PADRE RIOULT: “DOM LEFEBVRE OPTOU POR UM SEDEVACANTISMO PRÁTICO”
Padre Olivier Rioult (1971–)
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: Entrevista concedida a Pelagius Asturiensis em Paris, 6 de outubro de 2013, na qual se aborda a expulsão do Padre Olivier Rioult da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX). Nela, o sacerdote critica duramente a liderança de Dom Bernard Fellay (1958–) por suas aproximações com Roma e pela perda do zelo combativo no seio da Fraternidade. Rioult defende uma resistência descentralizada contra o modernismo, baseada na união pragmática entre sacerdotes antimodernistas.
Nota d’O Recolhedor: Embora não partilhemos da posição “opinionista” então esposada pelo Padre Rioult, contra a qual Dom Donald Sanborn dirigiu a melhor resposta já escrita, julgamos que a presente entrevista guarda considerável valor histórico, sobretudo por documentar as posições, as divergências e o contexto das discussões no interior do movimento tradicionalista naquele período.
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Naquele dia, aproveitei a presença simultânea minha e do Padre Rioult em Paris para fazer uma entrevista com esse corajoso sacerdote da resistência à Igreja conciliar. A entrevista durou apenas 20 minutos.
Pélage: Caro reverendo, gostaria primeiramente de agradecer-lhe pelo tempo que me concede. Há algum tempo, os textos-chave das relações ocultas entre a direção da FSSPX e a Roma modernista — penso aqui em particular na Declaração conciliar (chamo-a de “conciliar”) de Monsenhor Bernard Fellay e na troca de correspondência entre ele e Bento XVI — estão acessíveis ao público graças ao site La Sapinière. Alguns textos foram traduzidos praticamente para todas as línguas mais conhecidas. Eles deveriam ter causado um grande escândalo entre todos os sacerdotes e fiéis ligados à obra de Monsenhor Marcel Lefebvre, que é a Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Estranhamente, não foi esse o caso. Qual é a razão disso, em sua opinião? Por que tanta tibieza diante de um compromisso claro em matéria de doutrina e de erros de ordem prudencial, sobretudo porque isso não diz respeito apenas a alguns iniciados e confidentes de Mons. Fellay e de seu círculo?
Padre Rioult: Por quê? A meu ver, porque há dez anos se peca por liberalismo, por omissão. Quero dizer que se peca, de modo geral, em nossa pregação. Há, naturalmente, muitos confrades que são felizes exceções, mas, de modo geral, os superiores deram um tom que representa um enfraquecimento da pregação e do combate contra a imodéstia, o erro e o liberalismo. Depois, temos o pecado original, como todo mundo. Nós nos aburguesamos. Como todo mundo, gostamos de nosso conforto, de nossa vida tranquila e rotineira. Esses aspectos psicológicos são importantes. Além disso, muitos confrades, por temperamento ou por causa de uma carga de trabalho esmagadora, negligenciaram as leituras e o estudo, e suas convicções, portanto, se esvaneceram. Um superior de distrito que conheci no seminário me disse que já não lia um único livro havia anos. Na realidade, eles se tornaram gestores e fazem comunicação. Tudo isso, somado ao pecado original, faz com que o liberalismo retorne muito rapidamente. Assim que deixamos de remar contra a corrente, recuamos, e recuamos em nossa pregação e em nossas convicções. E depois há a traição e as ambiguidades de Mons. Fellay, que puderam enganar as pessoas durante anos, exceto aqueles que eram muito perspicazes ou muito meticulosos. Estes últimos eram uma minoria que absolutamente não conseguia convencer os demais. Foi somente em 2012 que Mons. Fellay tirou a máscara de forma muito clara, com seu editorial de março no Boletim interno e com a carta aos três bispos. Desde então, a máscara foi recolocada, mas está mal posta e, de qualquer modo, ele já foi desmascarado. Eis, portanto, de modo muito simples como chegamos até aqui. Nós adormecemos, salvo uma minoria. Há também outro grande fator psicológico que explica hoje a pouca reação. Quando todos os seus pontos de referência desmoronam e quando o seu universo desmorona, psicologicamente isso é insuportável; então recusamos uma realidade que é dura demais para suportar. Preferimos, portanto, não ver a realidade e viver de ilusões. Muitos veem muito bem que isso é um drama e que seria necessário fazer escolhas crucificantes. É necessária uma energia psicológica que, humanamente, não temos.
