SOBRE IMMANUEL KANT
Padre Leonel Franca, S.J. (†1948)
Fonte: Noções de História da Filosofia, p. 173–182. Agir, 1965.
Descrição: O texto apresenta uma visão geral e uma crítica do sistema filosófico de Immanuel Kant (1724–1804). Inicialmente, descreve sua trajetória intelectual, marcada pelo despertar do “sono dogmático” através de Hume e pela criação do criticismo transcendental para responder ao ceticismo e refundar as ciências. Em seguida, detalha a Crítica da Razão Pura, explicando como Kant limita o conhecimento aos fenômenos por meio das formas a priori da sensibilidade (espaço/tempo), do entendimento (categorias) e da razão (idéias), tornando impossível a metafísica especulativa. O excerto prossegue mostrando a tentativa kantiana de reconstruir as verdades metafísicas (Deus, liberdade e imortalidade da alma) na Crítica da Razão Prática, não como certezas científicas, mas como postulados exigidos pelo imperativo categórico da lei moral. Por fim, Padre Leonel Franca tece severas críticas ao sistema kantiano, acusando-o de incorrer em contradições insolúveis ao tentar conciliar as duas razões, inverter a natureza do conhecimento e, em última análise, favorecer o agnosticismo e o ceticismo.
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ARTIGO I
KANT E KANTISMO
§ 1.º — Kant
145. VIDA E OBRAS
Immanuel Kant (1724–1804) nasceu, viveu e morreu em Königsberg. Terminados os seus estudos universitários sob a direção do filósofo wolfiano Martin Knutzen, por nove anos viveu de lições particulares. Em 1755, entrou para a universidade como Privatdozent (livre-docente), obtendo, em 1770, a cátedra de filosofia que conservou até 1797.
No ponto de vista das idéias, a vida de Kant divide-se em dois períodos bem distintos. No primeiro, pré-crítico ou dogmático, o filósofo segue as idéias capitais de Gottfried Leibniz e dedica-se ao estudo das ciências, publicando várias obras sobre física, matemática, ética, lógica e moral. Neste tempo, John Locke e Jean-Jacques Rousseau são os seus autores favoritos. Este último arrastando-o ao racionalismo teísta, apagou-lhe da alma a fé em que o educara a mãe, pietista fervorosa. Mais tarde, a leitura das obras de David Hume “despertou-o do sono dogmático” e enveredou-o definitivamente pelo caminho do criticismo. O período crítico começa em 1770 com a publicação do opúsculo: De mundi sensibilis atque intelligibilis forma et principiis. Seguiram-se as obras mais importantes: Crítica da razão pura (Kritik der reinen theoretischen Vernunft, 1.ª edic., 1781, 2.ª ediç. 1787), Metafísica dos costumes (Grundlegung zur Metaphysik der Sitten, 1785), Crítica da razão prática (Kritik der praktischen Vernunft, 1788), Crítica da faculdade de julgar (Kritik der Urtheilskraft, 1790), Religião dentro dos limites da razão pura (Religion innerhalb der Grenzen der blossen Vernunft, 1793), obra que lhe provocou uma admoestação do governo prussiano.
146. VISTA GERAL DA FILOSOFIA DE KANT
Que podemos saber? Que devemos fazer? Que nos é lícito esperar? — Eis as três questões fundamentais a que pretende Kant, com o seu sistema, dar uma solução definitiva. Das três, a mais importante e a que mais lhe reclama atenção é a primeira por depender dela a solução das outras duas.
Que podemos saber? A crítica negativista de Hume afigurou-se aos olhos do pensador alemão como uma vitória do ceticismo sobre o dogmatismo impotente. O edifício da ciência abalado desde os seus fundamentos ameaçava total ruína. Kant, a quem não satisfaziam nem as respostas do racionalismo de Leibniz nem as do empirismo de Locke, abalança-se à grande empresa de reconstruir a ciência sobre novos alicerces. À barra do seu tribunal avoca o debate entre céticos e dogmáticos, acusa-os indistintamente de descurarem o problema fundamental da filosofia — a determinação dos limites naturais do conhecimento, a crítica das faculdades cognoscitivas — e termina pronunciando como juiz infalível a sua sentença irrevogável.
