PREFÁCIO A “VIDA DE DANIELE CONCINA”
Vincenzo Domenico Fassini (pseud. Dionísio Sandelli) (†1787)
Fonte: De Danielis Concinae vita et scriptis commentarius, in Daniele Concina, O.P., Theologia christiana dogmatico-moralis, tomo I, p. vii–xii. Roma, 1773.
Tradutor do texto latino: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: O texto introduz uma biografia sobre o frei dominicano Daniele Concina (1687–1756) para suprir o silêncio e as narrativas superficiais deixadas após sua morte. O autor justifica a omissão de outros historiadores devido ao temor de perseguições promovidas pelos opositores do teólogo dominicano. Apesar do contexto adverso e das controvérsias com jesuítas como Francesco Antonio Zaccaria (1714–1795), o biógrafo assume a tarefa com base em ampla documentação. A narrativa compromete-se com a verdade histórica, apoiando-se em cartas privadas e anotações do próprio Concina para atestar sua integridade. Por fim, o autor defende a imparcialidade de sua obra, reafirmando seu respeito à Companhia de Jesus sem deixar de denunciar os excessos de seus críticos.
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Ninguém negará, a menos que seja alguém totalmente alheio a esse assunto, que a parte mais importante da história dos escritores eclesiásticos consiste na recordação dos varões ilustres que, por seus escritos eminentes e por seus feitos, ilustraram a Igreja, bem como na verdadeira comemoração de suas virtudes. Tendo isso sido reconhecido por muitos escritores, tanto antigos quanto da nossa época, empregaram grande esforço e dedicação em encomiar a memória daqueles homens cujas ações e escritos podiam servir de estímulo e exemplo para os demais.
Sendo tudo isso verdadeiríssimo, ao meu ver, causou grande admiração a muitos que ninguém até agora tenha empreendido relatar os feitos, a fortuna dos escritos e o destino de Daniele Concina, celebradíssimo pregador teólogo da Ordem dos Pregadores (Dominicanos). Certamente, desde o seu falecimento, muitos exigiram isso, entre os quais ainda vive o seu nome e a lembrança de suas insignes virtudes. Porém, tais desejos foram em grande parte frustrados: de fato, vieram à luz dois comentários sobre a vida e os estudos de Daniele Concina, porém tão leves e pobres que que qualquer um poderia duvidar, não sem razão, se merecem sequer o título de brevíssimo elogio. As causas pelas quais isso ocorreu não tenho tempo nem desejo de investigar. Talvez aqueles que podiam assumir tal tarefa e levá-la a cabo com exatidão e perfeição tenham se abstido de louvar Concina, por sua pessoa ser odiosa a alguns que, tendo agido mal, preferem que isso não seja denunciado pela memória dos escritores, mas defendido pelo esquecimento e pelo silêncio; e temiam que de tal louvor lhes viessem consequências desagradáveis e infaustas. Assim ocorreu outrora com Quinto Aruleno Rústico[1] e Herênio Senécio,[2] aos quais, segundo o testemunho de Cornélio Tácito, custou a vida o fato de o primeiro ter louvado Públio Trásea Peto,[3] e o segundo Helvídio Prisco.[4] Não só contra eles se desencadeou perseguição, mas também contra seus livros, sendo confiado aos triúnviros[5] o encargo de queimar, no Comitium e no Forum,[6] os monumentos dos mais ilustres engenhos, como se assim se pudesse abolir a voz do povo romano, a liberdade do Senado e a consciência do gênero humano. Tempos verdadeiramente cruéis e, talvez, não muito diferentes dos nossos, hostis às virtudes. Por essas e outras razões — se me é permitido suspeitar —, aterrorizados e perturbados, os Padres venezianos, em cujo seio Concina expirou, recusaram-se a prestar aquilo que todos os bons teriam desejado. Enquanto isso, homens ignorantes das coisas e dos tempos acusavam aqueles religiosos, tão doutos e piedosos, de ignávia e de falta de amor pelo falecido.
