O VALOR SOCIAL DA VIDA CONTEMPLATIVA
Padre Jean Guibert, S.S. (†1914)
Fonte: La valeur sociale de la vie contemplative. Montréal: La Cie Cadiuex & Derome, 1906.
Tradutor do texto: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: O ensaio analisa a crise moderna da vida contemplativa, a qual é frequentemente desprezada por visões utilitaristas que priorizam a ação social. O autor rebate essa crítica ao defender que a oração e a penitência possuem um valor social profundo e insubstituível. Apoiando-se na teologia do corpo místico e da comunhão dos santos, ele demonstra que a elevação espiritual do indivíduo fortalece e nutre todo o organismo social. Por fim, exorta todos os fiéis, clérigos e leigos, a reconhecerem a eficácia apostólica da contemplação.
Nota d’O Recolhedor: Como complemento, recomendamos o conjunto de artigos de Carlos Alberto Disandro.
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I
Há atualmente uma crise da vida contemplativa. Essa vida de união com Deus na oração oculta e de imolação de si mesmo, pelo sacrifício obscuro, já não é honrada como no passado.
Dois fatos, por sinal inquietantes, dão prova disso.
O primeiro é a diminuição progressiva das vocações contemplativas. Os claustros têm dificuldade para se recrutar: um grande número deles encontra-se em situação de penúria. Sua população já não provém dos mesmos meios sociais de outrora: pessoas de condição comum e de cultura apenas mediana são mais facilmente admitidas. E quantos obstáculos não é necessário vencer antes de transpor o limiar dessas austeras casas! Se sempre foi necessário resignar-se a dolorosas lacerações do coração para nelas entrar, ao menos não havia, até estes últimos tempos, que refutar argumentos de ordem intelectual que se apresentam como motivos muito sólidos de oposição. Assim, veem-se até mesmo influências religiosas erguendo barreiras no caminho dos conventos onde a pessoa se entrega à contemplação.
O segundo fato é a facilidade com que os cristãos, mesmo entre os mais apostólicos, deixam de lado os exercícios de piedade e de penitência, isto é, a parcela de vida contemplativa que comporta a sua existência consagrada à ação. Essa negligência supõe neles um menosprezo, irrefletido mas real, da oração e do sacrifício. Agitando-se, eles pensam trabalhar pela salvação das almas de modo mais útil do que pela oração e pela imolação. Se lhes sobrasse tempo, rezariam de bom grado; se houvesse neles um excedente de forças, praticariam de bom grado a mortificação. Mas lhes faltam tempo e forças; a fim de economizá-los para as almas, roubam da oração e da mortificação. Tal é, ao menos, o cálculo dos melhores; pois aqui não se trata dos fracos, que se negligenciam por simples falta de vontade.
Mal é necessário assinalar os graves danos que, para a Igreja, resultarão dessa tendência.
Os mosteiros, lentamente, ficarão vazios. Por falta de vocações, veremos extinguir-se esses ardentes focos de vida religiosa, onde almas escolhidas, por meio de imolações livremente consentidas, purificavam-se e se consumiam nas chamas do amor divino. A Igreja perderá assim suas jóias mais preciosas, as instituições mais comoventes de sua história, a prova mais tangível da força moral do cristianismo. Do horizonte humano terá desaparecido o grande exemplo da abnegação levada até o heroísmo.
Ao mesmo tempo que a oração se calará nos claustros, ela tornar-se-á mais rara e menos fervorosa nos lábios dos fiéis; pois, se aqueles que davam o tom da suplicação já não estiverem presentes, como se fará o uníssono das vozes, que produzirá o arrebatamento dos corações? Do mesmo modo, se já não tivermos diante dos olhos o espetáculo da mortificação praticada sem piedade, quem deterá nossos egoísmos na busca dos prazeres nos quais nossa vida moral naufraga? Ora, um cristianismo sem orações e sem sacrifícios já não seria o cristianismo do Evangelho: supondo que o culto exterior ainda permanecesse, não seria mais que um paganismo, pois estaria sem ação sobre a vida. Uma sociedade religiosa na qual já não se rezasse e na qual já não se praticasse a mortificação deixaria em breve de ser viva, uma vez que lhe seriam retirados os alimentos que, sozinhos, podem fazê-la subsistir.
