MOUSIKÉ PAIDEIA
Carlos Alberto Disandro (†1994)
Fonte: Iter, 1, Paideia y Humanitas, p. 151–158. UMCE, 1989.
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: O texto delineia o percurso histórico da mousiké paideia grega e seu trasfego pela cultura coral e pelo cantochão medievais. Demonstra como esse saber fundamentado no primado ontológico do “ouvido” e das Musas articulou a teologia dos Padres e a própria cristandade. Contrasta essa sabedoria ingravitacional e semântica com o esgotamento mecanicista da ciência gravitacional, moderna e tecnocrática. Propõe, diante do caos e do ruído contemporâneos, uma restauração pedagógica e humanística da disciplina coral. E conclui afirmando a necessidade de uma operatio aesthetica viva para reatualizar a concórdia espiritual e vencer o destino trágico da nossa época.
Nota d’O Recolhedor: Tradução dedicada a uma assídua leitora nossa, a dona do perfil “Mulheres Prudentes”.
_______________

1
Três faixas temáticas conviria delimitar: 1) o que foi a mousiké paideia helênica; 2) como ela foi trasfegada ao longo dos séculos de uma cultura de raiz greco-latino-germânica; 3) que pano de fundo pode ser recuperado nas tempestades semânticas hodiernas. De cada faixa, certamente, só podemos esboçar, mais do que uma figura completa, uma delicada paisagem fugidia, uma música, valha a palavra, para refrescar no ouvido a perene audição das Musas homófonas, fundadoras da arte e do saber gregos. E, sem nos darmos conta, já estamos na primeira curva desse quadro misterioso, contra a escuridão tempestuosa de séculos e acontecimentos inumeráveis que definem, ao que parece, o conteúdo concreto dos tempos, das épocas, das centúrias e dos anos. Pois a mousiké paideia pressupõe, pelo epíteto grego na frase grega, o centro semântico de onde devemos partir, a saber, o reino das Musas. Mas este é, para o grego, o reino do ouvido, plenificado no canto, isto é, no som melódico e semântico, que, sendo o mistério irrecusável do homem, é também o gozo do esplendor divino, o qual se recolhe a si mesmo na “música”, neste sentido específico grego. Paideia, portanto, despojada do epíteto, torna a ser uma conduta equívoca, físico-biológica — tal como a propõe Demócrito — ou como se depreende do primeiro estásimo da Antígona, de Sófocles.
Duas notas importantes se ajustam aqui: na expressão grega mousiké paideia, a relação entre a geração humana dos paides e a geração divina olímpica e helicônica só é possível por meio das Musas. Na tradição latina e latino-românica, latino-germânica, o adjetivo “musical” adquire autonomia segundo uma linha semântica bastante tardia, talvez a partir do século XIV, ou bem antes, muito antes, se recuarmos ao estímulo semântico originário, no latim de Cícero e de Santo Agostinho.
Mas, em todo caso, descreve uma curva impressionante, que deixamos antes no obscuro pano de fundo do quadro evanescente que imaginei e nas exigências das mudanças semânticas, que dizem respeito ao destino ulterior da cultura grega.
Mas a mousiké paideia, por sua vez, tem uma culminação intra-helênica, intra-semântica, que cumpre o seu trasfego até o confronto com o romanismo helenístico: refiro-me à cultura coral, com seu duplo recurso, o coro lírico e o coro trágico. E, evidentemente, adensamos inevitavelmente, com esses limites, as perspectivas que pareciam antes bastante simplificadas em nossos primeiros esboços descritivos. Os “rebentos” humanos que convivem com o vigor biogenético do cosmos incomensurável, não podendo deificar-se, sê-lo-ão pelo canto homófono, sem o qual não há transposição das virtudes olímpicas para as cidades dos homens.
É frequente ler e ouvir que o orbe grego foi o da relação de todas as artes. E isso é verdade, mas não a verdade primeira, a proto-alétheia desveladora que nos subtrai à sombra telúrica para nos instalar na claridade linguística do canto. Pois o canto unificante não é somente uma relação estética operativa, mas uma irradiação semântica que tem sua origem divina, um órgão divino, uma efusão divina, para os homens que cessam de ser ventres.