Tal o momentoso trabalho a que o filósofo alemão mete ombros na Crítica da razão pura. A sua solução constitui o criticismo transcendental. Criticismo, por ser o exame, a crise das faculdades cognoscitivas, transcendental, por ter como fim a determinação dos elementos a priori do conhecimento, que precedem qualquer experiência.[1]
147. SISTEMA DE KANT
1) Crítica da Razão Pura
A. Juízos sintéticos a priori. Teoria do conhecimento — A ciência existe. Ante as descobertas geniais de Copérnico, Kepler, Galileu e Newton, não o admitir fôra insensatez. De outro lado, porém, como explicar-lhe a possibilidade após a crítica de Hume, que negava a existência dos juízos necessários e universais? Em resposta, Kant começa por distinguir três espécies de juízos: a) juízos analíticos, nos quais o predicado exprime uma noção já contida no sujeito — juízos necessariamente verdadeiros, mas de pouca utilidade para o progresso da ciência, por não serem extensivos, mas apenas explicativos do saber; b) juízos sintéticos a posteriori, cujo predicado não está contido na idéia do sujeito, mas lhe é atribuído em virtude de uma experiência; particulares e contingentes, os juízos a posteriori não têm nenhum alcance científico; c) restam finalmente os juízos sintéticos a priori — sintéticos, porque não se achando a noção do predicado encerrada na compreensão do sujeito, a união dos dois termos se faz por uma verdadeira síntese mental; a priori, por serem universais e necessários e como tais não poderem provir da experiência singular e contingente. A esta última categoria de juízos pertencem todas as proposições científicas. Explicar-lhes a origem e o valor será, pois, explicar a possibilidade da ciência.
Para este fim cumpre distinguir em todo conhecimento a matéria da forma. A matéria, Stoff, é aquilo que é dado à faculdade. Para os sentidos é o objeto da experiência, para a inteligência são as intuições ou impressões sensíveis, para a razão são os juízos da inteligência. A forma, Form, é o que o sujeito acrescenta de seu à matéria proposta, é o elemento a priori, dependente da natureza do sujeito e por isso constante e universal como a mesma natureza específica. Conhecer esta forma, este elemento subjetivo e distingui-lo da realidade objetiva é o fim da crítica.
Do jogo combinado entre estes dois elementos, entre a sensibilidade passiva e receptiva das múltiplas impressões externas e o espírito espontâneo, ativo e unificador, resulta a síntese que constitui o conhecimento. “Os pensamentos sem conteúdo são vazios, as intuições sem conceito são cegas”.[2] Do que se infere que não conhecemos os seres como eles são em si, mas somente vestidos do elemento subjetivo, através das formas do espírito. Em linguagem kantista: conhecemos apenas os fenômenos (φαινόμενα), as aparências. A realidade em si, o noumenon (νούμενα) das Ding-an-sich é-nos inteiramente inacessível.[3]
B. Estética transcendental — É o estudo das condições a priori da sensibilidade, Sinnlichkeit, Anschauungsvermögen. As impressões recebidas passivamente pelos sentidos e que ainda não constituem uma verdadeira representação, o espírito, reagindo, aplica as suas formas subjetivas do tempo e do espaço, chamadas por Kant intuições puras. O espaço é a forma da sensibilidade externa, por meio da qual localizamos os objetos fora de nós. O tempo é a forma da sensibilidade interna, mediante a qual percebemos os fatos conscientes, uns depois dos outros, como sucessivos. Através dos fenômenos internos a forma do tempo pode também aplicar-se aos objetos externos. Estas duas formas sendo necessárias não podem provir da experiência. São moldes subjetivos dentro dos quais enquadramos os fenômenos, sem podermos afirmar se realmente, fora de nós, os objetos existem no tempo e no espaço. As formas da sensibilidade justificam a existência das matemáticas puras.
