DESTRONANDO O PODER SOBERANO DO DINHEIRO: A SOLUÇÃO DIVINA CONTRA OS ESQUEMAS HUMANOS
Michael A. Hoffman II, 29 de maio de 2026
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: O texto faz uma crítica contundente ao poder soberano do dinheiro e à prática da usura, apontando-a como a raiz da opressão econômica moderna. O autor traça a degradação histórica e teológica dessa proibição, acusando escolas católicas nominalistas e reformadores protestantes como João Calvino (1509–1564) de justificar os juros por meio de raciocínios casuísticos e “ética de situação”. Ele também denuncia o “capitalismo bucaneiro” de economistas como David Ricardo (1772–1823) e Thomas Malthus (1766–1834), que justificaram a exploração dos mais pobres em benefício da plutocracia. Em contrapartida, exalta as denúncias de intelectuais como Thomas Carlyle (1795–1881), Charles Dickens (1812–1870) e John Ruskin (1819–1900) contra a desumanização gerada pelo livre mercado. Por fim, propõe como alternativa uma “livre iniciativa bíblica”, baseada em empréstimos sem juros, em obediência aos ensinamentos do Evangelho.
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A ECONOMIA DOS “FILHOS DO ALTÍSSIMO”
Permitam-me definir meu termo: o poder soberano do dinheiro na América, por parte daqueles que o manejam, foi revelado para todos verem na bem-sucedida campanha para derrotar a reeleição do deputado Thomas Massie, em Kentucky. Três plutocratas e dois grupos de lobby foram os principais responsáveis por gastar cerca de 35 milhões de dólares para ajudar uma nulidade, o lacaio do presidente Trump, Ed Gallrein, a vencer as primárias republicanas em um distrito onde os democratas normalmente não são eleitos. O sr. Massie é o mais próximo que se poderá encontrar de Jefferson e Madison na Câmara dos Representantes de 2026, e, no entanto, foi o capital nas mãos de déspotas — e não a virtude e excelência do desafiante — que decidiu a disputa.
Como mais bobagens distrativas e remédios inúteis foram escritos sobre economia do que sobre quase qualquer outro assunto, irei me concentrar em fundamentos incontestáveis que raramente, ou nunca, são mencionados.
O aluguel do dinheiro (“usura”) está na raiz do domínio desse poder soberano.
Tanto as abordagens populares católicas quanto protestantes sobre a questão são frequentemente confusões mentais sem esperança. Os católicos tipicamente culpam os protestantes por relaxarem primeiro as proibições, quando foram os romanistas papalistas que tiveram essa desonra. Observamos essa confusão na maneira pela qual se atribui um início tardio à história do cash nexus (“nexo monetário”). Costuma-se datá-la, como fez Ezra Pound, a partir do protestante Banco da Inglaterra (século XVII) ou da ascensão da casa bancária dos Rothschilds no século XIX.
Não se engane: não alcançaremos vitória nessa luta até que o nome Fugger seja ao menos tão notório quanto Rothschild.

Um ponto alfa melhor seria o primeiro século depois de Cristo, seguido pelo surgimento, séculos mais tarde, do relaxamento da proibição católica da usura, o principal motor do mamonismo, a partir do final do século XV. Em épocas anteriores, o espírito do Evangelho, canalizado pela Igreja, suprimia a usura.
A permissão para a usura surgiu primeiro na escola “nominalista” católica de teologia, pesadamente subsidiada pela dinastia bancária católica Fugger (1480–1550). Seu porta-voz foi o reverendo padre Johann Eck (1486–1543), decano da Faculdade de Teologia da Universidade de Ingolstadt, que fez lobby por uma taxa “moderada” de juros (5%).