A primeira faixa suscita, pois, e dimensiona a mousiké paideia pelo ser teogônico das Musas e por sua emergência no desdobramento da cultura coral helênica, que culmina e coroa a poesia e o canto aédicos: nele trasfega o passado ancestral das estirpes e regenera-se o ritmo cosmogônico que é, para os gregos, a theia dynamis no contexto da cidade, nas figuras do mito, no esplendor das obras hefésticas, heráclias e poéticas.
A segunda faixa corresponde ao trasfego pelo fim da Antiguidade e pelos fundamentos latinos e gregorianos do mousikós anér da Idade Média, sem o que esta tampouco pode ser compreendida cabalmente. Dou como exemplo o admirável livro de Gustave Cohen, com seu belo título: La Grande Clarté du Moyen Age (“A grande claridade da Idade Média”), 1ª ed., Gallimard, Paris, 1945. Em vão procuraríamos em suas páginas o “reino do ouvido”, a regência das Musas, o esplendente mistério do coro uníssono até inclusive o século XIII. Mas a referência importa para completar, com uma cautela precisa, a “clarté”, testemunhada por uma erudição de medievalista convencido do silêncio da pedra gótica e do esplendor feminino sem a música. Não. Devemos recolher os fios sutis do mousikós anér como experiência da mousiké paideia, como pedagogia do canto e do som semântico uníssono, em um latim sobrecarregado de grávidas tensões generativas que tem seu ciclo, como uma mulher grávida para dar à luz o cosmos inteiro num menininho, a música inteira no Gloria que ele entoará, a cultura inteira numa cidade que o acolhe precisamente segundo a paideia ancestral e divina. E tais contrafortes erguem-se etéreos; a Idade Média pressupõe e consolida uma cultura coral, de vastas projeções civilizadoras e espirituais até os tempos hodiernos. Convém acrescentar, para evitar confusões e mal-entendidos, que tais dimensões são independentes da Fé, tanto quanto no mundo grego a cultura coral dórica era independente do mito grego. Mas, assim como a extinção do mito grego acarretou a caducidade do coro trágico, a caducidade da Fé, em sua constelação medieval, implicou a perecimento da cultura coral uníssona e o advento de outros espaços para a mousiké paideia que ninguém desconhece nem pode desconhecer. Trata-se somente de um reconhecimento preciso e de uma distinção objetiva.
A terceira faixa, enfim, que nos ocupará com maior empenho rememorativo, em razão dos fastos que comemoramos e que se consumam, ainda que em prosa, segundo este carmen saeculare que tento preludiar com a lira dos antigos, sem afastar meus olhos da série fenomênica moderna e contemporânea. Mas aqui estamos no território da ciência gravitacional, das mensurações fenomênicas, quantitativas e computadorizadas, pós-cartesianas e pós-newtonianas, e alguém poderia perguntar-se, com certa dose de ironia: “O que têm as Musas a ver com isso, meu caro professor?”. Creio que nesta pergunta residem todas as angústias e tensões pedagógicas que oprimem esse fantasma multívoco chamado “mundo moderno”.
Eis aí uma questão de herança e de transposição, mas também uma questão fundante, para a mente humanística e pedagógica, de traços criadores, que me apraz sublinhar neste carmen saeculare, tão curioso e certamente tão questionável. Pois não se deve abandonar nada, nem por seleção arbitrária, nem por unilateralidade. Entretanto, é necessário preparar os jovens na concórdia semântica, codificada como uma linguagem includente da totalidade cósmico-antrópica. E isso é a universitas, a holotes grega, vigente no coro de Píndaro ou de Ésquilo, de uma missa gregoriana ou de uma cantata de Bach. Muito mais do que na lógica de Bacon ou no horizonte analítico-biológico de Jacques Monod. Muito antes da Sorbonne, de Galileu, Descartes ou Newton.
