APONTAMENTOS DOS PRECEITOS DA DIVINA LEI DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO (EXCERTO)
Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro (†1897)
Fonte: Apontamentos dos preceitos da divina lei de nosso senhor Jesus Cristo, para a salvação dos homens, p. 34–66. É Realizações, 2017.
Descrição: Nesta primeira prédica, de uma série de dez sobre o Decálogo, o velho Conselheiro discorre sobre o primeiro mandamento, que ordena amar a Deus acima de todas as coisas, e utiliza exemplos bíblicos, como o sacrifício de Isaac, para ilustrar a dimensão desse amor. Enfatiza que o ápice dessa entrega divina é a encarnação e morte de Jesus Cristo na cruz, interpretadas como provas supremas de um amor incondicional e gratuito para resgatar a humanidade. Através das chagas de Jesus e da abundância da graça divina, Conselheiro convida os homens a corresponderem a esse amor, abandonando o pecado.
Nota d’O Recolhedor: Como o leitor poderá atestar no trecho a seguir, tratava-se de um homem “bruto, fanático, sem nenhuma instrução”.
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Pelo peregrino Antonio Vicente Mendes Maciel, no povoado do Belo Monte, província da Bahia em 24 de maio de 1895.
1º MANDAMENTO
Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o máximo e o primeiro mandamento.
(Mateus 22,37–38)[1]
Assim respondeu o Divino Mestre a um dos Doutores da lei, estando ele ensinando no Templo. A maior parte dos homens não observa este preceito, cuja verdade não necessita de prova, e para fazê-la mais patente basta o que se observa acerca de semelhante objeto. Mas ah! Que ingratidão daqueles que assim procedem!
Até quando viverão eles na tibieza e indiferentismo, na observância do preceito Divino? Abraão, tendo um filho único, Isaac, mandando Deus que o sacrificasse, por obedecer a Deus, cujo amor excedia ao do filho, o pôs em execução: ao que Deus acudiu mandando-lhe o Anjo suspender o golpe por ter mostrado a sua fé, amor e nos dar exemplo.[2] Deus em todos os seus benefícios, diz o cardeal Hugo,[3] tinha a Jesus em reserva, até que chegou o tempo da graça; Ele o enviou para dar o último golpe e ferir de amor os corações dos homens. Na antiga lei podia o homem duvidar se Deus o amava com ternura: mas depois de o ter visto derramar o seu Sangue num suplício e morrer, como podemos duvidar se nos ama com toda ternura do seu coração? Ó homem, diz São João Crisóstomo, por que motivo és tão avarento e dás o teu amor com tanta reserva a este Deus que se há dado a ti sem partilha? Também a Santa Igreja exclama, no transporte da sua admiração: Oh, maravilhosa condescendência de vossa ternura! Para resgatar o escravo, entregastes o Filho! Ó Deus infinito! Como pudestes usar conosco de ternura tão amável! Quem poderá jamais compreender o excesso desse amor, pelo qual, para resgatar o escravo, quisestes dar vosso Filho Unigênito? Deus nos deu seu próprio Filho, e por que motivo? Unicamente por amor. Pilatos, por um temor mundano, entregou Jesus aos judeus.[4]
Oh! Rasgo incomparável de caridade![5]
Mas o Eterno Pai deu-nos seu Filho pelo amor que nos tem. São Tomás diz que entre os dons o amor é o primeiro. Quando se nos dá qualquer cousa, o primeiro dom que recebemos é o amor que o dador nos ofereceu no objeto que dá; porque, segundo a reflexão do Doutor Angélico, a única razão de toda dádiva gratuita é o amor: quando a dádiva tem um motivo diverso do amor, cessa de ser uma verdadeira dádiva. Ora, o dom que o Eterno Pai nos fez de seu Filho foi um verdadeiro dom inteiramente gratuito e sem merecimento algum da nossa parte; é por isso que se diz que a Encarnação do Verbo teve lugar pela operação do Espírito Santo, isto é, unicamente pelo amor, como se exprime o mesmo doutor. Ide, dizia o Profeta Isaías, ide publicar por toda parte as invenções do amor do nosso Deus para se fazer amor dos homens.[6] E que invenções não achou o amor de Jesus para se fazer amor de nós?
