ONDE ESTÁ O INFERNO?
Padre Miguel Torres
Fonte: Revista Bíblica, ano 14, n. 65, p. 74–79, jul.–set. 1952.
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: O texto apresenta um breve panorama teológico do conceito de Inferno, desde suas raízes bíblicas e patrísticas até sua sistematização na escolástica, afirmando-o como lugar e estado de punição eterna. Por fim, discute hipóteses sobre sua localização.
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À pergunta: “Onde está o inferno?”, poderíamos responder com o texto de São João Crisóstomo: “Não busquemos onde está, mas sim como fugir dele”.
Essa é, sem dúvida, a resposta mais prudente, pois “o princípio da sabedoria é o temor de Deus” (Sb 1,7; Sl 110,10), e nenhuma verdade costuma gerar um temor tão salutar quanto a eternidade das penas do Inferno. Jamais insistiremos suficientemente neste ponto: a escatologia, ou doutrina dos Novíssimos, é um dos tratados fundamentais da teologia pastoral, de eficácia incalculável.
É necessário pregar estes dogmas, muito aptos para despertar o pecador da letargia do pecado e para animar os justos no caminho da perseverança. Ainda que nem sempre sejam agradáveis ao paladar atrofiado dos mundanos, essas verdades têm perene atualidade.
Mas os Santos Padres em geral, e São João Crisóstomo em particular, não desprezam a pergunta proposta no início; antes, a formulam explicitamente e supõem que o Inferno está em um lugar determinado, que bem pode ser o centro da Terra. Esta é precisamente a resposta que desejamos dar nestas páginas, precedida de algumas noções e de uma breve introdução histórica sobre a teologia do Inferno.
NOÇÃO DE INFERNO
A palavra “inferno” — do latim infernus ou inferus — indica etimologicamente as regiões inferiores ou subterrâneas. Corresponde ao hebraico sheol ou geol, e ao grego hades.
A palavra sheol provavelmente deriva de shaal, que significa cavar ou escavar — fodit, excavavit —: caverna subterrânea. Segundo outros, provém de sa’al, “reclamar” — poposcit —, indicando com isso um lugar insaciável, que sempre pede novas vítimas.
Hades (ᾅδης) provém de a (privação) e id, idein (ver): o que equivale a lugar invisível, tenebroso, subterrâneo. Coincide, pois, até nominalmente, com o hebraico e com o latim.
Isso quanto ao nome; porque, quanto ao sentido real, que completa o etimológico, devemos distinguir entre o Antigo e o Novo Testamento.
a) No Antigo Testamento: Nele, a palavra inferno costuma ter um sentido amplo: morada dos mortos, justos e pecadores (cf. Gn 37,35; Nm 16,30; Sl 87). E com razão: no Antigo Testamento, por desígnios inescrutáveis de Deus, a revelação foi mais parcimoniosa quanto aos mistérios do além, que vão-se revelando pouco a pouco.[1] Por outro lado, ninguém, nem mesmo os justos, podia então penetrar na morada celeste. Como se costuma dizer, antes da Ascensão de Cristo, o Céu estava fechado. Ele abre suas portas, como se descreve de modo épico no Salmo 23. Com razão, pois, no Antigo Testamento o inferno é concebido como um imenso receptáculo subterrâneo, embora com diversos compartimentos incomunicáveis.
b) No Novo Testamento: Mesmo nele encontramos, às vezes, vestígios dessa concepção anterior, sobretudo quando se refere a situações pertinentes à economia do Antigo — por exemplo, na parábola de Lázaro e do rico Epulão (Lc 16,19–31). Nesse sentido, ainda falamos do “descenso de Cristo aos infernos”, isto é, ao limbo dos Patriarcas. Mas a doutrina evangélica e o fato maravilhoso da Ressurreição e Ascensão de Cristo lançaram torrentes de nova luz sobre os problemas do além. Foi a plenitude dos tempos também neste ponto da revelação.
Segundo o Novo Testamento, o inferno — sheol ou hades — é:
- um lugar de tormentos (Lc 16,19–31);
- um abismo (Lc 8,31; Ap 9,11; 20,1–3);
- uma fornalha de fogo (Mt 13,4250);
- lago de fogo e enxofre (Ap 19,20; 20,9.15);
- trevas exteriores (Mt 8,12; 22,13; 25,30);
- perdição e destruição (Mt 7,13; Fl 3,19; I Tm 6,9; II Ts 1,9);
- gehenna, ou vale de Hinom, ao sudoeste de Jerusalém, célebre por suas abominações idolátricas nos tempos de Acaz e Manassés, e por isso símbolo gráfico do Inferno (cf. II Rs 23,10; Jr 32,35; II Cr 33,6; Is 66,24).