A SERPENTE DA ÉTICA DE SITUAÇÃO ENTRA NA CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL
Quando denuncio até mesmo uma taxa tão baixa, sou acusado de ser irrazoável por aqueles que estão cegos para as implicações sinistras até mesmo de uma taxa de 1%, uma vez que ignoram a toxicidade por trás de grande parte da subversão da Palavra de Deus — a ética de situação.
[Nota d’O Recolhedor: Ética de situação seria uma tradução literal daquilo que bem se pode entender por moral casuísta.]
Uma ilustração clássica da ética de situação encontra-se no primeiro século d.C., com a anulação, pelo rabino Hillel (†c. 10 d.C.), do plano bíblico de remissão de dívidas, que proibia qualquer aluguel contratual de dinheiro (“empréstimo”) além de sete anos. Esse era o modo de Deus de evitar o fardo oneroso da servidão perpétua por dívida entre o seu povo, um fardo ímpio que os cristãos sofrem em nosso tempo.
Deuteronômio 15,1–2: “Ao fim de cada sete anos farás remissão. E este é o modo da remissão: todo credor que tiver emprestado algo ao seu próximo o remirá; não o exigirá do seu próximo ou de seu irmão, porque se proclamou a remissão do Senhor.”
O fato de os camponeses judeus e israelitas (am ha’aretz עם הארץ) possuírem essa liberdade concedida por Deus causava grande desconforto aos agiotas do primeiro século. Para acomodar esses credores avarentos, Hillel, o halachista (legislador), promulgou seu פרוזבול (“prozbul”) — uma cláusula de escape proclamada em nome do “melhoramento do mundo”. Como Hillel o “melhorou”? Sua ética de situação corrigiu o “erro” de Deus, neste caso a expiração sabática dos empréstimos a cada sete anos, permitindo aos credores estender a execução de seus empréstimos para além desse prazo. Hillel inventou seu prozbul para burlar um mandamento direto da Torá. O fariseu Hillel (o mais admirado de todos os fariseus aos olhos dos estabelecimentos liberais não cristãos e pseudo-cristãos) fundou um sistema de ética de situação muito antes de ele influenciar os teólogos nominalistas de vanguarda na Igreja papal renascentista — e posteriormente entre os protestantes.
Quando, no final do século XV, os nominalistas católicos promoviam uma taxa “moderada” de usura, estavam abrindo uma caixa de Pandora da ética de situação. Se é permissível cobrar uma taxa baixa por um pecado mortal como a usura, então, pela mesma casuística, seria permissível frequentar uma prostituta que cobra uma taxa moderada pelo pecado mortal que oferece. Não há fim para essa cadeia displicente de situações para o “melhoramento” de todos. Sob esse guarda-chuva, um casal pode coabitar sem o benefício do matrimônio, porque a lei de Deus em matéria de fornicação seria um ideal, e não um mandamento. O adepto da ética de situação é hábil em fabricar uma multidão de justificativas e brechas.
As figuras da Reforma foram influenciadas por argumentos nominalistas. Entre estes, o mais significativo foi o convertido protestante francês de origem católica e jurista tornado teólogo Jean Cauvin (“João Calvino”, 1509–1564), que se inspirou no jurista católico francês Charles Dumoulin (1500–1556) e no divulgador deste, François Hotman (1524–1590). Moulin, por sua vez, foi influenciado por Konrad Summenhart (1455–1511), professor na papal Universidade de Tübingen, na Alemanha. Ele derivou de Summenhart a crença de que nem todos os empréstimos a juros eram errados; antes, deveriam ser julgados segundo a situação do mutuário.

