Carlos Alberto Disandro (1919–1994) e Leonardo Boff (1938–)

Ora, para essa perseguição e para esse martírio que reproduz a martyría de João contra os doutores de Israel, não está excluída a possibilidade de um theríon-pontifex, que concentre precisamente a guerra semântica, usando de sua autoridade sacra na vastidão da terra. Mas essa guerra semântica visa a abater o culto divino, o logos teândrico, a sonância e a ciência da Fé, e, consequentemente, a propor como modelo o selo do dragão. Se o pontifex-theríon fala como o dragão, quem não se fará dragão? Somente aqueles que, como João às margens do Jordão, digam: NÃO.

O dragão fala, constrói uma sonância, edifica uma dracologia que pretende apresentar como teologia, como a inconcussa parádosis apostólica, que é mais que os livros, a ciência, a dialética, a autoridade, a jurisdição, os conclaves, os concílios, os documentos e os códigos. Mas a parádosis apostólica é imune à ciência e ao império do dragão, é incompatível com a semântica do dragão. A locução da segunda besta propõe, pois, um modelo, um centro semântico. Sua cópia mundana, sua expansão empírica e seu domínio sem fronteiras exigem o culto do homem, desligado do Mistério de Cristo e inscrito, ao contrário, no mistério do dragão. Eis a chave de muitos atos, de muitos compromissos, de muitos textos, em particular da encíclica Redemptor hominis de Karol Wojtyła. Essa é a máxima expressão da teologia da libertação, destinada a apagar a fé teândrica (se fosse possível) e a instaurar para sempre o culto do homem, inaugurado por Montini e seu concílio nefasto. Nós, como João, em momentos dramáticos para a história da Fé, dizemos simplesmente NÃO a tamanha impostura; e destacamos, sem ambiguidade e sem rodeios, tal como ensina Santa Hildegarda, a apostasia de Roma, prevista por antigas visões; por essa apostasia, Roma serve agora ao dragão e não ao Cordeiro. Denunciamos, pois, a semântica do dragão, a dracologia que, pelo expediente da liberatio ímpia, quer destruir a Igreja, o espaço sagrado de sua Transfiguração.

15 de agosto de 1979

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