FINANÇAS PAPAIS E O PODER TEMPORAL, 1815–1871
Rondo E. Cameron (†2001)
Fonte: Church History, Vol. 26, No. 2 (Junho de 1957), p. 132–142.
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: O artigo analisa a crise financeira e o endividamento público dos Estados Pontifícios entre 1815 e 1871, destacando a dependência vital do Papado em relação ao capital francês e à Casa Rothschild. O texto revela como a desordem administrativa e os custos com repressão a revoltas e manutenção de tropas estrangeiras corroeram a soberania temporal dos Pontífices. Por fim, o autor sugere que o colapso do poder político papal foi acelerado por essa insolvência econômica, culminando na transferência das dívidas para o Reino da Itália em 1871. O estudo propõe que a condenação da modernidade pela Igreja pode ter raízes em sua própria incapacidade de governar sob as normas financeiras do mundo moderno.
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Os Papas de Roma governaram como soberanos tanto temporais quanto espirituais por mais de mil anos, mas os historiadores têm se preocupado pouco com o primeiro aspecto de sua soberania, exceto como fator na política e diplomacia internacionais e por seus efeitos sobre seu status como chefes da cristandade católica. Detalhes da administração interna dos Estados da Igreja têm sido amplamente negligenciados. Esse estado de coisas é particularmente verdadeiro no que diz respeito aos períodos moderno e recente da história européia, durante os quais a ascensão dos grandes Estados nacionais eclipsou o diminuto domínio temporal do Papa. Existe uma literatura substancial sobre as finanças do Papado na Baixa Idade Média, quando se reconhece que as finanças desempenharam papel importante nos assuntos políticos, mas uma revisão da literatura referente ao período moderno não revela qualquer tratamento sistemático do tema.[1] Há razões para acreditar, contudo, como indica esta breve nota, que existe uma conexão significativa entre a situação financeira dos Estados da Igreja e a perda do poder temporal. É até possível que essa conexão se estenda a questões de doutrina eclesiástica.
A presente nota não pretende ser um relato completo das finanças papais desde o Congresso de Viena até a queda do poder temporal. Trata apenas de um aspecto desse tema, o endividamento e a dívida pública, e principalmente do ponto de vista das relações do Papa com a França. Porém, na medida em que a França não apenas desempenhou um papel-chave nos acontecimentos que conduziram à perda do domínio temporal do Papado, mas também foi seu credor mais importante e confiável no meio século que precedeu esse evento, sua participação teria necessariamente grande destaque em qualquer relato das finanças papais no período em questão.[2]
I
Os Papas da Idade Média estiveram entre os primeiros chefes de Estado a recorrer ao crédito público, e seus empréstimos contribuíram, sob vários aspectos, para o surgimento de instituições econômicas que posteriormente seriam denominadas “capitalistas”. No final do século XVIII, as dívidas dos Estados da Igreja somavam aproximadamente 400 milhões de francos,[3] mas em 1815 haviam sido reduzidas a menos de um quarto desse montante, tanto pela repudiação papal quanto pela administração financeira implacável do governo napoleônico.[4] Por doze anos após o Congresso de Viena, o governo papal desfrutou de ordem financeira e superávits orçamentários que lhe permitiram reduzir ainda mais sua dívida pública, e por meios mais aceitáveis. Mas em 1828 o déficit reapareceu e tornou-se uma característica mais ou menos permanente das finanças papais até o fim do domínio temporal.
As revoltas que eclodiram em 1831–1832 impuseram uma forte pressão sobre o tesouro romano e levaram, pela primeira vez, o chefe da cristandade católica a recorrer a um daqueles “cinco senhores de Frankfurt” que mais tarde seria reconhecido como líder do judaísmo internacional. O Barão James de Rothschild (1792–1868), chefe da casa bancária de mesmo nome em Paris, já havia demonstrado, juntamente com seus irmãos, sua devoção à causa da estabilidade e da ordem estabelecida pelo Congresso de Viena.