Voltemos, pois, a repassar o ciclo das três instâncias: a existência grega segundo as Musas homófonas; o trasfego milenar, em particular pelo coro uníssono medieval; e, finalmente, a ciência analítica gravitacional, na qual pretendo inserir um saber ingravitacional, que habita no ouvido. Pois a universitas que nos congrega é no hoje tempestuoso espaço das Musas homófonas em um duplo sentido: no saber da universitas rerum (o que corresponde ao plano cosmogônico) e no trasfego de seu ritmo paidêutico (o que corresponde à universitas hominum, isto é, ao plano teogônico). Ou, se preferirem definir tudo com um termo atenuado pelas eras, convulsionadas pelo homem em busca do homem: o seu ritmo pedagógico.
2
Ao repassar, pois, o ciclo, devemos resgatar o significado pitagórico do ouvido, que atua como templum e enérgeia fundante desde as eras antigas até o século XVI; e, a partir desse século, por um caminho de katábasis, previsto por muitos engenhos, recolheu suas asas, e o canto tendeu a minimizar-se e desaparecer. Esse significado pitagórico é, naturalmente, ativo/passivo, e os antigos desdobraram, por razões semânticas complexas próprias das línguas flexionais, ambas as ressonâncias.[1] A marca promotora ou ativa já se destaca, segundo Friedrich Schlegel, no sistema de combinatória musical de sufixos, prefixos, raízes, apofonias e mutações vocálicas, sistema que Franz Bopp organizou segundo um princípio mecanicista planetário, reducionista.
As Musas, a mousiké paideia, desdobram-se e alimentam-se do canto e da fala: no primeiro, a palavra retorna à sua fonte rítmica absoluta; na segunda, o som semântico acolhe a natura rerum, explora-a, insume-a como poder intracosmogônico, o que se verifica no aedo, no rapsodo e, portanto, em Homero. Mas o coro, a existência coral, implica a concentração cosmogônica nas raízes teogônicas e, por conseguinte, uma experiência da arkhé absoluta, para além das circunstâncias humanas.
O modelo passivo é a recepção interiorizada, pela qual o homem se faz “ouvido”. Essa dispensação converte-se no apotegma cristão Fides ex auditu, se recapitulamos em Fides a explicação legada por São Máximo, o Confessor, segundo a qual Fides é uma articulação na e da perikhóresis intradivina. Os helenos arcaicos e clássicos viram no ser e na função da Musa a expressão filogenética das imagens mundanas, transmundanas e mentais. As Musas atuam, pois, como topos absoluto de todas as combinatórias semânticas e, por conseguinte, também ônticas. Os greco-cristãos reduziram essa semântica à dimensão do Logos enanthropesanta kai sarkothenta (inhumanatum et incarnatum), como diz o credo niceno: o Logos Humanado, para o qual o ouvido é Princípio de Fundação inteligível. E, por isso “funda” a ekklesía, na qual o “ouvido” desdobra o chamado, o som proclamante, a união da deidade e da semântica, a união da semântica e da Vida Divina e, por conseguinte, a união da deidade e da humanidade. Por isso, Orígenes recapitula, em três contextos, o Mysterium Agapístico, mistério musical, decerto: a encarnação pessoal de Cristo; a encarnação dos signos sacramentais ou mistéricos; e a encarnação semântica do som linguístico. A mousiké paideia desvela, com isso, novos panos de fundo, que se desvinculam do teogônico-cosmogônico para aceder ao reino da intimidade Divina, ao reino da Theanthropía Celeste, como dizem os Padres Gregos.
Há, pois, uma continuidade genética entre a mousiké paideia de Hesíodo, Píndaro e Ésquilo e a Teologia dos Padres, que conceberam a Fé como o “Ouvido” absoluto. Daí se conclui uma sentença recapitulatória e esclarecedora: são a música e a semântica que “fundam” o ouvido biológico intramundano, o aparelho auricular, como aquiescência da physis filogenética e ontogenética à mousiké paideia das origens absolutas. Pois a mousiké paideia, sobrelevando o argumento, é a reassunção do terrígeno pela Musa, do pais da terra no seio de uma combinatória do sensus combinatório, musical e significante, como querem Hölderlin e Schiller em grandiosos poemas que, em pleno racionalismo do século XVIII, reivindicam a natureza “musical” do homem e, por conseguinte, o império do “ouvido”.