Pélage: O senhor faz bem em notar isso, justamente porque aqueles que deixaram por si mesmos a Igreja conciliar já deram esse passo e, para eles, é mais fácil fazer as escolhas.
Padre Rioult: Sim, mas não é a mesma geração que se vê confrontada com essa escolha. Desde então, o pequeno mundinho da Tradição viveu tranquilamente, e lançar-se no desconhecido dá medo.
Pélage: No dia 28 de agosto, o senhor recebeu a notificação assinada em 28 de maio por Mons. Fellay, comunicando-lhe a expulsão da Fraternidade. Parece que a autopurificação da Fraternidade São Pio X continua. Qual foi a razão de sua expulsão apresentada no documento?
Padre Rioult: Recebi duas monições canônicas, que se estenderam por um mês e meio. O decreto de expulsão, de fato, só o recebi em 28 de agosto, mas estava assinado em 28 de maio. Reprovavam-me por não ter comparecido à minha nova “nomeação”, que, na realidade, era uma prisão domiciliar e uma colocação em quarentena na Suíça. Recusei-a por causa do processo iníquo que queriam mover contra mim e dos meios fraudulentos empregados contra mim. Os processos dos padres Pinaud e Salenave, aliás, não passaram de paródias de justiça. Eles jogam unicamente com as formas externas do direito canônico e da obediência para excluir ou condenar. Ora, o problema de fundo é que Mons. Fellay foi o primeiro sedicioso e desobediente, ao jogar no lixo os princípios do Capítulo de 2006, que diziam: “não haja acordos com os modernistas e os hereges enquanto não houver conversão”.
Pélage: Enquanto alguns sacerdotes deixam a FSSPX ou são expulsos dela, outros fazem desde dentro aquilo que lhes parece prudente. As dissensões continuam presentes no seio da Fraternidade — a carta aos católicos perplexos do Padre Moulin, de dois ou três dias atrás, é uma prova disso. Elas separam aqueles que, em princípio, não são contrários a uma reconciliação com a Roma modernista daqueles que são incondicionalmente contrários a ela. Como se explica que haja tantos membros na Fraternidade fundada por Mons. Lefebvre que desejem reconciliar-se ou que não vejam nisso nenhum obstáculo? Isso nos leva de volta a…
Padre Rioult: Sim, voltamos à primeira questão: a falta de convicções, o cansaço da luta. Há duas Fraternidades, isso é muito claro. Sempre houve duas tendências. Seguimos as mesmas leis sociológicas que regem nossa sociedade e que corroeram a Igreja. É claro que sempre houve liberais e tendências modernistas na Igreja, tendências pecaminosas; mas, enquanto os chefes e enquanto Roma mantinham a liderança, esses homens eram combatidos e essas tendências eram neutralizadas. Mas, assim que João XXIII e Paulo VI favoreceram os liberais, então foi uma verdadeira avalanche. E agora que nossos superiores se tornaram uma cabeça liberal, toda a má influência dos confrades fracos ou liberais da Fraternidade vai piorar e ganhar uma dimensão que jamais teria alcançado se houvesse verdadeiros e bons chefes.
Pélage: Várias vozes se levantaram a propósito da organização da “Resistência” à nova orientação da direção da Fraternidade. Parece a muitos que o modelo de uma grande organização está ultrapassado, que a falsa obediência que conduziu a Igreja oficial ao desastre produziu os mesmos resultados na Fraternidade São Pio X. O senhor pensa que seria possível estabelecer uma nova organização mundial ou prefere antes uma associação livre, como entre os sedevacantistas, como eles fazem há anos?