O desprezo pela vida contemplativa, isto é, pela oração e pela imolação de si mesmo, vai, portanto, muito além da supressão dos claustros; ele acabaria, se ganhasse consistência, na própria destruição do cristianismo. Enquanto as perseguições, atingindo-o por fora, só podem despertá-lo de sua letargia, esse mal interior, corroendo-o por dentro, primeiro o enfraqueceria e, finalmente, o mataria.
Causas muito complexas criaram, nas almas modernas, esse menosprezo pela vida contemplativa. O claustro é temido porque ergue altos muros diante da curiosidade, porque submete os sentidos a austeras privações, porque aprisiona a vontade nos limites de uma dura disciplina, porque obriga todo o ser a um doloroso retorno sobre si mesmo. Instintivamente, a natureza se revolta diante da imolação certa de seu bem-estar. Aquilo que há de sensual e independente em nós protesta, pois, contra a violência que imporá a profissão (inteira no claustro, moderada no mundo) dos exercícios da vida contemplativa.
Mas esse motivo, fruto de nossa repugnância ao esforço, não explica suficientemente como almas generosas, capazes dos maiores sacrifícios, sentem tamanha aversão pelo claustro e se relaxam tão facilmente na prática da oração e da penitência. Um elemento novo, em si mesmo muito nobre, mas frequentemente mal interpretado, penetrou a mentalidade moderna e se apoderou da direção das existências mais desinteressadas. Esse elemento novo é que a vida deve ser social, e não apenas individual; que a vida está perdida se não se tornar útil aos outros; que não há pior estigma do que ser um inútil entre os homens. “Desde que eu sirva”, tal parece ser a máxima favorita de todas as almas que se sacodem para emergir das profundezas do sensualismo. A bem dizer, o lema é belo; é profundamente cristão. Nada há que se possa conceber de mais evangélico do que esse desejo apaixonado de não encerrar a própria vida no círculo estreito do individualismo, mas de “viver para os outros”.
Vejamos agora como de um excelente princípio se podem tirar consequências muito lamentáveis. Se a vida deve ser social, então ela não tem o direito de imobilizar-se num claustro. Vida contemplativa, vida perdida para a sociedade. Enquanto há no mundo tanta ignorância a dissipar, tantos vícios a corrigir, tantas misérias a aliviar, tantas tristezas a consolar, por que não reservar para o trabalho do apostolado essas grandes almas que vão enterrar-se vivas nos túmulos dos mosteiros? Enquanto a messe é tão abundante e há tão poucos braços para recolhê-la, por que os melhores operários fogem para longe do campo onde se trabalha? Essas carmelitas, essas visitandinas, essas trapistinas, etc., poderiam ter-se tornado excelentes mães cristãs, ou professoras dedicadas, ou enfermeiras cheias de misericórdia… Que prejuízo para a Igreja que essas generosas existências estejam perdidas para o corpo social! Serão santas para si mesmas; mas terão abdicado de sua tarefa humana e cristã.
Esse mesmo propósito de “servir” leva os homens apostólicos a lamentar as horas que consagram à oração e as forças que despendem na mortificação. Não se deve, dizem eles, recusar-se às almas. Além disso, o trabalho não é uma oração? Não é necessário conservar íntegra, para as obras, uma saúde que seria debilitada pelas privações do jejum? O bom Deus nos vê: sabe que trabalhamos somente para Ele. Se Ele não nos possui na solidão e no silêncio das nossas orações, ao menos Lhe pertencemos na ruidosa atividade de nossas obras. É, portanto, furtar-se a um dever rezar solitariamente, quando as almas têm tanta necessidade de que vivamos entre elas e nos despendamos por elas.
Eis, em resumo, o raciocínio que se faz de um lado e de outro. A vida de um bom cristão deve ter uma dimensão social. Ora, a vida contemplativa, embora proporcione felicidade e perfeição interior ao indivíduo que a professa, não tem nenhum alcance social. Logo, numa época em que não temos nem demasiadas pessoas nobres nem demasiadas horas fecundas que possamos consagrar ao luxo da vida contemplativa, a ação apostólica, a dedicação às obras sociais católicas, deve reservar para si todas as generosidades.