Sobre a Cruz Ele quis abrir-nos em suas sagradas chagas tantas fontes de graças que para as receber basta pedi-las com confiança; e, não contente com isso, Ele quis dar-se todo a nós no Santíssimo Sacramento. Jesus Cristo anunciou que logo que fosse elevado sobre a Cruz, atrairia por seus merecimentos, por seu exemplo e por força de seu amor, o afeto de todas as almas,[7] segundo o comentário de Cornélio a Lápide.[8]
São Pedro Damião escreve o mesmo: apenas o Senhor foi suspenso na Cruz, Ele atraiu tudo a si por laços de amor. Quem, pois, acrescenta Cornélio, não amará a Jesus que morre por nosso amor? Vede, ó almas resgatadas, nos diz a Igreja, vede o vosso Redentor sobre esta Cruz, onde tudo n’Ele respira o amor, e vos convida a amá-lo; com a cabeça inclinada para nos dar o beijo da paz, os braços abertos para nos abraçar e o coração aberto para nos amar. Ó Bom Jesus, que fazendo tantos prodígios de amor, não pode ainda ganhar os nossos corações? Como, depois de nos haver amado tanto, não chegou ainda a fazer-se amar por nós? Ah! Se todos os homens pensassem no amor que Jesus Cristo nos testemunhou morrendo por nós, quem deixaria de amá-lo? As chagas de Jesus, diz São Boaventura, são todas chagas de amor; são setas, são chamas que ferem os corações mais duros e abrasam as almas mais frias. E que belas chamas de caridade não tem Ele abrasado um tão grande número de almas especialmente pelos sofrimentos que Ele quis suportar na sua morte a fim de nos mostrar a imensidade do seu amor para conosco? Oh, quantos corações felizes nas chagas de Jesus, como em fornalhas ardentes, se têm desta sorte penetrado do fogo do seu amor que não recusarão consagrar-lhe nem os bens, nem a vida, nem eles mesmos todos inteiros; vencendo com generoso valor todas as dificuldades que encontravam na observância da Divina Lei, por amor deste Senhor que, sendo Deus, quis sofrer tanto por seu amor! Tal é também o conselho que nos dá o Apóstolo,[9] não somente para não desfalecermos, mas ainda para corrermos com ligeireza no caminho do Céu. É por isso que, nos transportes do seu amor, Santo Agostinho, de pé em presença de Jesus coberto de Chagas e pregado na Cruz, fazia esta terna oração: “Gravai, dizia ele, ó meu amabilíssimo Salvador! Gravai no meu coração todas as vossas chagas, a fim de que n’Elas eu leia sempre a vossa dor e o vosso amor. Sim, assim seja para que tendo diante dos olhos a grande dor que tendes sofrido por mim, eu sofra em paz todas as penas que me acontecerem e que à vista do amor que me tendes mostrado na Cruz eu não ame nem possa amar outra cousa mais que a Vós”. Como poderíamos jamais esperar perdão, se Jesus, por meio do seu sangue e sua morte, não houver satisfeito por nós à Divina Justiça? Ah! meu Jesus, se vós não houvésseis achado este meio de nos obter o perdão, quem teria jamais podido achá-lo? Davi tinha razão de exclamar: Publicai, ó Bem-Aventurados, os segredos que o amor de nosso Deus tem achado para nos salvar! As chagas de Jesus são as ditosas origens donde podemos receber todas as graças se as buscarmos com fé. E uma fonte sairá da casa do Senhor, e ela inundará a torrente onde não cresciam senão espinhos.[10]

A morte de Jesus é precisamente, diz Isaías, esta fonte prometida que inundou nossas almas nas águas da graça e que por sua virtude poderosa há convertido os espinhos do pecado em flores e frutos de vida eterna.[11] Quanto somos devedores ao Bom Jesus, que voluntariamente se ofereceu por nossos pecados a seu Eterno Pai livrando-nos assim das penas eternas, e vendo que já estava escrita a sentença dada contra nós por causa dos nossos pecados, que fez o Amável Redentor? Expiou por sua Morte a pena que merecíamos: e apagando com seu Sangue a ata da nossa condenação, para que a Divina Justiça não tivesse mais a exigir de nós a satisfação de que lhe éramos devedores: Ele próprio a uniu à Cruz sobre que morreu.[12]