C. Analítica transcendental — Efetuada esta primeira síntese, as intuições sensíveis só se elevam a conhecimento propriamente dito quando se tornam matéria da síntese intelectual, isto é, quando são relacionadas em juízos necessários e universais. Os elementos a priori que tornam possível esta nova síntese são as formas do entendimento (Verstand) denominadas conceitos puros, reine Verstandesbegriffe, ou, com termo aristotélico,[4] categorias. O número das categorias é determinado logicamente por um estudo analítico do juízo. Tantas serão as categorias quantas forem as ligações naturais de quantidade, qualidade, relação e modalidade entre o sujeito e o predicado.

Vê-se, por esse quadro, quanto de arbitrário e convencional introduziu na classificação kantiana dos conceitos o desejo imoderado de ordem e simetria. “Na disposição das categorias”, diz Kuno Fischer, “ressalta aos olhos a fantasia arquitetônica de Kant, o seu gosto das aparências. À simetria nela tão complacentemente alardeada pouca importância se deve ligar. — “Como estas categorias são abstraídas dos juízos, falta ao decálogo dos conceitos puros a forma do sistema, que os jogos de arquitetônica não podem substituir” (Kuno Fischer, Geschichte der neueren Philosophie, III, 363).
Estes conceitos puros, como elementos a priori, não correspondem à realidade objetiva. Kant, porém, chama-os objetivos, o que na sua tecnologia, corresponde a necessários e universais, dependentes da estrutura do nosso espírito. A existência deles é a razão de ser da física.
D. Dialética transcendental — A razão, Vernunft, representa o maior poder de unificação do nosso espírito. Sua tendência é reduzir a multiplicidade dos juízos a uma unidade superior e descobrir na ordem das coisas um princípio absoluto e incondicionado. Três formas a priori denominadas idéias[5] tornam possível esta última síntese; a idéia cosmológica — o universo, condição incondicionada dos fenômenos externos; a idéia psicológica — a alma, condição incondicionada dos fenômenos internos; a idéia teológica — Deus, o absoluto, condição incondicionada de toda existência. Não havendo, porém, relação direta da razão com os objetos, estas idéias são destituídas de todo o fundamento real. Não há objeto supra-sensível a que se possam aplicar, como aos objetos sensíveis se aplicam as formas do entendimento. Todo o esforço para realizá-las conduz inevitavelmente a contradições e antinomias.
O fim da dialética transcedental é expor essas antinomias para dissipar a ilusão de que é vítima o gênero humano.[6] A cosmologia, a psicologia e a teologia não têm nenhum valor científico e real. Os objetos sobre que versam são apenas normas ideais para a unificação subjetiva dos fenômenos. A metafísica como ciência especulativa é impossível. A razão humana está inevitavelmente ferida de esterilidade e de morte. O bisturi do anatomista mata o organismo que analisa; a crítica dissolvente de Kant destrói a razão submetida a seu exame.
Resumamos todo o processo do conhecimento, segundo Kant.
Como ponto de partida, encontram-se as impressões orgânicas, produzidas pelos corpos às quais se aplicam as formas do espaço e do tempo, perfazendo-se assim a sensação. As sensações submetidas às categorias do entendimento unem-se em juízos necessários e universais. Estes, por último, reduzem-se a uma unidade mais perfeita mediante as idéias da razão pura. Destarte, completa-se o conhecimento no seu grau mais elevado.
