“OS CRIPTO-JUDEUS SÃO PIORES E MAIS PERIGOSOS QUE OS OUTROS”
Padre Olivier Rioult, 8 de abril de 2022
Fonte: https://www.lasapiniere.info/archives/4202
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: O texto apresenta o perfil biográfico e um capítulo da obra Voyage d’Orient (1649), escrita pelo carmelita Philippe de la Très-Sainte-Trinité (1603–1671). O extrato selecionado descreve a visão do autor seiscentista sobre os judeus no Oriente e na Índia. O conteúdo foca especialmente nos cristãos-novos, acusando-os de falsa conversão e periculosidade social para justificar a atuação da Inquisição na época.
_______________
Antes de citar um trecho da obra do R. P. Philippe de la Très-Sainte-Trinité (1603–1671), apresentemos alguns breves marcos cronológicos.
Esprit Julien, aquele que viria a ser um dos religiosos mais eminentes do Carmelo teresiano no século XVII, nasceu em 1603, no Condado Venaissino, então pertencente aos Estados Pontifícios (hoje departamento de Vaucluse). Primogênito de uma família católica, fez seus estudos nos colégios dos Padres Jesuítas em Avignon e Carpentras. Vestiu o hábito do Carmelo reformado no convento de Lyon em 1620, recebendo o nome de Philippe de la Très-Sainte-Trinité. Em 8 de setembro de 1621, aos 18 anos, emitiu seus votos religiosos. Tendo concluído seu segundo noviciado, foi enviado a Paris em 1622 para estudar sucessivamente filosofia e teologia. Em 1626, seus superiores o enviaram a Roma para preparar-se para a vida missionária. Em 8 de fevereiro de 1629, o Papa Urbano VIII o enviou à Pérsia, em companhia dos padres Epifânio de São João Batista e Inácio de Jesus.
Após uma longa viagem de navio, a cavalo ou em dorso de camelo, chegou em 15 de julho de 1630 ao convento de Bassorá. Ali recebeu ordem de ir ensinar filosofia em Goa. Partindo no início de outubro de 1631, chegou no fim de novembro ao convento de Goa, onde permaneceria oito anos. Em 1639, retornou à Europa para apresentar às Sagradas Congregações da Propaganda e dos Ritos o processo do martírio do padre Dionísio da Natividade e de seu companheiro, o irmão Redento da Cruz. No caminho, aproveitou para visitar alguns lugares da Terra Santa, entre eles Nazaré, o monte Tabor e o monte Carmelo… Chegando a Marselha por volta do fim de fevereiro de 1641, dirigiu-se sem demora a Roma para trabalhar na causa de beatificação dos dois mártires carmelitas descalços. De volta ao convento de Marselha, foi quase imediatamente nomeado leitor de teologia em Lyon. Foi ali que começou a redação de suas numerosas obras.
A partir do capítulo provincial de 1643, exerceu quase sem interrupção cargos de superior, seja em sua província de Avignon, seja na casa generalícia, terminando como Prepósito Geral de 1665 até sua morte, ocorrida apenas dois meses antes do fim de seu generalato, em 1671.
De natureza “rude e austera”, esforçou-se constantemente na prática das virtudes e exigiu de seus religiosos esforços contínuos. Em formação, “não estudava tanto as ciências profanas… quanto a ciência dos santos”; “não se apegava tanto ao saber quanto à prática da virtude, nada omitindo do que sua regra e as constituições prescrevem, sendo mesmo muito fiel às menores observâncias”. Seus contemporâneos o descrevem como vivendo continuamente na presença de Deus. Sua oração “era também contínua e jamais abria seus livros para estudar sem ter diante dos olhos o seu crucifixo; foi daí que tirou todas as luzes das quais fez participante o público por meio de seus livros”.
Não falaremos hoje de seu Comentário à Suma Teológica de São Tomás (1650), nem de sua Suma de Teologia Mística (1656), nem de sua História da Ordem Carmelita, nem de sua Cronologia Geral do Mundo, nem de seu Tratado da Penitência (1663), nem de sua Apologia da Ordem do Carmelo (1665), nem de suas outras obras; queremos apenas extrair um capítulo de um de seus livros pelo qual ainda hoje é mais conhecido: Voyage d’Orient (“Viagem ao Oriente”) (1649). Trata-se do capítulo 8, do Livro VI (páginas 357–360 da edição de 1669):

(Lyon, 1669)
DOS JUDEUS ORIENTAIS
Encontram-se judeus espalhados por todo o Oriente, em parte alguma senhores, por toda parte servos, e não menos perseguidos no Oriente do que no Ocidente; a fim de que, em punição do maior sacrilégio cometido por eles — a cruel crucificação de Nosso Senhor Jesus Cristo — se cumprissem as predições dos santos profetas, pelas quais foram ameaçados de serem expulsos do reino da Judéia, dispersos por todo o mundo, sem rei, sem templo e sem sacrifício, e de sofrerem muitas misérias e males; o que vemos plenamente cumprido neles, pois são muito raros na Palestina, onde mal se encontram, exceto em Hebron e Safed; são como estrangeiros e peregrinos entre todas as nações, servindo a todos de objeto de zombaria e escárnio; de sorte que parece que todas as criaturas conspiraram contra eles.
