WALL STREET E A REVOLUÇÃO BOLCHEVIQUE DE NOVEMBRO DE 1917
Kerry Bolton (1956–), 28 de outubro de 2013
Fonte: Ab Aeterno: Journal of the Academy of Social and Political Research, nº 5, outono de 2010. Link: https://counter-currents.com/2013/10/wall-street-and-the-november-1917-bolshevik-revolution/
Tradutor do texto: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: Este artigo explora a tese histórica de que as revoluções russas de 1917, incluindo o golpe bolchevique, contaram com apoio e financiamento de banqueiros internacionais de Wall Street e de capitais europeus. O texto argumenta que figuras como Jacob Schiff (1847–1920) e William Boyce Thompson (1869–1930) viram no colapso do czarismo uma oportunidade estratégica para abrir os vastos recursos naturais da Rússia à exploração econômica global. A narrativa detalha o lobby financeiro junto a diplomatas pelo reconhecimento do regime soviético e a cooperação comercial por meio de concessões. Conclui-se que o capital internacional frequentemente fomenta movimentos radicais para derrubar tradições e facilitar a expansão do mercado, traçando paralelos entre os eventos de 1917 e as “revoluções coloridas” contemporâneas.
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Meu último artigo[1] documentou o financiamento da Revolução de Março de 1917 na Rússia. O principal financiador do movimento revolucionário russo entre 1905 e 1917 foi Jacob Schiff (1847–1920), da Kuhn Loeb & Co., em Nova York. Em particular, Schiff forneceu dinheiro para a distribuição de propaganda revolucionária entre prisioneiros de guerra russos no Japão em 1905, por meio do jornalista americano George Kennan, que, mais do que qualquer outro indivíduo, foi responsável por voltar a opinião pública e oficial americana contra a Rússia czarista. Kennan posteriormente relatou que foi graças a Schiff que 50.000 soldados russos foram “revolucionados” e formaram os quadros que lançaram as bases para a Revolução de Março de 1917 e, poderíamos acrescentar — direta ou indiretamente — para o subsequente golpe bolchevique de novembro. A reação dos banqueiros de Wall Street e da City de Londres à derrubada do czar foi entusiástica.
Este artigo trata do financiamento do subsequente golpe bolchevique oito meses depois, o qual, por mais paradoxal que possa parecer àqueles que nada sabem da história além da versão ortodoxa, também foi recebido cordialmente pelos círculos bancários de Wall Street e de outros lugares.
Apologistas dos banqueiros e de outros indivíduos altamente posicionados que apoiaram os bolcheviques desde os primeiros estágios da tomada comunista, seja diplomaticamente ou financeiramente, justificam esse apoio a essa aplicação em massa de psicopatologia como sendo motivado por sentimento patriótico, na tentativa de frustrar a influência alemã sobre os bolcheviques e de manter a Rússia na guerra contra a Alemanha. Como Lenin e seu séquito haviam conseguido entrar na Rússia com a anuência do Alto Comando Alemão, sob a premissa de que um regime bolchevique retiraria a Rússia da guerra, capitalistas de Wall Street explicaram que seu patrocínio aos bolcheviques era motivado pelos mais elevados ideais de apoio aos Aliados (Tríplice Aliança). Assim, William Boyce Thompson (1869–1930), em particular, afirmou que, ao financiar propaganda bolchevique para distribuição na Alemanha e na Áustria, isso enfraqueceria o esforço de guerra desses países, enquanto sua assistência aos bolcheviques na Rússia tinha por objetivo incliná-los em favor dos Aliados.
Essas declarações de motivações patrióticas soam vazias. O sistema bancário internacional é precisamente aquilo que seu nome indica — internacional, ou globalista, como tais formas de capitalismo são hoje chamadas. Não apenas essas formas bancárias e outras formas de grande empresa têm, há gerações, diretorias e investimentos sobrepostos, como frequentemente estão ligadas por casamentos entre famílias. Enquanto Max Warburg (1867–1946), da casa bancária Warburg na Alemanha, aconselhava o Kaiser, e enquanto o governo alemão organizava o financiamento e a passagem segura de Lenin e seu grupo da Suíça através da Alemanha até a Rússia;[2] seu irmão Paul (1868–1932),[3] sócio de Jacob Schiff em Wall Street, cuidava dos interesses da família em Nova York. O fator principal por trás do apoio dos banqueiros aos bolcheviques — seja a partir de Londres,[4] Nova York, Estocolmo,[5] ou Berlim — era abrir os recursos subdesenvolvidos da Rússia ao mercado mundial, assim como, em nossos dias, George Soros, o especulador financeiro, financia as chamadas “revoluções coloridas” para promover “mudanças de regime” que facilitam a abertura de recursos à exploração global. Portanto, já não pode haver dúvida de que o capital internacional desempenha um papel central na fomentação de revoluções, pois Soros desempenha o equivalente moderno bem conhecido de Jacob Schiff.
O RECONHECIMENTO DOS BOLCHEVIQUES IMPULSIONADO PELOS BANQUEIROS
Esse objetivo das finanças internacionais, centradas na Alemanha, Inglaterra ou Estados Unidos, de abrir a Rússia à exploração capitalista mediante o apoio aos bolcheviques foi amplamente comentado na época por uma diversidade de fontes bem informadas, incluindo agências de inteligência dos Aliados, e, de particular interesse, por dois indivíduos muito distintos: Henry Wickham Steed (1871–1956), editor do The London Times, e Samuel Gompers (1850–1924), chefe da American Federation of Labor (Federação Americana do Trabalho).