Padre Rioult: Sim, é possível que nos próximos meses eu possa criar uma associação em sentido amplo, fundada numa amizade com os outros resistentes católicos, sejam eles favoráveis à opinião sedevacantista ou não, porque isso continua sendo para mim uma opinião. Mas as coisas ainda não estão maduras. Em todo caso, tudo o que é católico é nosso. Portanto, todos os católicos que estejam dispostos a realizar um trabalho católico e a resistir ao modernismo que reina na Igreja, bem, nós colaboraremos com eles. Portanto, sim a uma associação em sentido amplo que compartilhe um mesmo bem comum: a fé e o culto da Igreja Católica, a defesa da fé. É esse bem comum que pode criar uma amizade entre todos os nossos grupos. Creio que, quanto mais avançarmos para o fim dos tempos, mais o católico será, de fato, um anarquista — não de direito, mas de fato. Isto é, ele terá de ser contrário a todos os poderes constituídos, porque todos os poderes constituídos terão sido neutralizados, minados ou subvertidos e serão contrários à natureza. Portanto, de fato, o católico terá de combater todas as autoridades, sejam elas civis, eclesiásticas etc., porque serão todas desviadas, maçônicas…, em todo caso, estarão a serviço do Príncipe deste mundo. Penso, portanto, que será muito difícil recriar estruturas mundiais. O Padre Roger-Thomas Calmel, muito perspicaz, já dizia muito bem, em 1970, que os chefes naturais locais deveriam irradiar sua influência onde quer que estivessem, mantendo com os outros chefes locais, em outros lugares, vínculos puramente de amizade.
Pélage: O senhor o citou na série de dez artigos que escreveu sobre o amor ao próximo e o ódio ao erro?
Padre Rioult: Não, eu o havia citado sobretudo em um artigo que apareceu no site Antimodernisme, em uma falsa entrevista da DICI. Eu havia imaginado uma falsa entrevista da DICI na qual o Padre Calmel refutava, já em 1970, todas as tolices de Mons. Fellay em 2012. E foi ali que citei a frase.
O “combate cristão” deve ser “travado por pequenas unidades que se recusam a entrar em não sei quais organizações sistemáticas e universais. Nessas diversas unidades, tais como uma modesta escola, um humilde convento, uma confraria de piedade, um pequeno agrupamento entre famílias cristãs, uma organização de peregrinação, a autoridade é real e indiscutida… Trata-se simplesmente de levar até o fim a sua graça e a sua autoridade na pequena esfera da qual certamente se tem o encargo, mantendo-se ligado [aos demais], sem grandes máquinas administrativas.”— Padre Calmel, Itinéraires, n.º 149.
Pélage: Pelas palavras e pelos escritos de Mons. Lefebvre, é claro que ele próprio muitas vezes hesitou quanto à questão do Papa. Ele admitia perfeitamente a possibilidade de a Santa Sé estar vacante, sobretudo antes da eleição de João Paulo II e depois da abominação de Assis, em 1986. Parece-me claro que muitos dos que hoje se dizem seus seguidores vão muito mais longe que o próprio Dom Lefebvre. Eles afirmam categoricamente, apesar da heresia pública daqueles que ocupam o Vaticano, que “o papa continua sendo papa”. E Dom Lefebvre parece ter mantido suas dúvidas. Não seria isso o resultado de tantos anos de reconhecimento ao menos oficial da autoridade deles?
Padre Rioult: É perfeitamente possível. Perfeitamente! Penso que Monsenhor Lefebvre estava no campo de batalha diante de uma situação inaudita, como um Luís XVI diante da Revolução. Portanto, eles cometeram erros, buscaram seu caminho, acreditaram que…, experimentaram isto e depois aquilo.
Pélage: Justamente, parece-me que a posição de Dom Lefebvre era temporária.