Sucedeu então que eu mesmo, que escrevo, estive presente numa assembléia em que se tratava de recomendar à posteridade a memória de Concina, com uma narrativa um pouco mais ampla do que até então se fizera. Após muitos discursos proferidos de parte a parte, como alguns temessem o favor e o ódio dos inimigos de Concina, e outros, enfim, deplorassem a escassez de documentos, impôs-se finalmente a mim, a quem sabiam não ser nada alheio a esse tipo de obra, o encargo de escrever a vida de Daniele Concina. Naquele momento aceitei-o de bom grado, movido tanto pelos pedidos (se é lícito dar esse nome aos desejos dos amigos) quanto pelos excelentes documentos que havia reunido não sem trabalho. Contudo, ao iniciar a redação, o que me dissuadiu não foi o favor dos inimigos de Concina, mas a grandeza da tarefa imposta, a ponto de quase desesperar de poder cumpri-la. Nessa grande hesitação, recobrei o ânimo afinal e resolvi adotar o seguinte critério: se não pudesse cumprir tudo o que devia, ao menos quitaria aquilo que pudesse, para que não parecesse aos amigos e aos que me querem bem que eu aceitara o que não podia cumprir (o que seria impudência), nem que deixara de fazer o que podia (o que seria atribuído à minha negligência e preguiça). Assim, pus mãos à obra, embora percebesse cada vez mais que havia empreendido um trabalho difícil, como não havia pensado no início. Mas, tendo avançado um pouco, e percebendo que deveria narrar muitas coisas que os Padres da Companhia de Jesus dificilmente engoliriam, comecei novamente a hesitar por algum tempo, pois me parecia um tanto inumano relatar fatos pouco honrosos e decorosos acerca daqueles que, em nossos dias, são oprimidos por gravíssimos reveses.[7] Mas logo o meu espírito emergiu dessa dúvida e sentimento mais brando ao revolver no pensamento o que esses mesmos Padres da Companhia fizeram após a morte de Concina, e ao rememorar, sem ofensa a Deus, as injúrias e insultos com que ainda hoje procuram perturbar os seus restos mortais compostos e em paz. Pois assim que esse homem insigne e venerável em toda a sua vida morreu, eles não se aquietaram, mas, como se recomeçassem o combate, insurgiram-se com mais veemência contra um homem que já não tem voz nem mãos para rebater as acusações e as mais negras e detestáveis infâmias lançadas contra ele. Seu funeral, que foi doloroso e amarguíssimo para todos os homens bons, foi ignorado — ou melhor, tratado com notável injúria — pelos autores dos Annali letterari d’Italia (“Anais Literários da Itália”),[8] os quais, de outro modo, costumam louvar e cortejar com longos panegíricos os seus partidários, mesmo quando se trata de homens sem nenhum saber.
O Padre Francesco Antonio Zaccaria, S.J. (1714–1795), principal artífice desses Annali e verdadeiramente o mais implaclável juiz tanto dos vivos quanto dos mortos, tentou repetidas vezes dilacerar e dissipar cruelmente a memória e o nome de Concina. Com efeito, quando Ângelo Franzoja, teólogo de Pádua,[9] submeteu a exame a Teologia moral do Padre Hermann Busenbaum [ou Busembaum], S.J. (1600–1668),[10] bem como seus suplementos e adições,[11] e exaltara nobremente, mas com verdadeiro elogio, Concina e Giovanni Vincenzo Patuzzi (1700–1769),[12] de cujos trabalhos se servira, Zaccaria, profundamente irritado e quase levado à fúria, publicou contra Franzoja uma Expostulatio (“Expostulação”), que, com abuso desmedido de palavras, intitulou “Amigável”, na qual, sob a máscara de um certo Ireneu veneziano, atacou com insultos gravíssimos Concina e seu apologista Patuzzi, descarregando contra esses doutíssimos homens fúrias dignas não só de perturbar os vivos, mas até mesmo de despertar os mortos de suas cinzas e túmulos. Eis um exemplo de sua linguagem violenta e inaudita ferocidade: “Tenho verdadeiramente pena de ti, por não teres compreendido que não podias escolher guias e mestres mais ineptos e infames do que esses teus Concina e Eraniste. Pois o que te resta senão afastar-te da verdade juntamente com