Conclusões de toda a crítica da razão pura: as ciências — matemática e física — são possíveis, não como conhecimento da realidade ou do mundo extramental, senão como construções subjetivas do espírito, que impõe suas leis aos objetos. A metafísica que, por definição, ultrapassa o domínio do sensível, não sendo, nas suas conclusões, suscetível de nenhuma verificação experimental, real (como a física) ou possível (como a matemática) carece, por isso mesmo, de todo fundamento. Como ciência racional, é impossível. Nada pode a razão teórica nem pró nem contra a existência das realidades supra-sensíveis. Por isso, se lhe não é dado provar especulativamente a existência de Deus, da liberdade e da imortalidade da alma, não será tão pouco lícito ao materialista negar em seu nome a existência destas verdades, que Kant julga, por este meio, pôr definitivamente a cobro de qualquer discussão. “Para o uso puramente especulativo da razão o ser supremo não passa de puro ideal, mas ideal sem defeitos; conceito que termina e coroa todo o conhecimento humano, conceito cuja realidade objetiva não pode ser provada por êste meio mas nem tão pouco negada”.[7]
Assim é destruída a metafísica científica para em seu lugar elevar-se a metafísica da fé. Do cristianismo da razão pura, passa Kant ao dogmatismo moral. Este trabalho de restauração é o assunto da…
2) Crítica da Razão Prática
O ponto de partida desta reconstrução, que tende a reparar as ruínas acumuladas pela primeira crítica, é a obrigação da lei moral. A existência desta obrigação é um fato inconcusso, incontrovertível. A voz do dever impõe-se à consciência, ora sob forma hipotética, ora, e mais freqüentemente, de um modo absoluto e autoritativo, como imperativo categórico. Em sua severa austeridade, apresenta-se a lei moral como necessária, universal, imutável, incondicionada, autônoma. Sua fórmula mais geral é: procede em todas as tuas ações de modo que a norma de teu proceder se possa elevar a lei universal.
Ora, a existência certa e absoluta do dever pressupõe tudo o que é necessário para a sua possibilidade. Sobre esta certeza inabalável podem-se, portanto, reconstruir as verdades da existência de Deus, da liberdade e da imortalidade da alma, não como certezas científicas, mas a título de postulados da razão prática.
Assim, a alma é livre, porque sem liberdade não pode haver obrigação nem moralidade verdadeira.[8] A alma é imortal porque, sendo, nesta vida, toda a virtude essencialmente incompleta, só numa vida futura poderá a lei moral atingir o seu perfeito cumprimento. Existe finalmente Deus, porque entre a felicidade e a virtude deve haver uma união definitiva, e só um Ser superior, justo, santo e onipotente pode realizar esta união que fará eternamente feliz o homem virtuoso.
Destarte por meio da idéia do dever, somos reconduzidos à afirmação das verdades capitais, para cuja demonstração a razão teórica se declara impotente. “A certeza que delas temos não é uma certeza científica, é uma certeza de fé.[9] Foi-me necessário destruir a ciência para edificar a fé. A crítica da razão pura oferece a inestimável vantagem de acabar de vez com as objeções levantadas contra a religião e a moral”.
Tal, a resposta às duas outras questões fundamentais: Que devemos fazer? Que nos é lícito esperar?
148. JUÍZO SOBRE A OBRA DE KANT
Não nos sendo possível descer a particulares e examinar em todas as suas partes o criticismo transcendental diremos apenas uma palavra de suas doutrinas fundamentais.
A. A empresa a que Kant mete ombros de instituir a análise do conhecimento e determinar os limites naturais das faculdades cognoscitivas é das mais importantes em toda a filosofia. Com uma profundidade de análise psicológica ainda não excedida já a tinham resolvido Aristóteles e os escolásticos. O objeto natural da ciência humana, o valor objetivo das idéias, a necessidade e universalidade dos conhecimentos intelectivos, a sua relação com a sensibilidade haviam sido objeto de largos e profundos estudos e recebido soluções luminosas, graças ao método eminentemente racional de estudar as faculdades pelos seus atos e estes pelos seus objetos. Ora, este mesmo problema, nos termos em que o formula Kant já envolve contradição. O fundador do criticismo pretende investigar as condições a priori do conhecimento, isto é, conhecer o que precede todo conhecimento, estudar a razão em si com a mesma razão que ele declara não poder conhecer os objetos em si, fazer das formas a priori um objeto de conhecimento, depois de afirmar impossível o conhecimento sem experiência. Doutrina Kant que na realidade não há nem unidade, nem multiplicidade, nem diversidade, nem causalidade, porque todas essas noções provêm de formas subjetivas do nosso espírito e, no entanto, admite a existência, a realidade, a diversidade e a influência recíproca de suas três faculdades — e isso como estudo preliminar a todo o conhecimento. É a primeira das muitas contradições em que freqüentemente o enreda a posição insustentável de um criticismo absurdo.