Esse raciocínio, seja ele explícito ou não, rege hoje a tantos destinos que é de grande interesse assinalar o erro que ele contém. É o valor social da vida contemplativa que é posto em dúvida: é, portanto, esse valor que buscaremos colocar em evidência.
II
Se a nossa geração estivesse de fato cheia de fé, não seriam necessários longos discursos para convencê-la do proveito que tira das orações e dos sacrifícios das almas santas encerradas nos claustros. Nossos pais gostavam de solicitar o auxílio de suas piedosas orações; contraíam com elas piedosos compromissos, para participar do tesouro de seus méritos. Nós mesmos ainda gostamos de estar presentes em suas intenções diante de Deus, porque esperamos que, por sua intercessão, desçam sobre nós as bênçãos do alto. O povo conservou a louvável prática de pedir aos sacerdotes o auxílio de suas orações: a esmola do sacerdote é boa para os pobres, suas palavras de esperança são um auxílio para os aflitos, mas sua oração é desejada por todos os fiéis. Existe, portanto, uma profunda convicção, resto da fé dos séculos passados, de que as orações e os méritos de uns são um benefício para todos, de que as orações e as penitências dos melhores criam tesouros de graças dos quais os necessitados podem haurir abundantemente.
Essa difusão por todo o corpo da Igreja dos bens adquiridos pelos mais fervorosos tornou-se inclusive um dogma de nossa religião. Quando, todos os dias, no Credo, professamos a crença na Comunhão dos Santos, entendemos por isso que todos os fiéis formam uma única e grande família na qual todos os tesouros são postos em comum: a Igreja do Céu, a Igreja do Purgatório e a Igreja da Terra estão unidas pelos vínculos mais estreitos, e tudo quanto se adquire de graças e de méritos em qualquer porção dessa grande sociedade cristã se difunde por todo o corpo e se torna propriedade de cada indivíduo, por mais humilde que seja.
Se, portanto, há, na Igreja militante, almas que se entregam à oração e à penitência, cujo papel seja abrir por suas súplicas os reservatórios das graças divinas, a chuva fecundante do alto não cairá somente sobre elas, mas encharcará e enriquecerá todo o solo humano sobre o qual elas inclinaram a fronte perante Deus.
Mas podemos ir mais além e pedir à fé e à razão que nos esclareçam essa misteriosa comunicação estabelecida entre as almas.
Supondo-se mesmo que a oração e a penitência sirvam apenas para tornar melhores aqueles que rezam e se mortificam, isto é, mesmo sem levar em conta essa influência certa que a oração exerce sobre o coração de Deus, para incliná-lo a compadecer-se dos homens, a vida contemplativa ainda continua sendo uma grande obra social. Será mesmo certo que ela não seja a obra social por excelência? Pois, em última análise, o homem age mais por aquilo que é do que por aquilo que faz. Aquele exerce a ação mais profunda e duradoura, a que tem mais ser. Logo, à medida que um homem aumenta o seu ser, que eleva o seu ser, torna-se socialmente mais atuante. E, de fato, a sociedade ganha mais ao possuir homens de grande valor individual do que ao ser agitada por uma multidão de indivíduos inquietos que se agitam em seu seio. E, como os contemplativos — ao menos aqueles que correspondem plenamente ao programa de sua vocação — são os que mais aumentam e elevam a perfeição e a riqueza de sua vida individual, serão eles, pois, os elementos que mais contribuirão para o progresso do corpo social. Não seria esse o sentido profundo que devemos atribuir à palavra pronunciada por Jesus quando disse a Marta, que se agitava, mostrando-lhe sua irmã Maria, que escutava e rezava: “Maria escolheu a melhor parte”?
Essa influência garantida dos melhores sobre o restante do corpo social nos é explicada por analogias impressionantes extraídas do Evangelho e do apóstolo São Paulo.
“Eu sou a videira, e vós sois os ramos”, diz Jesus em São João (XV,5); “assim como o ramo não dá fruto se não permanecer unido à videira, assim também ocorrerá convosco, se não permanecerdes em mim” (XV,4). Aquilo que os ramos de uma mesma videira são entre si, os cristãos o são entre si: estão enxertados no mesmo tronco, vivem da mesma seiva, influenciam-se uns aos outros, de tal modo que a vida de cada um repercute sobre todos.