Para cativar o nosso afeto Ele quis dar-nos as mais extraordinárias provas de amor. Oh! Prodígio, oh, excesso de amor, digno somente de uma bondade infinita. Ah! Que maior amor podia Deus mostrar-nos depois de condenar à morte seu Filho inocente para salvar miseráveis pecadores como nós? Se o Eterno Pai fosse vítima de sofrimentos, que pena teria experimentado quando se viu de alguma sorte obrigado pela justiça a condenar este Filho, a quem ama tanto como a si mesmo, a morrer de uma morte tão cruel e ignominiosa? Ele quis que expirasse no meio de tormentas e de agonias, diz Isaías: Imaginai, pois, que vendo o Padre Eterno com seu Filho morto nos braços, dizendo-nos: Homens, este é meu Filho bem-amado, em quem tenho posto todas as minhas complacências. Eis aqui o estado a que eu o quis ver reduzido por causa de vossas iniquidades. Eis aqui de que modo o condenei a morrer numa Cruz, mergulhado em aflições abandonado de mim mesmo que o amo tão ternamente. Tenho feito tudo isto para obter o vosso amor. Há cristãos que correspondem tão ingratamente aos benefícios de Deus; os fatos demonstram que eles vivem como cegos. Como podem ter confiança na divina misericórdia, vivendo eles no pecado? Não devem terminar em semelhante carreira, a mais triste que é impossível imaginar a compreensão humana!
Sim, ainda querem viver em trevas, sendo que o pecado vos separa da verdadeira luz? A vontade de Deus é que todos se salvem, que ninguém se perca.[13] Mas é necessário que, compreendendo bem a sua divina vontade, tratem de deixar o pecado.
São Lucas afirma que Jesus Cristo nos alcançou mais bem por sua morte do que o demônio nos fez mal pelo pecado de Adão. E isto que diz claramente o Apóstolo aos Romanos: Non sicut delictum, ita et donum; ubi autem abundavit delictum, superabundavit gratia (Rm 5).[14] Não foi tão grande o pecado como o benefício; onde abundou o pecado superabundou a graça. O cardeal Hugo exprime assim estas palavras: a graça de Jesus Cristo pode mais que o pecado. Não há comparação diz o Apóstolo, entre o pecado do homem e o benefício que Deus nos fez dando-nos a Jesus Cristo.
Grande foi o pecado de Adão, mas bem maior foi a graça que Jesus Cristo nos mereceu por sua Paixão. Eu vim ao mundo, diz claramente o Salvador, para que os homens mortos pelo pecado recebam por mim não somente a vida da graça, mas uma vida mais abundante do que a que tinham perdido pelo pecado. É por isto que a Santa Igreja, nos transportes da sua alegria, chama feliz a culpa que nos mereceu termos um Redentor. Santo Tomás diz que Jesus Cristo quis sofrer uma dor tão grande que fosse capaz de satisfazer por todas as penas que mereciam temporalmente todos os pecados de todos os homens. E São Boaventura exprime assim estas palavras: “Se, pois, ó meu Jesus, vós que sois um Deus Todo-Poderoso, sois também meu Salvador, como posso eu temer o condenar-me? Se quanto ao passado vos tenho ofendido, eu me arrependo de todo o coração. De hoje em diante quero servir-vos, obedecer-vos e amar-vos. Eu espero firmemente que Vós, ó meu Redentor, que tanto tendes feito e sofrido por minha salvação, não me recusareis alguma das graças que me sejam necessárias para me salvar”.
À vista destas verdades, como pode temer a condenação eterna aquele que abandona o pecado? Demonstrada, como se acha, a realidade desta proposição, é evidente que aqueles que vivem no pecado devem abandoná-lo. Deus usará de sua infinita bondade e misericórdia para com eles, visto como deseja que ninguém se perca.
