A DOAÇÃO DE CONSTANTINO DESMASCARADA
Lúcio Guimarães, 12 de julho de 2026

Aquele pacto secreto que todos os modernos defensores do papado realizaram de nunca, de modo algum, e sob nenhuma circunstância, proferirem uma só palavra sobre a Doação de Constantino será quebrado hoje. É uma vergonha para os membros da Igreja de Roma terem se valido da mentira para justificar seu poder no século, e quão verdadeira é aquela frase de Lorenzo Valla quanto às consequências desse engodo: Nulla itaque usquam religio, nulla sanctitas, nullus Dei timor, et quod referens quoque horresco omnium scelerum impii homines a Papa sumunt excusationem.
Diz o documento da doação que o Imperador Constantino teria dado ao Papa Silvestre I toda a posse do Ocidente. Na Idade Média, quando algum imperador ousava ir contra o Papa, invocava-se a memória de Constantino e de sua doação para fulminar o gládio temporal, e a consequência era sempre a mesma: católicos contra católicos, ocidentais contra ocidentais. Nada disso teria ocorrido se o partido guelfo estudasse o latim com mais fervor e concluísse com Lorenzo Valla que toda a base jurídica do poder papal, ao menos no contexto em que a doação era utilizada, se baseava em uma mentira.
Muito sangue foi derramado e séculos de estudos clássicos se passaram até que, no século XV, Lorenzo Valla publicou a obra De falso credita et ementita Constantini Donatione declamatio. Que diremos dessa obra? Ora, em primeiro lugar, que ela pulverizou em absoluto qualquer tipo de defesa da Doação de Constantino como um documento legítimo, e que, em segundo lugar, qualquer católico que ousar empreender algum comentário político sobre o poder do Papa, mas que ignore o livro de Valla, é inimigo da verdade e deve ser ridicularizado no meio de toda a Igreja. Mas nos indagariam, logicamente, a razão de não haver quem fale sobre Valla no meio tradicional, e desde já respondemos que para isso existem duas opiniões: a primeira, que afirma que todos eles desconhecem essa matéria, e a segunda, a mais provável, que os intelectuais do tradicionalismo se calam sobre a falsidade da Doação de Constantino para não causarem ainda mais confusão entre os pobres fiéis neste tempo de crise.
Defender a verdade com uma mentira é dar força ao erro e testemunho contra si mesmo, e assim tem obrado o partido guelfo desde a Idade Média até os dias de hoje. Para proteger o papado, estão dispostos a deturparem o papado, e para defenderem os direitos de Deus, estão dispostos a negar o mesmo Deus. Esse é o curioso caso daqueles que usam a bula Unam sanctam para defenderem as heresias do Concílio Vaticano II com o objetivo de, segundo eles, “salvarem o papado”. Tudo isso é o desenvolvimento natural e homogêneo da fraudulenta Doação de Constantino. Como dissemos no começo, essa fraude terá seu fim no dia de hoje, pois ninguém mais poderá alegar ignorância sobre essa controvérsia. Encontra-se abaixo a refutação da Doação de Constatino escrita por Lorenzo Valla em quatro traduções: espanhola, italiana, francesa e inglesa. Como sempre, falta-nos a tradução portuguesa, mas temos fé de que algum dia ela será feita.
Haverá, nos perguntamos, algum campeão que seja capaz de refutar Lorenzo Valla? Temos certeza de que no Brasil não há, mas não iremos impedir que algum aventureiro no latim tente realizar essa missão suicida. Aos apoiadores, desejamos uma boa leitura da obra de Lorenzo Valla; aos adversários, desejamos apenas uma boa sorte na tentativa de refutação, porque nenhuma graça vos será dada do alto.