Padre Rioult: Era pragmática, evidentemente, e, portanto, temporária. Depois, em 1988, ele compreendeu que suas experiências — a de ser reconhecido por uma Roma modernista — haviam sido infelizes, perigosas e até mesmo más, podemos dizê-lo. E então ele se “endureceu”, entre aspas, isto é, tornou-se mais claro na resistência. Mas justamente isso é o que se quer ocultar hoje. Pois todas as conclusões e o balanço de Monsenhor Lefebvre entre 1988 e 1991 mostram que ele optou por um sedevacantismo prático. Ele não resolve o problema teórico porque, em primeiro lugar, ele não teria autoridade para impô-lo; em segundo lugar, porque a questão das essências em filosofia é sempre muito difícil; e, em teologia, perceber um problema e suas consequências é muito mais fácil do que dizer exatamente o porquê do problema, sobretudo quando o problema é um mistério de iniquidade. Pois, na verdade, penso que estamos verdadeiramente diante do mistério de iniquidade revelado por São Paulo, quando diz que, quando ceder o obstáculo que retém o Anticristo, então nada mais deterá o Anticristo:
“Que ninguém vos engane de modo algum; pois antes virá a apostasia, e se manifestará o homem do pecado, o filho da perdição, o adversário que se eleva contra tudo o que se chama Deus ou recebe um culto, até sentar-se no santuário de Deus e apresentar-se como se fosse Deus. Não vos lembrais de que eu vos dizia estas coisas quando ainda estava entre vós? E agora sabeis o que o detém, para que ele se manifeste no seu tempo. Pois o mistério de iniquidade já opera, mas somente até que aquele que ainda o detém seja manifestado publicamente.” — II Tessalonicenses 2,3–7.
E Santo Tomás tem uma frase extraordinária em seu comentário à Segunda Epístola aos Tessalonicenses. A propósito desse obstáculo “que detém” o Anticristo, mas que cederá, ele fala da apostasia da fé católica na Igreja Romana. Santo Tomás diz que “dois acontecimentos devem ocorrer na vinda de Cristo: um precederá a vinda do Anticristo; o outro será a própria vinda do Anticristo”. “O acontecimento que precederá é a apostasia da fé”. “Quando chegar o tempo, muitos se separarão da fé, e a caridade de muitos esfriará”. Mas, na época de São Paulo, algo detinha “o mistério de iniquidade”, embora ele “já opere nos hipócritas, que parecem bons e, contudo, são maus”. “Terão aparência de piedade, mas destruirão a sua verdade e o seu Espírito” (II Timóteo 3,5). “A assembléia dos maus, ainda misturada aos bons”, só será separada e posta à parte “durante a perseguição do Anticristo”.
Qual é a causa desse retardamento da vinda do Anticristo? O que detém o mistério de iniquidade? O que impede que essa iniquidade seja publicamente manifestada? “Pois muitos ainda cometerão o mal em segredo, mas sua iniquidade será um dia manifestada, porque Deus suporta os pecadores enquanto seu crime está oculto, até que esse crime se torne público. Então já não os suportará, como se vê pelo exemplo dos sodomitas (Gn19)”.
O que detém e retinha o Anticristo era a firmeza do Império Romano entendida em sentido espiritual. Enquanto a Igreja Romana se mantivesse firme, o Anticristo estava detido.
“Em seguida, pode-se entender essa separação do Império Romano, ao qual então estava submetido o universo inteiro. Santo Agostinho diz que essa separação é figurada no capítulo II do profeta Daniel, 31–35, pela estátua que representa os quatro reinos; e, terminados esses quatro reinos, virá o advento de Cristo. Essa figura estava repleta de verdade, porque o Império Romano foi estabelecido para que, à sombra de sua autoridade, a fé fosse pregada em todo o universo. Mas como isso poderia ser verdade, quando há muito tempo as nações já se separaram do Império Romano, sem que, contudo, o Anticristo tenha vindo? É preciso dizer que o Império Romano ainda não cessou, mas que, de reino temporal que era, transformou-se em reino espiritual, como São Leão observou em seu sermão sobre os Apóstolos. Digamos, portanto, que a separação do Império Romano deve ser entendida não somente em sentido temporal, mas em sentido espiritual, isto é, como a apostasia da fé católica na Igreja Romana. E o sinal dado é perfeitamente adequado, pois, assim como Cristo veio no tempo em que o Império Romano dominava sobre todos os povos, assim também, em sentido contrário, o sinal da vinda do Anticristo será a separação dos povos do Império Romano.” — Santo Tomás de Aquino, a propósito do versículo 3 do capítulo 2 da Segunda Epístola aos Tessalonicenses.