eles e expor tua reputação ao maior perigo, sem que possas te lamentar caso venhas a tomar juízo? Mas o fato de cobrires de tantos louvores escritores assim, marcados de ignomínia em toda a República das Letras, péssimos dialéticos e caluniadores tetérrimos, creia-me: ou é coisa de homem impudente — o que sei que não és —, ou de quem enlouqueceu — o que eu não desejaria que fosses. (…) Deverias tê-lo chamado de descarado. (…) Acaso os Padres da Companhia deveriam suportar pacientemente um difamador que investe com tão erudita insolência contra a fama de doutíssimos teólogos de todas as Ordens, e não refrear tamanha licença? Que belo homem és, que tens por perseguidores aqueles que apenas defendem a si e aos seus direitos! Chamas de homem integérrimo e que sofreu perseguições a quem não tanto perseguiu os outros, mas os despedaçou com toda a crueldade. (…) Quem dera o tivesses seguido em silêncio! Certamente terias zelado por tua reputação, a qual arruinaste miseravelmente enquanto não te envergonhaste de escrever tais coisas sobre aquele teólogo bufão”.
Quem não se horrorizaria ao ouvir e ler que um homem já morto, falecido na paz e no amor de todos os bons, seja assim brutalmente dilacerado por um membro da Companhia de Jesus? E como a cupidez de maldizer não conhece limites, o mesmo autor, em certa Dissertatio prolegomena de casuisticae theologiae originibus, locis, atque praestantia (“Dissertação prolegômena sobre as origens, fontes e excelência da teologia casuística”), voltou a morder e ridicularizar Concina com novas injúrias e ironias insensatas; e não há dúvida de que continuará a fazê-lo enquanto puder, até que finalmente o nome de Concina se torne odioso e execrável, se assim aprouver aos céus, o que sempre foi o objetivo constante dele e de seus companheiros. Seja, pois, de ferro aquele que, podendo falar, ame o silêncio!
Por isso, para que não parecesse que eu levava mais em conta os maldizentes do que um homem inocente, prossegui no comentário iniciado e, embora desfrutando de um tempo não de todo oportuno, confiante no auxílio divino, levei-o a termo. Agora o apresento aos estudiosos da erudição eclesiástica como complemento das controvérsias que, em nosso tempo, se travaram sobre o probabilismo. Para realizá-lo com maior amplitude e fidelidade, obtive de um amigo muito querido numerosos escritos avulsos e anotações de Concina, bem como cerca de duzentas cartas dirigidas a ele por homens ilustríssimos. Dessas cartas selecionei mais de cinquenta e as publiquei ao final do comentário, para que se veja se Concina foi de fato ou não marcado de ignomínia em toda a República das Letras. As demais preferi omitir por completo, para que ninguém suspeitasse que assumi esse encargo por motivo de rancor ou inveja. Sei o que alguns responderão a isso: dirão que tais testemunhos não têm valor algum, por serem oriundos de homens, como eles próprios afirmam, furiosos e inimigos acérrimos da Companhia de Jesus. Mas tais consolos são frágeis, e tais objeções, vãs evasivas inventadas para eludir o sufrágio de varões piedosíssimos e doutíssimos. Pois essa suposta hostilidade contra a Companhia deve ser provada, e não apenas alegada a bel-prazer, como se faz frequentemente; de outro modo, jamais se poderia refutar o testemunho de quem quer que fosse, ainda que muito digno de crédito, visto que não há ninguém — como diz um célebre escritor da França — que não apresente de imediato aquelas vãs alegações de ódio, inimizade ou rivalidade sempre que depara com um testemunho contrário a si. Prevalecerá, portanto, nestas ilustres cartas, a presunção de integridade e de verdade, contra a qual de nada valerão todas aquelas fúteis objeções de murmuradores. E tais testemunhos devem ser tidos em tanto maior valor quanto contidos em cartas privadas, pois nelas os homens costumam exprimir com maior retidão e franqueza os sentimentos de suas almas e comunicar aquilo que, por justas razões, às vezes são impedidos de declarar e divulgar publicamente.