B. Seu ponto de partida — a existência dos juízos sintéticos a priori — é um falso suposto. Tais juízos não existem. De fato, em todo o juízo, o predicado ou está necessariamente conexo com o sujeito, quer como parte de sua essência, quer como propriedade por ela exigida, ou não. No primeiro caso, o juízo é analítico, no segundo, sintético, experimental. Que na experiência contingente e variável não se possa fundar uma afirmação universal e necessária é outra asserção gratuita em cujo apoio Kant não se digna trazer uma só prova. Os escolásticos já tinham explicado o fato com a teoria da abstração tão natural e tão de acordo com o testemunho da consciência. Kant ignora ou finge ignorar toda essa teoria cuja crítica nem sequer tentou. Ora, negada a existência dos juízos sintéticos a priori, rui por terra todo o seu sistema.
C. O πρῶτον ψεῦδος (primeiro erro) porém, de toda crítica é a inversão total do conceito de conhecimento. Atesta-nos, irrefragável, a experiência interna que o conhecimento é um ato vital, imanente, pelo qual representamos os objetos como são em si. Se a representação é conforme à realidade, o conhecimento é verdadeiro; no caso contrário, é falso. Para o filósofo de Königsberg, o conhecimento não é a percepção, é a construção do objeto. Não é o espírito que se adapta às leis dos seres, e sim os seres que se amoldam às leis do espírito. Ora, uma vez negada a proporção entre o ato cognoscitivo e o seu objeto, desaparece a distinção entre a verdade e o erro, homem se torna a medida de todas as coisas (Protágoras), qualquer discussão filosófica ou científica é inútil e inútil antes de tudo toda a crítica kantiana.
D. Desse erro fundamental nasce o falso conceito da ciência cuja realidade Kant, de fato, nega. A ciência não é mais, para ele, o conhecimento da natureza, é uma construção subjetiva, dependente da estrutura do nosso espírito. Mas, então, como explicar o acordo maravilhoso entre os fatos e as deduções da inteligência? Por quais leis secretas há de surgir, por exemplo, a sensação de um eclipse no tempo e no espaço previstos pela razão? Como explicar ainda o desacordo entre o espírito e os mesmos fatos que, não raro, se revoltam contra as nossas previsões, corrigindo-lhes o erro? Como explicar, por fim, a necessidade da experimentação com todas as suas surprêsas? Para essas perguntas Kant não tem resposta satisfatória.
E. O criticismo não explica a possibilidade da ciência. Menos ainda demonstra a impossibilidade da metafísica. Se o princípio de causalidade é subjetivo, não pode haver ciência real: vere scire, per causas scire(“saber verdadeiramente é saber pelas causas”). Se é objetivo, conduz-nos infalivelmente à existência de causas supra-sensíveis, Deus e alma. As antinomias em que nos implicaria a afirmação da existência real dessas idéias só existem no espírito de Kant. Os argumentos por ele alegados para provar com igual força as antíteses de suas teses são velhos sofismas que uma lógica mais vigorosa já havia resolvido.
F. Por fim, a incognoscibilidade do noumenon com que ele pretende descartar-se da metafísica é outra teoria que leva a contradição ao âmago do sistema. Se, de fato, ele se serve do princípio de causalidade para provar a existência de noumenons (aqui já vai implicância: o conceito de causa fôra declarado subjetivo), por que não nos há de levar o mesmo princípio a afirmar a distinção específica entre os mesmos noumenons? Mais: sem admitir certa heterogeneidade na matéria submetida aos aparelhos sensórios, como justificar a aplicação, ora de uma, ora de outra das tantas formas subjetivas de que ele com tanta prodigalidade dotou o nosso espírito?