Em 1º de maio de 1922, o The New York Times relatou que Gompers, reagindo às negociações na conferência econômica internacional de Gênova, declarou que um grupo de “financistas internacionais predatórios” trabalhava pelo reconhecimento do regime bolchevique visando à abertura de recursos à exploração. Apesar da retórica dos banqueiros de Nova York e Londres durante a guerra, de que uma revolução russa serviria à causa dos Aliados, Gompers opinou que se tratava de um “grupo bancário anglo-americano-alemão”, e que eram “banqueiros internacionais” que não aderiam a qualquer lealdade nacional. Ele também observou que americanos proeminentes, com histórico de posições anti-trabalhistas, estavam defendendo o reconhecimento do regime bolchevique.[6]
O que Gompers afirmou foi expresso de modo semelhante por Henry Wickham Steed, do The London Times, com base em suas próprias observações. Em um relato de primeira mão da Conferência de Paz de Paris de 1919, Steed declarou que os trabalhos foram interrompidos pelo retorno de Moscou de William C. Bullitt (1891–1967) e Lincoln Steffens (1866–1936), “que haviam sido enviados à Rússia por volta de meados de fevereiro pelo Coronel [Edward M.] House (1858–1938) e pelo sr. [Robert] Lansing (1864–1928), com o objetivo de estudar as condições, políticas e econômicas, ali existentes, em benefício dos comissários plenipotenciários americanos encarregados de negociar a paz”.[7] Steed também se refere ao primeiro-ministro britânico Lloyd George (1863–1945) como provavelmente ciente da missão e de seu propósito. Steed afirmou que as finanças internacionais estavam por trás do movimento pelo reconhecimento do regime bolchevique e de outras iniciativas favoráveis aos bolcheviques, identificando especificamente Jacob Schiff, da Kuhn, Loeb & Co., em Nova York, como um dos principais banqueiros “ansiosos por assegurar o reconhecimento”:
“Poderosos interesses financeiros internacionais estavam atuando em favor do reconhecimento imediato dos bolcheviques. Essas influências haviam sido em grande parte responsáveis pela proposta anglo-americana, em janeiro, de convocar representantes bolcheviques a Paris no início da Conferência de Paz — proposta que fracassou após ter sido transformada numa sugestão de conferência com os bolcheviques em Prinkipo. (…) O conhecido banqueiro judeu americano, sr. Jacob Schiff, era tido como ansioso por assegurar o reconhecimento dos bolcheviques.”[8]
Em troca do reconhecimento diplomático, Georgii Tchitcherin (1872–1936), comissário bolchevique para os Negócios Estrangeiros, oferecia “amplas concessões comerciais e econômicas”.
Wickham Steed, com o apoio do proprietário do The Times, Lord Northcliffe (1865–1922), expôs as maquinações das finanças internacionais para obter o reconhecimento do regime bolchevique, que ainda tinha um futuro bastante incerto.
Steed relatou que foi chamado pelo principal conselheiro do presidente dos Estados Unidos, Wilson, Edward Mandel House, que estava preocupado com a exposição feita por Steed acerca da relação entre os bolcheviques e os financistas internacionais:
“Naquele dia, o Coronel House pediu que eu o visitasse. Encontrei-o preocupado tanto com minha crítica a qualquer reconhecimento dos bolcheviques quanto com a certeza — da qual ele não havia se dado conta anteriormente — de que, se o Presidente viesse a reconhecer os bolcheviques em troca de concessões comerciais, todo o seu ‘idealismo’ ficaria irremediavelmente comprometido como um disfarce de comercialismo. Salientei que não apenas Wilson seria totalmente desacreditado, mas também que a Liga das Nações iria por água abaixo, pois todos os pequenos povos e muitos dos grandes povos da Europa seriam incapazes de resistir ao bolchevismo que Wilson teria legitimado.”[9]

Steed afirmou a House que eram Jacob Schiff, Warburg e outros banqueiros que estavam por trás dos movimentos diplomáticos em favor dos bolcheviques:
“Insisti que, sem que ele soubesse, os principais artífices eram Jacob Schiff, Warburg e outros financistas internacionais, que desejavam acima de tudo sustentar os bolcheviques judeus, a fim de assegurar um campo para a exploração germano-judaica da Rússia.”[10]
Steed demonstra aqui uma ingenuidade incomum ao supor que House não tivesse conhecimento dos planos de Schiff, Warburg e outros. Ao longo de sua carreira, House manteve estreita proximidade com esses banqueiros e esteve envolvido com eles na criação de um grupo de reflexão em tempo de guerra chamado The Inquiry, bem como, após a guerra, na criação do Council on Foreign Relations, com o objetivo de moldar uma política externa internacionalista no pós-guerra. Foram Schiff, Paul Warburg e outros banqueiros de Wall Street que procuraram House em 1913 para obter seu apoio à criação do Federal Reserve Bank.[11]

House, de maneira maquiavélica, pediu a Steed que chegasse a um meio-termo: que apoiasse a ajuda humanitária supostamente destinada ao benefício de todos os russos. Steed concordou em considerar a proposta, mas logo após conversar com House descobriu que o primeiro-ministro britânico Lloyd George e Wilson pretendiam avançar com o reconhecimento já no dia seguinte. Steed, portanto, escreveu o artigo principal para o Daily Mail de Paris de 28 de março, expondo as manobras e questionando como uma atitude pró-bolchevique poderia ser compatível com os princípios morais declarados por Wilson para o mundo do pós-guerra:
“Quem são os tentadores que ousariam sussurrar aos ouvidos dos Governos Aliados e Associados? Eles não estão longe dos homens que pregaram a paz com desonra lucrativa ao povo britânico em julho de 1914. Eles são parentes, se não idênticos, aos homens que enviaram Trotsky e algumas dezenas de comparsas desesperados para arruinar a Revolução Russa como uma força democrática e anti-alemã na primavera de 1917.”[12]
Aqui, Steed parece não ter tido ciência de que alguns dos mesmos banqueiros que apoiavam os bolcheviques também haviam apoiado a Revolução de Março.