[1] Efetivamente estamos em Mateus 22,37–38: Diliges Dominum Deum tuum ex toto corde tuo, ex tota anima tua, et in tota mente tua. Hoc est maximum, et primum mandatum (“Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o máximo, e o primeiro mandamento”).
[2] Veja Gn 22,1–19.
[3] Provavelmente se trata aqui do dominicano Hugo de Santo Caro (c. 1190–1263), a quem se costuma atribuir a divisão da Bíblia em capítulos. Foi autor de vários comentários e concordâncias bíblicas, tendo sido professor da Universidade de Paris. Figuras tão distintas como Afonso Maria de Ligório e Antonio Vieira citam frases do cardeal Hugo em alguns de seus sermões.
[4] Sobre o medo de Pilatos, veja João 19,11.
[5] Esta frase, que ocupa, só ela, a última linha da p. 5, aparece antecedida de um sinal, e a diferença nítida na caligrafia sugere ter sido incluída posteriormente. No manuscrito de 1897 (p. 227 / p. 115) ela aparece em meio ao texto, entre as expressões “(…) condescendência de vossa ternura” e “Para resgatar o escravo (…)”. Antonio Vicente Mendes Maciel, Tempestades que se Levantam no Coração de Maria por Ocasião do Mistério da Anunciação. Caderno manuscrito, Belo Monte, 1897, p. 227. Editado em Ataliba Nogueira, António Conselbeiro e Canudos: Revisão Histórica, 3 ed. São Paulo, Atlas, 1997, p. 115). Nas próximas notas de teor semelhante indicarei apenas as duas páginas em questão, nesta ordem: aquela das Tempestades… e a da referida edição de Ataliba, separadas pelo sinal /.
[6] A base mais próxima a essa formulação característica se encontra em Isaías 12,4: Confitemini Domino, et invocate nomen ejus: notas facite in populis adinventiones ejus: mementote quoniam excelsum est nomen ejus (“Louvai ao Senhor, e invocai o seu Nome: fazei notórios entre os Povos os seus desígnios: lembrai-vos que seu nome é excelso”).
[7] Veja João 12,32: Et ego si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad me ipsum (“E quando eu for levantado da terra, todas as cousas atrairei a mim mesmo”).
[8] Teólogo holandês, jesuíta, viveu entre 1567 e 1637. Foi professor em Lovaina e, posteriormente, em Roma. Escreveu comentários a quase todos os livros bíblicos, tratando de recolher neles a exegese de seu tempo, insistindo no valor do sentido literal do texto (Jean-Robert Armoghate, “Étudier”. In: Jean-Robert Armoghate (ed.), Le Grand Siècle et la Bible. Paris, Beauchesne, 1989, p. 29–31).
[9] Trata-se de Paulo de Tarso. A passagem bíblica ao qual o texto se refere é Filipenses 3,12–21.
[10] Veja Joel 3,18: et fons de domo Domini egredietur, et irrigabit torrentem spinarum (“e da Casa do Senhor saírá uma fonte, que regará a torrente dos espinhos”).
[11] Veja Isaías 12,3: Haurietis aquas in Gaudio de fontibus salvatoris (“Vós tirareis com gosto aguas das fontes do Salvador”).
[12] Veja Colossenses 2,14: delens quod adversus nos erat chirographum decreti, quod erat contrarium nobis, et ipsum tulit de medio, affigens illud cruci (“cancelando a cédula do decreto que havia contra nós, a qual nos era contrária, e a aboliu inteiramente, encravando-a na Cruz”).
[13] Veja 2 Pedro 3,9: nolens [Dominus] aliquos perire, sed omnes ad poenitentiam revert (“Não querendo [o Senhor] que algum pereça, senão que todos se convertam à penitência”).
[14] Trata-se do que se lê em Romanos 5,15: non sicut delictum, ita et donum (…) Ubi autem abundavit delictum, superabundavit gratia (“não é assim o dom, como o pecado. (…) Mas onde abundou o pecado, superabundou a graça”).