O Inferno, portanto, segundo os dados do Novo Testamento, é o estado e lugar dos réprobos ou condenados, começando pelos demônios, sujeitos à dupla pena de dano e de sentido; ou, como diz sinteticamente o Catecismo, “um lugar onde há todo mal, sem mistura de bem algum”.
BREVE INTRODUÇÃO HISTÓRICA
1º) Os Santos Padres
Os Santos Padres, em geral, contentam-se em repetir os textos bíblicos, fazendo frequentes aplicações à vida cristã, para correção dos pecadores e perseverança dos justos. Já os Padres Apostólicos e os Apologistas falam frequentemente do “fogo inextinguível” (Santo Inácio), da “pena eterna” (São Policarpo), do “fogo eterno” (Santo Irineu), dos “tormentos sem fim” (Minúcio Félix).
No século III, a tradição sofre um breve eclipse na Igreja de Alexandria, que se propaga a outros setores: Clemente de Alexandria opina que não é necessário entender literalmente o fogo do inferno, e Orígenes sustenta o erro crasso da apocatástase, ou seja, a bem-aventurança final de todos os seres, sem excluir os próprios demônios.[2]
Mas a reação contra o origenismo foi geral, tanto no Oriente quanto no Ocidente. Os Padres respondem com São Basílio: “Se alguma dia o suplício eterno tiver fim, pela mesma razão terá fim a vida eterna. Se não podemos entender assim a vida eterna, com que razão atribuímos fim ao suplício eterno?”. E com São Epifânio: “Há quem se atreva a afirmar que o diabo voltará a ser o que foi… Que barbaridade! Quem pode ser tão insensato e tão louco a ponto de admitir que… os profetas possam tornar-se co-herdeiros do diabo no reino dos céus?”. São Jerônimo, acusado de origenismo, defende-se com estas palavras ponderadas: “Se me credes, jamais fui origenista; e, se não me credes, desde agora deixo de sê-lo”.
Quanto à realidade corpórea do fogo do inferno, embora não haja definição solene da Igreja, convém recordar o que a Sagrada Penitenciária respondeu em 1890 (30 de abril) a um sacerdote de Mântua, que perguntava qual atitude adotar diante de penitentes que interpretavam o fogo do inferno em sentido metafórico: “Que esses penitentes devem ser diligentemente instruídos, e que os pertinazes não devem ser absolvidos”. Desde tempos antigos, os Padres e Doutores, em geral, concordam nesta doutrina, e dizem com Santo Agostinho que até os espíritos são afetados por esse fogo, miris sed veris modis (“de modos admiráveis, porém reais”).[3]
2º) A Escolástica
Com a Escolástica, no século XII, começa propriamente a teologia do Inferno, inserida na doutrina dos Novíssimos, com seu trabalho de sistematização e síntese.
O primeiro, embora pouco original, foi Hugo de São Vítor, seguido de perto por Pedro Lombardo. Ambos compartilham da opinião — hoje insustentável —[4] da dilação da pena de fogo até o dia do juízo universal.
Dão um passo além Alexandre de Hales e São Boaventura, que rejeitam toda dilação. Mas é Santo Alberto Magno, completado por Santo Tomás, quem realiza a síntese clássica do tratado do Inferno.[5] Desde então, poucas variantes se podem observar nesta matéria, cujos pontos principais podem ser reduzidos aos seguintes:
- Existência e eternidade do Inferno;
- Criado para castigo dos anjos prevaricadores, para ele vão também todos os que têm a imensa desgraça de morrer em pecado mortal;
- Nessa mansão de dores, os condenados estão sujeitos a uma dupla pena, de dano e de sentido, que corresponde ao duplo aspecto do pecado: aversio a Deo, conversio ad creaturas (afastamento de Deus, conversão às criaturas);
- Nem todos, porém, sofrem com a mesma intensidade, mas cada qual segundo a proporção de sua culpa;
- Embora as crianças mortas sem batismo possam e devam ser chamadas condenadas, enquanto privadas da bem-aventurança eterna, não se segue, porém, que estejam no mesmo lugar dos réprobos nem sujeitas às penas de sentido: para elas há um lugar à parte, o limbo, do qual não está necessariamente excluída a felicidade puramente natural.
O INFERNO É UM VERDADEIRO LUGAR
Ao dizer que é um lugar, não excluímos — antes o pressupomos — que seja também um estado, e certamente estável e eminentemente penoso. Esse é outro ponto em que concordam os teólogos.