Charles Crane (1858–1939),[13] que havia conversado recentemente com o presidente Wilson, disse a Steed que Wilson estava prestes a reconhecer os bolcheviques, o que resultaria em uma reação negativa da opinião pública nos Estados Unidos e destruiria os objetivos internacionalistas de Wilson no pós-guerra. De modo significativo, Crane também identificou a facção pró-bolchevique como sendo a do grande empresariado, afirmando a Steed: “Nosso povo em casa certamente não aceitará o reconhecimento dos bolcheviques a mando de Wall Street”. Steed voltou a se encontrar com House, que declarou que o artigo de Steed no Daily Mail de Paris “havia atingido o Presidente em cheio”. House pediu que Steed adiasse novas denúncias na imprensa e voltou a levantar a perspectiva de reconhecimento com base em ajuda humanitária. Lloyd George também ficou profundamente perturbado com os artigos de Steed no Daily Mail e queixou-se de que não poderia conduzir uma política “sensata” em relação aos bolcheviques enquanto a imprensa mantivesse uma atitude anti-bolchevique.[14]
THOMPSON E A MISSÃO DA CRUZ VERMELHA AMERICANA
Como mencionado, House tentou convencer Steed quanto à idéia de relações com a Rússia bolchevique ostensivamente com o propósito de ajuda humanitária para o povo russo. Isso já havia sido empreendido logo após a Revolução Bolchevique, quando o regime ainda estava longe de ser garantido, sob o disfarce da Missão da Cruz Vermelha Americana. O Coronel William Boyce Thompson, diretor do Federal Reserve Bank de Nova York, organizou e financiou em grande parte a missão, com outros recursos provenientes da International Harvester, que contribuiu com 200.000 dólares. A chamada Missão da Cruz Vermelha era composta em grande medida por pessoal do meio empresarial e, segundo o assistente de Thompson, Cornelius Kelleher, não passava de “uma mera fachada” para interesses comerciais.[15] Dos 24 membros, cinco eram médicos e dois eram pesquisadores médicos. O restante era composto por advogados e empresários ligados a Wall Street. O Dr. Billings figurava nominalmente como chefe da missão.[16] O professor Antony Sutton, do Hoover Institute, afirmou que a missão prestou assistência a revolucionários:
“Sabemos, pelos arquivos da embaixada dos EUA em Petrogrado, que a Cruz Vermelha americana concedeu 4.000 rublos ao Príncipe Lvov, presidente do Conselho de Ministros, para ‘socorro aos revolucionários’, e 10.000 rublos, em dois pagamentos, a Kerensky, para ‘socorro a refugiados políticos’”.[17]
A intenção original da missão, organizada às pressas por Thompson diante dos acontecimentos revolucionários, era “nada menos que sustentar o regime provisório”, segundo o historiador William Harlane Hale, ex-integrante do Serviço Estrangeiro dos Estados Unidos.[18] O apoio aos socialistas revolucionários indica que os mesmos banqueiros que respaldaram o regime de Kerensky e a Revolução de Março também apoiaram os bolcheviques, sendo razoável opinar que esses financistas consideravam Kerensky um mero prelúdio para o golpe bolchevique, como indica o que se segue.

Thompson instalou-se de maneira quase régia em Petrogrado, reportando-se diretamente ao presidente Wilson e ignorando o embaixador americano Francis. Thompson forneceu recursos de seu próprio dinheiro, primeiro aos socialistas revolucionários, aos quais deu um milhão de rublos,[19] e pouco depois um milhão de dólares aos bolcheviques para difundir sua propaganda na Alemanha e na Áustria.[20] Thompson encontrou-se com Thomas Lamont (1870–1948), da J. P. Morgan & Co., em Londres, para convencer o Gabinete de Guerra britânico a abandonar sua política anti-bolchevique. Ao retornar aos Estados Unidos, Thompson empreendeu uma campanha em favor do reconhecimento dos bolcheviques.[21] O vice de Thompson, Raymond Robins (1873–1954), vinha pressionando pelo reconhecimento dos bolcheviques, e Thompson concordou que o regime de Kerensky estava condenado, “tendo corrido para tentar mudar o rumo da política do Governo”, encontrando resistência por parte de Wilson, que estava sob pressão do embaixador Francis.[22]
O “BOLCHEVIQUE DE WALL STREET”
Tal era o entusiasmo de Thompson pelo bolchevismo que ele foi apelidado de “o bolchevique de Wall Street” por seus colegas plutocratas. Thompson concedeu uma longa entrevista ao The New York Times logo após sua turnê de quatro meses com a Missão da Cruz Vermelha Americana, louvando os bolcheviques e assegurando ao público americano que eles não estavam prestes a firmar uma paz separada com a Alemanha.[23] O artigo constitui um interessante indicativo de como Wall Street via seus supostos “inimigos mortais”, os bolcheviques, num momento em que a posição destes era extremamente precária. Thompson afirmou que, enquanto os “reacionários”, caso assumissem o poder, poderiam buscar a paz com a Alemanha, os bolcheviques não o fariam. “Sua opinião é que a Rússia precisa da América, que a América deve apoiar a Rússia”, declarou o Times. Thompson é citado: “Os objetivos de paz dos bolcheviques são os mesmos dos Estados Unidos”. Thompson aludiu ao discurso de Wilson ao Congresso dos Estados Unidos sobre a Rússia como “uma resposta maravilhosa à situação”, mas ressaltou que o público americano “sabe muito pouco sobre os bolcheviques.” O Times afirmou:
“O Coronel Thompson é um banqueiro e um capitalista, e possui grandes interesses industriais. Não é um sentimentalista nem um “radical”. Mas retornou de sua visita oficial à Rússia em absoluta simpatia com a democracia russa tal como representada, no momento, pelos bolcheviques.”
Assim, naquele momento, Thompson tentava vender os bolcheviques como “democratas”, sugerindo que faziam parte do mesmo movimento do regime de Kerensky que haviam derrubado. Embora Thompson não considerasse o bolchevismo a forma final de governo, via nele o passo mais promissor em direção a um “governo representativo” e entendia ser “dever” dos Estados Unidos “simpatizar” com a Rússia e “auxiliá-la” “em seus dias de crise”. Ele declarou que, em resposta à surpresa diante de suas posições pró-bolcheviques, não se importava em ser chamado de “vermelho”, se isso significasse simpatia por 170 milhões de pessoas “lutando por liberdade e uma vida justa”. Thompson também observava que, embora os bolcheviques tivessem firmado uma “trégua” com a Alemanha, estavam simultaneamente difundindo doutrinas bolcheviques entre o povo alemão, o que ele qualificava como “seus ideais de liberdade” e sua “propaganda de democracia”. Thompson elogiou o governo bolchevique como equivalente à democracia americana, afirmando:
“O atual governo na Rússia é um governo de trabalhadores. É um governo da maioria e, como o nosso governo é um governo da maioria, não vejo como ele poderia deixar de apoiar o governo da Rússia.”
Thompson via perspectivas de transformação do governo bolchevique à medida que este incorporasse uma posição mais centrista e incluísse empregadores. Caso o bolchevismo não evoluísse nessa direção, “Deus ajude o mundo”, advertiu Thompson. Considerando que esse era um momento em que Lenin e Trotsky dominavam o regime — e que posteriormente se tornariam os mais entusiastas defensores da abertura da Rússia ao capital estrangeiro (Nova Política Econômica) —, as perspectivas pareciam favoráveis a um empreendimento conjunto capitalista-bolchevique, sem qualquer indicação de que um novato chamado Stalin viria a lançar areia nas engrenagens.