Além de transmitir subsídios britânicos aos aliados continentais da Grã-Bretanha e de prestar outros serviços à coalizão no último e vitorioso ataque contra Napoleão, eles desempenharam papel de liderança na restauração das finanças austríacas após as guerras e forneceram o apoio financeiro necessário para esmagar a revolução de 1820–1821 no Reino das Duas Sicílias.[5] James, o mais jovem dos cinco irmãos, chegou a Paris em 1812 para dirigir as operações do consórcio familiar na sede do governo francês. Permaneceu após a Restauração e, por volta de 1820, já havia penetrado nos círculos internos das finanças francesas. Tendo feito as pazes com a Monarquia de Julho (com a qual, de fato, era mais simpático do que com sua predecessora) e estando situado no principal mercado financeiro do continente, encontrava-se, na época das revoltas de 1831–1832, na melhor posição entre os financistas para acudir o Papa. Desde então até 1859, ele foi o principal sustentáculo financeiro e agente do Papado.
Apesar da assistência de Rothschild, a mais extrema desordem reinava na administração financeira da Igreja durante o pontificado de Gregório XVI (Pontificado 1831–1846). As finanças eram administradas por prelados da Igreja que tinham direito à elevação ao cardinalato ao deixarem o cargo.[6] Suas contas não estavam sujeitas a auditoria, e suas ações só podiam ser revistas pelo próprio Papa. De 1833 a 1846 não houve publicação de contas do estado do tesouro; após 1837 não existiam registros a partir dos quais se pudesse posteriormente reconstruir um balanço.[7] Com a ascensão de Pio IX (Pontificado 1846–1878), em 1846, determinou-se (de modo aproximado) que a dívida consolidada ultrapassava 200 milhões de francos e a dívida flutuante situava-se entre 40 e 50 milhões de francos —[8] sendo esta última equivalente ao orçamento anual. No total, os empréstimos contraídos sob Gregório, a maior parte fornecida por Rothschild, chegaram a cerca de 150 milhões de francos.[9]
Com a ascensão de Pio IX, um novo amanhecer foi saudado por católicos liberais em toda parte. Acreditava-se que ele próprio possuía simpatias liberais, e Pio Nono certamente pretendia instituir reformas profundas em toda a sua administração. Um início foi feito nas finanças ao tentar impor alguma ordem às contas de seu predecessor, e, com o objetivo de consolidar a dívida flutuante, contraiu-se um pequeno empréstimo com a firma bancária católica Delahante e Companhia, em Paris.[10] Infelizmente para essa tentativa, a Delahante faliu durante a insurreição de fevereiro de 1848 em Paris, antes que a emissão do empréstimo fosse concluída, e pouco depois a onda revolucionária envolveu a própria Roma.
Os governos revolucionários, primeiro o ministério constitucional que funcionou sob Pio e depois o da efêmera república, atenderam às suas necessidades correntes mediante a emissão de títulos do tesouro, e o governo republicano emitiu também papel-moeda inconversível. Desde o início do movimento revolucionário até a repressão forçada da república em julho de 1849, o déficit total somou cerca de 30 milhões de francos. Parte dessa dívida foi eliminada após a restauração do governo papal pelo simples expediente de repudiar uma parte da emissão de papel-moeda. Mas mal isso ocorrera, e o próprio governo restaurado recorreu novamente à emissão de papel.[11]
Uma vez que o partido papal retornou ao poder, tornou-se necessário liquidar os custos da insurreição e da subsequente restauração, bem como prover as forças de ocupação permanentes da Áustria e da França. Para esse fim, um novo empréstimo de 50 milhões de francos foi contraído, com o Papa retornando, nesse momento de dificuldades, ao confiável James de Rothschild. Como as outras emissões mantidas na França, esta rendia juros de 5% sobre o capital nominal; ela foi tomada por Rothschild a 75% do valor de face na primavera de 1850, e posteriormente colocada no público por ele a preços que partiam de 78% do valor de face.[12] Uma pequena emissão adicional dessa mesma série, no valor nominal de 6.450.000 francos, foi feita em 1854.[13] No ano anterior, Rothschild também havia fornecido ao Papa 26 milhões de francos com o objetivo de liquidar as emissões de papel-moeda, recebendo em troca títulos não negociáveis com juros de 8%.[14]

Tendo-se restabelecido uma aparência de ordem nas finanças papais por volta da metade da década de 1850–1859, o governo, agindo sob o conselho do Barão James, decidiu proceder à consolidação de todos os empréstimos que haviam sido emitidos por intermédio da Casa Rothschild, a fim de aliviar o ônus imediato dos pagamentos de amortização. Uma convenção com esse objetivo foi assinada em 1857, e Rothschild procedeu imediatamente à troca dos títulos. O valor total da emissão foi de 142.425.000 francos, em títulos com valor nominal de 1.000 francos, rendendo juros de 5%.[15] Na ausência de evidência mais completa, pode-se supor que esse fosse o montante do investimento francês na dívida pública dos Estados da Igreja imediatamente antes da Guerra de 1859. Como as dívidas totais do Papa ascendiam a aproximadamente 350 milhões de francos em 1º de janeiro de 1858,[16] a participação da França ultrapassava 40%. Além disso, uma vez que todos os títulos da dívida externa, exceto 10 milhões de francos da dívida detida no exterior, estavam na forma de certificados de Rothschild,[17] pode-se dizer que praticamente todo o montante da dívida pública dos Estados da Igreja que não se encontrava em mãos internas estava nas mãos de franceses.