Francisco Suárez[6] qualifica essa tese como de fé católica, e Camillo Mazzella,[7] com a maioria dos teólogos, como doutrina certíssima. A ela nos atemos piedosamente.
Com efeito:
- A Sagrada Escritura o insinua com bastante clareza ao descrever o inferno como um lugar de tormentos (Lc 16,19–31), como uma fornalha de fogo (Mt 13,42.50), como um lago de fogo e enxofre (Ap 19,20), e assim por diante.
- Assim o ensinam comumente os Santos Padres, como Santo Agostinho (Retract., II, 24), São João Crisóstomo (Hom. 49 e 50 ad popul.), São Gregório Magno (Dial., IV, c. 43), etc.
- É como um corolário da realidade física do fogo, que exige conaturalmente um lugar determinado.
- E parece exigi-lo também a presença real dos corpos dos condenados, após a ressurreição geral.
Talvez esses argumentos, considerados isoladamente, não pareçam conclusivos; mas, tomados em conjunto — sobretudo se lhes acrescentarmos, como devemos, o consenso dos teólogos —, tornam-se convincentes.
EM QUE LUGAR ESTÁ O INFERNO?
Neste ponto já não há tanta unanimidade entre os diversos autores, nem parece existir documento eclesiástico que imponha uma hipótese determinada. Uma coisa é sustentar que o inferno é um lugar; outra, muito distinta, determinar onde está esse lugar.
- Alguns, como São João Crisóstomo, supõem que está fora do nosso planeta;
- Outros, como São Gregório de Nissa, sustentam que está no ar tenebroso;
- Outros, como Swinden (teólogo inglês do século XVIII), no sol;
- Outros, como Wiest, na lua, em Marte ou no limite extremo inferior do universo;
- Mais comumente, no interior da terra. Assim, por exemplo, Tertuliano (De anima, c. V); Hipólito (Adv. Graec., I); Santo Agostinho (Retract., II, c. 33–34); São Jerônimo (In Ep. ad Ephes., 4, 9); São Gregório Magno (Dial., c. 42 e 49); Santo Isidoro de Sevilha (Etim., XV, c. 9).
E assim também os teólogos, em geral, com Santo Tomás (Suppl., q. 97, a. 7) e Suárez (De Angelis; De Purgatorio).
As razões aduzidas pelos teólogos podem reduzir-se a quatro:
- Nada se opõe a tal crença;
- A própria palavra “inferno”, e seus equivalentes em grego e hebraico, indicam provavelmente um lugar subterrâneo;
- A analogia desse lugar com os desejos rasteiros e as obras baixas e vis dos condenados;
- Espaço e fogo, que não faltam no centro da terra.
PROVAVELMENTE NO CENTRO DA TERRA
Examinemos mais detidamente a última das razões: espaço e fogo no centro da terra. Segundo Haalck, citado pelo Padre Luis Rodés, S.J.,[8] podemos distinguir três zonas na massa terrestre, do centro à periferia:
- um núcleo central com raio de 3.470 km;
- uma camada concêntrica (sólida) de 1.700 km de espessura;
- outra camada concêntrica (a exterior) de 1.200 km.
Interessa-nos agora o núcleo central, em seu triplo aspecto: volume, estado de fluidez e temperatura, já que as outras duas camadas são sólidas (certamente a exterior, e muito provavelmente a intermediária).
1º) Volume ou capacidade
Aplicando a fórmula V = (4/3) π r3 (do volume da esfera) ao núcleo central da Terra, cujo raio é de 3.470 km, ela nos dá a respeitável soma [aproximada] de 175.016.000.000 km3, ou seja, 175 quintilhões e 16 quatrilhões de metros cúbicos.
Supondo que a cada condenado caiba um espaço de 100 m³, no núcleo central da Terra haveria capacidade para ao menos 1 quintilhão e 750.000 quatrilhões de desgraçados. Uma quantidade fabulosa, que excede largamente os limites da imaginação. E, concedendo-lhes um espaço mais folgado (!) de 1.000 m³ por cabeça (um cubo de 10×10×10), ainda nos daria a bagatela de 175 quatrilhões de compartimentos.
Espaço de sobra, mesmo supondo (o que não está provado) que a maior parte da humanidade se condenasse.
[Nota d’O Recolhedor: Otimismo ingênuo do padre.]
2º) Estado e temperatura
Em que estado se encontra essa enorme massa do núcleo central do planeta: sólido, líquido ou gasoso? E qual é sua temperatura, da qual depende em grande parte seu grau de condensação?