O argumento desenvolveu-se assim: desde que os juros cobrados fossem “razoáveis”, não haveria nada de imoral em emprestar com o propósito de “aumentar a produtividade”. Dumoulin e seus sucessores foram tão longe a ponto de inverter os Concílios de Latrão II (1139) e III (1179) e o Concílio de Vienne (1311–1312), afirmando que o mutuário que não paga usura sobre capital produtivo está roubando do credor (cf. Tractatus contractum et usurarum, 1547). Essa grande traição, à medida que se espalhou pela hierarquia da Igreja, contribuiu de modo marcante para a ascensão gradual do poder soberano do dinheiro.
Foi desse meio romano que Calvino formulou sua doutrina. Esse suposto expoente das Escrituras, que atacava e zombava implacavelmente dos católicos por colocarem a tradição em pé de igualdade com a Bíblia, baseou seu ensinamento econômico nas tradições da equidade jurídica, que anulavam a proibição do Antigo Testamento contra a usura. Calvino, um Hillel tardio nesse caso em particular, declarou que as leis do Antigo Testamento não eram vinculantes para os cristãos em termos de uma proibição absoluta de cobrar juros de outros fiéis:
“Concluo agora que não se deve julgar a usura segundo algum pronunciamento certo e particular de Deus, mas apenas segundo a regra da equidade” (De usuris, 1545).
“Não estou disposto a condenar [a usura], desde que seja praticada com equidade e caridade.” (Carta a Claude de Sachin, 1545).
“Esta lei [Deuteronômio 23,19] é política e não tem mais aplicação para nós hoje do que a equidade e a razão humana permitem. Certamente seria bom desejar que os usurários fossem expulsos de todo o mundo e que o nome se tornasse desconhecido. Mas, como isso é impossível, devemos nos submeter à utilidade comum.” (De usuris, op. cit.).
O paradoxo de Calvino consistia no fato de que, pessoalmente, ele era avesso às riquezas, não podia ser subornado e, nos primeiros anos da cidadela calvinista de Genebra, na Suíça, toda usura era proibida. Até mesmo o papa o reconheceu: “A força desse herege consistia nisto: o dinheiro nunca teve para ele o menor encanto. Se eu tivesse tais servidores, meu domínio se estenderia de mar a mar” (Papa Pio IV, 1564). Calvino não podia derrogar o ensinamento de Cristo como fizera com o de Moisés. Consequentemente, em relação ao ensinamento de Cristo no Evangelho de Lucas, ele se valeu da distinção nominalista católica entre juros e juros “mordazes”.
Embora Calvino tivesse formulado uma aceitação da usura cercada de rigorosas qualificações, observou-se, como R. H. Tawney, que o desvio de finalidade era inevitável: “A humanidade encontra nos argumentos dos teóricos aquilo que procura. A tolerância de Calvino para com os juros moderados… foi lembrada quando as qualificações que a cercavam foram esquecidas”.
OS JUROS “MORDAZES” NOS EMPRÉSTIMOS
Um mestre de Calvino, o teólogo protestante Martin Bucer (1491–1551), em seu Tractatus de usuris (“Tratado sobre a usura”), ampliou o argumento dos nominalistas ao afirmar que a palavra hebraica neshek, traduzida como usura, significaria que somente os juros que fossem tão extorsivos a ponto de “morder” o devedor seriam proibidos. Essa falsificação casuística moldou o debate desde então.

Seguindo Bucer, o teólogo protestante Henrique (Heinrich) Bullinger (1504–1575) afirmou: “A usura é proibida na palavra de Deus (apenas) na medida em que morde o próximo”.