O artigo do Times conclui: “Em sua casa em Nova York, o coronel recebeu o título, em tom bem-humorado, de ‘o bolchevique de Wall Street’”.[24] É nesse contexto que se pode compreender por que o líder trabalhista Samuel Gompers denunciava o bolchevismo como instrumento das “finanças internacionais predatórias”, enquanto o arquicapitalista Thompson o exaltava como “um governo de trabalhadores”.
O RELATÓRIO DO COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS
O Council on Foreign Relations (CFR) foi estabelecido em 1921 pelo principal conselheiro do presidente Wilson, Edward Mandel House, a partir de um grupo de reflexão anterior chamado The Inquiry, formado entre 1917 e 1918 para assessorar Wilson na Conferência de Paz de Paris de 1919. Foi precisamente essa conferência sobre a qual Steed apresentou suas observações ao afirmar que havia interesses financeiros tentando assegurar o reconhecimento dos bolcheviques.[25]
Peter Grose, em sua história semi-oficial do CFR, descreve-o como um think tank que combinava academia e grande empresariado, emergido do grupo The Inquiry.[26] Portanto, o relatório do CFR sobre a Rússia soviética nesse período inicial é instrutivo quanto ao tipo de relação que setores influentes do establishment americano desejavam estabelecer com o regime bolchevique. Grose escreve sobre esse período:
“Algo incômodo nos registros do The Inquiry era a ausência de um único estudo ou documento de base sobre o tema do bolchevismo. Talvez isso estivesse simplesmente além da imaginação acadêmica da época. Somente no início de 1923 o Conselho conseguiu reunir a expertise necessária para mobilizar um exame sistemático do regime bolchevique, finalmente consolidado após a guerra civil na Rússia. O impulso para esse primeiro estudo foi a Nova Política Econômica de Lenin, que parecia abrir a combalida economia bolchevique ao investimento estrangeiro. Metade do grupo de estudo do Conselho era composta por membros oriundos de empresas que haviam feito negócios na Rússia pré-revolucionária, e as discussões sobre o futuro soviético foram intensas. O relatório final descartou como ‘histéricos’ os temores de que a revolução se espalharia para além das fronteiras russas, alcançando a Europa central ou, pior ainda, que os novos revolucionários se aliariam a muçulmanos nacionalistas no Oriente Médio para expulsar o imperialismo europeu. Os bolcheviques estavam a caminho da ‘sanidade e de práticas comerciais sólidas’, concluiu o grupo de estudo do Conselho, mas a abertura a concessionários estrangeiros provavelmente seria de curta duração. Assim, os especialistas do Conselho recomendaram, em março de 1923, que empresários americanos entrassem na Rússia enquanto o convite de Lenin permanecesse válido, lucrassem com seus investimentos e depois se retirassem o mais rapidamente possível. Alguns seguiram o conselho; por sete décadas não surgiria oportunidade semelhante.”[27]
No entanto, interesses financeiros já haviam ingressado na Rússia soviética desde o início do regime bolchevique.
A CONCESSÃO VANDERLIP
H. G. Wells (1866–1946), historiador, romancista e socialista fabiano, observou em primeira mão a relação entre o comunismo e o grande capital ao visitar a Rússia bolchevique. Viajando à Rússia em 1920, onde entrevistou Lenin e outros líderes bolcheviques, Wells esperava que as potências ocidentais — e em particular os Estados Unidos — viessem em auxílio dos soviéticos. Wells também encontrou ali “o Sr. Vanderlip”, que estava negociando contratos comerciais com os soviéticos. Wells comentou sobre a situação que gostaria de ver se desenvolver e, como autodeclarado “coletivista”, fez uma observação reveladora sobre a relação entre o comunismo e o “Grande Capital”:
“A única potência capaz de desempenhar esse papel de auxiliar de última hora da Rússia, sozinha, são os Estados Unidos da América. É por isso que considero a iniciativa do empreendedor e imaginativo Sr. Vanderlip muito significativa. Duvido do caráter conclusivo de suas negociações; elas provavelmente constituem apenas a fase inicial de uma discussão do problema russo sobre novas bases, que pode finalmente conduzir a um tratamento abrangente e mundial dessa situação. Outras potências além dos Estados Unidos, na presente fase de exaustão mundial, precisarão unir-se antes de poderem ser de alguma utilidade efetiva à Rússia. O grande capital não é, de modo algum, antipático ao comunismo. Quanto maior ele se torna, mais se aproxima do coletivismo. Trata-se do caminho superior de poucos, em vez do caminho inferior das massas, rumo ao coletivismo.”[28]
Ao tratar das preocupações que estavam sendo expressas entre os “ativistas” do Partido Bolchevique em uma reunião da organização de Moscou do partido, Lenin procurou tranquilizá-los de que o governo não estava se vendendo ao capitalismo estrangeiro, mas que, tendo em vista o que ele considerava ser uma guerra inevitável entre os Estados Unidos e o Japão, um interesse americano em Kamchatka seria favorável à Rússia soviética como posição defensiva contra o Japão. Tais considerações estratégicas por parte dos Estados Unidos — pode-se acrescentar — eram mais relevantes para as chamadas “intervenções” americanas e de outros países durante a Guerra Civil Russa entre os Exércitos Vermelho e Branco do que qualquer desejo de ajudar os brancos a derrubar os bolcheviques, muito menos de restaurar o czarismo. Lenin disse sobre Vanderlip aos quadros bolcheviques:
“Devemos tirar proveito da situação que surgiu. Esse é todo o propósito das concessões de Kamchatka. Tivemos a visita de Vanderlip, um parente distante do conhecido multimilionário, se é que se pode acreditar nele; mas, como nosso serviço de inteligência, embora esplendidamente organizado, infelizmente ainda não se estende aos Estados Unidos da América, ainda não estabelecemos o grau exato de parentesco desses Vanderlip. Alguns até dizem que não há parentesco algum. Não presumo julgar: meu conhecimento limita-se a ter lido um livro de Vanderlip, não o que esteve em nosso país e que se diz ser uma pessoa tão importante que foi recebido com todas as honras por reis e ministros — do que se deve inferir que seus bolsos estão muito bem forrados. Ele lhes falou da maneira como as pessoas discutem assuntos em reuniões como as nossas, por exemplo, e lhes disse, nos termos mais calmos, como a Europa deveria ser reconstruída. Se ministros lhe falaram com tanto respeito, isso deve significar que Vanderlip está em contato com os multimilionários.”[29]
Sobre o encontro com Vanderlip, Lenin indicou que este se baseou em uma diplomacia secreta que estava sendo negada pela Administração dos EUA, enquanto Vanderlip retornava aos Estados Unidos, como outros capitalistas, como Thompson, elogiando os bolcheviques. Lenin continuou:
“Expressei a esperança de que relações amistosas entre os dois Estados constituíssem uma base não apenas para a concessão de uma outorga, mas também para o desenvolvimento normal da assistência econômica recíproca. Tudo transcorreu nessa linha. Então chegaram telegramas relatando o que Vanderlip havia dito ao retornar do exterior. Vanderlip comparara Lenin a Washington e Lincoln. Vanderlip pedira meu retrato autografado. Eu recusei, porque, quando se oferece um retrato, escreve-se: “Ao camarada fulano de tal”, e eu não poderia escrever “Ao camarada Vanderlip”. Tampouco era possível escrever: “Ao Vanderlip, com quem estamos assinando uma concessão”, porque esse acordo seria concluído pela Administração quando esta assumisse o poder. Eu não sabia o que escrever. Teria sido ilógico dar minha fotografia a um imperialista de carteirinha. Ainda assim, eram esses os tipos de telegramas que chegavam; esse episódio claramente desempenhou certo papel na política imperialista. Quando a notícia das concessões Vanderlip veio a público, Harding — o homem que foi eleito presidente, mas que só tomaria posse em março seguinte — emitiu uma desmentido oficial, declarando que não sabia de nada, que não tinha negócios com os bolcheviques e que não havia ouvido falar de quaisquer concessões. Isso foi durante as eleições e, como sabemos, admitir, durante uma eleição, que se têm relações com os bolcheviques pode lhe custar votos. Foi por isso que ele emitiu um desmentido oficial. Ele enviou esse relatório a todos os jornais hostis aos bolcheviques e que estavam na folha de pagamento dos partidos imperialistas.”[30]
Esse misterioso Vanderlip era, na verdade, Washington Baker Vanderlip (1867–1933), que, segundo Armand Hammer (1898–1990), havia ido à Rússia em 1919, embora nem mesmo Hammer pareça ter sabido muito sobre o assunto.[31] As racionalizações de Lenin ao tentar justificar concessões a capitalistas estrangeiros aos “ativistas de Moscou” em 1920 parecem dissimuladas e pouco francas. Washington Vanderlip era um engenheiro cujas negociações com a Rússia atraíram considerável atenção nos Estados Unidos. O New York Times escreveu que Vanderlip, falando da Rússia, negou relatos do discurso de Lenin aos “ativistas de Moscou” de que as concessões serviriam a interesses geopolíticos bolcheviques, com Vanderlip declarando que havia estabelecido uma fronteira comum entre os Estados Unidos e a Rússia e que as relações comerciais deveriam ser imediatamente restabelecidas.[32] O New York Times noticiou, em 1922: “A exploração de petróleo em Kamchatka, assim que as relações comerciais entre este país e a Rússia forem estabelecidas, foi assegurada hoje quando a Standard Oil Company da Califórnia adquiriu um quarto das ações do sindicato Vanderlip”. Isso concedia à Standard Oil arrendamentos exclusivos sobre quaisquer terras do sindicato onde se encontrasse petróleo. O sindicato Vanderlip era composto por sessenta e quatro unidades. A Standard Oil acabara de adquirir dezesseis unidades. No entanto, as concessões de Vanderlip não poderiam entrar em vigor até que a Rússia Soviética fosse reconhecida pelos EUA.[33]

O sindicato Vanderlip detinha concessões para a exploração de carvão, petróleo, madeira, pescarias etc., a leste do meridiano 160 em Kamchatka. O governo russo concedeu ao sindicato seções alternadas de terra nessa região e receberia royalties de aproximadamente 5% sobre todos os produtos desenvolvidos e comercializados pelo sindicato.[34]
Não é de se admirar, portanto, que capitalistas americanos estivessem ansiosos pelo reconhecimento do regime soviético.
BANQUEIROS BOLCHEVIQUES
Em 1922, foi criado o primeiro banco internacional da Rússia soviética, o Ruskombank, liderado por Olof Aschberg (1877–1960), do Nye Banken, em Estocolmo, Suécia. O capital predominante representado no banco era britânico. O diretor estrangeiro do Ruskombank era Max May, vice-presidente da Guaranty Trust Company.[35] De modo semelhante ao “bolchevique de Wall Street”, William Boyce Thompson, Aschberg era conhecido como o “banqueiro bolchevique” por sua estreita ligação com interesses bancários que haviam canalizado recursos para os bolcheviques.