O restante, quase 200 milhões de francos, parece um montante muito elevado para ser possuído pelos habitantes de um Estado tão pequeno, pobre em recursos e economicamente atrasado como eram os Estados da Igreja. De fato, muito pouco disso constituía uma “dívida pública” no sentido técnico. Parte dela, é verdade, resultava de empréstimos feitos ao Papa ou ao governo papal por cidadãos individuais dos Estados da Igreja; uma parcela um pouco maior[18] era devida à Banca Romana, o banco oficial do Estado, pelos adiantamentos que havia feito ao governo.[19] Mas, de longe a maior parte dessa “dívida” interna representava o valor capitalizado de pensões e outros legados concedidos pelo Papa ou por seu governo a instituições e indivíduos, e que eram pagos a partir da renda corrente.
Segundo os economistas políticos clássicos, cujas doutrinas eram amplamente conhecidas nos países mais avançados da época, as funções “legítimas” do governo incluíam a defesa (guerra), a justiça, a educação e a provisão de obras de utilidade pública que não seriam do interesse de indivíduos privados realizar.[20] Em geral, eles se opunham ao endividamento público, mas admitiam que poderiam existir ocasiões de despesas “extraordinárias”, particularmente em caso de guerra, que o justificassem.[21] Suas teorias não contemplavam, é claro, uma anomalia no sistema moderno de Estados como o governo do Papa: este não estava limitado às formas ordinárias de tributação e empréstimo para sua receita, nem às funções usuais de governo para suas despesas. Talvez uma extensão lógica da teoria indicasse que as receitas fiscais deveriam restringir-se a cobrir apenas as operações ordinárias do governo, enquanto as demais rendas da Igreja seriam destinadas às suas funções religiosas. Mas, ainda que tal extensão seja válida em teoria, raramente correspondia à realidade. Na prática, as contas não eram mantidas separadas, e os impostos podiam ser utilizados para sustentar os compromissos internacionais da Igreja ou, mais raramente, doações à Igreja eram empregadas na execução de funções governamentais em Roma. De todo modo, dada a natureza e a orientação do governo papal, muito poucos de seus recursos — independentemente de terem sido obtidos por doações, tributação ou empréstimos — foram destinados a fins de desenvolvimento econômico. Apenas uma fração ínfima da dívida pública total, estimada em menos de 5 milhões de francos, foi aplicada em finalidades como construção de estradas, drenagem e irrigação.[22] Cerca de um terço foi gasto em propósitos “puramente clericais”, sem qualquer conexão com o Estado romano.[23] O restante foi utilizado para reprimir rebeliões e manter tropas estrangeiras no território.