Agora direi brevemente algo sobre o plano geral deste comentário; o restante o leitor perceberá facilmente. Em primeiro lugar, como o principal dever de um historiador é não dizer nada de falso, mas ter sempre a verdade diante dos olhos, cuidei diligentemente para que tudo o que eu tivesse de dizer se apoiasse em documentos firmes e sólidos, para que nossa narrativa, tecida de forma íntegra e sincera, causasse à posteridade não menos admiração pela grandeza dos fatos do que confiança por sua credibilidade. Por isso, ao examinar os fatos, recorri tanto às cartas que publicamos quanto a outros escritores que relataram as mesmas coisas, cujas narrativas mal chegam a levantar dúvidas senão quanto a leves circunstâncias. Quanto aos costumes de Concina e à disciplina de toda a sua vida, colhemos informações dos escritos de seus confrades e de outros, cujos testemunhos não hesitaremos em publicar, se a ocasião e a necessidade o exigirem. Quanto ao destino e à fortuna de seus livros, o próprio Concina tratou disso com abundância e extensão em um opúsculo intitulado: Memorie spettanti alle Opere stampate: Si narrano le occasioni, vicende, e accidenti occorsi nella pubblicazione di quasi ciaschedun libro (“Memórias relativas às obras impressas: Narram-se as ocasiões, vicissitudes e fatos ocorridos na publicação de quase cada livro”); no qual também se contêm muitas coisas acerca do início de seus estudos e de seu ministério apostólico. Ele costumava, de fato, ao publicar algum livro, registrar em anotações tudo o que fosse de algum relevo, inserindo parte dessas notas nos prefácios de suas obras. Desses escritos também extraí muitas coisas, uma vez que jamais foram contestadas ou acusadas de falsidade por seus adversários.
De resto, se algo de falso tiver sido narrado por mim, ou crido levianamente, estarei pronto para corrigi-lo de imediato, assim que minha narrativa for refutada por argumentos claros e certos. Pois a história de Daniele Concina não precisa ser adornada com mentiras nem sustentada por elas.
Atesto, porém, com sinceridade, que omiti várias coisas por deferência à Companhia. Pois, embora eu tenha repreendido a maioria de seus membros, tenho a própria Ordem em altíssima estima e julgo que deva ser contada, logo após os homens mais pios e doutos, entre as congregações mais ilustres que abrilhantam a Igreja militante; e confesso inteiramente que ela produziu em todas as épocas homens notáveis por sua piedade e erudição, cujos méritos eu mesmo seria o primeiro a exaltar com entusiasmo, se a ocasião se apresentasse. Portanto, onde quer que eu fale sobre os filhos dessa Ordem, não desejo parecer censurar a todos, mas apenas aqueles que, sem dúvida, agiram indignamente contra Concina, e cujos atos pode-se perfeitamente deduzir que não foram aprovados pelos Padres mais sábios da Companhia. Mesmo assim, a obra dificilmente evitará o ódio e a inveja, pois sei que as queixas nunca são agradáveis, mesmo quando necessárias. Mas aqueles que se ofenderem com meus escritos devem atribuir a culpa a si mesmos, pois foram suas obras escandalosas que me compeliram a apresentar a verdadeira imagem de Concina. Ora, como alguns Padres da Companhia têm o hábito de, sempre que surgem escritos contrários ou pouco favoráveis a eles, tachá-los de mentirosos e cumular de convícios seus autores, já não apenas suspeito, mas compreendo perfeitamente o que muitos deles dirão sobre mim e sobre este meu comentário. Mas, ainda que homens exaltados se enfureçam, batam no peito e lancem contra mim injúrias e ultrajes — cujo peso nem cem embarcações movidas a remos poderiam carregar —, eu não desanimarei, mas tentarei defender meu escrito como puder, e jamais permitirei que ele seja dilacerado por acusações injustas.