Essa mousiké paideia teve, como sabemos, complexas expressões desde o fim do período homérico até a extinção do mundo grego e sua confluência com o Evangelho. Quero apenas recordar novamente, como em um ricorso temático, a pedagogia coral da cidade grega, culminante no coro lírico de Píndaro e no coro trágico de Ésquilo. Não de outros panos de fundo nasceram os esplendores marmóreos, o domínio da matéria obscura e inerte pela mão grega. Pois da claridade semântica adveio a configuração dos deuses e, desta, a configuração de toda matéria bruta, inábil senão para cair sob o peso gravitacional, marcada pela opacidade e pela treva diante da luz.
Mas também a mousiké paideia conecta-se com o pitagorismo arcaico e, por meio deste, com toda a Antiguidade heleno-latina e heleno-cristã ou latino-cristã. E, quanto a esta última — e para compreender o âmbito dessa paideia beatífica —, basta recordar o livro de Henri-Irénée Marrou, Μουσικός ἀνήρ: Étude sur les scènes de la vie intellectuelle figurant sur les monuments funéraires romains (“Mousikós anér: Estudo sobre as cenas da vida intelectual figuradas nos monumentos funerários romanos”) (Grenoble, 1938), que estuda cenas de imortalidade ou beatitude em monumentos da época romana e sua perduração pós-imperial, até chegar aos anjos músicos que povoam a plástica medieval e a pintura do Trecento e do Quattrocento. A mousiké paideia é uma consciência de imortalidade e beatitude, coroada pela música e pelo canto.
Curiosamente, Gustave Cohen, em seu livro já citado, encerra a Introduction (p. 11–19) com esta afirmação: “Une philosophie fondée sur la révélation et reconnaissant, comme maître inspirateur, un philosophe, Aristote, qui en a été exclu; une culture fondée sur la foi et qui avoue, comme maîtres et éducateurs, des écrivains antiques qui en ont été privés, tel est le grand paradoxe de la culture médiévale” (“Uma filosofia fundada na revelação e reconhecendo, como mestre inspirador, um filósofo, Aristóteles, que dela foi excluído; uma cultura fundada na fé e que reconhece, como mestres e educadores, escritores antigos que dela foram privados, tal é o grande paradoxo da cultura medieval” (p. 18–19). Mas, se existe ou ocorre tal grand paradoxe, ele se anula na mousiké paideia que se trasfega pelas origens e culminações medievais, até os panos de fundo da polyphonía clássica. Mais do que Aristóteles, é a cultura coral helênica que reaparece na Idade Média, pitagórica e musical, como o atesta a potência conformadora do cantochão. Sem a música do latim e sem o latim mistérico, embebido da música, não é concebível România nem as línguas românicas.
Mas as origens da polyphonía clássica comportam, por sua vez, o vínculo generativo do mundo moderno, que se desmembra das Musas homófonas pitagóricas; ali começa o fim da Idade Média e nasce o universo da razão analítica, em cujas consequências nos encontramos.
3
O retrospecto muito sumário que nos desembarca nas constâncias atuais vale como um lampejo do passado. Agora não existe a educação pela mousiké paideia. Tem algum sentido, pois, evocá-la? Há alguma via de reassunção de seus panos de fundo? Com isso, enfrentaríamos a terceira faixa temática: não as origens nem o trasfego, mas a reassunção pedagógica na universidade. Naturalmente, se enfrentamos não o panorama recapitulatório nos paides, mas o estreito e estrito âmbito da universitas magistrorum et studentium. Pois as catástrofes históricas deste século — às vezes pareadas com as horas sombrias dos que o precederam — parecem clamar por uma magna instauratio pedagógica, decerto não desmembrada da nobre tarefa da universidade.
Tal seria a situação sucintamente perfilada. Não podemos enfrentar resoluções holísticas, isto é, totais, mas podemos iniciar ou reiniciar navegações exploratórias, orientadoras ou fundantes. É isso que ocorre quanto à paideia coral na universidade. Devemos concebê-la como um périplo formativo da vontade, isto é, disciplina; do gosto, isto é, estética; do ouvido, isto é, o homem que se ergue para ouvir e ser ouvido no “reino do ruído”, que é o reino infernal da contramúsica. Isso já foi advertido por um grande poeta moderno. Refiro-me a Rilke e a seus Sonetos a Orfeu (1922), I, 18, que principia: Hörst du das Neue, Herr, / dröhnen und beben? (“Ouves tu o Novo, Senhor, / rugir e tremer?”).