II
Mal o Papado havia alcançado estabilidade financeira quando a Guerra de 1859 trouxe novos desastres, tanto financeiros quanto políticos, em seu rastro. A província da Romanha, a mais rica dos domínios do Papa, revoltou-se com sucesso assim que a Áustria retirou suas tropas de Bolonha, e a Úmbria e as Marcas caíram diante do exército de Vítor Emanuel no ano seguinte. Privado da maior parte de sua receita tributária habitual e com suas despesas disparando devido aos custos da guerra, ao fluxo de clérigos deslocados que acorriam a Roma e ao “desperdício sem precedentes”[24] da administração financeira, o governo do Papa lançou um apelo desesperado por assistência financeira em “todas as capitais da Europa”.[25] Um empréstimo de 50 milhões de francos foi autorizado em abril de 1860, do qual se esperava levantar metade na França.[26]
Irritado com Rothschild pelo apoio que este concedera a Vítor Emanuel e a [Conde de] Cavour,[27] o Papa decidiu emitir seus títulos sem o auxílio de qualquer banqueiro, judeu ou cristão.[28] Os recursos do empréstimo, que ele esperava emitir ao par (pelo valor nominal), deveriam ser recolhidos em cada diocese pelos “agentes locais do Papa” (isto é, os bispos) e enviados a Roma por intermédio do núncio papal em Paris.[29] Nesse ponto, porém, o ministro das finanças francês interveio. O procedimento, queixou-se ele ao ministro das relações exteriores, era totalmente irregular e sem precedentes, e ele não poderia consentir na emissão dos títulos na França até que um banqueiro reconhecido fosse nomeado como intermediário para a coleta e o envio dos recursos.[30] Havia, além disso, outras irregularidades às quais o ministro se opunha: em caso de subscrição excessiva, o Papa pretendia utilizar os recursos para o pagamento de obrigações em aberto sem ter declarado tal intenção nos anúncios públicos. Não tendo alternativa senão acatar as sugestões do ministro das finanças, Pio IX emitiu um “regulamento especial para a emissão do empréstimo na França” e nomeou dois banqueiros católicos de confiança, Edward Blount (1809–1905) e o Marquês de la Bouillerie (1822–1894), como seus agentes.[31]
Nos anúncios públicos do empréstimo (assim como, sem dúvida, nas circulares diocesanas dos bispos), enfatizava-se que era dever e privilégio religioso dos católicos apoiar o empréstimo com seus recursos pecuniários, assim como com seus recursos espirituais. O apelo não foi ineficaz, pois o mundo financeiro ficou atônito ao ver subscrições sendo efetivamente feitas ao valor de face, enquanto outros empréstimos papais eram cotados com desconto de 25%. (As primeiras cotações públicas do empréstimo de 1860, quando foi admitido à Bolsa três anos depois, variaram entre 73% e 77% do valor de face.) Mas, apesar desse milagre financeiro, as expectativas papais não foram plenamente realizadas, pois apenas 37 dos 50 milhões de francos esperados foram subscritos. Os católicos franceses forneceram 17 dos 25 milhões que lhes haviam sido solicitados.[32]
A posição do ministro das finanças no governo do Papa na década de 1860 não era invejável. Em um Estado com área e população inferiores às de um pequeno ducado alemão, ele era chamado a administrar uma dívida cujo volume se equiparava ao de algumas das grandes potências da Europa. É verdade que, imediatamente após anexar as antigas províncias do Papa, o novo governo da Itália assumira o serviço da dívida relativa aos títulos detidos pelos habitantes da Romanha, da Úmbria e das Marcas; mas isso representava apenas uma pequena parte do total. Somente em 1867, em decorrência de tratados nos quais a França atuou como intermediária entre o governo de Roma e o da Itália, este último assumiu uma parte proporcional das dívidas atribuíveis às províncias anexadas.[33]
Nesse meio-tempo, as despesas ordinárias do governo, bem como o serviço da dívida, tiveram de ser cobertas em grande parte por dádivas e doações, que não se materializaram nas quantias esperadas. A receita total proveniente do “Óbolo de São Pedro” nos anos de 1859–1862 mal bastou para cobrir o déficit de um único ano.[34]
No início de 1863, o Papa solicitou ao governo francês autorização para que seus agentes cobrassem o “restante” (oito milhões de francos) do empréstimo de 1860.[35] Em vez de abrir uma subscrição pública ao valor nominal, como na ocasião inicial, o Papa preferiu dirigir-se diretamente aos detentores dos títulos de 1860 “em termos vantajosos para eles”[36] (isto é, permitindo-lhes adquirir os novos títulos à taxa de mercado corrente de cinco francos de rente por 74 francos de capital). O ministro das finanças, nessa ocasião, não apresentou objeções, mas enfatizou que dessa vez a operação deveria ser “puramente financeira”, sem participação nem propaganda por parte dos bispos.[37] Apesar dos avisos e injunções, porém, os zelosos representantes do Santo Padre não puderam ser constrangidos a separar religião de finanças. O bispo de Autun exortou seu rebanho a apoiar a nova emissão em uma carta pastoral na qual assinalava que “todos, ao realizarem uma boa obra, os fiéis (…) estarão ao mesmo tempo fazendo um investimento vantajoso”, e prosseguia assegurando-lhes que o Papa era um “bom risco”.[38] Os editores do jornal parisiense La Presse comentaram que a linguagem da carta poderia causar certa surpresa a São Paulo e São Tiago, cujas próprias epístolas às suas igrejas “não tinham qualquer relação com o Guide du spéculateur à la Bourse (“Guia do Especulador na Bolsa”).[39] O ministro das finanças, Achille Fould (1800–1867), protestou contra essa quebra de compromisso em carta ao ministro das relações exteriores,[40] mas a essa altura a operação já havia sido concluída e o assunto foi deixado de lado.