Eu havia decidido, no início, enriquecer o comentário com longas explicações e notas, e apresentar exemplos de todos os livros publicados por ambas as partes litigantes. Mas como isso pareceria suscitar inveja em alguns e tédio na maioria, abandonei por ora esse plano; talvez venha a apresentar algo numa outra obra que, com maiores cuidados, publicarei quando desfrutar de um tempo mais propício. Eu poderia ter dado mais valor e dignidade à minha obra se tivesse seguido o método daqueles que costumam reforçar seus escritos com citações de catálogos, memórias, periódicos e outros livros quaisquer, dos quais costumam caçar (ou melhor, usurpar) a fama de uma seleta erudição e prodigiosa doutrina. Mas, como os leitores ávidos raramente colhem algo de proveitoso dessas passagens e, no mais das vezes, apenas se fatigam inutilmente, deixei de bom grado que essa fútil erudição ficasse com os homens mais levianos. Assim, pouco me importa o que certos cronistas [redatores de periódicos] dirão sobre o meu comentário, seja bem ou mal, pois não quero travar guerra com aqueles que possuem tal facilidade e vastidão de engenho que publicam obras até mesmo semanalmente.
Resta-me dirigir-me àqueles que desejarem ler ou consultar este comentário. A estes exorto que examinem por si mesmos os documentos nos quais me apoiei para escrever a vida de Daniele Concina, pois assim creio que não darão ouvidos às vociferações dos adversários dele, cuja maioria está de tal modo indisposta que não tolera ouvir nem mesmo os menores elogios a ele, embora ele, aliás, merecesse os maiores, se tivesse aderido às suas opiniões e dogmas. É próprio do gado — isto é, do homem que não usa a razão — condenar alguém sem ouvi-lo e colher sua fama e reputação da boca de inimigos, dos quais eu poderia ter conquistado facilmente o favor se tivesse coberto com alto silêncio os elogios a Concina e relegado às trevas monumentos dignos de plena luz. Quem dera, porém, eu fosse capaz de louvar esse grande homem, Daniele Concina, como ele merece e de expor plenamente seus méritos para com a Igreja! Mas reconheço bem a limitação de meus recursos. Ainda assim, esforcei-me por fazê-lo, embora dividido por vários deveres e ocupações enfadonhas. Por essa razão, consultei excelentes autores para enriquecer este comentário e não hesitei em usar suas opiniões conforme necessário, a fim de pintar com maior beleza as virtudes de Concina e mostrar com maior veracidade seus feitos notáveis.
Seja como for a obra que produzi, não temo de modo algum ser repreendido pelos estudiosos dessas matérias, pois, livre de temor e de interesses, e seguindo uma certa liberdade de espírito, procurei tratar amplamente de um tema que sempre inspirou não pequeno receio em muitos. Se, porém, houver alguém na Ordem Dominicana que não apenas veja com maus olhos o fato de eu ter empreendido tal tarefa, mas também censure a minha obra, não me perturbarei muito com isso, contanto que considere aquele dito:
“Estes são ruins; mas tu não fazes melhor.”[13]
[1] Quinto Aruleno Rústico (35–93): Senador e filósofo estóico romano. Foi condenado à morte pelo imperador Domiciano (ano 93 d.C.) precisamente por ter escrito um panegírico (elogio biográfico) em honra de Trásea Peto, de quem fôra aluno e seguidor. (N.T.)
[2] Herênio Senécio († 93): Advogado e escritor originário da Bética (atual Espanha). Também foi executado sob o mandato de Domiciano no mesmo ano por ter escrito a biografia de Helvídio Prisco, a pedido de Fia, viúva dele. (N.T.)
[3] Públio Trásea Peto (†66): Senador romano e filósofo estóico, célebre por sua firme oposição moral à tirania de Nero. Sua integridade e recusa em lisonjear o imperador levaram Nero a forçá-lo ao suicídio no ano 66 d.C. (N.T.)