São Paulo (I Cor., XII) torna ainda mais impressionante essa íntima união dos cristãos em Jesus Cristo. A Igreja, diz ele, é um organismo vivo, o Corpo Místico de Cristo. Jesus é a sua cabeça, os fiéis são os seus membros, e o Espírito de Deus é a alma que o anima. Os membros não estão todos na mesma dignidade, mas todos participam da mesma vida e todos estão unidos pela mais estreita solidariedade. “Não haja entre eles divisão; sejam cheios de solicitude uns pelos outros. Se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele. Se um membro é honrado, todos os membros tomam parte na sua alegria”. Se um só estiver enfermo, todos os demais padecem com ele; mas, se o grau de vida se eleva em um só, os outros dele se beneficiam. Não há no organismo célula tão modesta e tão escondida que não repercuta nela o estado de todo o corpo, que não sinta o contragolpe de tudo quanto se passa em outra parte; e, do mesmo modo, a febre que queima o menor dos glóbulos animados rapidamente consegue inflamar todas as partes do corpo.
Não se pode, portanto, conceber nada de mais estreito do que a união dos cristãos em Cristo. É muito pouco dizer que suas orações e seus méritos formam uma atmosfera de graças divinas que todos respiram com proveito. A sua própria vida é comum: eles são uma mesma carne, um mesmo pensamento, um mesmo amor, uma mesma vontade, de sorte que a prostração de um se faz sentir em todos, assim como a prosperidade de um se torna a riqueza de todos.
Essa comunhão das almas, aliás, deita raízes na própria natureza. Também aqui a graça não fez senão elevar ao sobrenatural um dom da natureza. A própria natureza criou os homens solidários uns com os outros. Fez a todos da mesma carne, plasmados segundo o mesmo modelo, harmonizados para vibrar diante das mesmas impressões e para emitir o mesmo som sob o influxo das mesmas influências. Eles parecem isolados; vede, ao contrário, como estão fundidos em um só. Num mesmo país, numa mesma época, todos vivem das mesmas idéias, experimentam as mesmas paixões, sofrem as mesmas fraquezas, são arrastados pelos mesmos entusiasmos. Que um sentimento poderoso germine e se desenvolva em um só indivíduo, e logo ele se comunicará a todo o grupo; do grupo passará a toda a nação; de uma nação, se for profundamente humano, irá abalar e conquistar todos os povos.
Quando se evoca o velho provérbio: “Dize-me com quem andas, e te direi quem és”, diz-se algo mais verdadeiro do que talvez se imagine; pois, se os exemplos que são visíveis aos olhos têm tanto poder, é porque, por canais imperceptíveis aos olhares, os estados que constituem a vida de um invadem a do outro e, como nos vasos comunicantes, o lado cujo nível é mais elevado impõe ao outro lado o excesso de sua pressão. Há aí, no domínio do inconsciente, um vasto campo ainda inexplorado, do qual sairá um dia a explicação das misteriosas e terríveis influências dos indivíduos sobre as multidões e das multidões sobre os indivíduos. Retenhamos apenas, do que foi dito acima, este fato indiscutível: os homens foram criados solidários, e o ser de cada um exerce sua ação sobre o ser de todos.
Qual será, então, o homem que exercerá sobre seus semelhantes a influência mais profunda? Não será aquele que, agitando-se, mais os sacudirá por fora, mas será aquele cujos estados psicológicos, sentimentos, idéias, paixões, resoluções etc. atingirem o mais alto grau de potência, e determinarem, por seu secreto mas infalível raio de ação, estados semelhantes em todos aqueles que, ao seu redor, não tiverem o mesmo poder de sentir, querer e pensar.
Poder temível nas mãos dos maus, mas quão salutar nas mãos dos bons!
Quando num meio social qualquer são os maus que vivem com a maior intensidade, que têm os pensamentos mais precisos, as paixões mais ardentes e as vontades mais decididas, eles conquistam rapidamente o seu grupo; não somente o subordinam pela violência, mas o contaminam pela comunicação de seu modo de ser. São membros gangrenados que envenenam todo o corpo. O ar que exalam está carregado de miasmas perniciosos, prontos a fermentar nos peitos que o respiram. Para contrabalançar sua ação funesta, não há outro meio eficaz senão um aumento da intensidade vital nos bons.
