja.
Essa história começa na Synagoga, e até antes, com a morte dos profetas. Continua na Igreja primitiva e em todas as suas épocas até hoje, apesar das advertências inequívocas de papas legítimos próximos (Paulo IV, Leão XIII, Pio X), e culmina com um anticristo, o mais poderoso que a Igreja já produziu: Karol Wojtyla, “aquele que dissolve Jesus”, e com ele a Fé, a semântica da Fé e a Sagrada Tradição, que são, à imagem de Cristo, necessariamente teândricas.
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Resumo para não confundir o caminho e não nos perdermos em pormenores, importantes, mas complementares:
- O termo é próprio de São João, e mais concretamente das Epístolas I e II. Isso não significa que o “personagem”, seu perfil e sua função não estejam mencionados e significados em outros textos importantes do Novo Testamento, em particular em São Paulo. Mas desses textos não me ocupo aqui, porque se trata de outros termos e outras particularidades semânticas. A advertência vale para sublinhar que não pratico nenhuma omissão, a qual, aliás, não afeta em nada a determinação semântica que aqui proponho, essencial para a integridade e completude da Fé.
- São João distingue entre antíkhristoi (plural) e “o” Antíkhristos (singular). Os primeiros formam uma série, uma diacronia de maldades, perversões, negações e ocultações, encarnadas em personagens concretos, históricos e inconfundíveis. O Anticristo (singular) constitui uma coroação, uma maturidade, uma substituição, pura e simples, de Cristo (anti-Cristo), uma subversão absoluta e essencial; ou, em termos correlatos, uma sincronia de poder mundial, de mistificação mundial e religiosa, de impiedade concreta e tirânica, revestida com a imagem do Cordeiro, e, portanto, uma Fé traída e subvertida em sua expressão temporal, histórica e concreta, isto é, uma “revolução totalitária” tirânica na expressão da Fé. Em suma, Cristo é deslocado e eclipsado pelo anti-Cristo; a Pistis (Fé), pela anti-Pistis; a Ekklesía (Igreja), pela anti-Ekklesía; a Parádosis (Tradição), pela anti-Parádosis; o Cáliz, pelo anti-Cáliz etc., empregando-se sempre o prefixo no sentido grego.
- Os anticristos (plural) e “o” Anti-Cristo (singular) procedem “de entre nós, embora não fossem nem sejam dos nossos”, isto é, procedem de dentro da Igreja e, mais concretamente, de suas hierarquias, estruturas e funções ligadas ao cuidado da Fé e da Sagrada Tradição. O Anti-Cristo é um produto da igreja apóstata e adúltera.
- As notas fundamentais do Antí-Khristos são três: a) substitui a autoridade do Logos encarnado, sendo anti- no sentido grego; portanto, nega-o absolutamente; b) dissolve a unidade teândrica de Cristo (não na realidade, evidentemente, mas no magistério) e distorce e dissolve a Fé (no que chamei de semântica da Fé); c) por sua errática e diabólica ação e poder, ataca o Mistério Trinitário e, assim, consuma a apostasia da “igreja” que ele dirige por autoridade própria. O Antí-Khristos é, portanto, Autoridade que atua contra a Fé.
Tais são os ensinamentos, explícitos ou implícitos, do Apóstolo São João, confirmados, venerados e exaltados ao longo de vinte séculos pela via crucis da Igreja e da Fé. Podemos, pois, esclarecer estes tempos extremamente sombrios do século XX (in fine) com a luz de São João e definir, no precário discurso humano, o mesmo que fixou o gênio pictórico de El Greco em seus retratos de São João Jovem, a saber: do cálice que o Apóstolo sustenta, geralmente com a mão direita, surge um dragão em miniatura, ou melhor, literalmente um dragão se banha nele, ajustando-se por seu pequeno tamanho dentro das bordas do cálice, mas sobressaindo nitidamente dele, enquanto a mão esquerda do Apóstolo o aponta com gesto tranquilo, firme, porém estranhado, e enquanto os olhos profundos e melancólicos olham diretamente para o rosto do possível espectador do quadro. Eis, portanto, a profecia e o ensinamento do Apóstolo, transformados em uma imagem pictórica magistral e terrível de um gênio religioso greco-hispânico.
No lugar do Sangue de Cristo, o dragão campeia em seu âmbito preferido. Quem poderiam ser aqueles que lhe dão acesso ao vaso sagrado, senão aqueles que têm poder sobre o Corpo e o Sangue de Cristo? Porque têm esse poder, apesar da apostasia, é por isso que o dragão ocupa o Cálice de Cristo. Não é que o Santo Graal esteja manchado por um pecado. Simplesmente está cheio do Maligno, do Ponerós, como se diz no Pai-Nosso.
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Eminência, tudo o que exponho, muito sumariamente e, sem dúvida, de modo muito precário, brilha, sem dúvida, com a doutrina incorruptível de São João. E, segundo esse brilho e essa luz, perfilam-se por contraste as poderosas trevas da Roma apóstata, que o senhor serve na apostasia, para arrastar todo o povo fiel, como a cauda do dragão arrasta viajantes ou peregrinos desprevenidos, sedentos do Cálice do Senhor. Pois o senhor é ministro do dragão, isto é, daquele que ostenta “os sinais do Cordeiro, mas fala como o dragão” (São João, Apocalipse, capítulo XIII, 11: et habebat cornua duo similia Agni, sed loquebatur sicut draco).
Estamos, pois, na apostasia que chega a gerar um theríon-pontifex (que se autointitula “Papa João Paulo II”). A Ecclesia é incurável por recursos humanos. Por isso, em meio ao desalento que se espalha, propus-me:
- Proclamar a semântica da Fé, a Parádosis, e denunciar a apostasia oficial de Roma;
- Demonstrar que, sem a revelação que procura definir a impostura do Anti-Cristo, é impossível reviver a Fé e, portanto, é impossível combater a apostasia.
Completemos, por isso, Eminência, a infeliz Argentina. Os capítulos místicos, teológicos, doutrinais, escriturísticos, litúrgicos; os capítulos de clarificação semântica adquirem sentido em função desta Argentina esfarrapada e violenta, adulterada e cínica, nas garras do dragão; adquirem sentido à luz da sentença joanina: Antí-Khristos é aquele que dissolve o Salvador dos Homens.
O que fazer? Minha voz será abafada e minha pessoa aviltada. Isso importa pouco, ou nada. A Semântica, contudo, comporta o Mistério teândrico de Cristo, e vale per se, e não por quem a profira; vale, além disso, absolutamente; uma vez proferida, perdura no ar cósmico que a recebe e a entrega ao Espírito Paráclito, para que a transmita, a plenifique e ilumine, e a torne vivente quando tudo parece morrer. A semântica se incardina na Expiração daquele que Procede e opera o milagre da luz no ar invisível, mas audível, que nos liga aos antigos. Pois a Semântica Divina é “ouvir”, é “o audível”, aquilo que, na vibração sonora e luminosa, regenera o ente originário, o Paraíso da luz teândrica; e, por conseguinte, o hymnein dos anjos. A Ecclesia viveu, vive e viverá dessa luz audível e imaculada. Nenhum poder tem nela “o” Anticristo — apenas uma Sombra, que atua nas maldades dos homens por intermédio da insídia do Maligno e Mentiroso, já descrito por nosso Mestre São João, o Teólogo, no capítulo VIII de seu Evangelho Consolador, como o Espírito.
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Carlos A. Disandro
La Plata, Páscoa da Ressurreição de 1989.
Philologos Mónakos em uma terrível Tebaida Americana, aberta ao Sopro de Santo Atanásio.