Bucer e Bullinger estavam papagaiando as evasivas dos talmudistas nessa matéria, como expôs John Edwards (1637–1716) em sua análise dessa falácia:
“Os rabinos distinguem entre neshek e tarbith; o primeiro, dizem-nos eles, deriva de uma palavra que significa morder… e, portanto, entendem neshek como referente à usura imoderada, que de fato morde e devora, e reconhecem que esta é proibida pela Lei. (…) Mas a outra palavra, dizem, que denota meramente o aumento, isto é, algum acréscimo além do principal, expressa o tipo moderado e tolerável de usura. (…) Mas isso é pura fantasia e não tem fundamento nas Sagradas Escrituras, pois estas condenam não apenas o neshek, mas também o tarbith. (…) Quanto à palavra neshek, é evidente que se trata de um termo geral para toda usura; é um nome comum pelo qual essa prática é expressa em hebraico; e indica a gravidade do pecado, não qualquer distinção entre tipos de usura.” (John Edwards, D.D., Theologia Reformata [Londres, 1713], vol. 2, p. 547–548).
A cláusula de escape de Bucer e Bullinger permitia a evasão da Lei de Deus. Ignorava-se, em suas racionalizações, a crença cristã tradicional de que todo juro, em si e por si mesmo, “morde” o devedor.
O bispo anglicano Lancelot Andrewes (1555–1626) observou corretamente que “toda usura é mordaz… não existe forma de usura que seja banguela”.
Andrewes considerava que a distinção etimológica de neshek “contraria o próprio princípio da Lei: ‘amarás o teu próximo como a ti mesmo’. Pois é uma regra má aquela que decreta: ‘faça-se, desde que não morda’. Má, digo eu, e farisaica. O que é cristão é isto: faça-se, desde que beneficie. Pois, quer morda ou não, isso não importa, se buscamos a verdadeira justiça; o que importa é se beneficia ou não.” (Cf. Michael Hoffman, Usury in Christendom: The Mortal Sin that Was and Now is Not [2013], p. 189).
Andrewes articulava uma verdade fundamental da autêntica economia cristã — criar situações em que todos saem ganhando. Empréstimos sem juros, bem como o preço justo e o salário justo, eram princípios fundamentais da Igreja primitiva.
O SURGIMENTO DO CAPITALISMO BUCANEIRO
Algumas pessoas não querem trabalhar. A direita costuma associar essa preguiça aos pobres e isentar a classe ociosa que enriquece à custa do crédito bancário, do uso de insider trading (informações privilegiadas) e do cronyism (clientelismo capitalista).
Um exemplo inicial de capitalismo bucaneiro no início do século XIX encontra-se na carreira do beneficiário do crédito bancário David Ricardo (1772–1823). Ele era um negociante de títulos em 1815 e, como criatura dos Rothschilds, beneficiou-se de suas operações com informação privilegiada no período napoleônico. Os Rothschilds eram criadores de dinheiro e grandes compradores e subscritores da dívida pública britânica e francesa. Como resultado, podiam às vezes ditar a esses governos e às suas casas reais as políticas que pretendiam implementar ou impor.
O poder de criação de dinheiro é a essência do monetarismo, vendido ao público sob o eufemismo cosmético de “capitalismo”, aquilo que Thomas Carlyle denominou com mais precisão o “nexo monetário” do capitalismo de livre mercado: “O mais mesquinho evangelho já pregado. (…) O pagamento em dinheiro tornou-se o único nexo do homem com os homens. (…) O dinheiro é miraculoso (…) mas também (veja) que confusões e obscurecimentos nunca antes imaginados ele trouxe consigo, descendo quase a uma total extinção do senso moral em grandes massas da humanidade”.

Ricardo era o que se chamava um “economista político”, um porta-voz desavergonhado da usurocracia e um inimigo dos pobres britânicos e do que hoje chamamos assistência social (“leis dos pobres”).
Em seu livro de 1817, Princípios de Economia Política e Tributação, no capítulo “Sobre os Salários”, Ricardo desferiu um ataque digno de Scrooge: “A tendência clara e direta das leis dos pobres não é, como o legislador benevolentemente pretendia, melhorar a condição dos pobres, mas deteriorar a condição tanto dos pobres quanto dos ricos; em vez de tornar ricos os pobres, elas são calculadas para tornar pobres os ricos”. A ideologia de Ricardo consagrava a corrupção plutocrática ao mesmo tempo em que apresentava os pobres como preguiçosos e vagabundos.
Suas idéias eram uma ampliação do princípio malthusiano, que havia sido desenvolvido por um clérigo [anglicano], Thomas Robert Malthus (1766–1834) em seu infame livro de 1798, Ensaio sobre o Princípio da População, à Medida que Afeta a Melhoria Futura da Sociedade. Malthus argumentava que o crescimento populacional desenfreado, impulsionado por casais brancos que tinham filhos demais, inevitavelmente gerava competição por recursos escassos. Ele considerava a assistência social (o alívio aos pobres) como contraproducente e “moralmente perigosa”, pois enfraquecia o que ele via como os “freios naturais” ao crescimento populacional (a fome, as doenças e a própria pobreza). Na visão de Malthus, tais políticas de assistência social incentivavam casamentos precoces e “imprevidentes”, ao remover alguns dos desincentivos naturais à formação de famílias numerosas. Malthus buscava reduzir a população pobre britânica por meio da limitação de nascimentos. Como ministro ordenado escrevendo em uma era evangélica, só podia recomendar a castidade periódica no matrimônio como meio de controle de natalidade. E, tal como Ricardo, defendia a abolição gradual das leis dos pobres na Grã-Bretanha, rejeitando qualquer direito garantido a alimento ou moradia para famílias indigentes, a fim de reforçar incentivos para o que chamava de “restrição moral”: casamento tardio e menos filhos.