Contraditória, portanto, em todas as suas teorias fundamentais é a crítica da razão pura.
G. A crítica da razão prática, se honra a consciência do homem, não depõe menos em desabono do pensador. O esforço ingente, que ela traduz, de querer salvar a moral e as verdades que lhe são pressupostas é, sem dúvida, digno de todo o encômio e atesta a natural honestidade de seu autor. Mas a lógica, implacável no rigor de suas conseqüências, eleva-se de permeio e opõe uma à outra, em antagonismo irredutível, as duas críticas. De modo algum podem elas conciliar-se ou fundir-se num todo racionalmente harmônico e coerente. Uma irremediavelmente há de destruir a outra.
De feito. A razão teórica e a razão prática são apenas dois modos diferentes de agir de uma mesma faculdade. Conhecer verdades de ordem teórica ou conhecer verdades de ordem prática é sempre conhecer verdades. Um só, pois, é o objeto formal e as duas razões não são duas faculdades distintas, mas duas formas de atividade de um mesmo princípio intelectivo, sujeitas às mesmas leis, dotadas da mesma potencialidade. Por que motivo, pois, a priori se há de outorgar à razão prática o privilégio de atingir a realidade, negado à razão teorética? Apresentam-se, porventura, os princípios de ordem moral com mais evidência que os de ordem especulativa? E, se o nosso espírito erra quando afirma que na realidade dois e dois são quatro, quem nos assegura que se não ilude também quando prescreve a lei do dever?
Mais. O imperativo categórico, afirma Kant, exige como postulados a existência de Deus e a substancialidade livre e imortal da alma. Mas como o prova? Com os mesmos princípios da razão especulativa que ele antes declarara subjetivos. Que maior valor, portanto, apresentam as provas morais sobre as especulativas? Deus existe, diz o filósofo alemão, porque sem Deus a virtude humana não poderia ser definitivamente feliz. Mas, se o homem pode existir sem Deus, por que não pode ser feliz sem ele? Se no movimento, na contingência do universo, na atividade dos seres, na gradação das perfeições finitas, na ordem de todo o criado, não encontrou Kant a necessidade de um primeiro Motor, de um Ser necessário, de uma Causa suprema, de uma Perfeição subsistente, de uma Inteligência ordenadora, com que direito a deduz agora da simples possibilidade de sermos felizes?
H. Conclusão. Muito frágil é a parte construtiva do criticismo. Resta apenas a parte destrutiva pela qual Kant, talvez mais que nenhum outro, contribuiu para fomentar o ateísmo, o racionalismo e a incredulidade do século passado.
A sua grande construção filosófica é contraditória no seu plano, falsa nos seus fundamentos, absurda e incoerente nas suas conclusões. “A teoria de Kant é uma grande alucinação dum gênio, contendo em germe o ceticismo absoluto, o idealismo, o niilismo e o panteísmo”.[10]
BIBLIOGRAFIA
— As principais edições das obras completas de Kant são a de G. Hartenstein, 10 vols., Leipzig, 1838–1839, a de K. Rosenkranz, 12 vols., Leipzig, 1838–1842, a de E. Cassirer, 10 vols., Berlim 1912–1922, e a melhor de todas a da Real Academia de Ciências de Berlim em 21 vols. (em curso de publicação).
— Théodore Ruyssen, Kant, Paris, 1900.
— Charles Sentroul, L’objet de la métaphysique selon Kant et selon Aristote, Louvain, 1905.
— Ausonio Franchi, Ultima critica, 3 vols., Milano, 1890.
— Guido Mattiussi, Il veleno kantiano, Roma, 1914.
— Tilmann Pesch, Kant et la science moderne, Paris, 1896.
— Tilmann Pesch, Le kantisme et ses erreurs, Paris, 1897.
— Heinrich Schaaf, Conspectus systematis Kantii, Roma, 1904.
— Kuno Fischer, Geschichte der neueren Philosophie, t. IV–V, 5 ed., Mannheim, 1909.
