WALL STREET E A REVOLUÇÃO RUSSA DE MARÇO DE 1917
Kerry Bolton (1956–), 25 de outubro de 2013
Fonte: Ab Aeterno: Journal of the Academy of Social and Political Research, nº 2, março de 2010. Link: https://counter-currents.com/2013/10/wall-street-and-the-march-1917-russian-revolution/
Tradutor do texto: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: O texto sustenta que as revoluções russas de 1917 não foram levantes puramente espontâneos, mas movimentos estrategicamente financiados pelo grande capital internacional e por banqueiros de Nova York, como Jacob H. Schiff (1847–1920). Segundo o autor, a plutocracia financeira utilizou o socialismo como ferramenta para destruir estruturas tradicionais e abrir os vastos recursos da Rússia à exploração e ao controle do mercado global. A análise conclui que o apoio de magnatas e grupos como os “Amigos da Liberdade Russa” evidencia como o coletivismo e o capitalismo de alto nível operaram em simbiose para atender a interesses dinásticos transnacionais.
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“Não há movimento proletário, nem sequer um movimento comunista,
que não tenha operado em interesse do dinheiro, nas direções
indicadas pelo dinheiro e pelo tempo permitido pelo dinheiro —
e isso sem que os idealistas entre seus líderes tenham a menor
suspeita do fato.” — Oswald Spengler.[1]
A “Revolução Russa” (sic) é celebrada tanto no imaginário popular quanto no meio acadêmico como um triunfo do povo contra a tirania czarista, ainda que a maioria admita que a visão utópica tenha se deteriorado, ao menos com a posterior ditadura de Stalin. Contudo, um olhar por trás das múltiplas fachadas da história mostra que a “Revolução Russa” foi uma entre muitas convulsões que serviram àqueles que fornecem o financiamento. Poucos — sejam leigos ou supostos “especialistas” — parecem jamais questionar de onde vem o dinheiro para financiar essas revoluções, e espera-se que acreditemos que elas sejam “levantes espontâneos do povo contra a opressão”, assim como ainda hoje se espera que acreditemos que as chamadas “revoluções coloridas” na Ucrânia, Geórgia, Sérvia etc. sejam “manifestações espontâneas”. Este ensaio examina o financiamento da Revolução Russa de março de 1917, a chamada Primeira Revolução que serviu como cena de abertura para os bolcheviques, e conclui que há forças atuando nos bastidores cujos objetivos estão muito distantes do bem-estar das massas.
Março de 2010 marca o nonagésimo terceiro aniversário da (Primeira) Revolução Russa, que serviu de prelúdio para o golpe bolchevique no novembro seguinte, conhecido como a “Revolução Bolchevique”. Um olhar para além da ortodoxia mostra, com ampla documentação, que o socialismo — da social-democracia e do fabianismo[2] ao comunismo — tem geralmente “operado no interesse do dinheiro”, como observou Spengler.
O historiador e romancista fabiano H. G. Wells, ao visitar a Rússia em 1920 e observar o ainda precário regime bolchevique, comentando sobre como arquicapitalistas já então estavam penetrando na nascente república soviética para negociar concessões comerciais,[3] escreveu:
“O grande capital não é de modo algum antipático ao comunismo. Quanto maior o grande capital se torna, mais ele se aproxima do coletivismo. É o caminho superior de poucos, em vez do caminho inferior das massas, para o coletivismo.”[4]
O grande capital via no socialismo um meio tanto de destruir os fundamentos tradicionais das nações e das sociedades quanto de servir como mecanismo de controle. No caso da Velha Rússia, onde um Estado baseado em tradições monárquicas e rurais não era suscetível de ser aberto à exploração empresarial global de seus recursos, o cenário para as convulsões de 1917 foi preparado já em 1905, na época da Guerra Russo-Japonesa, que desempenhou um papel significativo na formação de um quadro revolucionário russo.[5] O financiamento para a formação desse quadro veio de Jacob Schiff, sócio sênior da Kuhn, Loeb & Co., de Nova York, que apoiou o Japão na guerra contra a Rússia.[6]

O indivíduo mais responsável por influenciar a opinião americana — incluindo a opinião governamental e diplomática — contra a Rússia czarista foi o jornalista George Kennan,[7] que foi patrocinado por Schiff. Em uma coletânea de ensaios sobre a diplomacia russo-americana, Cowley afirma que, durante a Guerra Russo-Japonesa de 1904–1905, Kennan estava no Japão organizando prisioneiros de guerra russos em “células revolucionárias” e alegava ter convertido “52.000 soldados russos em ‘revolucionários’”. Robert Cowley acrescenta ainda, de forma significativa: “Certamente tal atividade, bem financiada por grupos nos Estados Unidos, pouco contribuiu para a solidariedade russo-americana”.[8]

A origem do financiamento revolucionário “por grupos nos Estados Unidos” foi explicada por Kennan em uma celebração da Revolução Russa de março de 1917, conforme relatado pelo New York Times:
“O Sr. Kennan falou sobre o trabalho do Friends of Russian Freedom (‘Amigos da Liberdade Russa’) na revolução. Ele disse que, durante a guerra russo-japonesa, estava em Tóquio, e que lhe foi permitido visitar os 12.000 prisioneiros russos sob custódia japonesa ao final do primeiro ano da guerra. Ele concebera a idéia de colocar propaganda revolucionária nas mãos do exército russo. As autoridades japonesas favoreceram a iniciativa e lhe concederam permissão. Depois disso, ele enviou pedidos à América por toda a literatura revolucionária russa disponível. (…) ‘O movimento foi financiado por um banqueiro de Nova York que todos vocês conhecem e estimam’, disse ele, referindo-se ao Sr. Schiff, ‘e logo recebemos uma tonelada e meia de propaganda revolucionária russa. Ao final da guerra, 50.000 oficiais e soldados russos retornaram ao seu país como ardorosos revolucionários. Os Amigos da Liberdade Russa haviam semeado 50.000 sementes de liberdade em 100 regimentos russos. Não sei quantos desses oficiais e soldados estavam na fortaleza de Petrogrado na semana passada, mas sabemos qual foi o papel do exército na revolução’. Em seguida, foi lido um telegrama de Jacob H. Schiff, parte do qual dizia: ‘Peço que digam, por mim, aos presentes na reunião desta noite, quão profundamente lamento minha impossibilidade de celebrar com os Amigos da Liberdade Russa a realização concreta daquilo pelo qual esperamos e lutamos durante tantos anos’.”[9]
A reação à Revolução Russa por parte de Schiff — e, de fato, dos banqueiros em geral, nos Estados Unidos e em Londres — foi de júbilo. Schiff escreveu entusiasticamente ao New York Times:

“Permitam-me, por meio de suas colunas, expressar minha alegria de que a nação russa, um grande e bom povo, tenha finalmente realizado sua libertação de séculos de opressão autocrática e, por meio de uma revolução quase sem derramamento de sangue, tenha agora conquistado o que lhe pertence por direito. Louvado seja Deus nas alturas!” — Jacob H. Schiff.[10]
Escrevendo ao The Evening Post em resposta a uma pergunta sobre o novo status da Rússia revolucionária nos mercados financeiros mundiais, Schiff respondeu, na qualidade de chefe da Kuhn, Loeb & Co.:
“Em resposta ao seu pedido de minha opinião acerca dos efeitos da revolução sobre as finanças da Rússia, estou plenamente convencido de que, com a certeza do desenvolvimento dos enormes recursos do país — desenvolvimento este que, com a remoção das algemas de um grande povo, seguirá aos acontecimentos presentes —, a Rússia em breve ocupará posição financeira entre as nações mais favorecidas nos mercados monetários do mundo.”[11]
A resposta de Schiff refletia a atitude geral dos círculos financeiros de Londres e Nova York no momento da revolução. John B. Young, do National City Bank, que estivera na Rússia em 1916 tratando de um empréstimo americano, declarou em 1917 que a revolução fôra amplamente discutida quando ele estivera na Rússia no ano anterior. Considerava os envolvidos como “sólidos, responsáveis e conservadores”.[12] Na mesma edição, o New York Times relatou que houve um aumento nas transações cambiais russas em Londres nas 24 horas que precederam a revolução, e que Londres tivera conhecimento dela antes de Nova York. O artigo informava que a maioria dos principais líderes financeiros e empresariais de Londres e Nova York tinha uma visão positiva da revolução.[13] Outro relato afirma que, embora houvesse certa inquietação em relação à revolução, “essa notícia não foi de modo algum indesejada nos círculos bancários mais importantes”.[14]

Esses banqueiros e industriais são citados nesses artigos como considerando que a revolução seria capaz de eliminar as influências pró-alemãs no governo russo e como propensa a adotar uma postura mais vigorosa contra a Alemanha. No entanto, tais aparentes “sentimentos patrióticos” não podem ser considerados a motivação por trás do apoio plutocrático à revolução. Enquanto Max Warburg, da casa bancária Warburg na Alemanha, aconselhava o Kaiser e enquanto o governo alemão providenciava financiamento e passagem segura para Lenin e seu séquito da Suíça através da Alemanha até a Rússia, seu irmão Paul,[15] como associado de Schiff,[16] cuidava dos interesses da família em Nova York. O fator subjacente a esse apoio bancário à revolução — seja vindo de Londres, Nova York, Estocolmo[17] ou Berlim — era o dos imensos recursos, em grande parte inexplorados, que se tornariam disponíveis aos mercados financeiros mundiais, os quais até então haviam sido mantidos fora de controle sob o czar. Deve-se ter em mente que essas dinastias bancárias não eram — e não são — meramente bancos nacionais ou locais, mas internacionais, e não devem lealdade a nenhuma nação em particular, a menos que essa nação esteja, em determinado momento, agindo de acordo com seus interesses.[18]
A Revolução Bolchevique, ocorrida oito meses depois, apesar de sua retórica violentamente anticapitalista, acabaria por abrir os vastos recursos da Rússia ao capitalismo mundial, embora, com a ascensão de Stalin, não na medida que os plutocratas haviam imaginado quando o regime de Lenin-Trotsky esteve no poder por vários anos.