No ano seguinte, um grupo de banqueiros e financistas católicos, entre eles Edward Blount e o deputado Henri Barbet (1789–1875), concebeu um plano em conjunto com autoridades papais pelo qual o pagamento da dívida detida no exterior seria garantido independentemente das receitas do Papado. Um novo empréstimo de 100 milhões de francos, com características de loteria, deveria ser emitido a 90% do valor nominal. Aproximadamente metade dos recursos seria colocada em um fundo de amortização sob a administração dos banqueiros franceses; o rendimento desse fundo seria utilizado para recomprar na Bolsa os títulos papais então em circulação nas mãos de investidores franceses.[41] Como os títulos desse novo empréstimo não se destinavam à negociação pública na Bolsa, não se solicitou o apoio ativo do governo imperial, mas apenas “sua concordância ou ao menos tolerância tácita”.[42] Nem mesmo isso, porém, pôde ser concedido, segundo o ministro das finanças, pois todos os empréstimos com características de loteria eram proibidos por lei.[43]
Em poucos meses, o Ministério das Finanças recebeu um pedido do Banque de Crédit Foncier et Industriel de Bruxelas, que, juntamente com Blount, estava encarregado de emitir um novo empréstimo de 50 milhões de francos, para anunciar a emissão nos jornais financeiros parisienses.[44] O ministro não teve tempo de tomar uma decisão, uma vez que o anúncio apareceu na imprensa antes mesmo de ele receber o pedido.[45] Mais uma vez, os agentes do Papa haviam infringido a legislação francesa. Embora tanto o ministro das finanças quanto o das relações exteriores tenham expressado seu “lamento” ao núncio papal, nenhum deles se mostrou inclinado a tomar as medidas previstas em lei para tais casos.[46] Apesar desse incidente, os agentes da Igreja continuaram a ser uma fonte de irritação para o ministro das finanças. Como em ocasiões anteriores, os bispos insistiram em fazer do empréstimo de 1864 um teste de fé religiosa. Mas, além disso, começou a emergir uma questão mais grave para o governo francês: uma sutil conexão com a política dinástica — em parte, sem dúvida, como reação ao que os bispos deviam considerar a atitude hostil do governo imperial. Blount, já firmemente estabelecido como banqueiro do Papa em Paris, era conhecido por suas simpatias orleanistas, e a maioria dos arrecadadores do empréstimo nas províncias também pertencia às facções orleanista ou legitimista. Um deles, encarregado de recolher os recursos do empréstimo em todo o nordeste da França, foi descrito como “perfeitamente hostil ao governo imperial” e aparentemente não possuía outras qualificações para sua nomeação além de suas marcadas tendências monarquistas.[47]
Apesar de tais incidentes, a situação política interna do governo imperial era tal que os ministros de Napoleão III não ousavam recusar permissão para que o Papa continuasse a contrair empréstimos na França. Em 1866, Blount emitiu 60 milhões de francos (valor nominal) em títulos a 5% ao preço de 330 francos por título de valor nominal de 500 francos.[48] Ao que parece, não houve acontecimentos desfavoráveis que comprometessem essa operação.
Essa foi a última vez que uma administração francesa teve de se ocupar de um empréstimo papal, embora não tenha sido o fim das dificuldades relacionadas às dívidas da Igreja. Em 1868, o governo italiano instituiu um imposto sobre a renda de todos os títulos públicos, incluindo aquelas antigas dívidas da Igreja que havia assumido no ano anterior. Aos olhos dos credores estrangeiros, isso equivalia a uma repudiação parcial de suas obrigações, uma vez que o imposto era deduzido antes do pagamento dos juros. Entre as centenas de protestos e exigências de medidas retaliatórias que inundaram o governo do Imperador em consequência dessa medida, encontrava-se um de um père Gostlin, um padre aposentado que possuía algumas centenas de francos da rente papal, o qual dirigiu um apelo pessoal a Napoleão III solicitando que este assumisse o serviço das dívidas papais.[49] Essa proposta aparentemente não recebeu consideração séria, embora o governo tenha cogitado a possibilidade de retirar todos os títulos italianos do privilégio de negociação na Bolsa. Mas outras e mais urgentes necessidades de Estado indicaram um rumo diverso, e o governo francês limitou-se a apresentar protestos oficiais ao governo da Itália.