Os judeus são conhecidos de todo o mundo, e tudo o que deveriam observar está expresso na Sagrada Escritura. Todos eles erram atualmente ao esperar o Messias futuro, imaginando que ele ainda não veio; por isso observam ainda os preceitos cerimoniais que o prediziam. Há três causas principais desse erro: a primeira é que interpretam ao pé da letra todas as passagens da Escritura que falam do Messias, embora muitas devam ser entendidas misticamente; a segunda é que confundem a primeira e a segunda vinda do Salvador, de modo que, não vendo ainda cumprido o que se diz da última, que deve ser gloriosa, negam a primeira, que foi humilde; enfim, a terceira é sua obstinação maliciosa e o ódio, por assim dizer, originário que nutrem por Jesus Cristo; pois, embora se conclua claramente dos profetas que todas as coisas prometidas do Messias se cumpriram em Jesus Cristo — o que o próprio Pilatos notou, como aparece na carta que escreveu ao imperador Tibério —, sua obstinação rejeita tudo isso, seu ódio o perverte, e sua fúria chegou a tal ponto que não faltaram alguns bastante perversos para dizer que são afligidos por penas perpétuas porque um deles (Jesus Cristo) se fez Deus. Mas a fúria os cega tanto que não veem que seriam antes dignos de recompensa do que de castigo, já que, por um puro zelo da honra divina, como imaginam, fizeram-no sofrer tão cruelmente o suplício da Cruz. Daí resulta que não se deve estranhar se os teólogos ensinam comumente, com o doutor angélico Santo Tomás, que a piedosa afeição é necessária para crer, sendo muito verdadeiro que a piedosa afeição explica tudo em boa parte, assim como o ódio não dá senão interpretações sinistras às melhores coisas.
Há muitos deles que vivem por toda a Síria, sobretudo nas cidades onde o comércio é florescente. Em Alepo distinguem-se facilmente dos outros, usando uma longa túnica violeta ou azul, com um gorro da mesma cor, mais estreito no topo. Vi sua sinagoga na cidade de Ana, no meio da Arábia deserta. Vi-os também na Arábia Feliz, nas cidades de Bassorá e Mascate, onde ouvi dizer que viviam de gafanhotos fritos. Vi-os na Pérsia, na cidade de Lara e em muitas outras. Enfim, vi-os em quase todos os países por onde passei. De modo que esta raça de víboras, para usar as palavras do santo precursor de Jesus Cristo, encontra-se por toda parte; e estes são os conhecidos e que judaízam abertamente.
Os judeus secretos [cripto-judeus] são em grande número nas Índias, escondidos entre os portugueses, e por isso são piores e mais perigosos que os outros. Os portugueses dizem que os judeus expulsos da Espanha refugiaram-se no reino de Portugal, e como não lhes era permitido judaizar publicamente, fingiram tornar-se cristãos e querer ser batizados; mas, hipócritas e sedutores que são, professam exteriormente a lei cristã e são interiormente lobos vorazes que perseguem Jesus Cristo às escondidas, ensinam a seus filhos a lei judaica, e assim chegaram até nossos tempos por sucessão hereditária. São conhecidos dos portugueses e são chamados comumente de cristãos-novos, e por zombaria, cavaleiros do monte Calvário. Mas, ai de nós, eles causam mais dano estando ocultos do que se fossem conhecidos; pois, depois de batizados, sendo considerados cristãos, é-lhes permitido casar-se com pessoas verdadeiramente cristãs, e como tudo obedece ao dinheiro, até os mais nobres se misturam com eles. Em consequência disso, os filhos nascidos desses casamentos, quer apenas o pai ou apenas a mãe esteja minimamente infectado de sangue judeu, são nisso piores que seus pais. De modo que neles esta máxima da lógica é muito verdadeira: que a conclusão segue sempre a parte mais fraca e pior; e que, se a vigilância da sagrada Inquisição não se opusesse, queimando todos os anos vários desses miseráveis, essa peste se infiltraria em todos.
Aquele que tiver assistido aos atos públicos da sagrada Inquisição reconhecerá quão grande é o ódio que eles têm pelos cristãos. É lá que se ouve como párocos, que teriam sido tirados dentre eles, nunca administraram os Sacramentos, mas abusaram perversamente daqueles que os recebiam. É lá que se ouve como médicos mataram os doentes com remédios envenenados: e, para dizer tudo em poucas palavras, é lá que se ouve que há alguns que não passam um dia sem causar algum dano aos cristãos, acreditando que fazem nisso um grande serviço a Deus. Eu poderia trazer sobre este assunto uma infinidade quase de exemplos, mas que este baste por todos.
Li em certo livro escrito em português que, quando os judeus expulsos da Espanha se retiravam para Portugal, um deles pediu a um amigo cristão que o acompanhasse, para sua segurança, até as fronteiras de Castela. O cristão prestou-lhe esse testemunho e dever de amizade; e quando estavam prestes a separar-se, e o judeu se despedia do amigo, concluiu nestes termos: “Tu sabes quão estreita foi nossa amizade, sabes que nos tratávamos ambos como irmãos. Pois bem, sabe agora que, quando te dava maiores sinais de benevolência e amor, eu trazia em meu coração um ódio mortal contra ti. A verdade me obriga a fazer-te esta declaração; e em recompensa de tantos benefícios que recebi de ti, dou-te este único aviso no momento em que nos separamos: nunca confies em qualquer judeu que seja, ainda que te pareça ser amigo”. Depois disso, tendo-lhe dito o último adeus, partiu.
(Fim do capítulo 8)