Entramos aqui no campo do puramente hipotético, devido à concorrência de diversos fatores — gradiente geotérmico e massas submetidas a elevadíssimas pressões — cujo comportamento não é plenamente conhecido.
Sabe-se, por diversos experimentos, que a temperatura é constante a cerca de 20 ou 30 metros de profundidade (e ainda menos nos trópicos); mas, abaixo disso, a temperatura aumenta à razão de 1 grau a cada 34,5 metros, ou, mais precisamente, 2,9° a cada 100 metros. A esse fenômeno chama-se gradiente geotérmico e é, na opinião dos astrônomos, um indício de que o núcleo central da Terra se encontra em estado ígneo, independentemente de seu grau de solidez.[9]
Nessa proporção, a cerca de 100 km de profundidade, a temperatura deve ser superior a 2.000°C, à qual não resistem nem as rochas nem os metais mais consistentes. Que diremos da temperatura do núcleo central, em aumento progressivo na proporção de sua profundidade, depois das duas camadas superiores de 1.200 e 1.700 km de espessura?
Também aqui a imaginação se perde nesse forno de mais de 20.000 graus de calor em sua parte central. Um verdadeiro inferno, mesmo prescindindo dos dados teológicos.
Se não interviessem outras causas, todos os materiais do núcleo central deveriam estar em espantosa ebulição e, portanto, não apenas em estado líquido, mas até gasoso em caso extremo. Mas aí surge o problema da massa ígnea submetida à enorme pressão das camadas superiores, que se calcula em mais de um milhão de atmosferas.
Como se comporta essa massa submetida a tão alta pressão? Supõe o Padre Rodés, com base na densidade que atribui à massa central (densidade 9, correspondente ao ferro e ao níquel), que o estado do núcleo central, embora ígneo, não chega ao estado gasoso, nem sequer propriamente líquido, mas antes semilíquido ou pastoso (p. 141).
Contudo, o próprio Padre Rodés não parece muito firme em sua opinião, pois no mesmo lugar afirma: “Resulta óbvio que o calor central deve ser de vários milhares de graus, o que equivale a dizer que o interior do planeta se encontra em estado ígneo, sem que isso implique decidir previamente se, quanto à sua fluidez, se assemelha mais ao estado sólido, líquido ou gasoso, o que não pode ser determinado de maneira categórica, já que não conhecemos como se comporta a matéria submetida a uma temperatura de vários milhares de graus e, ao mesmo tempo, a pressões que provavelmente excedem um milhão de atmosferas”.
E um pouco antes (p. 139), ao falar das anomalias da agulha imantada, diz o seguinte: “Embora a interpretação desses dados seja incerta, é provável que sejam indícios de um deslocamento relativo das massas interiores, que em seu movimento de rotação não seguiriam exatamente as camadas superficiais”.
Embora isso possa ser entendido das massas interiores em estado semifluido, explica-se muito melhor se as supusermos em estado líquido.
Ao mesmo resultado parece conduzir a análise das ondas sísmicas transversais, que se propagam em proporção direta à densidade das camadas subterrâneas. Ora, essas ondas, segundo experiências comprovadas, sofrem uma diminuição notável à profundidade de 1.200 km e se interrompem bruscamente à de 2.900 km, indicando uma das zonas de descontinuidade mais marcadas (Padre Rodés, op. cit., p. 138). E em outra parte diz: “Partindo do fato, ao que parece suficientemente comprovado, de que não se registraram ondas transversais que tenham atravessado o centro do planeta, argumenta Jeffreys que seu núcleo deve estar líquido e, portanto, incapaz de transmiti-las”.[10] Grande argumento, se não nos equivocamos, em favor de nossa hipótese.
E quanto à enorme pressão de que falávamos há pouco? “Não se exclui”, diz o mesmo Padre Rodés,[11] “antes parece confirmá-lo a análise dos resultados, que o núcleo tenha uma rigidez menor que a da zona intermediária e uma maior compressibilidade, o que pode provir do fato de que os materiais ficaram aprisionados pela solidificação da zona superior, a qual, com sua espessura de cerca de 3.000 km, pode em parte sustentar-se a si mesma sem gravitar inteiramente sobre o núcleo”.
Nessa hipótese, outro eminente astrônomo[12] esclarece o seguinte: “Essa solidificação da zona superior que aprisiona os materiais do núcleo viria a ser como uma espécie de ponte esférica que sustenta as camadas mais altas, impedindo que chegue ao núcleo (ao menos parcialmente) seu peso; e, desse modo, diminuídas ali as enormes pressões, diminuirá também o ponto de fusão daqueles materiais, e, com as enormes temperaturas ali reinantes, muito bem poderão esses materiais liquefazer-se completamente”.