É uma frase enorme. Enorme. Santo Tomás diz isso! E essa frase suscita uma série de problemas teológicos concretos. Portanto, creio que se deva manter essa liberdade intelectual e de opinião nas explicações do mistério de iniquidade, mas ser muito firme nas consequências práticas. Nullam partem, nenhuma parte com os hereges, nenhuma concessão aos modernistas notórios, públicos, que são os modernistas e anticristos na Sé de Pedro. Mas essa firmeza, evidentemente, essa dificuldade, bem, ela não foi assumida por certos responsáveis da Fraternidade São Pio X, que deformaram o agir prudencial de Monsenhor Lefebvre. Ademais, talvez tivesse sido prudente, nas décadas de 1960, 70 e 80, seguir a linha de Mons. Lefebvre, que ele próprio dizia claramente não ser uma linha teológica, mas unicamente de ordem prudencial, ad tempus, por um tempo. Agora, após quarenta anos de tradição conciliar e modernista, talvez seja necessário rever esse aspecto puramente prudencial que hoje certamente é ainda mais perigoso do que naquela época.
Pélage: E justamente alguns dirão que o problema fundamental já se encontra nos próprios princípios, no reconhecimento das autoridades conciliares como autoridades católicas, numa resistência àqueles que se reconhecem como autoridade legítima. Se a bula Unam sanctam, de Bonifácio VIII, proclama solenemente que “a submissão ao Romano Pontífice é, para toda criatura humana, absolutamente necessária para a salvação”, muitos dirão que a posição da Fraternidade não é sustentável e que é necessário ou submeter-se às autoridades conciliares, ou tirar a conclusão inevitável de que essas mesmas autoridades renunciaram tacitamente à autoridade católica em razão de sua heresia e/ou apostasia. Essa escolha é inevitável para o senhor? É preciso declarar isso, sem por isso obrigar os fiéis? Se Monsenhor Fellay declarasse que o papa não é papa, mesmo sem ter o direito de impor isso, ao menos veríamos que ele não quer ter nada a ver com ele?
Padre Rioult: Penso que ele deve ao menos declarar que não quer ter nada a ver com Francisco e que não se pode afirmar com certeza que ele seja um verdadeiro papa. Penso que a Fraternidade não é obrigada a declarar que ele não é papa, mas penso que a posição da Fraternidade só é aceitável se ela aceitar publicamente a possibilidade de que Francisco possa não ser papa. Se eles não aceitarem nem sequer essa hipótese, então não há nenhuma justificativa possível para aquilo que a Fraternidade São Pio X faz. Eles devem admitir, dada a situação inaudita, que as duas hipóteses são perfeitamente sustentáveis e católicas.
Pélage: Católicas, exato. Houve muitos teólogos que falaram de uma renúncia tácita…
Padre Rioult: Sim, infelizmente a Fraternidade São Pio X impôs teologicamente a sua opinião. E é preciso lembrar que o próprio Monsenhor Lefebvre admitia que, um dia, a Igreja talvez se pronunciasse em favor da opinião sedevacantista porque, dizia ele, ela tem sérios argumentos a seu favor.
“Alguns teólogos o afirmam, apoiando-se nas afirmações de teólogos de épocas passadas, aprovados pela Igreja, e que estudaram o problema do Papa herege, cismático ou que abandona praticamente seu cargo de Pastor supremo. Não é impossível que essa hipótese seja um dia confirmada pela Igreja. Pois ela tem a seu favor argumentos sérios. Com efeito, numerosos são os atos de Paulo VI que, se tivessem sido praticados há vinte anos por um bispo ou por um teólogo, teriam sido condenados como suspeitos de heresia, favorecendo a heresia.” — Monsenhor Marcel Lefebvre, Cospec, 24 de fevereiro de 1977.
Portanto, os superiores da Fraternidade São Pio X deveriam dizer publicamente o seguinte: que, para eles, por tais razões, que são mais ou menos boas, preferem considerar que ele ainda é papa, mas um papa mau; porém, deveriam também admitir publicamente que há outra explicação católica possível para esse mistério de iniquidade que vivemos: a de que o ocupante da Sé de Pedro é simplesmente um impostor, um anticristo, e que já não possui a autoridade do papa porque não é papa. O futuro nos dirá; caso contrário, no Céu o saberemos.