A Guaranty Trust Company envolveu-se profundamente em transações econômicas com a Rússia soviética. Um relatório de inteligência da Scotland Yard já indicava, em 1919, a conexão entre a Guaranty Trust e Ludwig C. A. K. Martens (1875–1949), chefe do Bureau Soviético em Nova York quando este foi estabelecido naquele ano.[36] Quando representantes do Comitê Lusk, que investigava atividades bolcheviques nos Estados Unidos, invadiram os escritórios do Bureau Soviético em 7 de maio de 1919, foram encontrados arquivos de comunicações com quase mil empresas. Basil H. Thompson, da Scotland Yard, em relatório especial, afirmou que, apesar das negações, havia evidências nos documentos apreendidos de que o Bureau Soviético estava sendo financiado pela Guaranty Trust Company.[37] A importância da Guaranty Trust Company residia no fato de que ela fazia parte do império econômico de J. P. Morgan (1837–1913), que, como demonstra o Dr. Sutton em seu estudo, foi um ator central nas relações econômicas com a Rússia soviética desde seus primórdios. Foram também interesses ligados a J. P. Morgan que predominaram na formação de um consórcio, a American International Corporation (AIC), outra entidade interessada em assegurar o reconhecimento do ainda embrionário Estado soviético. Entre os interesses representados na diretoria da AIC estavam: National City Bank; General Electric; Du Pont; Kuhn, Loeb & Co.; Rockefeller; Federal Reserve Bank de Nova York; Ingersoll-Rand; Hanover National Bank, entre outros.[38]

O representante da AIC na Rússia durante o tumulto revolucionário era seu secretário executivo, William Franklin Sands (1874–1946), a quem o secretário de Estado dos EUA, Robert Lansing, solicitou um relatório sobre a situação e sobre qual deveria ser a resposta americana. A atitude de Sands em relação aos bolcheviques era, como a de Thompson, entusiástica. Sands escreveu um memorando a Lansing em janeiro de 1918, num momento em que o domínio bolchevique ainda estava longe de estar assegurado, afirmando que já havia ocorrido atraso excessivo por parte dos Estados Unidos em reconhecer o regime bolchevique tal como existia. Os EUA precisavam recuperar o “tempo perdido” e, como Thompson, Sands considerava a Revolução Bolchevique análoga à Revolução Americana.[39] Em julho de 1918, Sands escreveu ao secretário do Tesouro dos EUA, William G. McAdoo (1863–1941), que uma comissão deveria ser estabelecida por interesses privados com apoio governamental para fornecer “assistência econômica à Rússia”.[40]
ARMAND HAMMER
Um dos indivíduos estreitamente associados a Ludwig Martens e ao Bureau Soviético era o Dr. Julius Hammer, emigrante da Rússia e um dos fundadores do Partido Comunista dos EUA. Há evidências de que Julius Hammer foi anfitrião de Leon Trotsky quando este, com sua família, chegou a Nova York em 1917, e que foi o carro com motorista do Dr. Hammer que transportou Natalia e os filhos de Trotsky. Os Trotsky foram recebidos no desembarque, no porto de Nova York, por Arthur Concors, diretor da Hebrew Sheltering and Immigrant Aid Society (“Sociedade Hebraica de Acolhimento e Auxílio a Imigrantes”), cujo conselho consultivo incluía Jacob Schiff, da Kuhn, Loeb & Co.[41] O Dr. Hammer era o “principal proprietário da Allied Drug and Chemical Co.” e “uma daquelas criaturas não tão raras, um marxista radical que se tornou um empresário rico”, vivendo um estilo de vida opulento, segundo o professor Spence.[42] Outro financista ligado a Trotsky era seu próprio tio, o banqueiro Abram Zhivotovskii, associado a numerosos interesses financeiros, incluindo os de Olof Aschberg.[43]
A íntima associação da família Hammer com a Rússia soviética seria mantida do começo ao fim, com um interlúdio de afastamento durante o período stalinista. O filho de Julius, Armand, presidente da Occidental Petroleum Corporation, foi o primeiro estrangeiro a obter concessões comerciais do governo soviético. Armand estava na Rússia em 1921 para organizar a reintrodução do capitalismo de acordo com o novo curso econômico estabelecido por Lenin, a Nova Política Econômica. Lenin declarou a Hammer que as economias da Rússia e dos EUA eram complementares e que, em troca da exploração das matérias-primas russas, esperava obter a tecnologia americana.[44] Essa era precisamente a atitude de importantes interesses empresariais no Ocidente. Lenin afirmou a Hammer que se esperava que a Nova Política Econômica acelerasse o processo econômico “por meio de um sistema de concessões industriais e comerciais a estrangeiros. Isso dará grandes oportunidades aos Estados Unidos”.[45]

Hammer encontrou-se com Trotsky, que lhe perguntou se os “círculos financeiros” nos EUA consideravam a Rússia um campo desejável de investimento. Trotsky prosseguiu:
“Na medida em que a Rússia teve sua Revolução, o capital era, na verdade, mais seguro ali do que em qualquer outro lugar, porque, aconteça o que acontecer no exterior, o Estado soviético respeitará quaisquer acordos que venha a firmar. Suponha que um de seus americanos invista dinheiro na Rússia. Quando a Revolução chegar à América, sua propriedade será, naturalmente, nacionalizada, mas seu acordo conosco permanecerá válido e, assim, ele estará em uma posição muito mais favorável do que o restante de seus colegas capitalistas.”[46]

A maneira pela qual a Rússia mudou fundamentalmente de direção, resultando eventualmente na Guerra Fria quando Stalin se recusou a continuar a aliança de tempo de guerra com o propósito de estabelecer um Estado Mundial por meio da Organização das Nações Unidas, tem suas origens, entre muitas outras questões, na divergência de opiniões entre Trotsky e Stalin no que diz respeito ao papel do investimento estrangeiro na União Soviética.[47] O relatório do CFR fôra presciente ao alertar o grande empresariado para entrar imediatamente na Rússia, sob pena de a situação mudar radicalmente.
TRABALHO REGIMENTADO
Mas, por ora, com Trotsky firmemente entrincheirado como o senhor da guerra do bolchevismo e Lenin favorável ao investimento de capital internacional, os acontecimentos na Rússia pareciam promissores. Outro fator importante no entusiasmo de certos interesses capitalistas pelos bolcheviques foi a regimentação do trabalho sob a chamada “ditadura do proletariado”. O Estado operário oferecia aos capitalistas estrangeiros uma força de trabalho controlada. Trotsky declarou:
“A militarização do trabalho é o método básico indispensável para a organização de nossas forças de trabalho. (…) É verdade que o trabalho compulsório é sempre improdutivo? (…) Este é o mais miserável dos preconceitos liberais: a escravidão também foi produtiva. (…) O trabalho escravo compulsório foi, em seu tempo, um fenômeno progressista. O trabalho obrigatório para todo o país, compulsório para cada trabalhador, é a base do socialismo. (…) Os salários não devem ser vistos sob o ângulo de assegurar a existência pessoal do trabalhador individual [mas devem] medir a consciência e a eficiência do trabalho de cada operário.”[48]
Hammer relatou suas experiências no jovem Estado soviético afirmando que, embora fossem necessárias longas negociações com cada um dos sindicatos envolvidos em uma empresa, “o grande poder e influência dos sindicatos não deixavam de ter suas vantagens para o empregador de mão de obra na Rússia. Uma vez que o empregador tivesse assinado um acordo coletivo com a seção sindical, havia pouco risco de greves ou problemas semelhantes”.