Ricardo e Malthus triunfaram com a aprovação, pelo Parlamento, da Lei de Emenda dos Pobres de 1834, que, nas palavras de John Cassidy, “aplicou os duros preceitos da economia política ao mercado de trabalho, oferecendo a muitos membros empobrecidos das classes inferiores a escolha entre morrer de fome ou ingressar nas odiadas workhouses (casas de trabalho) que Charles Dickens imortalizaria em Oliver Twist (1838)”.

Diante desse deserto moral, ergueram-se os protestos de Thomas Carlyle (1795–1881), Charles Dickens (1812–1870) e John Ruskin (1819–1900). Em seus escritos, eles ofereceram uma indignada contestação ao capitalismo bucaneiro dos economistas políticos. Carlyle denunciou a economia política do laissez-faire em obras como Chartism (1839) e Past and Present (1843).

Dickens, ex-trabalhador infantil, expôs a crueldade e a desolação espiritual do capitalismo em seus romances Oliver Twist (1838), Bleak House (“A Casa Sombria”) (1853) e Hard Times (“Tempos Difíceis”) (1854), retratando os males das prisões por dívida, da exploração infantil, da indiferença burocrática e da redução dos seres humanos a meras unidades econômicas. Dickens satirizou o ethos monetário na figura de Thomas Gradgrind, que exigia: “Apenas fatos são necessários na vida”. Em Oliver Twist, o jovem protagonista homônimo escapa por pouco da servidão sob as garras do limpador de chaminés Gamfield.

Ruskin foi um homem que mergulhou nas profundezas da alta arte de nossa civilização com uma intensidade mística. Suas riquezas espirituais eram a sua embriaguez. Em The Seven Lamps of Architecture (“As Sete Lâmpadas da Arquitetura”) (1849) e The Stones of Venice (“As Pedras de Veneza”) (1851–1853), ele celebrou a arquitetura gótica por sua vitalidade orgânica, sua habilidade artesanal e sua expressão de trabalho jubiloso, contrastando-a com a uniformidade sem alma da arquitetura industrial, aquilo que em nosso tempo é apropriadamente chamado de vertente “brutalista” da arquitetura, na qual nossas escolas, torres de condomínios e lojas se assemelham a prisões e hospitais psiquiátricos, despojados de qualquer ornamento, cascas reducionistas tão vazias quanto a humanidade moderna degradada à categoria de “consumidores”.
Em sua obra seminal Unto This Last (“A Este Último”) (1860), Ruskin opinou: “Não há riqueza senão a vida” — argumentando que as verdadeiras riquezas residem no “florescimento humano, na alegria, na beleza e no trabalho significativo, e não na busca por dinheiro”.