Pélage: A Igreja conciliar parece ter dado grandes passos adiante com Francisco, e com a sua velocidade e originalidade; é difícil dizer onde ela estará amanhã. Se Monsenhor Lefebvre a declarou cismática (a Igreja conciliar), mas reconhecia, apesar disso, a autoridade daqueles que estavam à sua frente, não será talvez o momento de declarar seus chefes como desprovidos de toda autoridade católica?
Padre Rioult: Para mim, isso pertence à ordem da opinião. Não sei o que Francisco é realmente. O que sei com certeza é que não estou em comunhão com ele. São fatos públicos que me levam a essa resolução prática do problema: posso concluir, devo concluir desse modo. Mas não tenho competência teológica e, muito menos, autoridade para afirmar com certeza que essa pessoa é isto ou aquilo. Aí está minha fraqueza; sou limitado, não sou um grande teólogo, e pronto! E a história da Igreja e a teologia mostram que a Igreja viveu durante séculos com opiniões teológicas incompatíveis entre si — sobre a graça e sobre outros problemas teológicos — durante séculos, enquanto não havia um juízo definitivo e autorizado da Igreja. A Igreja viveu com opiniões teológicas contraditórias. Pois bem, penso que hoje vivemos o mistério de iniquidade e que é preciso ter essa caridade necessária e até mesmo essa humildade intelectual de aceitar diversas explicações enquanto a Igreja não tiver decidido com autoridade. Aceitemos as opiniões, mesmo que sejam contraditórias, mas que isso não impeça a disputa teológica nem que se mostrem as fraquezas de tal ou qual argumento.
Pelágio: Antigamente, viam-se sedevacantistas declarados ao lado daqueles que reconheciam a autoridade de Paulo VI, todos travando a guerra contra os modernistas. Refiro-me sobretudo às décadas de 1960 e 1970. A separação ocorreu quando Dom Lefebvre publicou sua declaração de 8 de novembro de 1979, na qual afirma que na Fraternidade não há lugar para aqueles que não reconhecem a autoridade dos papas conciliares. As circunstâncias mudaram bastante desde então e, evidentemente, para pior. Não se sabe se Dom Lefebvre teria aderido hoje à chamada posição sedevacantista, como já o fizera Dom Antônio de Castro Mayer, o mais tardar em 1988. Além disso, pudemos ouvir o Padre Grossin[1] e a associação mexicana Trento[2] proporem a colaboração com os sacerdotes da Fraternidade que estão em desacordo com a direção desta e que ainda desejam travar o combate contra a Igreja conciliar. O senhor considera desejável tal colaboração? Possível?
Padre Rioult: Sem dúvida. Penso que seria bom que reencontrássemos essa liberdade de opinião e essa colaboração entre todas as forças católicas. Do mesmo modo que é lamentável que alguns sedevacantistas recusem a comunhão com os una cum que têm a fé e lutam contra os modernistas, é igualmente injusto que os una cum — entre os quais a FSSPX oficial — excomunguem concretamente os sacerdotes non una cum, cuja opinião é eminentemente teológica. O problema é único, e nenhuma teologia tratou verdadeiramente dele. Não se trata de saber se o papa herege continua sendo papa. Estamos diante de um problema de uma envergadura completamente diferente: a apostasia da Igreja romana, predita por São Paulo e ensinada por Santo Tomás! A Igreja, durante a disputa sobre a graça, viveu mantendo em seu seio dois sistemas teológicos contraditórios, dos quais ao menos um era falso. É muito difícil ao espírito humano explicar a essência de uma coisa cujo efeito ele constata. Todos constatam o fenômeno das marés e devem levá-lo em conta para não se afogar, mas pouquíssimos são capazes de explicar suas causas de maneira exata e científica. E aqui não se trata de explicar o fenômeno das marés, nem o mistério da graça e da nossa natureza livre, mas o mistério da iniquidade, que é contrário à natureza! Não nos esqueçamos de que São Vicente Ferrer, um dos maiores santos de seu século, enganou-se a ponto de defender um antipapa (havia um verdadeiro papa e dois falsos papas). O maior santo do século XIV estava em comunhão com um antipapa: é isso a história! E o nosso século não é mais simples que o dele — muito pelo contrário!