Pois a vida dos bons possui o mesmo poder de difusão. É completamente errado pretender que o mal se espalha com mais facilidade do que o bem. Toda vida se derrama na proporção do que ela é: nas lutas cotidianas, a vitória pertence àquela que alcança o mais alto grau. Se, portanto, os bons são frequentemente vencidos, é porque sua vida é demasiado fraca, demasiado lânguida: têm do bem o rótulo, sem dele haver adquirido a força. Cabe-lhes viver poderosamente aquilo que professam: que amem apaixonadamente sua causa; que seus princípios penetrem toda a sua existência; que não sofram contradição entre as suas idéias e a sua conduta; que cheguem a conceber propósitos precisos e que ponham mãos à obra, sem recuar, às resoluções uma vez tomadas; em uma palavra, que o bem viva neles intensamente. E não há dúvida de que a eles pertencerá o domínio do mundo, pois sempre a atividade mais elevada submete a si as atividades mais fracas.
Segundo esses princípios, que são verdades muito elementares, é claro que os melhores campeões da causa católica não são aqueles que lançam as palavras mais eloquentes nas reuniões públicas ou nas páginas dos jornais, sem se preocuparem com o valor efetivo de sua vida pessoal, mas aqueles que elevaram bem alto o valor de seu ser, que têm convicções firmes, que pregam sua fé pela integridade de seus costumes, que não recuam diante do sacrifício nem de seus prazeres nem de suas comodidades, que trabalham com zelo apostólico para tornar bons cristãos todos os homens de seu convívio. É um fato da experiência cotidiana que uma missão, na qual se procura apenas tornar moralmente melhores as pessoas que se evangelizam, conquista mais infalivelmente uma comunidade para a causa católica do que conferências políticas que, embora recorrendo a maior aparato de eloquência, não atingem tanto as almas em seu íntimo. Os missionários diocesanos poderiam, a esse respeito, fornecer-nos as observações mais interessantes. Concluamos, pois, que a nossa verdadeira força estará na poderosa vitalidade dos bons, e que a melhor tática a seguir, nas lutas atuais, é provocar nos bons um aumento de vida integral — intelectual, moral, cristã e social.
Se, portanto, são os melhores homens que, em última análise, possuem o maior valor social, quem não vê, a partir daí, qual será o valor inestimável daqueles que se entregam à vida contemplativa? Não amaldiçoeis mais os claustros, sob o pretexto de que aprisionam e roubam à sociedade almas cuja atividade exterior teria sido tão fecunda. Não são pessoas perdidas. Não vedes como trabalham para se tornarem bons, como se desapegam de tudo o que corrompe, como se purificam de toda mistura nociva, como tomam posse de todo o seu ser, como desenvolvem sua coragem nos combates contra si mesmos, como se unem a Deus na oração e quanto progridem nesse trato cotidiano? Em verdade, são pessoas de elite. Entre todas as criaturas humanas, são as melhores. Por mais que fujam, permanecem unidas a nós; parecem santificar-se somente para si mesmas, mas, na realidade, aperfeiçoam-se para todos nós. Enquanto certos membros alcançam uma vitalidade tão poderosa, todo o corpo social disso o sente. Se ainda resistimos a tantos germes de corrupção que nos invadem de todas as partes, é porque ainda nos restam órgãos intactos, muito vivos, nos quais nosso sangue empobrecido recupera forças para a luta. Quando os braços do trabalhador sustentam durante todo o dia uma tarefa árdua, é porque, nas profundezas do peito, há um coração vigoroso que bate no ritmo da saúde. Do mesmo modo, se a causa católica permanece suficientemente vigorosa para resistir a inimigos muito poderosos e empreender, em todos os pontos do mundo, obras de apostolado audaciosas, é porque há, em seu seio, legiões de almas que rezam, que se mortificam, cuja vida santa, mantida em um nível muito elevado, distribui força e graça a todos os operários do Evangelho.
III
Dessas idéias sobre o valor social da vida contemplativa, isto é, da vida de oração e de imolação, tiremos agora algumas conclusões práticas.