Infrações aos códigos negociados poderiam resultar em demissão, com recurso do trabalhador dispensado a um tribunal do trabalho que, na experiência de Hammer, geralmente não decidia a favor do trabalhador, o que significava que haveria poucas chances de o operário demitido conseguir outro emprego.[49]
Entretanto, a jornada insana de Trotsky na União Soviética durou pouco. Quanto a Hammer, apesar de seus negócios amplamente expandidos e diversificados na União Soviética, após Stalin assumir o poder, ele fez as malas e partiu, não retornando até a morte de Stalin. Décadas depois, Hammer opinou:
“Nunca conheci Stalin — nunca tive qualquer desejo de fazê-lo — e nunca tive qualquer trato com ele. Contudo, já em 1930 estava perfeitamente claro para mim que Stalin não era um homem com quem se pudesse fazer negócios. Stalin acreditava que o Estado era capaz de gerir tudo sem o apoio de concessionários estrangeiros e da iniciativa privada. Essa é a principal razão pela qual deixei Moscou. Eu podia ver que em breve seria incapaz de fazer negócios ali e, como os negócios eram minha única razão para estar lá, meu tempo havia acabado.”[50]
O capital estrangeiro continuou, ainda assim, a fazer negócios com a URSS da melhor forma possível,[51] mas o início promissor que os capitalistas vislumbraram nas revoluções de março e novembro para uma nova Rússia — como a possibilidade de substituir o antiquado sistema czarista por uma economia moderna da qual pudessem colher recompensas — foi, como advertira o relatório do CFR de 1923, de curta duração. Gorbachev e Yeltsin proporcionaram um breve interregno de esperança para o capital estrangeiro, novamente frustrado com a ascensão de Putin e a retomada do nacionalismo e da oposição aos oligarcas. A política de manutenção das relações econômicas com a URSS, mesmo durante a Guerra Fria, foi promovida como estratégia logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, quando um relatório do CFR, elaborado por George S. Franklin, recomendou tentar cooperar com a URSS tanto quanto possível, “a menos e até que se torne inteiramente evidente que a URSS não está interessada em alcançar cooperação”.
“Os Estados Unidos devem ser poderosos não apenas política e economicamente, mas também militarmente. Não podemos nos dar ao luxo de dissipar nossa força militar, a menos que a Rússia esteja disposta, simultaneamente, a reduzir a sua. Sobre isso damos grande ênfase.
“Devemos aproveitar todas as oportunidades para trabalhar com os soviéticos agora, quando seu poder ainda é muito inferior ao nosso, e esperar que possamos estabelecer nossa cooperação sobre uma base mais firme em um futuro não muito distante, quando eles tiverem completado sua reconstrução e aumentado grandemente sua força. (…) A política que defendemos é de firmeza aliada à moderação e à paciência.”[52]
Desde Putin, o CFR volta a considerar que a Rússia tomou uma “direção errada”. A recomendação atual é de “cooperação seletiva” em vez de “parceria, que não é viável no momento”.[53]
A NATUREZA REVOLUCIONÁRIA DO CAPITAL
O fato de o capital internacional ter visto as Revoluções de Março e até de Novembro com otimismo deve ser visto como uma anomalia da história? Oswald Spengler foi um dos primeiros historiadores a expor as conexões entre capital e revolução. Em O Declínio do Ocidente, ele chamou o socialismo de “capitalista”, porque não visa a substituir os valores baseados no dinheiro, “mas possuí-los”. H. G. Wells, recorde-se, disse algo semelhante. Spengler afirmou que o socialismo é “nada mais do que um fiel instrumento do Grande Capital, que sabe perfeitamente como utilizá-lo”. Ele elaborou em uma nota de rodapé, percebendo conexões que remontam à Antiguidade:
“Aqui reside o segredo de por que todos os partidos radicais (isto é, pobres) necessariamente se tornam instrumentos dos poderes do dinheiro, os Equites, a Bolsa. Teoricamente, seu inimigo é o capital, mas, na prática, eles atacam, não a Bolsa, mas a Tradição em nome da Bolsa. Isso é tão verdadeiro hoje quanto foi na época dos Gracos, e em todos os países.[54]
“Foram os Equites, o partido do grande dinheiro, que tornaram possível o movimento popular de Tibério Graco; e, assim que aquela parte das reformas que lhes era vantajosa foi legalizada com sucesso, retiraram-se e o movimento entrou em colapso.”[55]
Da era dos Gracos às revoluções cromwelliana e francesa, até as “revoluções coloridas” de Soros nos dias atuais, as revoluções russas não foram as primeiras nem as últimas convulsões políticas a servir aos interesses do Poder do Dinheiro em nome do “povo”.
[1] K. R. Bolton, “March 1917: Wall Street & the March 1917 Russian Revolution”, Ab Aeterno, No. 2 (março de 2010).
[2] Michael Pearson, The Sealed Train: Journey to Revolution: Lenin–1917 (Londres: Macmillan, 1975).
[3] Paul Warburg, antes de imigrar para os EUA, havia sido condecorado pelo Kaiser em 1912.
[4] O Coronel William Wiseman, chefe do Serviço Secreto Britânico, era o equivalente britânico ao principal conselheiro presidencial da América, Edward House, com quem mantinha comunicação constante. Wiseman tornou-se sócio da Kuhn, Loeb & Co. De Londres, em 1º de maio de 1918, Wiseman telegrafou a House dizendo que os Aliados deveriam intervir a convite dos bolcheviques e ajudar a organizar o exército bolchevique que então combatia os Exércitos Brancos em uma sangrenta guerra civil, num momento em que o domínio bolchevique sobre a Rússia era incerto (Edward M. House, ed. Charles Seymour, The Intimate Papers of Col. House [Nova York: Houghton, Mifflin Co., 1926], Vol. III, p. 421).
[5] Olof Aschberg do Nye Banken, Estocolmo, o chamado “banqueiro bolchevique”, que se tornou chefe do primeiro banco internacional soviético, o Ruskombank, canalizou fundos para os bolcheviques. Em 6 de setembro de 1948, o The London Evening Star comentou sobre a visita de Aschberg a banqueiros suíços, afirmando que ele havia “adiantado grandes somas a Lenin e Trotsky em 1917. Na época da revolução, o Sr. Aschberg deu dinheiro a Trotsky para formar e equipar a primeira unidade do Exército Vermelho”.
[6] Samuel Gompers, “Soviet Bribe fund Here Says Gompers, Has Proof That Offers Have Been Made, He Declares, Opposing Recognition. Propaganda Drive. Charges Strong Group of Bankers With Readiness to Accept Lenin’s Betrayal of Russia” (“Fundo de Suborno Soviético Aqui, Diz Gompers; Tem Provas de que Ofertas Foram Feitas, Declara, Opondo-se ao Reconhecimento. Campanha de Propaganda. Acusa um Forte Grupo de Banqueiros de Estar Disposto a Aceitar a Traição de Lenin à Rússia”), The New York Times, 1º de maio de 1922. Online nos arquivos do Times: http://query.nytimes.com/gst/abstract.html?res=9E00E3D81739EF3ABC4953DFB3668389639EDE
[7] Henry Wickham Steed, “Through Thirty Years 1892–1922 A personal narrative”, The Peace Conference, The Bullitt Mission, Vol. II (Nova York: Doubleday Page and Co., 1924), p. 301.