Pelágio: União contra o modernismo e os modernistas.
Padre Rioult: Perfeitamente, compartilho disso. Eu não estava lá em 1979, portanto não conheço muito bem o contexto histórico dentro da Fraternidade São Pio X naquele momento. O que me disseram é que alguns dogmatizavam sua opinião sedevacantista de maneira ultrajante, com uma autoridade que não possuíam, o que teria levado Monsenhor Lefebvre a separar-se deles. A posteriori, podemos lamentar essa tomada de posição de Dom Lefebvre; podemos até pensar que, em si mesma, foi um erro. Em 5 de outubro de 1978, durante uma conferência em Écône, Monsenhor Lefebvre confessava: “Isso não significa, contudo, que eu esteja absolutamente certo de ter razão na posição que assumo. Eu a assumo sobretudo de maneira prudencial, que espero ser sobrenatural. É mais nesse âmbito que me situo, mais do que no âmbito puramente teológico e puramente teórico”.
Pelágio: Na ordem da ação, e não na ordem da teoria.
Padre Rioult: Na ação, sim. É evidente que, como lhes disse, posteriormente ele se tornou um sedevacantista prático. Penso que ele jamais teria dado o passo em direção ao sedevacantismo teórico. Mas isso ninguém sabe. Esse problema também revela ou a completa incoerência de Dom Fellay, ou a sua desonestidade, pois ele permitiu em privado que alguns sacerdotes fossem non una cum. Atualmente, há vários sacerdotes na Fraternidade que são non una cum. Portanto, essa liberdade que ele concedeu em privado…
Pelágio: Exatamente, em Paris tínhamos o Padre Schaeffer.
Padre Rioult: Sim, e essa liberdade deveria ser professada publicamente, dizendo-se isso, como ocorria na década de 1970: “Pois bem, trabalhem conosco todos os sacerdotes, seja qual for sua opinião — sedevacantista ou não sedevacantista —, desde que sejam antimodernistas e católicos”. Já que o fazem em privado, deveriam dizê-lo publicamente. Há aí, para mim, uma desonestidade teológica…
Pelágio: No que diz respeito ao seu apostolado, o senhor publicou um excelente livro intitulado L’impossible réconciliation (“A reconciliação impossível”), que reúne os textos dessas relações, e atende fiéis e dá conferências por toda a França, a qual o senhor chama de seu priorado. O senhor tem projetos particulares para o futuro?
Padre Rioult: Sim. Dentro de alguns meses, espero fundar alguma coisa, se as coisas amadurecerem. Temos, com o Padre Jean-Michel Faure, vários projetos de instalação na França; temos três ou quatro lugares possíveis, bem situados, propostas de fiéis, etc. Não posso dizer mais por enquanto. Estamos conscientes de que é preciso começar um apostolado, digamos, clássico, de resistência, e exercer o ministério sacerdotal. Mas, provavelmente, a situação vai se complicar, pois as monstruosidades de Francisco, o romano, farão Dom Fellay parecer um Santo Atanásio. Também devemos permanecer por enquanto um pouco móveis. Penso que ainda há muitas ilusões que vão cair no próximo ano e que exigirão a nossa energia. Portanto, um projeto de associação para uma estrutura amigável de sacerdotes que desejam ser resistentes, e talvez um ou dois lugares para a resistência na França, isso depende de alguns confrades ainda hesitantes. E depois, é necessário continuar pensando em esclarecer as pessoas por meio de argumentos, para que compreendam a profundidade e a gravidade do mal na Fraternidade São Pio X, em razão das trapaças de Dom Fellay e de seus partidários.
Pelágio: Agradeço-lhe pelo seu precioso tempo e asseguro-lhe nossas orações.
[1] Fonte: https://web.archive.org/web/20140801121718/http://www.catholique-sedevacantiste.com/article-mr-l-abbe-grossin-ecrit-une-lettre-ouverte-aux-abbes-pinaud-salnave-et-rioux-convoques-au-tribuna-116005242.html
[2] Fonte: http://www.einsicht-aktuell.de/index.php?svar=10&static_page=adressen