O governo temporal do Papa chegou ao fim com os acontecimentos de 1870, e com isso ele foi aliviado do encargo de sustentar os ônus financeiros de um Estado territorial. Embora o “prisioneiro do Vaticano” tenha se recusado a reconhecer ou aceitar a Lei das Garantias de 21 de março de 1871, não se opôs quando, três meses depois, uma lei foi promulgada tornando as dívidas remanescentes da Igreja obrigações do Reino da Itália.
III
As evidências apresentadas neste breve panorama das finanças papais parecem sustentar as seguintes generalizações limitadas: (1) as dificuldades políticas em que o Papado se encontrou nas últimas décadas do poder temporal foram reforçadas por — e em certa medida resultaram de — dificuldades financeiras correspondentes;[50] e (2) os interesses conflitantes dentro da França, responsáveis pela atitude ambivalente de seu governo em relação ao conjunto do problema ítalo-romano, foram reforçados por considerações pecuniárias, pois os cidadãos franceses estavam ainda mais fortemente envolvidos nas finanças do Reino da Itália do que nas do governo do Papa. É significativo que o père Gostlin, embora consternado com o sacrilégio cometido pelo governo italiano ao invadir os Estados da Igreja, estivesse mais imediatamente preocupado com que o Imperador tomasse alguma medida que restabelecesse sua renda.
Pode-se extrair uma generalização mais abrangente da história das finanças papais? É possível que a história financeira dos Estados da Igreja tenha alguma conexão com questões doutrinárias? Nada nas evidências indica tal conexão; e, pela própria natureza do caso, é improvável que se encontrem documentos que a comprovem. Os autores do Syllabus Errorum dificilmente admitiriam a outros, mesmo que tivessem consciência disso, que sua condenação da civilização moderna e de todos os seus elementos estivesse de algum modo relacionada ao fracasso em fazer funcionar com êxito um governo temporal nas condições do mundo moderno. Ainda assim, tal relação é, ao menos, concebível e talvez digna de investigação ulterior.
[1] Uma bibliografia de história econômica italiana no século XIX, autorizada e compilada recentemente, Bibliografia di storia economica italiana per il periodo 1840–1887, mimeo., s.d., s.l., lista apenas três títulos, todos insignificantes, que tratam das finanças públicas dos Estados da Igreja. A obra monumental do historiador católico Josef Schmidlin, Papstgeschichte der Neuesten Zeit (4 vols., Munique, 1933–39) dedica exatamente um parágrafo às finanças públicas no reinado de Pio IX (1846–1878). Críticos da Igreja, como J. B. Bury, em History of the Papacy in the Nineteenth Century, 1864–1878 (Londres, 1930), não são mais atentos a tais assuntos mundanos; de fato, não há qualquer menção a finanças em Bury, embora se deva admitir que ele estava interessado primordialmente em idéias, e não em instituições. Carl C. Eckhardt, um historiador que considerou explicitamente o Papado como uma potência mundial em The Papacy and World Affairs (Chicago University Press, 1937), da mesma forma, não faz menção às finanças públicas. Na verdade, encontram-se apenas referências esparsas em qualquer obra.
[2] A parte final deste relato baseia-se na correspondência entre o Ministério das Finanças francês e o Ministério das Relações Exteriores relativa à admissão de títulos estrangeiros na Bolsa de Paris. Todos os documentos citados estão preservados nos Archives Nationales, Paris, na série F³⁰, maço nº 309, e serão identificados adiante nas notas apenas por referência ao remetente, destinatário e data.
[3] O franco (aproximadamente equivalente a 20 centavos de dólar americano em valores anteriores a 1914) é utilizado em toda esta nota para expressar valores monetários, uma vez que a França, a “filha mais velha [e mais rica] da Igreja”, foi a fonte de praticamente todos os seus empréstimos. Para um breve levantamento das dívidas da Igreja, ver Isadore Sachs, L’Italie, ses finances et son développement économique depuis l’unification du royaume, 1859–1884 (Paris, 1885), p. 452–458.
[4] Ibid., p. 452–453; “Modern Rome and the Papal Government”, Foreign Quarterly Review, XI (1833), p. 662.