Disciplina da vontade executiva no coro; gosto trasfegado pelas concórdias sonoras; enfim, homem do “ouvido”, isto é, por se tratar do coro, do som semântico uníssono e homófono, conformam a superior transcendência física e pitagórica, sem a qual o mundo moderno não tem saída alguma do caos. Os três parâmetros constituem, a meu ver, condições inescusáveis para emergir da catástrofe do ódio e da insipiência — uma das normas do mundo chamado “moderno” —, juntamente com a soberba de uma ciência predatória e de um homem criado nas fantasmagorias dos recursos “ideológicos” e “tecnocráticos”. Nada é negado; escolhe-se. Não é o consolo do abandono indiferente, mas o ato estético de começar ou recomeçar a partitura do homem por outros arredores, negligenciados na tablatura do racionalismo pós-cartesiano.
Pois, em definitivo, a mousiké paideia, que derivo de suas fontes e de seu trasfego, é remanso do ar e do fogo ingravitacional, para devolver aos jovens a inteligência sutil que nem sempre coincide com a ciência gravitacional dos dispensadores e das dispensações modernas. No universo da gravidade, estas últimas obsediam a busca do ingravitacional — aquilo que chamei de inteligência sutil — ou a desviam por caminhos equívocos e funestos da potência contrastante. Ao contrário, a mousiké paideia, ciência do ouvido que regenera o mundo e reencontra na categoria da relação o nó e o tecido da cultura, hoje questionada pelas tensões aquerônticas, é uma ciência livre do fenômeno bruto e opaco. Insisto: não se trata de negar nada, mas de escolher com consciente disponibilidade livre. Mas escolher para a obra do espírito é o supremo ato estético-ético, uma das raízes de toda cultura animi. Nela também se enraíza o saber universitário; este não pode nem omitir nem cancelar essa ciência — a mousiké paideia — que reinstala a hermenêutica ígnea ingravitacional mediante a experiência da vida artística.
Com efeito, despertar nos jovens a emoção geradora da vida plenificante é precisamente a intenção de todo classicismo e de todo humanismo. É também repetir, ou recuperar, ou reatualizar a existência hiperbórea descrita por Píndaro, o mestre da mousiké paideia na Hélade arcaica, o hábil regisseur da cultura coral:
A Musa não é estranha nos ritos hiperbóreos; por toda parte
coros de virgens, ressonâncias da lira
e estridências de flauta se acompanham;
as cabeleiras, coroadas por louros de ouro,
para consagrar-se aos festins.
(Pítica X).
Para essa raça sagrada, não se misturam nem as doenças nem a velhice consumptiva. Seguir, pois, “o maravilhoso caminho que leva aos hiperbóreos”: essa seria a suprema exaltação do canto coral, trasfegada até o presente conflituoso.
Convém, portanto, não apenas rememorar a mousiké paideia, mas renová-la, investi-la no ato estético com que culmina um saber universitário, forçosamente humanístico, se quisermos trasfegar em direção a uma era da concórdia, a uma era homófona. Pois são inúteis os discursos e as exortações éticas sobre a paz, se não existe a operatio aesthetica que a instaura, consolida e sublima. Atravessar essas dificuldades e sombrias previsões catastróficas é nosso destino epocal irremovível; transcendê-las e vencê-las é, ao contrário, o acento de nosso empenho e o apelo de nossa façanha epocal, heráclia e americana. Também obra da mousiké paideia, em um mundo cruel e selvagem. Ela, certamente, não será possível sem o canto beatífico, lírico e transfigurante, capaz de domar essas prevenções e essa crueldade em suas raízes cosmogônicas. Tal é a existência operativa das Musas homófonas no presente desconcertado e trágico.
Dr. Carlos Disandro
Ex-professor, Universidad de la Plata, Argentina
Professor extraordinário, Universidad Católica de Valparaíso, Chile
[1] Cf. Fernand Brunner et al., Vom Wesen der Sprache (Kulturhistorische Vorlesung, Universität Bern, 1967).