Pode-se responder: “Os piores excessos do capitalismo já foram todos reformados”. Ao que eu replico: o princípio subjacente permanece conosco — a nobreza da riqueza e a relativa insignificância das classes trabalhadoras e pobres — o gado humano. A suposição ridícula de que a classe dominante britânica era simpática às suas “classes inferiores” de gado humano (ingleses e escoceses brancos empobrecidos) é desmentida pelo registro histórico, que repetidamente mostra a solidariedade da classe alta deles com aristocracias e realezas “de cor” altamente estimadas em nações como a Índia, às quais eles privilegiavam em detrimento de seus próprios yeomanry (pequenos proprietários).
LIVRE INICIATIVA BÍBLICA
Carlyle alertou que uma civilização governada unicamente pelo lucro e por uma economia mecanicista destruiria o que significa ser humano. Um sistema de livre iniciativa bíblica é muito diferente. As crianças são valorizadas. O valor é criado pelo trabalho e pela invenção. Empréstimos são feitos gratuitamente, e um devedor que lucra com eles expressa voluntariamente sua gratidão pagando ao credor uma parte de sua nova prosperidade.
O marxismo e outras formas de socialismo coercitivo não podem operar, porque, sob a livre iniciativa cristã, as burocracias onerosas são vistas com suspeita, assim como o poder de coerção implícito em seu potencial papel governante. O “complexo industrial dos sem-teto” viu a Califórnia gastar bilhões de dólares para remediar a situação dos desabrigados, o que resultou em mais vagabundos nas ruas e cofres burocráticos inflados. A falta de moradia continuou a aumentar em muitas cidades da Califórnia, apesar desses grandes gastos. A cidade de Nova York gasta 44.000 dólares por aluno em suas escolas públicas. Os “gastos administrativos gerais” nesse caso são criminosamente excessivos. A porcentagem que realmente chega aos alunos é ínfima em comparação com o que é absorvido pela casta educacional, mesmo com as taxas de alfabetização e os resultados em matemática despencando. O oposto do capitalismo não é o socialismo, mas a livre iniciativa bíblica, na qual a riqueza é criada por inventores, trabalhadores e agricultores.
As campanhas para reformar o sistema bancário estão repletas de panacéias, artifícios e fraudes. Lembro-me da falsa cruzada de Hitler contra os bancos usurários nos anos 1920 e início dos anos 1930, antes de chegar ao poder. O banco J. P. Morgan, ao qual o governo britânico estava endividado em decorrência da guerra contra a Alemanha (1914–1918), começou a extrair fundos do Reichsbank alemão para pagar a dívida britânica com Morgan. O usurário “ariano” Hjalmar Schacht (1877–1970), o “mago da criação de crédito bancário”, dirigiu o Reichsbank no período de Weimar e, note bem, foi novamente colocado no poder sob Hitler, que havia feito campanha pela abolição do próprio tipo de usura em que Schacht era especialista! Esse foi um entre muitos dos mais notórios atos de traição de Hitler. Ele proibiu a usura judaica e fortaleceu a versão “ariana”. Seus admiradores têm caído nesse embuste desde então, considerando falsamente Hitler como um reformador monetário.
O despótico poder soberano do dinheiro morre quando lhe é negado o seu “oxigênio”, o aluguel do dinheiro. É aí que se encontra a vitória. Não aceite nenhum substituto para a abolição da usura.
“FILHOS DO ALTÍSSIMO”
Jesus nos deu a solução. A cristandade passou os últimos séculos fugindo de seu caminho divino e concebendo toda espécie de substituto ou modificação. Nisso não somos melhores do que Hillel. Perdemos a batalha por uma economia justa toda vez que desafiamos a economia divina e preferimos uma de nossa própria invenção.
Eis dois fatos irrefutáveis que precisam ser enfrentados: 1) Jesus disse: “Se me amais, guardai os meus mandamentos” (João 14,15). Muitas vezes por mês ouço pessoas professarem seu amor por Ele, mesmo enquanto desobedecem aos seus mandamentos; 2) Seu mandamento: “Mas, se amais os que vos amam, que recompensa tendes? Pois também os pecadores amam aos que os amam. E, se fazeis o bem aos que vos fazem o bem, que recompensa tendes? Também os pecadores fazem o mesmo. E, se emprestais àqueles de quem esperais receber, que recompensa tendes? Também os pecadores emprestam aos pecadores para receberem outro tanto. Antes, amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem nada esperar em troca; e será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo” (Lucas 6,32–35).