[5] Cf. E. C. Corti, The Rise of the House of Rothschild (trad. B. & B. Lunn; Nova York e Londres, 1928). Esses são apenas dois de uma série de casos em que os Rothschilds estiveram envolvidos no apoio aos princípios de Metternich.
[6] Luigi Carlo Farini, The Roman State from 1815 to 1850 (trad. W. E. Gladstone; 4 vols.; Londres, 1851–1854), I, p. 142. Para uma visão (católica) muito diferente da administração financeira neste período, ver “Italy and the Papal States”, Dublin Review, XLI (1856), p. 171–226, que menciona “reformas econômicas e boa gestão” que reduziram o déficit anual “para apenas 350.000 dólares [escudos] em 1847”.
[7] Farini, Roman State, I, 143; Bolton King, A History of Italian Unity (2 vols.; 3ª impressão revisada; Londres, 1924), I, p. 74; Annuaire de l’économie politique et de statistique (54 vols.; Paris, 1844–1898), 1851, p. 277–279; Sachs, L’Italie, p. 453. Diz-se que um dos funcionários do tesouro, quando questionado sobre uma questão de economia política, respondeu que não lia livros que tratassem desse assunto, pois eram “perniciosos e estavam no Index” (King, Italian Unity, I, 75).
[8] Sachs, L’Italie, p. 454. Para fins de comparação, os Estados Unidos em 1846 tinham uma população 7 vezes maior que a dos Estados Pontifícios e uma área 150 vezes maior; seu orçamento para 1846 (que incluiu um superávit três vezes maior que o déficit papal de quase dois milhões de francos) era apenas três vezes maior, enquanto sua dívida pública era inferior a um terço daquela dos Estados da Igreja. A dívida pública per capita dos Estados Unidos totalizava cerca de 75 centavos; a dos Estados da Igreja, mais de quatro dólares.
[9] Farini, Roman State, I, p. 145.
[10] Ann. de l’écon. pol., 1851, p. 279.
[11] Ibid.; Sachs, L’Italie, p. 454.
[12] E. C. Corti, The Reign of the House of Rothschild (trad. B. & B. Lunn; Londres, 1928), p. 279n; The Economist (Londres), 2 de fev. de 1850.
[13] Sachs, L’Italie, p. 455; P.-J. Proudhon, Manuel du spéculateur à la Bourse (4ª ed.; Paris, 1857), p. 427.
[14] Sachs, L’Italie, p. 455.
[15] Sachs, L’Italie, p. 456; Bourse de Paris, Chambre Syndicale, Annuaire, 1880 (Paris, 1881), p. 179. Disso, 19.175.000 francos representavam uma nova emissão líquida. Algumas das emissões anteriores haviam sido parcialmente amortizadas; as compras totais francesas quase certamente excederam 150 milhões de francos, possivelmente até 200 milhões.
[16] Sachs, L’Italie, p. 456.
[17] Ann. de l’écon. pol., 1859, p. 352.
[18] As informações neste parágrafo, deve-se admitir, são em grande parte suposições baseadas em referências casuais e esparsas. Relatos publicados sobre o detalhamento da dívida interna dos Estados da Igreja são, até onde sei, inexistentes.
[19] A Banca Romana, integralmente de propriedade do Estado, fôra reorganizada em 1852 com o Conde Philip Antonelli, irmão do Cardeal Secretário de Estado, como seu diretor. Sob uma gestão inepta e provavelmente corrupta, emitiu grandes quantidades de notas bancárias sem lastro em qualquer reserva metálica; também sofreu perdas enormes que foram cobertas por lançamentos contábeis fictícios. Cf. R. de Cesare, The Last Days of Papal Rome, 1850–1870 (Londres, 1909), p. 38–39.
[20] Cf. Adam Smith, An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations (Edimburgo, 1776), Livro V, cap. I.
[21] Ibid., Livro V, cap. III; David Ricardo, Principles of Political Economy and Taxation (ed. Everyman; Londres, 1911), p. 163.
[22] Os Estados do Papa tornaram-se os primeiros na Itália a introduzir selos postais, em 1852, mas os operários da oficina de impressão onde eram fabricados vendiam grandes folhas no atacado pela metade do preço, e os funcionários postais, em vez de cancelar os selos, frequentemente os removiam das cartas e os revendiam para lucro pessoal. Um telégrafo instalado entre Roma e Terracina em 1854 era usado principalmente para enviar mensagens devocionais e para o entretenimento do funcionário sob cuja direção estava; somente em 1857 Roma teve comunicações telegráficas com o mundo exterior. Luzes a gás para as ruas de Roma foram instaladas sob demanda do comandante das forças de ocupação francesas, que desejava proteger suas tropas dos bandidos e baderneiros que rondavam as ruas à noite. Concessões para ferrovias foram concedidas após 1854, mas o governo não incorreu em despesas com subsídios até 1859.