— Alois Riehl, Der philosophische Kritizismus, 2 ed., Leipzig, 1908.
— Friedrich Paulsen, Kant, Sein Leben und seine Lehre, 5 ed., Stuttgart, 1920.
— Oswald Külpe, Immanuel Kant, 2 ed., Leipzig, 1921.
— Ernst Cassirer, Kants Leben und Lehren, Berlim, 1918.
— Bruno Bauch, Immanuel Kant, 2 ed., Berlim — Leipzig, 1921.
— Carlo Cantoni, Emanuele Kant, 2 ed., 3 vols., 1907.
— Joseph Maréchal, Le Point de départ de la métaphysique, Cah. III, La critique de Kant, Paris, 1923.
— Hermann J. Vleeschauwer, La déduction transcendantale dans l’oeuvre de Kant, 3 vols., Anvers, 1936–1937.
— Herbert J. Paton, Kant’s metaphysic of experience, 2 vols., London, 1936.
— Bibliografia, apud Ueberweg. Grundriss, 12 ed., III, 709–749.
[1] Transcendental, para Kant, significa o que se pressupõe, por parte do sujeito, ao ato de conhecimento e o torna possível. A crítica transcendental investiga, pois, as condições de possibilidade do conhecimento. Cumpre, porém, observar com Falckenberg, que o mesmo vocábulo é empregado com outras significações. Em todas, porém, se opõe a empírico.
[2] “Ohne Sinnlichkeit würde uns kein Gegenstand gegeben, und ohne Verstand keiner gedacht werden. Gedanken ohne Inhalt sind leer, Anschaungen ohne Begriffe sind blind” — Kritik der reinen Vernunft.
[3] “Os objetos em si não são conhecidos, o que nós chamamos objetos externos é uma pura representação da nossa sensibilidade”. “As coisas externas — a matéria em todas as suas formas e mudanças — são simples fenômenos, isto é, representações em nós.” — Crítica da Razão pura, passim. Cf. Tilmann Pesch, Le Kantisme et ses erreurs, c. XI.
[4] O termo, porém, é completamente desviado da sua significação primitiva. Para o estagirita, as categorias são os gêneros supremos a que se reduzem as coisas, são conceitos objetivos. Para Kant são formas subjetivas do espírito de cuja conformidade com o mundo objetivo e real nada podemos saber.
[5] Ainda aqui o sentido da palavra, de origem platônica, foi completamente adulterado. O primitivo alcance de realidade supra-sensível foi substituído pelo de norma racional.
[6] Kant apresenta-se como o único isento dessa ilusão universal. Ilusão ainda. “Vérifiant sa propre théorie de l’illusion dialectique. Kant s’est heurté à d’incessantes contradictions” (“Testando sua própria teoria da ilusão dialética, Kant deparou-se com incessantes contradições”) — Émile Boirac, L’idée du phénomène, p. 34.
[7] Lógica transcendental I, II, c. II, seção 9.
[8] Como conciliar esta afirmação da liberdade com o absoluto determinismo professado na primeira crítica? Kant responde, distinguindo o homem nouménico, incognoscível à razão especulativa e dotado de livre arbítrio, do homem fenomenal, cognoscível pelas formas subjetivas, sujeito às leis do espaço e do tempo, e, portanto, necessitado em todos os seus atos. Distinção ilusória! Se só enquanto noumenon a vontade é livre, só enquanto noumenon é obrigada à lei moral. Todos os atos humanos que caem sob o nosso conhecimento, sendo necessitados, não são suscetíveis de moralidade. E, então, onde o valor da lei moral? De que serve este livre arbítrio que não se pode manifestar nos nossos atos? Por que via secreta de conhecimento se atinge esta liberdade noumênica, incognoscível?
[9] Se o imperativo categórico é objetivamente certo e se estes postulados são uma condição necessária da sua existência, não vemos por que motivo não se devam afirmar como verdades objetivas e racionalmente certas.
[10] Padre Manuel de Santana, O materialismo em face da ciência, t. II, p. 177.