[4] Helvídio Prisco (†c. 75): Genro de Trásea Peto e, assim como ele, senador e filósofo estoico. Defensor ferrenho da liberdade republicana e da autoridade do Senado, opôs-se abertamente a Nero e, posteriormente, a Vespasiano, que acabou por ordenar a sua execução por volta de 75 d.C. (N.T.)
[5] Magistrados menores encarregados, entre outras funções, da execução de penas e da destruição/queima pública de livros proscritos. (N.T.)
[6] Os espaços públicos centrais da vida política, jurídica e social de Roma, escolhidos para a queima dos livros como forma de espetáculo e intimidação pública. (N.T.)
[7] Decerto Fassini se refere aos anos dramáticos que antecederam a supressão oficial da Companhia de Jesus. (N.T.)
[8] Os Annali letterari d’Italia foram uma importante obra periódica e bibliográfica de caráter teológico, crítico e erudito publicada no século XVIII (em 3 volumes entre 1762 e 1764, em Veneza). A publicação foi idealizada e organizada pelo padre jesuíta, historiador e teólogo italiano Francesco Antonio Zaccaria (1714–1795). Os Annali funcionava como uma revista periódica de resenhas de lançamentos literários, teológicos, jurídicos e historiográficos na Itália do Século das Luzes. O periódico servia para noticiar e registrar as controvérsias intelectuais, debates canonistas e edições críticas de documentos antigos da Igreja. É frequente haver uma confusão com duas outras obras bem conhecidas do mesmo período: Annali d’Italia, de Ludovico Antonio Muratori, uma imensa obra de 12 volumes sobre a história cronológica da Itália, publicada poucas décadas antes (1744–1749); e Giornale de’ Letterati d’Italia, uma das mais famosas revistas eruditas do século XVIII italiano, fundada por Scipione Maffei e Apostolo Zeno em 1710. (N.T.)
[9] Ângelo Franzoja (também grafado como Angelo Franzoia) foi um presbítero, doutor em teologia e professor no Seminário Episcopal de Pádua durante o século XVIII. Ele é lembrado principalmente por sua atuação no debate teológico-moral da época e por ter sido o revisor e “castigador” das doutrinas morais do jesuíta alemão Hermann Busenbaum (1600–1668). (N.T.)
[10] O manual de teologia moral de Hermann Busenbaum, Medulla theologiae moralis, expandido mais tarde por Claude La Croix, S.J. e por Francesco Zaccaria, gerou intensas controvérsias. A obra foi acusada de laxismo e de defender teses radicais. (N.T.)
[11] Franzoja tomou o texto da Theologia morum de Busenbaum-La Croix-Zaccaria (edição de 1760/1767) e o submeteu a um severo exame crítico. Ele publicou a obra expurgada e comentada sob a perspectiva do rigorismo tomista e das condenações pontifícias do período, adicionando ao final uma compilação das proposições de teologia moral proscritas pelos Papas (“Propositiones a summis pontificibus in rem moralem proscriptae”). (N.T.)
[12] Giovanni Patuzzi foi o principal colaborador e continuador da obra teológica de Daniele Concina. Ambos defendiam uma doutrina moral fundamentada em Santo Tomás de Aquino e opunham-se duramente ao probabilismo adotado por muitos jesuítas (como Hermann Busenbaum, Claude La Croix e Francesco Antonio Zaccaria). Patuzzi travou acalorados debates intelectuais na época. Ele foi um dos maiores opositores do sistema moral de Santo Afonso Maria de Ligório (1696–1787) e redigiu alguns tratados contra as opiniões probabilistas. Para publicar algumas de suas obras mais polêmicas contra jesuítas, sem sofrer retaliações, Patuzzi frequentemente utilizava pseudônimos, como Eusebio Eraniste e Adelfo Dositeo. (N.T.)
[13] Frase famosa do poeta latino Marco Valério Marcial (c. 40–c. 103): Haec mala sunt; sed tu non facis meliora (Epigrama 2.8). (N.T.)