[23] Sachs, L’Italie, p. 456.
[24] Ibid.
[25] Ministro das Finanças francês (doravante abreviado como MinFin) ao Ministro das Relações Exteriores (MinForAff), abril [s.d.] 1860.
[26] Ibid.
[27] A Casa Rothschild de Paris também fôra o principal banqueiro do Reino da Sardenha, e auxiliara no lançamento de um novo empréstimo recentemente, em novembro de 1859. O primeiro empréstimo a ser levantado pelo novo Reino da Itália também foi gerido pelo Barão James. Cf. Rondo E. Cameron, “French Finance and Italian Unity: The Cavourian Decade”, American Historical Review, Vol. LXII, No. 3, abril, 1957.
[28] Em retaliação por ter sido preterido, Rothschild anunciou em 1º de dezembro de 1860, data em que deveria ter sido feito o pagamento dos juros sobre as dívidas consolidadas de 1857, que os pagamentos seriam adiados indefinidamente, pois não recebera do tesouro papal o montante total necessário para o serviço da dívida (Journal des chemins de fer, XIX [1º de dez. de 1860], 963). Em ocasiões semelhantes no passado, ele sempre fizera adiantamentos temporários para cobrir os juros.
[29] MinFin ao MinForAff, abril [s.d.] 1860.
[30] Ibid.
[31] Réglement spécial pour la France sur l’émission et la vente d’un emprunt… [etc.], datado de 25 de maio de 1860, e assinado por Pio IX e seu ministro das finanças, Ferrani; Magne (MinFin) a E. Blount, 21 de junho de 1860. Blount, embora inglês de nascimento, estabelecera-se em Paris durante o regime de Luís Filipe e esteve intimamente identificado com as finanças francesas ao longo de sua longa vida.
[32] E. Drouyn de Lhuys (MinForAff) a A. Fould (MinFin), 23 de fev. de 1863.
[33] Sachs, L’Italie, p. 457–458, 465, 467.
[34] Ibid., p. 456.
[35] MinForAff ao MinFin, 23 de fev. de 1863.
[36] Ibid.
[37] MinFin ao MinForAff, 6 de março de 1863.
[38] Citado em La Presse, 10 de maio de 1863.
[39] Ibid.
[40] 18 de maio de 1863.
[41] Nota confidencial de Drouyn de Lhuys a Fould, 1º de março de 1864.
[42] Ibid.
[43] Em várias ocasiões, sendo a mais notável aquela ligada à Companhia do Canal de Suez de Ferdinand de Lesseps, as partes interessadas obtiveram do Corps législatif isenções especiais da lei anti-loteria. Os documentos disponíveis não revelam por que o Papa não tentou essa solução.
[44] Carta datada de 14 de junho de 1864. O banco declarou que sua assistência era “puramente gratuita e motivada apenas pelo desejo de ser útil ao governo Pontifício”.
[45] La Nation (Paris), 14 de junho de 1864. O decreto pontifício autorizando o empréstimo datava de 26 de março de 1864.
[46] MinForAff ao MinFin, 2 de julho de 1864; MinFin ao MinForAff, 8 de julho de 1864.
[47] Relatório do prefeito do departamento de Meurthe ao Ministro do Interior; Nancy, 26 de julho de 1864.
[48] Flavio Chigi (Núncio Papal) a Drouyn de Lhuys, 28 de março de 1866; MinForAff ao MinFin, 6 de abril de 1866; MinFin ao MinForAff, 11 de abril de 1866.
[49] Père Gostlin, missionário do Seminário de São Vicente, a Napoleão III; Le Mans, 24 de junho de 1869.
[50] É improvável, por exemplo, que os cidadãos dos Estados da Igreja tivessem abandonado tão prontamente seu soberano em 1848–1849 e novamente em 1859–1860 se não fosse pela pesada carga tributária da qual não obtinham benefícios visíveis. Em outra conexão, se os representantes do Papa tivessem sido menos inábeis em suas negociações financeiras em Paris, provavelmente teriam encontrado os ministros de Napoleão mais amavelmente dispostos.