Eis algumas almas que sentem vivamente o atrativo do claustro, que a graça inclina visivelmente para a solidão, a oração e o sacrifício, e cujo temperamento físico e moral, ademais, não as torna inaptas para uma vida de reclusão: não as desviemos desse caminho sob o pretexto de que ali essas preciosas existências estariam perdidas para a sociedade, sob o pretexto de que, no campo do apostolado católico, suas mãos ativas são necessárias para colher a messe das almas. Ao contrário, estejamos convictos de que, vivendo santamente na sombra dos mosteiros, elas purificarão e vivificarão a Igreja pela influência oculta de suas orações e de suas virtudes.
Se, nos claustros, viéssemos a encontrar almas atormentadas pela tentação de que levam uma existência inútil, almas que duvidam de sua vocação porque não tomam parte direta nas obras apostólicas, saibamos acalmar seus escrúpulos e digamos-lhes: “Não lamenteis nada do que abandonastes e imolai-vos no silêncio, sem qualquer reserva ou segunda intenção; pois o vosso apostolado, por escapar aos olhares humanos, nem por isso é menos real ou menos fecundo. É por vós que todos nós vivemos na Igreja. Semelhantes àquelas raízes que penetram profundamente na obscuridade do solo, vós hauris de Deus a seiva que alimenta toda a árvore; esses frutos que amadurecem em nossos ramos e que fazem a glória da Igreja são obra vossa, pois só puderam crescer graças à riqueza de seiva que lhes prodigalizastes. Diz-se de vós que sois os pára-raios que nos protegem. É muito verdade que, sem vós, pereceríamos. Mas seria mais justo dizer que vós nos salvais, porque, por vós, comungamos da vida de Deus; ao passo que, sem vós, se vossas orações se calassem, se vossas imolações chegassem ao fim, nós nos ressecaríamos e pereceríamos, semelhantes àquelas videiras que morrem porque suas raízes, atingidas por um inseto nocivo, deixaram de ser ativas e já não as alimentam. Tendes, portanto, o direito de tomar para vós a palavra que Jesus dizia ao falar de seus discípulos: ‘Eu me santifico por eles’. Longe, portanto, de ser inútil a vossa vida, é, ao contrário, da sua fecundidade que vivemos e é dela que, em nossos empreendimentos, alcançamos nossos êxitos”.
Que consolação este pensamento não traz a tantas pessoas a quem as circunstâncias afastam de um apostolado eficaz! Se é possível agir eficazmente sobre as almas pelo simples fato de trabalharmos para nos tornarmos melhores, que encorajamento para todos aqueles que se lamentam por estarem reduzidos à impotência! Estais doentes, vossas enfermidades vos condenam a uma inação que vos pesa: não vos aflijais; ainda sereis úteis e exercereis uma verdadeira ação social, se rezardes com fervor, se sofrerdes com paciência, se mortificardes vosso mau humor com constância. Sois sacerdote e estais encarregado de uma paróquia onde reina a indiferença; vossa igreja está deserta, vossos paroquianos não vos pedem nenhum auxílio religioso, e são até mesmo adversários da causa que representais entre eles: tende coragem, pois ainda tendes um meio seguro de alcançá-los; sede, no meio deles, um sacerdote perfeito; consagrai a longas orações o tempo que eles não vos tomam; mortificai-vos e sofrei por eles; permanecei todo o dia junto deles, para que o foco da graça divina que sois os envolva e penetre continuamente com o resplendor de suas influências; se perseverardes na oração e no sacrifício, não tereis sido bons sem resultado; crede apenas, enquanto aguardais para ver seus frutos, na infalível ação de vosso fervor sacerdotal.
Enfim, que esse mesmo espírito presida às obras que dirigimos. Em nossas paróquias, em nossos internatos, em nossos patronatos etc., tenhamos a peito formar cristãos que rezem e saibam fazer sacrifícios, primeiramente porque somente sob essa condição teremos verdadeiros cristãos; depois, porque somente estes possuem o dom de exercer ao seu redor uma influência fecunda que sirva realmente à causa católica. É ser cristão apenas de nome, é estar desprovido de aptidão para qualquer ação social católica, não ter dado, em sua existência, um lugar àquilo que constitui a substância da vida contemplativa.
É possível que essas reflexões, embora recordem verdades muito antigas, não sejam hoje desprovidas de valor.