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Este ensaio baseia-se em partes de capítulos de meu livro Revolution From Above: Manufacturing “Dissent” in the New World Order (“Revolução de Cima para Baixo: Fabricando a ‘Dissidência’ na Nova Ordem Mundial”) (Londres: Arktos, 2011). Espero submeter um ensaio semelhante sobre o financiamento da Revolução Bolchevique russa de novembro de 1917 para a edição de outubro-novembro-dezembro de Ab Aeterno.
[1] Oswald Spengler, The Decline of The West, 1918, 1926 (Londres: G. Allen & Unwin, 1971), vol. 2, p. 402.
[2] A Sociedade Fabiana apresenta em seu brasão um lobo em pele de cordeiro. Entre os membros fundadores destacavam-se literatos como H. G. Wells e G. B. Shaw. Os fabianos fundaram a London School of Economics and Political Science como academia de formação para a futura elite governante de um Estado coletivista. Segundo a cofundadora Beatrice Webb, o financiamento veio de Sir Ernest Cassel, do setor de armamentos Vickers, da Kuhn, Loeb & Co., de Nova York, e dos Rothschild, entre outros (K. R. Bolton, op. cit., capítulo “Revolution By Stealth”).
[3] Washington A. Vanderlip estava na Rússia ao mesmo tempo que Wells, negociando concessões comerciais com o regime soviético — com sucesso.
[4] H. G. Wells, Russia in the Shadows, Capítulo VII, “The Envoy”. Wells foi à Rússia em setembro de 1920 a convite de Kamenev, da Delegação Comercial Russa em Londres, um dos líderes do regime bolchevique. A obra apareceu como uma série de artigos no The Sunday Express. O livro completo pode ser lido online em: www.gutenberg.net.au/ebooks06/0602371h.html
[5] A monarquia russa e o campesinato russo eram ambos considerados historicamente ultrapassados pelo establishment financeiro ocidental, da mesma forma que, em nosso tempo, os fazendeiros afrikaners foram considerados ultrapassados, e seu sistema de apartheid visto como obstáculo à globalização da economia sul-africana. Assim como as revoluções russas de março e novembro de 1917, a revolução ostensivamente “negra” na África do Sul eliminou o anacronismo afrikaner e, sob o “socialismo”, privatizou as empresas estatais e a economia.
[6] “Jacob Schiff”, Dictionary of American Biography, vol. XVI, p. 431. Schiff concedeu um empréstimo de 200 milhões de dólares aos agressores japoneses, pelo qual foi condecorado pelo imperador do Japão.
[7] Robert Cowley, “A Year in Hell”, em America and Russia: A Century and a Half of Dramatic Encounters, ed. Oliver Jensen (Nova York: Simon and Schuster, 1962), p. 92–121. A nota introdutória do capítulo indica a natureza da influência de Kennan: “Um jornalista americano, George Kennan, tornou-se o primeiro a revelar os horrores totais do exílio siberiano e a brutal e deliberada desumanidade da ‘justiça’ czarista”. Cowley cita o historiador Thomas A. Bailey afirmando sobre Kennan: “Nenhuma pessoa fez mais para fazer o povo dos Estados Unidos se voltar contra seu suposto benfeitor de outrora”. (Uma referência ao apoio da Rússia czarista à União durante a Guerra Civil Americana). Cowley, ibid., p. 118.
[8] Ibid., p. 120.
[9] New York Times, 24 de março de 1917, p. 1–2.
[10] Jacob H. Schiff, “Jacob H. Schiff Rejoices”, telégrafo ao editor do New York Times, 18 de março de 1917. Isso pode ser visualizado nos arquivos online do New York Times: http://query.nytimes.com/mem/archive-free/pdf?res=9802E4DD163AE532A2575BC1A9659C946696D6CF (acessado em 12 de janeiro de 2010).
[11] “Loans easier for Russia”, New York Times, 20 de março de 1917. Isso pode ser visualizado nos arquivos online do New York Times: http://query.nytimes.com/mem/archive-free/pdf?res=9B04EFDD143AE433A25753C2A9659C946696D6CF (acessado em 12 de janeiro de 2010).
[12] “Is a People’s Revolution”, New York Times, 16 de março de 1917.
[13] “Bankers here pleased with news of revolution”, ibid.
[14] “Stocks strong – Wall Street interpretation of Russian News”, ibid.
[15] Paul Warburg, antes de emigrar para os EUA, foi condecorado pelo Kaiser em 1912.
[16] Paul Warburg era também cunhado de Schiff.
[17] Olof Achberg, do Nye Banken, em Estocolmo, atuou como intermediário de fundos entre bancos internacionais e os bolcheviques.
[18] Por exemplo, que lealdades nacionais ou imperiais anteriores poderia ter uma dinastia bancária como os Rothschild, quando possuíam ramificações familiares em Londres, Paris, Frankfurt e Berlim? A mesma questão se aplica a todos esses bancos e, em nosso tempo, às corporações transnacionais.