A essa conclusão desejávamos chegar: a juízo dos astrônomos, é perfeitamente admissível que o núcleo central da Terra, com 175 quintilhões de metros cúbicos de capacidade, seja um imenso lago de materiais fundidos em estado de ebulição.
Será este o lugar do inferno descrito pela Sagrada Escritura? Não o afirmamos rotundamente, mas afirmamos que não há inconveniente em que assim seja. E mais: afirmamos que isso é solidamente provável.
Vem a propósito uma citação do Apocalipse: “Mas, ao cabo dos mil anos, Satanás será solto de sua prisão, e enganará as nações que estão sobre os quatro ângulos do mundo, a Gog e a Magog, e os ajuntará para a batalha, cujo número é como a areia do mar. E se estenderam sobre a redondeza da terra e cercaram o acampamento dos santos e a cidade amada. Mas Deus fez chover fogo do céu, que os consumiu; e o diabo, que os enganava, foi precipitado no lago de fogo e enxofre, onde também a besta e o falso profeta serão atormentados dia e noite pelos séculos dos séculos” (Ap 20,7–10).
E esta outra de Dante, colocada no frontispício do Inferno:
Vai-se por mim à cidade dolente,
Vai-se por mim à sempiterna dor,
Vai-se por mim entre a perdida gente.
Moveu justiça o meu alto feitor,
Fez-me a divina Potestade, mais
O supremo Saber e o primo Amor.
Antes de mim não foi criado mais
Nada senão eterno, e eterna eu duro.
Deixai toda esperança, ó vós que entrais.[13]
E a visão do inferno segundo as aparições de Fátima: “Nossa Senhora”, diz Irmã Lúcia, a mais velha dos videntes, “mostrou-nos um grande mar de fogo que parecia estar debaixo da terra. Mergulhados nesse fogo, os demônios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras ou bronzeadas, com formas humanas, flutuavam nesse incêndio, levadas pelas chamas que delas mesmas saíam com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhantes à queda de fagulhas em grandes incêndios, sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que nos horrorizavam e nos faziam estremecer de pavor. Os demônios distinguiam-se por formas horríveis e asquerosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes e negros. Essa visão durou um instante; e, graças à nossa Mãe do Céu, que antes nos havia prevenido com a promessa de nos levar ao Céu, pois, do contrário, creio que teríamos morrido de susto e pavor”.
E, para terminar, as palavras de São João Crisóstomo com que demos início a este trabalho: “Não procuremos onde está (o inferno), mas como fugir dele” (In Rom., hom. 31,5).
Miguel Torres, presbítero
Professor de Sagrada Escritura no Seminário de Santa Fé
[1] Já no Antigo Testamento é possível observar certa gradação progressiva na revelação dos dogmas escatológicos: mais obscuramente nos livros históricos, com maior clareza nos proféticos e muito mais explicitamente nos didáticos, sobretudo no livro da Sabedoria (cf. Dictionnaire de la Bible, art. “Enfer”).
[2] Essa estranha teoria foi condenada pelo Papa Vigílio em 543, pelo II Concílio de Constantinopla (553) e por vários sínodos e concílios particulares.
[3] Santo Agostinho expõe a teoria dos corpos ígneos assumidos pelos espíritos maus; não para receber vida deles, mas para causar dor.
[4] Desde que Bento XII, em 1336, definiu que as almas dos que morrem em pecado mortal “logo após a sua morte descem ao inferno, onde são atormentadas pelas penas infernais” (Denzinger, 531).
[5] Cf. Dictionnaire de la foi catholique, art. “Enfer”.
[6] De Angelis, lib. VIII, c. XVI, n. 4.
[7] De Deo Creante, p. 886.
[8] El Firmamento, edição reduzida (Salvat, 1934), p. 138.
[9] Cf. Padre Rodés, op. cit., p. 141.
[10] Padre Luis Rodés, S.J., El Firmamento, 2ª ed. maior (Salvat, 1941), p. 204.
[11] Ibid.
[12] O M. I. D. Vicente Serra Orvay, reitor do Seminário Conciliar e cônego arcipreste de Ibiza (Espanha), a quem devo o fornecimento de valiosos dados e a revisão deste trabalho.
[13] Divina Comédia, Inferno, canto III (tradução de Italo Eugenio Mauro). Em italiano, indubitavelmente, o último verso tem muito mais força: “Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate”.