[8] Ibid.
[9] Ibid.
[10] Ibid.
[11] Charles Seymour, p. 165–166. House foi designado por Wilson para redigir a constituição da Liga das Nações e, em 1918, formou um think tank a pedido de Wilson, chamado The Inquiry, para aconselhar sobre a política pós-guerra, que se tornou o Council on Foreign Relations. House foi o principal negociador dos EUA na Conferência de Paz em Paris, 1919–1920.
[12] Henry Wickham Steed, “Peace with Honor”, Paris Daily Mail, 28 de março de 1922; citado em Steed (1924).
[13] Crane foi membro de uma Missão Diplomática Especial à Rússia em 1917 e membro da Seção Americana da Conferência de Paz de Paris em 1919.
[14] H. W. Steed, 1924, op. cit.
[15] Antony Sutton, Wall Street and the Bolshevik Revolution (Nova York: Arlington House Publishers, 1974), p. 71.
[16] Ibid., p. 75.
[17] Ibid., p. 73.
[18] William Harlan Hale, “When the Red Storm Broke”, America and Russia: A Century and a Half of Dramatic Encounters, ed. Oliver Jensen (Nova York: Simon and Schuster, 1962), p. 150.
[19] Ibid., p. 151.
[20] “Gives Bolsheviki a Million”, Washington Post, 2 de fevereiro de 1918, citado por Sutton, ibid., p. 82–83.
[21] A. Sutton, op. cit., p. 8.
[22] W. Harlan Hale, op. cit., p. 151.
[23] Trotsky, enquanto ainda estava nos EUA, fizera alegações semelhantes. “People War Weary. But Leo Trotsky Says They Do Not Want Separate Peace”, New York Times, 16 de março de 1917. Foi por isso que ele se tornou o foco dos esforços da inteligência britânica via R. H. Bruce Lockhart, agente especial do Gabinete de Guerra Britânico na Rússia.
[24] “Bolsheviki Will Not Make Separate Peace: Only Those Who Made Up Privileged Classes Under Czar Would Do So, Says Col. W. B. Thompson, Just Back From Red Cross Mission”, New York Times, 27 de janeiro de 1918.
[25] Robert S. Rifkind, “The Wasted Mission”, America and Russia, op. cit., p. 180.
[26] Peter Grose, Continuing The Inquiry: The Council on Foreign Relations from 1921 to 1996 (Nova York: Council on Foreign Relations, 2006). O livro completo pode ser lido online em: Council on Foreign Relations: http://www.cfr.org/about/history/cfr/index.html (Acessado em 27 de fevereiro de 2010).
[27] Ibid. Capítulo: “Basic Assumptions”.
[28] H. G. Wells, Russia in the Shadows, Capítulo VII, “The Envoy”. Wells foi à Rússia em setembro de 1920 a convite de Kamenev, da Delegação Comercial Russa em Londres, um dos líderes do regime bolchevique. Russia in the Shadows apareceu como uma série de artigos no The Sunday Express. O livro completo pode ser lido online em: gutenberg.net.au/ebooks06/0602371h.html
[29] V. I. Lenin, 6 de dezembro de 1920, Collected Works, 4ª Edição em Inglês (Moscou: Progress Publishers, 1965), Volume 31, p. 438–459. http://www.marxists.org/archive/lenin/works/1920/dec/06.htm (Acessado em 4 de agosto de 2010).
[30] Ibid.
[31] Armand Hammer, Witness to History (Reading, Inglaterra: Hodder and Stoughton, 1988), p. 151–152.
[32] “Vanderlip’s Empire”, The New York Times, 1º de dezembro de 1920, 14.
[33] “Standard Oil Joins Vanderlip Project”, The New York Times, 11 de janeiro de 1922, p. 1.
[34] Ibid.
[35] Antony Sutton, Wall Street and the Bolshevik Revolution (Nova York: Arlington House Publishers, 1974), p. 62–63.
[36] “Scotland Yard Intelligence Report”, Londres 1919, US State Dept. Decimal File, 316-22-656, citado por A. Sutton, ibid., p. 113.
[37] Basil H. Thompson, British Home Office Directorate of Intelligence, “Special Report No. 5 (Secret)”, Scotland Yard, Londres, 14 de julho de 1919; citado por Sutton, ibid., p. 115.
[38] A. Sutton, op. cit., p. 130–31.
[39] Memorando de Sands para Lansing, p. 9; citado por Sutton, ibid., p. 132, 134.
[40] A. Sutton, ibid., p. 135.
[41] Richard B. Spence, “Hidden Agendas: Spies, Lies and Intrigue Surrounding Trotsky’s American Visit, January-April 1917”, Revolutionary Russia, Vol. 21, #1 (2008).
[42] Ibid.
[43] Ibid.
[44] Armand Hammer, Witness to History, op. cit., p. 143.
[45] Ibid.
[46] Ibid., p. 160.
[47] K. R. Bolton, “Origins of the Cold War: How Stalin Foiled a New World Order”, Foreign Policy Journal, 31 de maio de 2010: https://www.foreignpolicyjournal.com/2010/05/31/origins-of-the-cold-war-how-stalin-foild-a-new-world-order/view-all/ (Acessado em 17 de abril de 2026).
[48] Leon Trotsky, Terceiro Congresso Pan-Russo de Sindicatos, 6 de abril de 1920: http://www.marxists.org/archive/brinton/1970/workers-control/05.htm (Acessado em 4 de agosto de 2010).
[49] Armand Hammer, op. cit., p. 217.
[50] Ibid., p. 221.
[51] Charles Levinson, Vodka-Cola (West Sussex: Biblias, 1980). Antony Sutton, National Suicide: Military Aid to the Soviet Union (Nova York: Arlington House, 1973).
[52] Peter Grose, op. cit., “The First Transformation”: http://www.cfr.org/about/history/cfr/first_transformation.html
[53] Jack Kemp, et al., Russia’s Wrong Direction: What the United States Can and Should do, Independent Task Force Report, no. 57 (Nova York: Council on Foreign Relations, 2006) xi. A publicação completa pode ser baixada em: http://www.cfr.org/publication/9997/
[54] Oswald Spengler, The Decline of The West (Londres: George Allen & Unwin, 1971), Vol. 2, p. 464.
[55] Ibid., p. 402.
